Tinham tido um dia agitado com entrevistas e sessões fotográficas, mas ao invés de estar tagarelando animado, Shou parecia cansado e aborrecido. Não precisou muito esforço para Tora adivinhar o que se passava com ele.

Nas últimas semanas o vocalista do grupo estava ansioso, quase perdendo a compostura em todas as ocasiões. Parecia que, novamente, ele não estava aguentando a pressão de ter que fingir o tempo todo que os dois eram apenas bons amigos. Tinha começado a fraquejar — como já tinha acontecido anteriormente — sentando demasiadamente perto do guitarrista nas entrevistas, respondendo as perguntas olhando para ele e sorrindo para ele com aquele olhar apaixonado quando alguém o elogiava ou quando Tora falava.

Tora sabia como era difícil para Shou — muito mais do que para ele, muito mais velho e experiente. O guitarrista não se incomodava em fingir porque sabia que aquilo não modificava nada entre eles. Trabalho era trabalho e se para manter as fãs mais jovens contentes eles tinham que fingir que eram solteiros e desempedidos, então que fingissem.

Mas não era bem assim para Shou. Ele era jovem, romântico e ter que passar o dia inteiro perto de quem ele amava sem poder manifestar seus sentimentos podia ser, por vezes, muito difícil, quase impossível.

Tora sabia disso, ainda lembrava daquele concerto emocionante onde praticamente todos os integrantes do grupo caíram em lágrimas e de como Shou não reagiu ao choro de ninguém mas correu rapidamente para atravessar o palco ao ver que o guitarrista também estava chorando. Ele quase atropelou Hiroto no caminho, se abaixou a seu lado, o abraçou e sussurrou ao seu ouvido, preocupado. Aquele dia ele quase tinha perdido a cabeça e entregado tudo para a platéia.

\"Está cansado?\", ele perguntou, abrindo o carro. Shou entrou do lado do passageiro sem falar nada. Tora entrou, ligou o motor e manobrou para sair da garagem.

\"O que você quer comer hoje?\", o tom dele era carinhoso mas Shou não respondeu, tinha sentado cabisbaixo, ligado seu Ipod e colocado os fones.

Se Shou não ia querer falar sobre comida, a coisa era séria. Tora franziu a testa, tomando a direção do apartamento deles.

Foi uma viagem rápida e silenciosa.

Eles entraram no apartamento, tirando os sapatos e colocando os chinelos. Shou continuava mudo, ele sentou-se no sofá, ligando a televisão. Tora foi pedir o jantar para eles, caprichando e pedindo todas as coisas que ele sabia que Shou gostava, para tentar animá-lo um pouco.

Sentou-se ao lado dele no sofá, aninhando-o em seus braços.

\"Você está bem?\"

\"Estou.\"

O tom dele não tinha sido convincente, fez com que Tora ficasse ainda mais preocupado.

Ficaram em silêncio até a comida chegar. Tora providenciou tudo, arrumando um prato do jeito que Shou gostava, levando para ele até o sofá. Shou pegou o prato, olhou longamente e duas lágrimas escorreram de seus olhos.

Não era essa a reação que Tora esperava. Ele colocou o prato sobre a mesinha de centro e abraçou Shou.

\"Aishiteru, ohime-sama.\"

\"Eu sei.\"

Ele estava péssimo mesmo, ele jamais respondia dessa maneira. Tora abraçou-o ainda mais apertado.

\"Você fez um prato lindo, obrigado.\", ele parou, secando as lágrimas com a manga da camisa, \"Desculpe, às vezes... eu não aguento.\"

\"Não precisa se desculpar.\"

A frase saiu num tom doce, Shou sempre lhe parecia apenas uma criança crescida quando tinha reações como aquela. Ao invés de se zangar, Tora sentia desejo de protegê-lo, de cuidar dele, de garantir que tudo ficaria bem. Tinha sido sempre assim, desde o dia em que deram o primeiro beijo. Pensando bem, tinha sido naquele dia que o guitarrista tinha decidido que cuidaria daquele menino grande e sorridente para sempre.

\"Vamos comer antes que esfrie, né?\"

Finalmente Shou sorriu.

\"Vamos.\"

Jantaram, jogaram Final Fantasy e foram dormir mas foi difícil para Tora pegar no sono. Ele passou horas olhando aquele rosto adorado mergulhado em sonhos pensando no que poderia fazer para amenizar para Shou a dureza da tarefa de continuar mantendo o segredo.

Então ele teve uma idéia e sorriu, aconchegando seu amor nos seus braços e rapidamente pegando no sono.

Foi fácil agendar o que ele queria fazer e driblar Shou para se ausentar durante duas horas.

Se Shou não tinha desconfiado de nada durante a ausência de Tora, ele rapidamente percebeu que havia algo errado no momento em que o guitarrista entrou no estúdio onde ele estava checando algumas fotos. Tora tinha um sorriso imenso e puxou-o discretamente pelo braço para o camarim, pedindo que todos que estavam ali saíssem por alguns minutos.

Shou estava intrigado e curiosíssimo. Assim que a última pessoa saiu, Tora o abraçou, beijando-o longamente.

\"Isso não é muito aconselhável.\", riu Shou.

\"Não tem ninguém.\", Tora esticou a mão direita para Shou, \"Veja.\"

\"Você fez uma tatuagem...\"

Era um anel caprichosamente bordado com um coração em cima. Tora ainda sorria.

\"Toda vez que você se sentir mal porque precisamos manter segredo, quero que olhe para o meu dedo e lembre que eu fiz essa tatuagem para você.\"

Ele disse isso muito docemente, quase tímido. Shou abriu um sorriso imenso.

\"É linda...\"

\"Aishiteru, ohime-sama.\"

Shou abraçou-o, emocionado.

\"Aishiteru, Torii.\"

Notas finais
"Ohime-sama" significa "princesa" em japonês. Kohara (o nome real de Shou) é um nome usado para homens e mulheres, então eu quis aproveitar o duplo sentido.
Tora realmente fez essa tatuagem, em outubro de 2008 mas eu não vi ainda, eu só li a descrição em um site de notícias sobre JRock.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!