Doce Sacrifício
2 Capítulo 2 - Carpe Diem
Notas iniciais
Pela primeira vez em anos o sinal bateu na hora certa. Era meio-dia quando o primeiro dia de aula chegara ao fim. Sei que parece bobagem, ou exagero, mas eu já almejava meus dias de férias longe de todo o estresse que ainda não possuía. Arrumei a mochila ansioso para ir embora, mas tive que esperar pelo Renan. Pegávamos ônibus no mesmo ponto e íamos conversando até lá sobre assuntos diversos, ainda que videogames, quadrinhos, filmes e seriados sobressaíam-se os assuntos banais como "O que achou do teste de ontem?". Renan é um cara legal, tem cabelo ondulado e curto, seus olhos são verdes e sua pele é parda. Seus traços me lembram um pouco os de orientais.
O percurso até o ponto é de aproximadamente cinco minutos andando, mas levamos quase três naquele dia, nosso recorde em dois anos (O último fora de quatro minutos e vinte). Infelizmente, ou não, o ônibus de Renan passara no momento que pisamos no ponto, então passei os próximos minutos sozinho esperando pelo meu.
Ao longe, virando a esquina, pude ver Thomas vindo em direção ao ponto.
"Você só pode estar brincando..."
Passei a mão no cabelo para arrumá-lo e chequei o hálito. Não fazia ideia de qual fora a forma de vida que sugara o Gabriel de antigamente e deixara esse garoto preocupado e vaidoso para trás. Talvez exista um desse dentro de cada ser humano, mas somos muito orgulhosos para deixar transpor isso. A "masculinidade" talvez não esteja relacionada com quem você é ou deixa de ser, porém o preconceito social tende a moldar a personalidade de pessoas ao nosso redor. Ainda não tinha certeza se o que eu sentia por Thomas era o mesmo sentimento que um dia eu já experimentei por garotas. Na verdade, talvez fosse até maior.
– Gabriel... – Thomas estendeu a mão e lançou-me um sorriso aberto
– Thomas, oi... – Retribui o aperto de mão e seu sorriso – Como foi o primeiro dia?
– Tranquilo comparado a outras escolas que estive... – Olhou para trás buscando por seu ônibus – E o seu? – Novamente aquele sorriso
– Cansativo, mas bom... Acho que já estou farto da escola em si. – Passei a mão no rosto. Um clássico sinal de frustração que possuo — Mal vejo a hora de ingressar na faculdade.
– Já sabe o que vai fazer?
– Ainda perdido... Pereço para ciências exatas, mas é uma área muito ampla e isso me deixa totalmente confuso. – Olhei para o fundo de seus olhos. Senti-me preso na escuridão penetrante de seu olhar – E quanto a você?
– Indeciso também... Meus pais querem que eu faça Direito, mas creio que Medicina tenha mais meu perfil.
– Desculpa por isso, mas... – Pigarreei e, sem jeito, perguntei – Você não é daqui, é?
– Perdão? — Thomas pareceu confuso com a pergunta
– Percebi enquanto conversávamos que você não é daqui...
Thomas pareceu surpreso com minha colocação — Para ser sincero, sou originário de Londres, Inglaterra. Meus pais me conceberam lá, mas como são Brasileiros, me ensinaram desde que nasci a falar as duas linguas. Ainda guardo um pouco de minha herança na fala. O famoso "inglês britânico" mexera um pouco em minha voz.
– Você é inglês? – Seu tom de surpresa passara agora para mim – Isso é maravilhoso... Com quantos anos veio para cá?
– Vim no final do ano passado, na verdade. O trabalho de meu Pai o chamou de volta — Pude ver que Thomas segurava algo em seu bolso. Percebi que apertou seu punho a medida que proferia suas últimas palavras – Ainda que tenha sido uma transição difícil, eu gosto do Brasil... – Thomas tirou a mão do bolso e me devolveu um sorriso.
Meu ônibus estava se aproximando. Estava tão entretido na história que quase o perco; O mundo todo diz que o destino é irônico. Naquele momento não restou-me dúvidas quanto a isso. Em questão de milésimos de diferença, falamos um para o outro:
– Este é meu ônibus!
Nos entreolhamos e rimos. Eu não podia crer que pegaria ônibus com ele. Aquelas malditas borboletas vieram me assombrar, causando-me cócegas no pé do estômago.
***
Passamos pela catraca e sentamos no mesmo par de poltronas, as últimas em frente a porta. Thomas escolheu o assento da janela, disse que lhe agradava mais pela temperatura do vidro e por ter onde se apoiar. Eu particularmente não via diferença. Pouco a pouco o mundo poderia cair, mas a única coisa que realmente importava é que estava ao seu lado.
Naquele momento eu estava com uma forte mistura de sentimentos. Queria gritar para os céus que estava ao lado de Thomas, mas ao mesmo tempo eu sabia que deveria continuar seguindo as bases de meus ideais passados. "Apenas seja discreto" – Pensei comigo mesmo – "Tudo a seu tempo..."
