Doce Pecado

Alma

Meu pescoço dói. Com cuidado, abro os olhos, a luz do sol me atinge, me incomodando. Por reflexo, me levanto rapidamente e me afasto, acabando por bater contra uma parede. Abaixo o rosto, escondendo-o entre minhas mãos. Sinto o toque do sol em meu corpo, queimando minha pele. Sem qualquer controle, deixo que as lágrimas escapem por meus olhos, escorrendo por meu rosto e molhando meus dedos.

Toco a parede, sentindo a estrutura de pedra, procurando por uma porta, alguma passagem que me leve para as sombras e me tire dessa luz impiedosa que me queima. Ainda apoiado na parede, rastejo, meus olhos fechados, escondidos sob minha mão. Acho um vão e, sem pensar, me jogo, caindo sobre um banco duro, escorregando para o chão.

- Por que foge da luz? – tento me levantar ao ouvir uma voz masculina.

Fico de pé e dou alguns passos. Quando sinto que sai do alcance do sol, abro os olhos, vendo um jovem rapaz parado a alguns metros da onde estou. Os ondulados fios castanhos escondem parcialmente os olhos claros, as pontas tocando os ombros cobertos pelo paletó negro, cuja cor realça a palidez da pele. Olho ao meu redor. Estou em uma espécie de saguão de entrada. As paredes escuras, descascadas, são cobertas por quadros empoeirados. Uma longa escada se ergue atrás do rapaz. Dou um passo para trás, batendo na lateral banco sobre o qual caí.

- Onde... – tusso, limpando minha garganta – Onde está Alexis? – pergunto, desesperado por uma noção de segurança nesse lugar desconhecido.

Não consigo lembrar como vim parar aqui. A última lembrança que possuo é de Alexis tomando meu sangue naquele belo jardim. Quando ela terminou, eu estava fraco, sonolento e acabei sendo levado pela escuridão. Onde estou? E quem é esse rapaz tão... Estranhamente familiar?

- Não sei onde Alexis está. – ele responde, um sorriso nascendo nos lábios finos e vermelhos – Ela apenas me pediu para que cuidasse de você.

- Quem é você? – pergunto, dando alguns passos para o lado, encostando minhas costas na parede. De alguma forma, sinto que pelo menos parte do que ele disse é mentira. Ele sabe onde Alexis está.

- Sou um amigo. – a resposta é dita em um tom calmo, suave, amigável – Não te machucarei. Alexis não permitiria que eu cometesse tal ato.

- O que quer comigo? – sinto minha voz tremer do mesmo modo que meu corpo enquanto continuo a me afastar, minhas costas rentes a parede. Estico meu braço e, sem perceber, meus dedos encontram um feixe de sol que entra pela porta aberta. Grito ao sentir o calor queimar minha pele e afasto minha mão. Meu movimento brusco ecoa pela parede e uma cortina cai sobre mim. Tusso várias vezes, incomodado com a poeira presente no tecido.

Ouço passos se aproximarem e logo a cortina é retirada de cima de mim. Dedos tocam minha face, levantando-a. Um toque macio, que me obriga a encarar os olhos de ouro desse desconhecido. Íris amarelas, de um brilho profundo e misterioso. É estranho. Sinto que conheço esse rapaz de algum lugar. Já o vi antes? Cruzei silenciosamente com ele em alguma rua ou até mesmo na igreja?

- Você é um padre, certo, Amadeus?

Por um segundo, surpreendo-me por ele saber meu nome, mas essa surpresa não dura muito. Assim como Alexis, esse rapaz parece poder ler meus pensamentos, então, se é realmente verdade, acho que ele não teria muita dificuldade em descobrir como me chamo. Ou talvez, Alexis apenas tenha contado para ele. Não sei.

- Sim. – respondo, abaixando o olhar. Sinto algo tocar meu peito. Minha cruz. O pingente logo é tocado pelo desconhecido com certa... Adoração?

- Há muito tempo, eu quis ser um padre. – o rapaz diz ainda olhando para a cruz – Eu queria ajudar as pessoas a encontrarem a beleza e a paz da fé. Eu queria ajudá-las da melhor maneira que pudesse, mas... – as íris douradas olham em minha direção – Eu aprendi que não é bem assim que as coisas funcionam.

- Como assim? – minha pergunta faz com que o sorriso nos lábios vermelhos aumente, tornando-se um sorriso de um prazer quase sádico.

- Um padre, um pastor, um líder de qualquer religião não vale nada nesse mundo, seus trabalhos são... Como posso dizer? Incompletos, frágeis. Sem significado para aqueles aos quais são destinados.

