Doces para Mia

1 Doces para Mia


Doces para Mia

O alarme da escola soava avisando a todos a tão aguardada hora do recreio. Os alunos arrumavam suas coisas para sair da sala, cadeiras arrastando e estojos se fechando, se organizavam com seus amigos para decidir o que fariam naquele intervalo entre as aulas.

Flávia chegava no pátio e se sentava na grande janela que dava para a biblioteca, sempre fechada mas com espaço no parapeito para ficar ali. Bruna e Vanessa se juntavam a ela e faziam o de sempre, apenas sentar ali e comer seus lanches enquanto conversavam.

Ainda na sala, Miguel se juntava com seus colegas e várias bolinhas de papel. Sentia que fazia algo errado, mas preferia não se importar. Desciam as escadas correndo, como sempre, surgiam no pátio e se viravam para a janela arremessando as bolinhas nas meninas.

Elas gritavam respondendo a implicância, e os meninos corriam para dar a volta na escola. Vanessa corria atrás deles, a garota sempre energética gostava de correr.

Chegavam no corredor e do outro lado surgia a outra menina com os braços esticados fechando o caminho. Bruna era normalmente quieta, mas era forte e fazia aulas de luta, os garotos não queriam lidar com ela, então empurravam Miguel na direção dela e se separavam pelo corredor, rindo.

— Pode parar! — Bruna dizia enquanto o menino se virava para voltar na outra saída, apenas para ver Vanessa também correndo em sua direção. Estava cercado. — Você tá preso! — Ela brincava segurando um braço do menino enquanto Vanessa segurava o outro. Ele não conseguia se soltar.

As meninas irritadas o arrastavam para o pátio novamente, colocando Miguel de frente para Flávia. Ele olhava a garota ruiva por alguns momentos antes de voltar a se debater, mas dessa vez não tinha certeza se queria fugir, apenas precisava fingir que sim.

— A gente pegou ele, Flávia! — Ria Vanessa. — E agora?

— Me solta! — Ele gritava. Achava divertido quando as meninas brincavam com ele, mas sabia que elas só estavam irritadas pelas bolinhas de papel.

— Não, você está de castigo. — Dizia a menina ruiva comendo um chocolate de sua caixa de bombons.

— Você não manda em mim. — Ele virava o rosto vermelho.

— Eu não, mas a Bruna manda em quem ela quiser.

— Mando mesmo. — A menina ria apertando levemente o braço do garoto que reclamava.

— Senta aqui. — Ordenava Flávia tirando a caixa de bombons de seu lado, colocando em seu colo para abrir espaço para Miguel sentar.

O menino relutava, mas era empurrado e acabava sentando do lado dela. Gostava de Flávia, não sabia dizer se pelo penteado legal da menina, pelo jeito como ela pulava corda, seu sorriso ou alguma coisa completamente diferente. Apenas queria poder sentar com ela, mas não podia deixar isso transparecer, então tentava fugir. Para a sorte dele, as garotas não deixariam.

— Me deixa ir embora! — Ele reclamava.

— Não deixo. Você que ficou provocando a gente. Quer bombom? — Ela abria a caixa repleta de chocolates. Miguel hesitava em pegar, estava acostumado com seus colegas fazerem alguma pegadinha com comida apenas por implicância, mas sabia que Flávia não faria isso, ela era legal. Pegava um chocolate e comia.

— Obrigado...

— Viu, a gente é legal. — As meninas riam.

— A gente vai parar de encher o seu saco se você parar de implicar com a gente. — Falava Bruna para o garoto que já sabia daquilo.

Mas Miguel não gostava de irritar as garotas, só gostava de quando elas corriam atrás dele e depois faziam as pazes. Gostava de falar com elas, e achava que poderia ser legal passar o recreio comendo doces e conversando na janela.

— Você gosta de pular corda, né? — Dizia Vanessa animada.

— Eu não! — Miguel mentia tentando se defender.

— Gosta sim, a gente viu! — A menina insistia. — Tava pulando ontem lá atrás da cantina que a gente viu.

— Por que você tava escondido lá? — Flávia perguntava rindo.

— Eu não tava escondido.

— Tava sim!

Miguel não sabia o que dizer. Era verdade, estava pulando corda escondido, mas tinha medo de seus colegas descobrirem e implicarem com ele por isso.

— Se você deixar de ser chato a gente deixa você pular com a gente. — Vanessa comentava animada.

— Isso é coisa de menina! — O garoto reclamava, quase ofendido.

— Que bobagem! — Respondia Flávia irritada. — De onde você tirou isso?

