Doces Lembranças ACHELE
5 IV - Primeiro dos Muitos
Notas iniciais
A textura dos lábios, o sabor da língua, o cheiro de menta que emanava da sua boca … Nunca esquecerei as sensações vividas naquele beijo. Naquele primeiro beijo! Este começou proporcional a minha fome, devastador, intenso, carregado de desejo e surpresa. Pasma por não ter sofrido a repulsa e sim um par de mãos pressionando minha cintura e me puxando contra o seu corpo, o sentimento em mim era tão acentuado que não consegui reprimir um gemido, que se manifestou sôfrego dentro da boca da outra. E tamanha foi minha admiração quando Dianna reproduziu o mesmo ruído que a pouco eu tinha apresentado. Acreditem quando afirmo que neste momento, narrando para vocês tal acontecimento, ainda consigo sentir o mesmo abalo outrora vivido.
O beijo continuou por um curto tempo dessa mesma forma. Contudo, meus pensamentos foram mudando de direção, de físico para emocional. Se no começo da ação minha posição era textura, sabor e cheiro, ou seja, corporal, depois de certo tempo as questões que em mim habitavam eram:
“Deus, nunca senti isso.”
“A qualquer momento terei uma síncope e meu coração sairá pela boca.”
“Como eu a quero.”
A medida que esse tipo de pensamento ia crescendo, o beijo ia se modificando, ficando mais lento, mais sentido. Era uma sincronia tão perfeita, fazíamos aquilo como se nada nem ninguém existisse, nem na nossa vida nem em todo o mundo. Coloquei uma mão de cada lado da sua cabeça, cravando minhas unhas no seu couro cabeludo a fim de não soltá-la, de nos fundirmos, se assim fosse possível. Mas, não era, nem para um nem para o outro. Nos afastamos bruscamente quando duas batidas na porta ecoaram pelo ambiente. No fervor do momento, e com medo do possível constrangimento, saí em disparada para abri-la, assustando-me com a imagem a minha frente.
— Lea eu esqueci … — Amber parou de falar e esbugalhou os olhos intercalando estes entre meus olhos e a região da boca. Pigarreou e baixou o olhar. — Eu esqueci o celular provavelmente no sofá. Posso pegá-lo?
— Por que não poderia? — perguntei tentando ser o mais natural possível e tentando entender o motivo do seu espanto. — Entre.
— Obrigada.
Não chegou a dar dez passos, e estancou em frente a Dianna. Mirei o olhar na mesma direção, e juro que senti todo o meu sangue desaparecer do rosto. Dianna estava com toda a região bucal borrada de batom. Ouvi Amber soltar outro pigarro e se voltar para mim. Dianna e eu nos mirávamos como se víssemos um fantasma. Como dizem por aí, a ficha caiu. Ela usava batom antes de tudo acontecer, e como consequência o meu rosto também estava borrado. Por isso o espanto da Amber ao nos ver.
— Die … — Não conseguia formular nada que fosse coerente no momento.
A cena hoje parece cômica, as três ali paradas, trocando olhares, pálidas e sem direção. Mas naquele momento foi aterrorizante. Porém, não durou por muito tempo .
— Ok meninas eu só vou pegar o meu celular. — andou até o sofá, bufando quando encontrou o aparelho. — Vejo vocês amanhã.
— Amber! — A chamei. Mas novamente a mudez se fez presente.
— Lee. — aproximou-se e tocou no meu ombro. — Não se preocupe. Está tudo bem e nada sairá da minha boca. Já era de se esperar na verdade. — riu irônica
— Como??
— Olha eu preciso mesmo ir, mas conversaremos outro dia se assim desejar. Fique em paz. Está mesmo tudo bem.
Acenou para a Agron e se retirou.
Ficamos na mesma posição por alguns longos minutos. Até que o silêncio foi quebrado.
— Eu vou ao banheiro. — falei já ganhando movimento.
Deixei uma Dianna imóvel para trás, sentindo um aperto no peito com o peso de mais uma confusão, e só consegui chorar. Olhava o meu reflexo no espelho e tentava organizar cada agonia, cada sentimento, ficando apenas na tentativa. Naquele momento a minha maior aflição era o que Dianna ia fazer. Ia pedir para que eu trocasse de casa? Ia deixar de ser próxima a mim? Será que ela sentia algo parecido com que habitava ali no meu peito? Vocês podem pensar: Mas ela retribuiu o seu beijo. Ok, ela retribuiu sim, da forma mais inesperada possível. Entretanto, isso significava absolutamente nada. Poderia ser só o momento do desejo, ou algo do tipo.
Fui para cama me enrolando completamente nos lençóis, como se aquilo fosse calar a minha mente. Deixei que algumas lágrimas caíssem novamente.
Adormeci pouco tempo depois.
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O dia posterior aos acontecimentos citados também não fora fácil. Não sei se vocês, amados, se recordam, mas seria o dia da segunda tentativa de gravação. Sim eu teria que contracenar novamente com Dianna. Agradeci mentalmente por ela ter saído antes para o set de gravações, e repeti tal ato quando não a encontrei neste.
Faltava um pouco mais que 30 minutos para a cena. Sentia todos os pelos da nuca e dos braços se eriçarem só de imaginá-la a menos de 5 cm do meu rosto. Não tínhamos trocado uma só palavra depois do ocorrido, então não sabia o que esperar. Vaguei com pensamentos dessa mesma natureza pelo tempo restante, até notar a luz vermelha acendendo.
