Doce Pecado
2 Luz
Doce Pecado
Luz
Amadeus
Posso ouvir meu nome sendo chamado várias vezes. Vozes distantes e diferentes, sussurros que ecoam em minha mente vazia. O que posso fazer ou dizer para que essas vozes desapareçam? Não aguento mais ouvi-las! Cada chamado é como uma pontada em meu cérebro, longa e profunda. Sinto o grito rasgar minha garganta, meus dedos agarrando e torcendo os lençóis. Meu corpo é sacudido diversas vezes, os chamados aumentam, os sussurros se transformando em gritos, escondendo a única voz que permanece baixa, calma, suave.
Amadeus
A voz dela me chamando, me puxando para longe dos gritos que formam meu nome. Não quero ouvi-la, não posso cair mais uma vez em seu poderoso encanto! Agarro o tecido sob meus dedos com força, quase o rasgando. Mordo meu lábio inferior, impedindo que mais um grito deixe minha garganta. Sinto um toque suave em minha testa, afastando minha franja. Viro o rosto, pressionando-o contra o travesseiro e, pela primeira vez, notando o suor que cobre minha pele enquanto tento escapar desse pesadelo
Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo...
Uma prece. Quem a faz? A voz me é familiar, firme, forte, rápida ao pronunciar a oração. Amém. Amém. Amém. Amém... Repito essa pequena palavra incontáveis vezes em minha mente. Alguma parte de meu ser parece acreditar que essa palavra pode quebrar o encanto dela.
A crença dessa parte do meu ser começa a se expandir até envolver toda minha alma. Conforme o tempo passa, sinto a calma invadir meu espírito, abraçando-me, regulando minha respiração e os batimentos de meu coração. Respiro fundo, sentindo tudo ao meu redor girar. Minha garganta dói, seca e ferida. Com cuidado, abro os olhos. Minha visão se revela borrada pelas lágrimas que não havia percebido ter contido.
Inspiro e expiro lentamente, o ar parecendo queimar meu interior. Olho para baixo, minhas mãos doem e quando as abro, sinto meus dedos duros, o esforço ainda presente em meus músculos. Olho para cima, vendo a face do bispo. Por um segundo, reconheço-o como sendo o dono da voz que ouvi dizendo a prece. Amém.
Encolho-me no colchão, meus braços envolvendo meu próprio corpo. Sem que eu possa prever ou controlar, começo a chorar. As lágrimas que contive inconscientemente, agora liberto. Deixo-as escorrerem por minha face, marcarem minha pele e molharem a cama. Gemidos de dor deixam meus lábios sem que eu possa pensar em um motivo para produzi-los. Não sinto mais dor, mas sinto... Vazio, como se algo muito importante em mim tivesse ido embora. Para sempre.
Senhor, salve-me dessa dor que não é dor. Salve-me dessa escuridão que se esconde atrás da luz. Salve-me dessa tortura sem propósito. Salve-me, Senhor. Salve-me dela.
Continuo a rezar sem ter total consciência do que digo, do que peço. As palavras apenas surgem em minha mente e então deixo que fluam livres para seguirem seu fluxo natural. Quem é ela? Por que me atormenta? Toda essa dor... É real? Ou fiquei louco e preso em um delírio sem fim? Pois é exatamente assim que me sinto. Acorrentado a um sonho sem sentido, a uma vida ilusória... O que está acontecendo comigo?!
- Padre? – o chamado é acompanhado de um toque suave em minha cabeça – Amadeus? – a mesma voz da oração, agora soando levemente preocupada – Você está bem, Amadeus?
Não respondo, apenas me encolho ainda mais, minhas mãos em meu rosto, escondendo minhas lágrimas. Por mais que eu queira contê-los, os gemidos de dor ainda escapam por entre meus lábios, baixos e frágeis. Sinto-me como uma estátua de vidro que, ao mínimo movimento, irá se quebrar ou terminar de se despedaçar. A imagem de um padre esculpida em um delicado material, trincada por um golpe incompreensível.
O toque se afasta e o som de passos começa a ser ouvido. Vários passos, diversas vozes. Tudo de novo. Cada palavra registrada por minha mente parece aumentar a dor – que não parece dor –, o vazio, as lágrimas. Ele mudou, já não é mais um de nós. Filho da escuridão. O que aconteceu? O que ela me fez? A dor que ela me causou... Que marcas deixou em mim? Lembro-me de meu sangue derramado, da dor que parecia destruir meu coração e uma pergunta surge, simples e importante: como sobrevivi? Deus, o Senhor me salvou? Ou apenas negou minha entrada em Seu reino?
Silêncio. A voz do bispo. O pedido me acalma, combinando com o que quero e com o que preciso. Silêncio. Ouço a porta se fechar, não a ouvi ser aberta, mas também não importa. Não há mais nenhum som, a não ser o da minha respiração trêmula, desregulada. Respiro fundo, afastando minhas mãos de minha face, abrindo meus olhos e deparando-me com o quarto vazio.