— Todo mundo sabe disso! Pular corda, brincar de boneca, é tudo coisa de menina.

— Não existe isso! — A garota reclamava, frustrada. — Vocês são muito chatos. É por isso que você tava se escondendo?

— Eu não vou falar.

A garota se virava para as amigas, irritada. As outras davam uma risada por ver a expressão da amiga, que se irritava ainda mais, mas logo em seguida relaxava, voltando a pose calma de costume.

— Vamos fazer uma troca de segredos então. — Ela dizia estendendo o dedo mindinho direito para Miguel. — Se você jurar que não vai contar pra ninguém!

— Não confia nele! — Falava Bruna relutante. — Ele é malvado.

— Ele não é malvado, só é chato.

— Eu não sou chato!

— Então jura. — Ela balançava a mão com o dedo estendido no ar. O menino imitava o gesto cruzando o seu dedinho com o dela.

— Tá, eu juro. Mas você fala primeiro.

— Tá bom. — Ela olhava para as amigas e chegava perto do ouvido do menino, tampando a frente do rosto com a mão e sussurando. — Eu sempre durmo quando a professora coloca filme pra gente ver na sala.

— Isso não é segredo. — O garoto reclamava com a informação. As amigas se entreolhavam por um momento tentando adivinhar qual era o segredo. — Eu já tinha visto você... — Ele parava de falar para não revelar a informação para as outras meninas.

— Você fica me olhando dormir? — Flávia Implicava com o menino.

— Não! Credo! — Ele respondia vermelho, mas olhava, achava a menina fofa quando se escondia com o casaco rosa e dormia na aula.

— Sua vez, agora me diz, por que você tava escondido?

— Por que eles iam implicar comigo. — Ele resmungava baixinho. — Não conta pra eles.

— A gente não vai. Mas vocês são muito bobos de implicar por isso. — Ela ria.

— Eu tenho uma ideia melhor. — Cortava Vanessa. — A gente só não conta se você parar de implicar com a gente.

— Ei, isso é chantagem! — Ele reclamava irritado.

— Eu acho justo. — Dizia Bruna cruzando os braços. — E se você não parar a gente vai se vingar.

— Eu não testaria elas se fosse você. — Flávia continuava, sorridente. — Você pode ir agora, se quiser.

O garoto se levantava provocado, não queria ir embora, mas precisava, não podia deixar saberem que gostava de estar ali, o que pensariam dele? Poderiam acabar descobrindo seu segredo. Fingia que queria ir embora, e ia.

— — — — -

No dia seguinte se fazia a rotina, as amigas iam para o local de costume e os meninos desciam as escadas correndo. Miguel os seguia sugerindo outras brincadeiras, mas eles ignoravam e seguiam para fazer o de sempre. Chegavam no pátio e se preparavam para arremessar as bolinhas de papel, mas o menino parava na frente dos colegas.

— Deixa elas, gente. — Dizia o garoto ansioso.

— Por quê? — Respondia Daniel, o colega mais baixinho, em um tom brincalhão. — Tá com medinho delas? — Os garotos riam.

— Não! — Miguel respondia vermelho. Sabia que seria julgado por defender as meninas, seu coração pulsava em uma energia estranha, estava com medo, mas era de certa forma bom, que nem andar de bicicleta sem rodinhas pela primeira vez. — Elas só não fizeram nada de errado.

— Ih, Miguel tá gostando delas é? — Provocava André, o garoto mais alto, jogando uma das bolinhas em Miguel.

— Não tô! Mas elas estão irritadas com a gente!

— E daí?

— Qual delas é, ein? — Cutucava Léo, o garoto loiro. — É a Bruna? Ta gostando de apanhar dela? — Eles riam. Miguel queria esconder a cabeça em um buraco.

— É a Vanessa que fica te xingando? — Os garotos cercavam o menino, empurravam ele de um lado para o outro.

— Ou é a ruivinha? — Eles empurravam Miguel ainda mais forte. Não podiam se misturar com as colegas de turma, eram as regras deles. O garoto se segurava para não chorar, lutando pra ficar de pé. — Vocês tavam fazendo o que ontem ein? — Eles provocavam.

— Me deixa! — Gritava Miguel saindo da rodinha e correndo para a parte de trás da escola.

— Miguel é uma delas agora! — Eles implicavam jogando as bolinhas de papel nele. Os garotos corriam por alguns segundos para continuar importunando Miguel, mas logo paravam e voltavam para o pátio para brincar de alguma outra coisa.

