Doce Mentira
3 O Fim Se Aproxima...
Notas iniciais
Meus olhos se abriram em meio a umbra, eu levantei-me irado e soquei a parede com toda a minha força enquanto gritava:
–Droga!!!!
Eu simplesmente não conseguia dormir, era um absurdo. E o motivo disso tudo era o que mais me irritava, uma estúpida ideia. Quanta futilidade. Eu já havia perdido um dia escolar na tentativa de exterminar esses pesadelos, mas isso mostrou-se inútil. Eu me levantei no meio da noite novamente e me dirigi para o meu carro. Com muita pressa, eu ia derrubando vários objetos durante o caminho sem me importar.
Quando lá cheguei, eu falei enervado:
–Carro, me leve até a farmácia mais próxima, preciso comprar alguns medicamentos...
–Poderia ser mais específico, senhor?
–Preciso de calmantes...calmantes fortes...
O automóvel apenas seguiu minhas ordens sem questionar e no instante seguinte, eu estava na frente da farmácia. Eu me aproximei da máquina que fazia as vendas e pedi:
–Eu quero alguns calmantes...bem fortes de preferência...
A máquina analisou meu rosto e perguntou:
–O senhor tem permissão para comprar estes medicamentos?
–Claro...se quiser pode conferir... -Respondi inquieto.
E assim a máquina o fez. Ela utilizou reconhecimento facial para adquirir várias informações sobre mim, inclusive os produtos que minha família me permitia comprar. E alguns segundos depois, ela me entregou os medicamentos e seguiu seu protocolo:
–Muito obrigado pela aquisição, volte sempre!
Eu segui para o carro e ordenei que ele me levasse para casa. Ao chegar nem casa, eu rapidamente ingeri aqueles remédios e esperei eles fazerem efeitos. Minha visão foi se escurecendo com o tempo, minha mente foi se esvaziando, meu corpo foi parando de responder aos meus comandos e minha consciência se esvaiu.
Quando eu abri meus olhos estava numa sala branca e vazia. Havia apenas uma porta, uma cama e uma pessoa. A pessoa deitada na cama de lençóis tão brancos, que eram quase transparentes, estava com dezenas de máquinas conectadas a seu corpo. Seu corpo magro e desnutrido indicava que ele estava nessa situação há um bom tempo...
Mas a situação a sua volta era impecável e todos os dias alguém vinha visita-lo, ele era amado por muitos. O tempo passava, e seu quarto ia se enchendo de mais e mais presentes. Flores, cartões e até mesmo alguns jogos, presumo que ele seja um garoto. Não era possível saber seu gênero devido a sua situação.
Algumas vezes alguém aparecia e chorava, dizendo que era difícil viver sem ele. Outras, alguém contava alguns eventos que haviam acontecido e esperava que ele respondesse. Mas no final, eu acho que eles já haviam perdido a esperança. No final, eles sabiam que aquela pessoa não iria mais acordar. No final, aquela pessoa nunca mais seria a mesma...
E o final chegou. A família desistiu e os médicos iriam desligar as máquinas. Uma mulher aproximou-se de seus ouvidos e sussurrou tristemente:
–Bons sonhos...Anderson...
Meu coração começou a bater mais rápido...minha mente começou a se despedaçar e minha respiração começou a ficar extremamente pesada. Meus olhos se abriram novamente, eu coloquei as mãos em meus braços verificando a minha situação e rapidamente acendi as luzes. Foi só um sonho...Aquilo não passava de um sonho...mas será mesmo? Será mesmo que não sou o garoto na cama? Será mesmo que esse não é o meu sonho?
O calmante realmente fez efeito, até mesmo mais rápido do que eu esperava. Eu finalmente tinha conseguido dormir mas...eu não me sentia realmente feliz. Os pesadelos tornavam a realidade cada vez mais irreal. Haverá de chegar o dia em que eu não saberei distingui-las e nesse dia eu direi adeus para a minha sanidade, se é que ela ainda existe...
Eu fiquei cerca de dez minutos observando cada mísero detalhe de meu quarto tentando confirmar que dessa vez eu não estava sonhando. Eu apalpava todos os objetos, sentia seus cheiros, até mesmo sentia o sabor de alguns. Minhas mãos tremiam sem parar e o sol lá fora começa a se mostrar. Eu troquei de roupa e me preparei para ir para a escola.
