Doce Pecado
4 Cruz
Doce PecadoCruz
Fecho meus olhos, sentindo o calor tentar me envolver, aumentando a dor em meu olho esquerdo. Sei que o fogo se aproxima, brincando comigo, adiando o momento em que irá tocar minha pele, queimá-la, marcá-la, arrancando gritos de minha garganta, torturando-me antes de me libertar e me enviar para o lugar a que pecadores como eu pertencem. Curiosamente, não consigo pensar no inferno. Embora meu pecado tenha sido terrível, não consigo me imaginar indo para as profundezas do inferno, sendo torturado por toda a eternidade. Por quê? Medo, talvez? Temor de que, na verdade, eu realmente vá para o inferno? Respiro fundo e tento mover meus braços, mas não consigo, cada movimento traz consigo uma dor aguda. Ouço o crepitar do fogo e, em meio a ele, o som de passos se aproximando. Concentro-me apenas no barulho das chamas, pois o outro com certeza é uma ilusão. Não há como alguém entrar aqui. Não há motivo para alguém vir aqui. Mas, contrariando minha razão, os passos continuam, cada vez mais altos, mais próximos. Abro meus olhos ao sentir um suave carinho em minha face, afastando meu cabelo. Deparo-me com o olhar escuro de Alexis observando-me, como se tentasse descobrir algo em minha expressão.- Dói, não é? – a pergunta é dita em um tom de voz calmo e baixo. Alexis não demonstra estar preocupada com o fato de se encontrar em uma capela que está sendo consumida pelo fogo – Ser renegado por aqueles que você considerava seus iguais.- O que faz aqui? – pergunto, sentindo o toque abandonar minha face e seguir para meu peito. Abaixo o olhar, vendo os dedos pálidos envolverem a estaca.- Eu não o transformei no que você é para vê-lo ser destruído pelo medo desses humanos. – ela diz, a voz ganhando um tom raivoso, e então puxa a estaca, arrancando-a de meu corpo.Grito, meu corpo arqueando para trás. Sinto um beijo ser depositado em minha bochecha e viro o rosto, o sorriso nos lábios vermelhos de Alexis chamando minha atenção. Ela admitiu ter me transformado em algo, em um pecador. Por quê? Para quê?- O que você fez comigo? – pergunto, tentando levantar e sendo ajudado por ela.- Nada demais. – Alexis responde, tocando meu olho esquerdo com a ponta dos dedos – Apenas te dei uma oportunidade de ver o mundo como ele realmente é.- Transformou-me em um pecador. – digo em um tom baixo. Flashes do que fiz com Lucas invadem minha mente. Fecho os olhos com força, afastando-me de Alexis, quase entrando no fogo que nos rodeia – Por que fez isso?- Já te disse que somos todos pecadores. – ela responde, aproximando-se e tocando meu pescoço – Mas por que somos pecadores? – viro meu rosto, encarando as íris negras, curioso quanto a resposta que Alexis tem para essa pergunta – Porque alguém nos julga assim.- Deus. – o nome deixa meus lábios imediatamente, fazendo com que um largo sorriso apareça nos lábios de Alexis.- Acha mesmo que é Ele quem nos julga? – meu olho volta a ser tocado e, sob o toque de Alexis, eu posso sentir o contorno da cruz que marca minha pele – Não seríamos nós que julgamos a nós mesmos?- O que quer dizer? – pergunto, observando Alexis se afastar alguns passos e começar a brincar com o fogo.- Você é um padre. – ela começa – Quando ouve alguém se confessar, julga se o que a pessoa fez foi um pecado ou não. Você a julga, não Deus.- Faço meu julgamento com base nas leis de Deus. – rebato, não entendendo a que ponto Alexis quer chegar.- Leis interpretadas e postas em prática por homens. – Alexis me olha, ainda sorrindo – Deus deu à humanidade os 10 mandamentos, mas quem decide como eles devem ser postos em prática é a própria humanidade. Se o significado do que Deus escreveu é deturpado, a culpa é dos próprios homens.- Seguimos o que Deus determinou como Ele determinou. – digo firmemente.Alexis ri e toca as chamas, pegando um pouco delas e mantendo-o em sua palma. Ela ergue a mão, mostrando-me o fogo.- Quem queimou sua face foi um humano. Quem enfiou uma estaca em seu peito foi um humano. Quem o jogou ao fogo foi um humano. Deus não o julgou, os humanos, sim.A chama vai perdendo a força pouco a pouco até sumir. Alexis abaixa a mão e me olha, parecendo esperar que eu diga algo.- Eu sei o que eles fizeram. – falo – Mas também sei que o fizeram porque o que eu fiz é contra as leis de Deus.- Não importa qual é a lei, mas como e quem a coloca em prática, Amadeus. – sinto um arrepio correr por minha coluna ao ouvi-la dizer meu nome – Além do mais, não acho justo se prender a uma lei e esquecer outra.- Como assim?- Pensei que um dos mais importantes ensinamentos de Jesus fosse acerca do perdão. – Alexis responde – Por que, ao invés de julgá-lo e condená-lo, aqueles que você achava que eram seus iguais simplesmente não tentaram entendê-lo e perdoá-lo? As palavras de Alexis me paralisam e me calam. Perdão. Em nenhum momento, pensei ser digno de ser perdoado, mas agora, o modo como ela coloca... Como pode fazer sentido? Eu não espero perdão, mas talvez possua a esperança de ser perdoado? A esperança de ter a chance de ser perdoado?Em silêncio, observo Alexis se aproximar de mim e tocar minha face.- O que quer comigo? – pergunto, confuso com tudo.- Quero sua fé. – ela responde – Sua fé inocente e profunda. Quero que ela me mostre o que você vê sob a perspectiva que eu ofereço. Quero que me mostre como o mundo se parece para você, se a visão que tem é a mesma que a minha, ou melhor. Quero que me mostre a sua luz e com ela ilumine a minha escuridão.
Alexis pega minhas mãos e me puxa, guiando-me através do fogo em direção à saída da capela. Sinto as chamas tocarem minha pele, mas esse toque não me machuca. Não sei por que. Talvez tenha algo a ver com o que sou agora ou com a presença de Alexis, mas isso não importa realmente. Não dou muita atenção ao fogo, estando completamente imerso nas palavras de Alexis que ecoam em minha mente.Como posso mostrar a Alexis o que ela deseja, se cada opinião minha acerca do modo como o mundo é regido, ela rebate, não aceitando o que digo? Ou talvez eu ainda esteja apenas sob a minhaperspectiva e não sob a dela.Alexis deseja que minha luz ilumine a escuridão dela. Mas e se eu já não tiver mais luz? E se eu também me encontrar na escuridão?- Se isso acontecer, Amadeus, nós estaremos completamente perdidos. – ela responde, parecendo ler meus pensamentos enquanto abre a porta e me tira do mar de fogo.
Notas finais
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