Talvez ele realmente quisesse ser uma das garotas, mas ser atacado pelos colegas ouvindo isso era horrível, sentia que estaria errado não importava o que fizesse. Sentia-se perdido entre dois lados, um do qual não queria participar e um do qual não podia participar, pelo menos era assim em sua mente. Se sentava atrás da cantina, um canto isolado em que normalmente não iam brincar, e abaixava a cabeça escondendo as lágrimas de si mesmo.

— Ei. — Ouvia a voz familiar da menina ruiva.

— Me deixa! — Ele reclamava sem nem levantar a cabeça.

— Você quer jujuba? — Ela insistia.

— Não.

— Foi bem legal você ter enfrentado eles.

— A gente fez uma promessa.

— Fizemos. Ninguém vai contar nada, a gente sabe guardar segredo. — Ela se sentava ao lado do garoto, pegando mais uma jujuba do pacote. Limão. — Não liga pra eles, eles só fazem essas coisas pra aparecer.

— Por que você tá sendo legal comigo? — O garoto levantava a cabeça, irritado, finalmente vendo a menina. Ela estava com o cabelo solto, não era normal vê-la assim. Ele queria ter um cabelo igual ao dela, mas o seu era preto, cacheado, e nunca o deixava crescer o suficiente para ver os cachinhos, afinal, seria estranho um menino de cabelo grande.

— Eu sempre sou legal, você é quem fica implicando. — Ela ria oferecendo as jujubas novamente. O menino recusava. — E por que você fica implicando?

— Porque... É divertido.

— Você gosta de me ver irritada? — Ela questionava em um tom triste.

— Não! É que é legal correr com vocês. — Ele falava um pouco relutante. — Mas não conta isso pra ninguém!

— Eu não vou! Mas se você acha a gente legal, por que você não brinca com a gente ao invés de ficar incomodando?

— Eles vão bater em mim se eu brincar com vocês. — O garoto hesitava, mas era fácil se abrir com Flávia, ela parecia sempre entender e sorrir para as pessoas, e ela também compartilhava seus pensamentos com ele, então Miguel tentava fazer o mesmo.

— Eles são maus. Por que você anda com eles ainda, se não gosta deles?

— Por que eles são meus amigos.

— Não são! — Ela retrucava comendo outra jujuba. Morango. — Eles só fazem arrumar confusão, brigar com você quando você não faz o que eles querem, e eles nem foram te ajudar ontem quando a Bruna te pegou.

— Você teria ajudado?

— Não, você mereceu. — Ela ria dando um leve tapinha no braço do garoto. — Mas eu te daria um doce. — E oferecia as jujubas mais uma vez.

— Obrigado... — Ele finalmente aceitava, secando as lágrimas. Laranja.

— As vermelhas são as minhas preferidas.

Ele mastigava o doce ainda fungando tentando guardar o choro. Talvez tivesse valido a pena impedir as bolinhas de papel, mas não pensava tanto nisso, pensava apenas em como gostaria de passar mais tempo com a menina ruiva.

— Desculpa. — Ele dizia tímido. — Por implicar com você.

— Só aceito suas desculpas se você prometer que vai parar.

— Eu prometo.

— Então tá. — Ela esticava a mão aberta para o menino que a olhava levemente confuso. — Podemos ser amigos então.

— Podemos? — Ele apertava a mão da menina que acenava que sim, sorridente.

— — — — -

A rotina de sempre começava na sala, os alunos guardavam seus materiais e desciam as escadas para o pátio. Miguel deixava seus colegas descerem sozinhos, passara a aula inteira sem falar com eles, sentado distante e sem responder as brincadeiras que faziam. Preferia ficar em seu lugar, abaixava a cabeça e fingia estar dormindo.

— Cadê seu namorado? — Implicava Vanessa com a menina ruiva na janela.

— Ele não é meu namorado!

— Mas bem que você queria! — Ria Bruna. — Vocês estavam juntinhos ontem, tava fazendo o que com ele?

— Nada! — Ela dizia vermelha, o rosto se aproximando da cor do cabelo. — Só fui falar que achei legal ele defender a gente.

— Mas ele é quem tava te perturbando, pra começar.

— Eu sei, mas não foi por maldade. — Ela tentava defender o menino.

Da sala, Miguel pensava no que faria. Não queria mais andar com os colegas de sempre, queria andar com Flávia e suas amigas. Gostava de como elas eram legais, gostava de como se divertiam e de como conversavam. Queria ser igual a Flávia, o jeito como a menina era gentil com todos, seu cabelo grande e colorido, e até o material que a menina usava nas aulas.