Tudo decorreu como o normal até um certo ponto. Ao descer do meu carro na porta da escola, eu resolvi ver um site de notícias e me deparei com a seguinte notícia:
–Kaile Marthus Brakmar foi um homem extremamente rico que juntou uma fortuna imensa. Este acabou por falecer ontem, e toda a sua herança foi adquirida pelo seu único filho. O estranho era que no meio dessa herança estava uma chave feita de ouro puro. Depois de muito pesquisar, o jovem acabou por descobrir um cofre gigantesco e impenetrável no porão de sua casa. Ninguém sabe o que está dentro do cofre mas este jovem acha que a chave em sua herança se refere a isso.
Eu não me impressionei muito, afinal de contas, pessoas ricas são as mais suscetíveis a morte. Segui em frente sem me preocupar com isso. Quase sempre eu chegava na escola sozinho mas isso se devia ao fato de todos já lá estarem. Mas hoje não encontrei ninguém no caminho por ter chegado muito cedo. Me sentei na porta da escola e esperei o tempo passar...
Estava realmente cansado, várias noites sem conseguir dormir direito já haviam se acumulado. Meu olhos imploravam por sono mas meu cérebro recusava ser torturado novamente. É nesses momentos em que eu penso que a realidade é tão irreal quanto a fantasia. No final tudo se resume ao que você decidir acreditar... Isso é o que me assusta...
Enquanto minha mente vagava em busca de uma resposta consistente, meu corpo foi perturbado por uma voz:
–Ei, terra para Anderson! -Exclamou Christian. -Você está viajando ai já tem um bom tempo...
–Bem que eu achei estranho ele chegar cedo...deve estar doente... -Sussurrou Daniel.
–Eu consigo escutar... -Retruquei me levantando. -Estava pensando em umas coisas...
É tão estranho, eu me sinto melhor perto desses retardados. Talvez a minha realidade se resuma aos meus amigos, eu poderia parar com essa busca louca por aqui e aceitar essa resposta. Mas não me sinto satisfeito, quero continuar buscando por uma resposta melhor. Enquanto pensava, nós seguimos para a sala de aula.
O professor demorou alguns minutos para chegar e por isso nós continuamos a conversar:
–Vocês viram as notícias? -Perguntou Daniel. -Aquilo do velho que morreu e deixou uma fortuna, e no meio disso havia uma chave feita de ouro pura!
–Eu vi! -Respondeu Christian. -Eles também acharam um cofre no porão da casa! Eles disseram que provavelmente só o velho sabia o que tinha dentro do cofre, o que significa que ninguém mais sabe!
Senti algo penetrar meu coração, me levantei afobado e perguntei rapidamente para Christian:
–O que você acabou de dizer?
–Que ninguém sabe o que tem dentro do cofre, eu sei, é bem empolgante! -Sorriu ele.
Sim, extremamente empolgante, um lugar onde ninguém vivo jamais explorou. Seguindo a lógica de que isso é um sonho e ninguém sabe o que tem lá dentro, então não haverá nada lá. Essa será a prova definitiva:
–O enterro do velho será daqui sete dias e seu filho disse que só abrirá o cofre nesse dia. -Continuou Christian. -Ah, como eu queria estar lá...
–Perfeito, tenho sete dias para conseguir entrar naquele cofre... -Pensei eu.
Apenas assisti o resto das aulas daquele dia apenas esperando para poder chegar em casa. Precisava começar a me preparar...
O tempo passou e eu continuei tentando entrar no cofre mas isso se mostrou extremamente difícil. O cofre estava localizado em algum lugar no porão da mansão Brakmar. A mansão estava rodeada de seguranças durante o dia e noite. Entrar era impossível mas haveria um dia que essa casa aceitaria visitas, no dia do funeral. No dia em que o velho seria enterrado no cemitério que ficava no fundo da casa, nesse dia várias pessoas se despedirão dele.
E eu darei de dar um jeito de estar lá. Depois de gastar muito tempo e dinheiro, eu estava pronto. O resto foi só esperar o dia chegar. O tempo não passava e minha impaciência começou a me consumir. Passava os dias inteiros esperam a noite, e as noites inteiras esperando os próximos dias. Num desses dias, eu me olhei no espelho e vi outra pessoa. Estava tão focado naquilo que tinha até emagrecido.
Era frustrante de certa forma, estava me esforçando tanto mas sequer sabia o motivo...tudo isso tinha nascido de uma simples ideia. Que inesperado. Mas no momento em que eu parei de me preocupar com o tempo, ele avançou. Aquele dia finalmente chegou. Coloquei o terno que eu havia gastado todas as minhas economias para comprar e me preparei para aceitar todos os resultados:
–Hoje...isso acaba...
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