— Respira Lea, você consegue. Precisa conseguir. — Olhei-me no espelho. Puxei ar. — Vamos lá Rachel Berry, estou precisando de você.
— Lea, está na hora.
— Ok Jeremy, estou indo. — olhei uma última vez ao espelho a fim de encontrar qualquer vestígio da minha personagem. — Droga.
Não enxerguei.
(..)
A avistei encostada na cadeira de Ryan com o uniforme tão famoso das cheerios. Coração martelou dentro do peito, e o ar não se fez presente a ponto de causar-me uma leve tontura, obrigando-me a buscar apoio em Amber que estava ao meu lado.
— Lea? Você está bem?
— Sim, sim estou. Só não tomei café hoje, estou um pouco fraca. — Respondia a Amber, mas olhava para Dianna que não tinha percebido o ocorrido.
— Vocês precisam resolver isso Lee. — A encarei assustada.
— Amber não se preocupe.
— Não precisamos falar sobre isso, mas se o que eu acho importa, então estarei sempre disponível para lhe expressar ok?! — concordei com a cabeça. — Não guarde, nem abafe o que sente Lea, isso faz um mal inimaginável.
— Eu não estou … — balancei a cabeça em negação e com o olhar perdido. — Eu não sei … Droga! — Amber riu.
— Sim você está e sim você sabe. Agora vai pro cenário que o Ryan já está espumando. — Se afastou, forçando-me a ter equilíbrio próprio.
Fui caminhando para o destino tão temido e inevitável. Dianna continuava com a “cara” no texto, e prosseguiu até a ordem do “gravando” ecoar pelo ambiente. Não demorou muito e senti o empurrão ensaiado a dias atrás, e o armário batendo as minhas costas. Dianna mexia os lábios que eu tanto encarava, porém eu não conseguia ouvir o que deles saiam.
— Corta! — percebendo o ocorrido, mirei o chão e com toda a certeza fiquei vermelha. — Lea benzinho. — Segurou-me pelos ombros delicadamente. — Preciso que se concentre. — Sussurrou.
— Eu vou. — Pisquei milhares de vezes e impreterivelmente meu olhar se direcionou a Dianna. Desta vez, recebendo o seu em troca.
— Lea! — Ryan estava me irritando novamente.
— Oi! — fechei os olhos. — Desculpa.
— Podemos tentar novamente? — Perguntou com o ar pesado.
— Sim claro.
Voltamos para a posição inicial.
Mais uma vez o gelado do armário nas costas e o rosto por mim a muito venerado, próximo ao meu. Novamente os lábios se mexiam inaudíveis. Tentei me concentrar, funcionando por um momento.
[…] “Fique longe do Finn!”
Era a minha vez, eu tinha que responder, mas sua boca levemente rosada concorria desproporcionalmente com o resto que sobrou da minha atenção. Eu ia conseguir, juro que ia. Porém, Dianna resolveu ao invés dos olhos, encarar meus lábios. E tudo se perdeu. Não me recordo de quando Ryan cortou a cena, estava perdida naquele verde intenso e escurecido, havia desejo neles, finalmente tinha minha resposta. Ao menos relacionado ao querer. Nossas respirações descompassadas ganhavam vida a cada segundo. Ela estava perto muito perto. Era como se só existisse nós duas naquele set. Estava prestes a fazer uma loucura quando senti mãos frias no meu ombro, tirando-me do transe inexplicável. Era Amber.
— Que tal dar uma pausa hum? – Amber me encarava com a boca comprimida. – Lea?!
— Oi. – A tirei da minha linha de visão procurando por Dianna que havia se afastado. A avistei entrando no corredor que levava aos camarins. – Onde ela está indo?
— Lea, olha pra mim. – obedeci. – Estão todos aqui! Vocês se expuseram nesse exato momento.
— Certo. – olhei por cima dela, Dianna tinha sumido.
— Lea!
— Vou para o camarim.
— Certo, vou avisar ao Ryan. – Me movi a fim de cumprir o que tinha dito. Mas Amber segurou-me novamente. – Só toma cuidado, os comentários já estão crescendo desde o dia em que ok? – confirmei com a cabeça e sai.
Ignorei os olhares dos meus colegas e até do Ryan. Minha mente não processava absolutamente nada. A cena a pouco evidenciada, passava como uma fita arranhada dentro de mim, e um misto de emoções que nunca me esquecerei me invadia brutalmente. Segui pelos corredores, procurando o camarim dela, e quando encontrado não hesitei em entrar. Frustrei-me automaticamente, pois não havia ninguém dentro. A sensação de abandono me invadiu sem pedir licença. Sai daquele lugar repleto de vazio e caos, e caminhei até o meu ambiente, meu camarim, abrindo a porta bruscamente. Mas nada comparado a ferocidade em que meu coração bateu.
— Dianna!?
Ela estava de costas para a porta e de frente para o espelho. Fitou-me através deste. Minha respiração que já estava em uma situação crítica, entrou em estado deplorável quando observei Agron andando em minha direção e me imprensando contra a porta. Sustentava seu olhar no meu, arfando e engolindo em seco. Parecia ser raiva junto com desejo. Impossível discernir naquele momento. Percebia que tentava dizer algo, mas não conseguia. E então ...
Uma súbita coragem tomou-me por completo.
— Diga. – ainda estávamos na mesma posição. Seus olhos me queimavam. – O que você quer? – Sussurrei. Nenhuma resposta. – Die! – Reparei que todas as vezes que eu falava, ela seguia meus lábios com o olhar. – Dianna?!
— Você! – olhou nos meus olhos. – Eu quero você!
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