Doce Loucura
15 Link vs Zelda! Decisões difíceis e Uma Música ao Luar
Notas iniciais
As mãos de Link tremiam, e ele suava frio como nunca havia feito antes de combate algum. Mas não era medo de ser derrotado, de perder a luta... Era medo de perdê-la.
Como ele poderia atravessar a espada no peito de alguém que ele queria proteger? E mais: qual seria o sentido disso?
Os olhos cor de sangue pareciam
ver o mundo a sua frente, mas sem enxergar.
–Princesa... O que ele fez com você? — A voz rouca denunciou a vontade de chorar que o Herói do Tempo tentava negar a si mesmo.
–Ele? Ele quem? O que está falando, meu lindo?! – Zelda fazia gestos dissimulados.
‘‘Talvez se eu..’’
–Sou eu, Link. Não me reco...
–IAAAH!- Rápida como um raio, a princesa me atacou, quase cortando minha cabeça fora com a adaga direita. Desviei e começamos uma sequência de golpes, e em minhas tentativas de não machucá-la, acabei sendo ferido algumas vezes.
–Ahh! A dança do amor! Queria dançar até anoitecer!
‘’Claramente, essa não é minha Zelda. Quero dizer, o corpo deve ser, mas a personalidade... Será que ela ainda está aí?’’ – Link se torturava mentalmente, tentando se agarrar à possibilidade de que ainda restasse um pouco de quem ele amava ali dentro.
Com um só movimento, a Master Sword do loiro lançou uma das adagas de Zelda até o canto da arena. Ele se aproveitou disso para derrubar a morena, segurando-a nos pulsos, para depois apertá-la contra o solo.
–Você sabe que eu sou incapaz de te ferir, não importa o que aconteça. Então, por favor, tente controlar seu corpo, Zelda!
–FRACO! – Ela gritou, libertando uma das mãos. O loiro a segurou, mas antes disso ela fez um risco horizontal de uma bochecha à outra, passando por cima do nariz com a adaga restante.
–Sou mesmo fraco quando se trata de você. – o sangue escorria e gotejava até o rosto de Zelda, que não se importava nem um pouco.
–Não se lembra mesmo de mim?
–Link, aquele que devo matar lenta e dolorosamente.
–Não.- O rosto do hylian se aproximou do dela, os olhos atravessando-a até a alma. – Sou aquele que passou muitas coisas contigo. Te protegi, assim como você me protegeu. Te fiz promessas... Disse que íamos ficar juntos quando tudo isso acabasse, e também quero casar com você. Não sou o Link que você deve matar, sou o Link que te ama cegamente.
E então, ele ouviu alguns suspiros abafados.
–Sente... Mesmo tudo isso? –As lágrimas brotavam apenas do olho direito, que agora estava azul.
–ZELDA!
–Link...- Ele diminuiu a força que colocava nos pulsos dela. – Não, não! Não faça isso, ainda tem algo no meu corpo... Eu me odeio por ter que te pedir as coisas mais inimagináveis que existem, mas você só pode fazer duas coisas.
–O que?!
Ela tremeu e fechou os olhos com força, e parecia estar sentindo muita dor. Mas os abriu novamente, com muita falta de ar.
–Me mate...
–Não me peça algo que eu não consigo fazer. – O loiro sentiu um gosto amargo inundar sua boca.
–Então...- A princesa respirou descompassadamente. – Mate meu... Pai.
Muitas coisas passavam pela cabeça do jovem guerreiro.
–Você vai me odiar pra sempre se eu fizer isso. Mesmo sendo do jeito que é, ele ainda é seu pai.
–Você já sabe... Para derrotar uma marionete, você deve acabar com quem a controla. Vai doer bastante em mim também, mas isso é culpa dele, não sua, então não precisa se sentir mal... Por favor... Eu já não estou sentindo suas mãos me segurando. – Ela olhou para ele só mais uma vez, depois abaixou a cabeça. – A escuridão me puxa...
Link encostou sua testa na de Zelda, a dor do dever perfurando seu coração.
–Vou fazer isso por você. Mesmo que nunca olhe para mim depois, eu quero que volte ao normal.
‘‘Como vou segurá-la aqui e chegar até o Rei ao mesmo tempo..?’’ – O hylian pensou, e então uma ideia louca o atingiu de repente. – ‘‘Talvez não dê certo, mas tenho um pressentimento de que é o que devo fazer. E não tenho nenhum plano B, de qualquer modo.’’
Link fechou seus olhos, se concentrou em seu interior, naquela profundeza escura que habita a mente quando não se enxerga nada. Apertou as mãos com força e então abriu os olhos.
Observou sua sombra e a fez se mover, naturalmente, como se sempre soubesse fazer aquilo. A sombra chegou até Zelda, ainda desacordada, e se enrolou em seu tronco, imobilizando-a. Link pensou ter visto olhos vermelhos na sombra, e talvez um tenha piscado para ele, mas não tinha tanta certeza.