- Nós ajudamos as pessoas. – digo. O ceticismo presente na voz desse rapaz é muito parecido com aquele presente na voz de Alexis. Um ceticismo de alguém que perdeu a fé na humanidade.

- Tem certeza, padre? – os lábios finos tocam minha bochecha, sussurrando as palavras cortantes – Tem certeza de que suas palavras não soam apenas vazias para aqueles que as ouvem? Tem certeza de que tudo o que você já fez para ajudar realmente fez alguma diferença? Tem certeza de que a sua fé é realmente útil?

Fecho os olhos e empurro o desconhecido, levantando rapidamente e me afastando. Viro-me e vejo os olhos claros me observando, o sorriso ainda presente nos lábios vermelhos. Sinto meu corpo tremer e meu coração sufocar em meu peito. Parece que esse rapaz sente um prazer doentio em me torturar.

- O que eu fiz teve valor! – digo, meu tom de voz aumentando e se tornando desesperado sem o meu controle – Eu ajudei! Minha fé foi útil! Eu fui útil!

- E essa utilidade teve algum valor para quem ela ajudou? – ele pergunta, ajoelhando-se e se aproximando de mim, tocando minha cintura – O que você fez e a ajuda que você ofereceu... Os atos que me você realizou com a melhor das intenções, com toda sua fé e sinceridade... Eles realmente atingiram aqueles que o receberam? Sua fé, querido padre, realmente acendeu a fé nos corações alheios?

- Sim. – digo.

- Você sabe que sim ou você acredita que sim?

- Eu... – respondo, meu corpo tremendo e as lágrimas marcando minha face mais uma vez – Eu acredito... Eu quero acreditar que fui bom... Que fui útil... Que ajudei... Por que você... Não me deixa acreditar?

Sinto braços fortes envolverem meu corpo, abraçando-me fortemente. Nos braços desse desconhecido, choro sem o menor controle, sentindo meu coração doer, como se estivesse se quebrando em meu peito. Esse rapaz... Alexis... Eles parecem estar dispostos a quebrar todas as minhas visões, a corrigir todas as minhas opiniões. É como se eles quisessem me faz desistir de tudo que acredito, de tudo que é importante para mim.

Sinto dedos deslizarem por meu rosto, parando em meu queixo e levantando meu rosto.

- São essas visões, essas ilusões que o impedem de ver a verdade, padre. – o rapaz diz em um tom baixo, quase doloroso. Sem mais sorrir.

- Que verdade? – pergunto, temendo a resposta que posso receber.

- Que o mundo não é como você imagina. – com cuidado, ele seca minhas lágrimas e se afasta alguns passos, caminhando em direção aos quadros pendurados em uma parede.

- Para realmente entender o bem, uma pessoa precisa conhecer o mal. – o rapaz começa a dizer ainda de costas para mim, o olhar parecendo estar fixo nas imagens pintadas – Para reconhecer a beleza da inocência, uma pessoa precisa se deparar com a malícia. E para compreender o valor da redenção, uma pessoa precisa conhecer a dor do pecado.

Permaneço em silêncio, apenas observando. A voz abandonou o tom de cinismo, soando agora como se estivesse afogada em uma amarga dor e uma profunda tristeza. O rapaz passa a mão por uma tela e em seguida observa a poeira que ficou em seus dedos.

- Do pó ao pó. – o rapaz continua – Não é o que dizem?

- Deus, considero me, culpa in nomine dono mihi persessum satisfacti. – respiro fundo, não sabendo exatamente por que digo essas palavras – Pulveribus pulverem pulveribus fieri. Cineribus cineram fieri. Terrae terram fierei. Amém. ¹

- Amém. – o rapaz repete e se vira, sorrindo para mim – Diga, padre, você acha que pessoas como nós irão para o Céu um dia?

- Pessoas como nós? – pergunto, não entendendo a que tipo de pessoa ele se refere.

- Vampiros. – o sorriso volta aos lábios vermelhos e, pela primeira vez, noto os longos caninos que o desconhecido possui – Pecadores. Você acha que Deus pode perdoar nossas faltas e nos aceitar em Seu reino?

- Eu... – começo, mas paro, lembrando-me do que passei na capela. A cruz que parecia sangrar, os gritos de meus antigos companheiros. Toco meu olho esquerdo. O fogo, o julgamento, a punição.

Levanto o olhar e me assusto ao perceber o quão próximo de mim o rapaz está. As íris douradas brilham, parecendo pedir, implorar por algo. O rapaz toca meu rosto, as mãos espalmadas nas laterais da minha face, obrigando-me a olhá-lo.