Minha cabeça dói, sinto-a pesada. Meu corpo me parece frio demais. O que está acontecendo comigo? Um estranho brilho chama minha atenção. Levanto meu olhar e vejo uma vela em cima do toucador. Só então me dou conta de que o aposento está imerso na escuridão, sendo o fogo que queima o pavio a única fonte de luz. Por um segundo, sinto-me ameaçado pela escuridão, mas o medo logo passa e uma estranha sensação de conformo invade meu peito, como se algo dentro de mim dissesse que não há nada a temer na ausência de luz, ao contrário, é nela que se deve se sentir seguro enquanto que, quando a luz está presente, deve-se ter medo.
Lentamente, saio da cama, caminhando até a vela, sentando-me em uma banqueta, colocada em frente ao toucador. Por alguns momentos, observo a chama, que treme conforme a corrente de ar passa por ela. Aproximo minha mão do fogo, sentindo o calor atingir minha pele, mas sem espantar o frio que a envolve. Sem motivo, olho para o espelho, vendo minha face refletida, em parte iluminada e em parte mantida nas sombras. A imagem me parece mostrar exatamente como me sinto, perdido entre dois caminhos completamente opostos e cujas trilhas permanecem escondidas.
Toco meu reflexo e a luz se afasta, um resquício sendo esquecido em meu pescoço, revelando duas marcas novas. Aproximo-me do espelho, a luz voltando a envolver minha pele e iluminando melhor as cicatrizes. Dois círculos, um pouco separados. Toco-os, sentindo o relevo. Marcas dela, do beijo dela.
Fecho os olhos ao sentir mãos tocarem meus ombros, apertando a região, e um rosto encostar ao meu. Lábios macios beijam minha bochecha, um carinho frio e ainda assim... Bom. Abro os olhos, voltando a olhar o espelho, mas não há nenhum reflexo, sem ser o meu. Viro meu rosto, vendo-a ao meu lado, bela como da primeira vez.
- Quem é você? – pergunto, fraco demais para me preocupar com a possibilidade de ela voltar a me ferir.
- Alexis. – um sorriso vermelho e um rápido beijo em meus lábios são oferecidos junto com a resposta.
Ela me solta e caminha em direção à porta. Viro-me para seguir seus passos, mas ela já não está mais lá. Pergunto-me se tudo isso não é apenas fruto da minha imaginação. Ouço um som ao longe, risadas de crianças. Sorrio e saio do quarto, indo em direção ao pátio para vê-las brincar. Observá-las sempre me fez tão bem...
Chego ao corredor que dá acesso ao pátio, através de uma abertura na amurada que o contorna. Passo-a, pisando na trilha de pedras que leva ao campo de futebol improvisado. Assim que meus pés tocam o solo, o sol toca minha face e um grito deixa minha garganta. Corro de volta ao corredor coberto, caindo sobre o chão.
Com as palmas de minhas mãos, cubro meu rosto, pressionando-o em uma vã tentativa de acabar com a queimação. Sinto como se minha pele estivesse em brasa, envolvida por um fogo impiedoso que, acima de me matar, quer me marcar, me afastar.
- Padre! – ouço as crianças chamarem – Padre Amadeus!
Sinto os toques das crianças em meus ombros, braços e em minhas mãos. Toques gentis, carinhosos, inocentes como elas. Respiro fundo e descubro minha face, sentando-me e olhando os rostos preocupados. Sorrio fracamente, tentando me desculpar por tê-las assustado.
- Você está bem, padre? – Gustavo, um menino de sete anos, pergunta, abraçando a bola de futebol.
- Sim, estou. – respondo, minha voz saindo levemente rouca – Voltem a brincar. Está tudo bem.
Os meninos assentem, correndo de volta ao campo, mas a única menina do grupo, Sora, de três anos, me abraça. Retribuo o carinho, levantando-me com ela em meu colo.
- Se eu fosse você, ficaria nas sombras por enquanto. – uma voz calma diz. Viro-me e a vejo, Alexis. Ela sorri e se aproxima, tocando a face de Sora, brincando com os cachos loiros que caem sobre os olhos azuis da criança. – Você ainda teme a luz.
- Andei sob o sol a minha vida inteira. – respondo, confuso com a presença dela e o fato de não mais temê-la ou ter que resistir a ela – Não temo a luz.
- Não estou falando da luz do sol. – ela diz, olhando por sobre meu ombro. Sigo seu olhar e vejo meus companheiros olhando-me, parecendo... Temer-me? – Estou falando do que ela representa.
Olho para o chão, estreitando meu abraço ao redor de Sora.
Senhor, que tipo de pecador eu me tornei?
Fale com o autor