O clima fúnebre entre nós pairava sobre o ar. Por minha visão periférica pude vê-lo observando a paisagem passar pela janela. Sua cabeça estava apoiada no vidro enquanto segurava sua mochila próxima ao corpo. Eu me senti na obrigação de falar algo e finalmente tirar aquele clima pesado, porém não fazia ideia do que poderia dizer. Talvez devesse perguntar sobre suas férias, ou até mesmo sobre sua vida em Londres. Quais eram seus Hobbies? Quais eram seus futuros sonhos? – "Será que ele gosta de mim o tanto quanto eu gosto dele?" – Aquele era o momento. Finalmente me decidira:
– Diga-me, Gabriel... – Deu uma pausa entre as frases – O que gosta de fazer em seu tempo livre?
"O quê?"
– Err... – Ele me pegou de surpresa – Ler... Costumo ler HQs quando estou com tempo livre. Até mesmo jogar videogame e assistir filmes e séries.
– Bacana... – Thomas virou para mim e abriu seu sorriso
– E você? O que faz no tempo livre?
– Sou fissurado em livros, porém não leio HQs, ainda que acompanhei por um tempo algumas séries do Batman, Homem Aranha e o Flash. – Gabriel soltou um curto riso e continuou – Gosto de estudar assuntos diversos também... – Encarou o vazio por alguns segundos – Bem, gosto de ouvir músicas, desenhar e jogar videogame entre os intervalos.
"Deus..."
– Bacana, podíamos marcar um dia para jogar depois. Curte quais jogos?
– Muitos, na verdade, mas sou péssimo em esportes e simuladores, como na vida real... – Riu
O restante do percurso baseou-se numa pequena conversa entre jogos. Infelizmente Thomas desceu quinze minutos depois, quatro pontos antes do meu. Acompanhei seu percurso até a esquina com a cabeça enquanto o ônibus esperava o sinal verde. A dor, ou pelo menos o incomodo de vê-lo partir abalou os próximos cinco minutos. Sei que parece exagero quando analisamos o tempo total que o conheço, mas o que mais queria era abrir a janela do passageiro e gritar a plenos pulmões, pedir seu retorno. Poderia passar o resto da tarde com Thomas, não vejo problema nenhum nisso, mas ele tinha que partir se eu realmente pretendia ser discreto.
À essa altura do campeonato, tenho quase certeza que Thomas reconhecera o que sinto por ele. Ainda que as pessoas a minha volta não tenham notado uma diferença gritante em minha personalidade, Thomas sentia algo por mim, eu tinha certeza disso! O que me restava era a triste pergunta: "E daí?". Afinal, como proceder com isso? Eu deveria, ou não continuar dando pistas quanto ao meu sentimento?
O ônibus seguiu seu percurso normalmente. Sentei-me no lugar onde antes Thomas estava e acariciei o vidro onde encostara a cabeça, posicionei a minha logo em seguida. Ao fechar os olhos pude sentir o aroma de seu perfume, ainda pairando pelo ônibus, uma essência suave, algo entre o adocicado e o amadeirado. Ainda com os olhos fechados, vaguei por meus pensamentos. Thomas realmente mexera comigo de uma maneira que nenhum outro ser humano conseguira até hoje. Um misto de culpa, pesar e dúvida revoavam minha consciência. Seria aquilo o certo? Apesar de tudo, não conseguia entender como mudei tanto num curto período de tempo.
"Que tipo de magia Thomas lançou sobre mim?!"– Pensava em silêncio. Eu não sentia atração por garotos, mas quando ele apareceu na minha vida, me tornei uma garotinha de quinze anos ao falar de seu ator preferido. Eu simplesmente não entendi como e o porquê daquilo tudo. Apesar de tudo, Thomas me devolvera uma paz de espírito e uma vontade empírica que havia se perdido com o tempo.
Voltei a mim pouco antes de chegar em meu ponto. Desci do ônibus tranquilamente e o acompanhei com a cabeça até sumir no cruzamento. O caminho de dois minutos que separa o ponto de ônibus e minha casa fora tranquilo. Pela primeira vez em anos pude refletir sobre o meu dia. Estava eufórico. Inflava o peito como se houvesse ganhado uma medalha olímpica de ouro e meu sorriso estendia-se de uma orelha a outra. Meus olhos brilhavam à medida que cantarolava Safe and Sound do Capital Cities. Nunca me senti dessa forma antes. Era incrível!
Cheguei em casa e minha mãe me questionou... – "O que aconteceu que está 'todo todo'?" – Apenas lhe respondi que tive um ótimo dia. Subi para meu quarto, tranquei a porta e me deitei, encarando o teto branco.
"Thomas..."
O resto da tarde não fora tão extraordinário quanto poderia ser. Aproveitei meu ânimo para arrumar algumas papeladas da escola e limpar o quarto. O restante da noite que me sobrara fora destinado a minha nova HQ que chegara do Correios, que por coincidência era a nova edição do Batman. No final do dia, após a janta, coloquei a cabeça sobre o travesseiro e dormi como um anjo. Nunca tive tanta facilidade para cair no sono e nunca dormi tão bem quanto naquela noite.
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