- Esqueça o que você aprendeu. – ele sussurra – Esqueça o que já te falaram, as histórias que já contaram. Esqueça o que leu. Diga-me apenas no que você acredita, do fundo do seu coração. – uma pausa – Amadeus, conte-me no que sua alma acredita.

Respiro fundo antes de responder:

- Acredito que qualquer pecado pode ser perdoado por Deus, desde que aquele que o cometeu se arrependa verdadeiramente. – digo e a cada palavra, sinto-me estranho. Elas deixam minha boca naturalmente, não penso, apenas digo. Sinto que responder a pergunta desse rapaz é algo absurdamente natural.

- Por quê? – ao ouvir a nova pergunta, toco a face do rapaz, sentindo a pele macia sob meus dedos. Ele parece tão desesperado...

- Porque Deus é Pai e a ama a todos os Seus filhos independentemente dos erros que eles podem cometer.

- Você é um pecador, Amadeus? – a pergunta me pega de surpresa.

- Sim.

- Acha que Deus pode te perdoar?

- Eu rezo para que Ele me perdoe.

O rapaz ri levemente e se afasta alguns passos.

- Alexis tinha razão. – ele diz – Sua fé é linda, padre.

Respiro fundo, a menção do nome de Alexis me faz querer perguntar sobre ela, já que esse rapaz parece conhecê-la, mas outros pensamentos tomam conta da minha mente. Alexis tinha razão. Eu fiquei tão preso ao que eu fiz, que esqueci quem eu sou. Só que não sou um vampiro como ela disse, sou um dos muitos filhos de Deus que, no momento, caminha pela escuridão em busca da trilha da redenção.

- Acredito... – começo, atraindo a atenção do rapaz – Que temos uma chance de irmos para o Céu.

- Eu também acredito, padre. – ele diz, voltando a olhar para o quadro pendurado na parede.

Curioso, aproximo-me e levo um susto ao ver o que foi pintado na tela. Uma imagem de dois jovens, abraçados e sorrindo. Alexis e esse rapaz.

- Alexis também quer acreditar. – viro-me para o rapaz quando ele começa a falar – Mas ela sabe que, para ter uma chance de ser perdoada por Deus, ela precisa ser perdoada por aquele que ela machucou. Para conseguir sua redenção, Alexis precisa de seu pecado.

- Quem ela amou... – comento em um sussurro.

- Ele é pecado. E, pelo que Alexis me disse, você é a redenção. – assinto lentamente – Mas como você pode aceitar ser a redenção se não conhece o pecado?

- Ela disse que o amou e por isso o machucou. – respondo.

- Sim, mas você sabe por que ela o amou? – um sorriso – Amar foi apenas um dos motivos que levaram Alexis a machucá-lo. Eu sei que você quer ajudá-la, padre, mas não pode fazer isso sem antes conhecê-la.

Fico em silêncio, sem saber o que dizer. O rapaz abaixa o rosto e se afasta, sentando-se no banco próximo a janela.

- Quer que eu te conte a verdade sobre Alexis? – ele pergunta, olhando pela janela aberta, esticando a mão e deixando que o sol toque sua pele, sem machucá-la. Como? Por que ele não se queima como eu? – Venha aqui, padre. – ele ergue a outra mão, oferecendo-a como um convite.

Aproximo-me e ele segura minha mão, levando-a até onde está o sol. Tremo, temendo e antecipando a dor de ser queimado, mas, ao contrário do que esperava, o sol não me machuca. Sinto apenas o calor dos raios solares esquentado minha pele, um calor suave, quase carinhoso. Olho para o rapaz, silenciosamente perguntando o que aconteceu.

- Você se descobriu. – ele diz – Descobriu sua verdadeira natureza, quem você realmente é. A luz não o renega mais porque você não se renega mais.

Não digo nada, fico apenas observando a luz do sol brincando sobre minha pele.

- A verdade sobre Alexis. – o rapaz diz – Você quer saber?

Olho para ele, percebendo que a luz do sol parece sumir nas íris douradas, como se fosse absorvida e transformada no ouro que pinta esses olhos.

- Quem é você? – pergunto, sentando-me ao lado dele.

Ele sorri, o mesmo sorriso de antes. Prazer e sadismo em lábios vermelhos.

- Sou Ludwig de Illus. – ele responde – Irmão mais novo de Alexis de Illus.

Notas finais
¹Deus, considero me (...): Do latim, "Deus, perdoe-me por meu pecado e me conceda a sorte de me penitenciar. Do pó ao pó. Das cinzas às cinzas. Da terra à terra. Amém." Retirado do mangá Trinity Blood de Sunao Yoshida, Kiyo Kyujyo e Thores Shibamoto, volume 6, Act. 21 "Daijo-bu, my friend", p.32.