Ela subia as escadas de novo, chegava na sala e avistava o menino deitado na mesa. Talvez ele estivesse com sono, ela também gostava de dormir, então deixava um bombom do lado dele e se virava, em silêncio.

— Ei. — Dizia o menino, imitando o tom que a garota costumava fazer.

— Ei. — Ela sorria. — Não quis te acordar.

— Obrigado. — O coração dele acelerava. — Por tudo.

— Tudo?

— É, tudo. Eu queria ser legal como você. — Ele dizia com um leve medo. Não sabia o que queria dizer, nem como a menina iria receber as palavras, apenas queria conversar mais.

— Você é legal. — Ela ficava vermelha novamente, não queria expôr os sentimentos por ele. — É só parar de implicar com as pessoas.

— Não assim... Eu gosto do seu jeito.

— Você... Gosta? — Ela corava ainda mais.

— Eu... Eu queria ser que nem você.

A menina olhava confusa por alguns momentos. Miguel abaixava a cabeça, vermelho, e abafava a própria voz murmurando alguma coisa. Ele também gostava dela? O que ele queria dizer com aquilo?

— Que nem eu? — Ela questionava inclinando o rosto para tentar ver o rapaz que se escondia atrás dos braços.

— Você não vai implicar comigo também, né? — Ele falava com a voz baixa, abafando o choro.

— Eu não faço isso! — Ela sorria, tentando entender a confusão.

— Eu queria ser igual você. — Ele se virava para ela mais uma vez. Olhava ao redor para ter certeza de que estavam sozinhos na sala, e estavam. — Bonita, divertida, inteligente...

— Você é bonito! — Ela deixava escapar na confusão. Miguel se assustava, mas ela continuava. — Você é legal, e também tira umas das melhores notas da turma!

— Você nem fala comigo pra saber…

— Não é verdade! — Ela levava a mão ao coração segurando o pingente de seu cordão, uma pedrinha azul. Estava mais nervosa que o normal. — Eu sempre tento falar com você! Você quem fica fugindo de mim.

— Desculpa... — Ele dizia envergonhado, ainda triste. — É que eu não quero que eles saibam…

— Saibam o que? — Ela ficava ansiosa. O menino também gostava dela secretamente?

— Você vai rir. — Ele abaixava a cabeça de novo, estava chorando sem nem mesmo saber o motivo.

— Eu não vou! — Ela se irritava com o mistério. — Eu juro!

— Jura? — Ele questionava olhando para ela. Ela acenava que sim. — Você não pode contar pra ninguém!

— Eu não vou! Você sabe disso.

— É que… — Miguel respirava fundo tomando coragem para contar o segredo. — Eu… Eu queria ser uma menina também. — Ele dizia sem saber se deveria. Não queria assustar a amiga, mas achava que agora era o melhor momento para contar aquilo, pensava que talvez pudessem se divertir como meninas se ela soubesse. Ela olhava ainda mais confusa, e ele se escondia ainda mais. — Você vai rir, não vai?

— Eu não vou. — Ela dizia ainda sem entender a situação. — Isso é por que você gosta de pular corda? Você não precisa ser uma menina pra isso! Isso é bobagem.

— Não é! Eu sei que é bobagem, mas não é isso. — Miguel não conseguia mais segurar as lágrimas, se escondia ainda mais fundo atrás dos braços. — Eu quero brincar com vocês, ter um cabelo legal que nem o seu e usar um casaco rosa.

— Você pode. — Flávia sorria, começando a entender o que Miguel dizia.

— Eu não posso, eu não sou uma garota! Eles iam implicar comigo...

— Eu não vou deixar! Se eles implicarem com você, eu vou te defender. — Ela dizia confiante. — Mas... Você não precisa ser igual a mim. Seja você mesmo, eu gosto de você como você é.

— Obrigado. — Miguel secava as lágrimas. A menina se aproximava e passava a mão no cabelo dele gentilmente. Brincava com o bombom na mesa, rolando ele de um lado para o outro. — Não conta pra ninguém, tá?

— Eu não vou contar, eu juro. E você vai ficar fofo se deixar o seu cabelo crescer.

— Você acha?

— Eu tenho certeza! E como seria seu nome se você fosse uma garota?

— Eu não sei. — Miguel se envergonhava de novo, era estranho falar sobre aquilo, mesmo que pensasse a respeito todos os dias. — Mia.

— Mia? — Ela se abaixava para olhar mais de perto. — Eu vou gostar de ter uma amiga chamada Mia.

— Lua Calixto

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