Ele correu o mais rápido que pôde até as grades da arena, ficando frente a frente com o Rei.
–Hah! As grades estão enfeitiçadas. Só abrem com magia. Termine a luta, estou apreciando bastante.
Link tentou cortá-las com sua Master Sword, mas sem grandes avanços. A raiva o inundava. E foi então que percebeu alguém se aproximar furtivamente por trás do Rei.
''IMPA!’’
A dona dos cabelos prateados curvou o canto dos lábios em um sorriso astuto, e com um movimento leve de mão, fez as grades que o distanciavam de seu alvo desaparecerem.
–Mas como?!- o Rei gritou, e quando se virou para avistar Impa, a Master Sword atravessou seu pescoço.
–Hora de pagar por seus pegados. Ninguém faz isso com a própria filha e sai impune.- Link puxou sua espada com força, e o sangue jorrou abundantemente. – Mas não precisa se preocupar, vou cuidar bem dela.
O Rei tossia muito, mas não conseguiu articular nenhuma palavra. Suas cordas vocais deviam ter sido destruídas.
–Requiescat in pace. – Link sussurrou, deixando o corpo para trás. Sentia nojo de si mesmo. Preferiu nem observar os olhos daquele que acabara de matar. Ele precisava ver como Zelda estava.
(---)
Algumas horas após o ‘‘incidente’’, o Castelo de Hyrule parecia livre daquela aura insana. Link estava sentado em um sofá, em uma sala ampla e clara, enquanto Impa fazia um relatório de tudo.
–O corpo do Rei já foi enterrado em um túmulo aqui nas proximidades, com todas as devidas especificações.
–Mas não deviam colocar seu corpo no cemitério de Kakariko Village, junto com os outros membros da família real?
–Depois do que ele fez, não merecia ser enterrado lá. Melhor do que jogar seu cadáver em uma vala qualquer. Foi um fim nobre para alguém tão terrível...
O hylian suspirou profundamente, mas não disse nada.
–Já limpamos todo o terraço, e Zelda está se recuperando em seu quarto.- Impa prosseguiu.- Mas tem algo que precisa ser discutido imediatamente, mesmo que eu não queira o incomodar com isso.
–O que é?- Link suspendeu os olhos azuis.
–Quem será o novo rei? – A expressão dela estava séria.
–Não sei.- Ele deu de ombros. – Acho que devemos esperar a princesa acordar antes de decidir qualquer coisa.
–Sim, sim... Mas antes disso, já vou ser bem direta. Acho que deveria ser você. Link, você já salvou Hyrule incontáveis vezes, é inacreditavelmente corajoso, parece ter um bom coração. É o rei que Hyrule precisa.
O loiro ficou pensativo por um momento, coçou a cabeça, sorrindo.
–Acha mesmo? Não sei se eu levo jeito pra isso... Nem se a Zelda aceitaria.
–Aceitaria sim. – a princesa sorriu, encostada no parapeito da porta.
–Há quanto tempo está aí? – Link perguntou, levantando-se e indo até ela.
–Faz um tempo. Me desculpem. Ouvi boa parte da conversa, não queria atrapalhar.
O loiro a amparou em seus braços.
–Você ainda está muito fraca, não deveria ter se levantado. –Link falou em tom autoritário, mas a preocupação em sua voz era palpável.
–Eu sei... É só que eu acordei e não consegui mais pegar no sono.
Link a abraçou com mais força, de maneira protetora, mas sem olhá-la nos olhos.
–E então, estão prontos para assumir o trono, Rei Link, Rainha Zelda?
A loira puxou o rosto de Link para que pudesse o confrontar com o olhar. Entrelaçaram os dedos e se observaram por um bom tempo.
–Acho melhor pensarmos um pouco. Tudo aconteceu muito rápido. – Zelda disse por fim. -Mas se a resposta for sim, precisamos de você ao nosso lado, Impa.
–Eu estarei! Agora vou deixá-los a sós. Reflitam bastante. – A sheikah de olhos escarlates saiu com um sorriso misterioso.
Link enterrou seu rosto nos fios loiros de Zelda.
–Seu cabelo... Eu prefiro você loira.- Ele suspirou, apertando-a com força contra o peito.- Eu pensei que não ia conseguir te proteger, que iríamos morrer lá.
–Link... Eu fico tão feliz que você esteja bem, aqui e comigo. — Ela começou a soluçar.
– Estamos juntos, isso é o que importa agora. É hora de voltar pra cama, minha princesa. Vou deitar com você para espantar seus pesadelos e te ajudar a dormir.
O Herói do Tempo levou Zelda nos braços até seu quarto e a colocou na cama com cuidado. Depois, se deitou ao seu lado.
–Está muito calada. O que foi? – Link contornava as olheiras da loira com a ponta dos dedos. – Você está... Com raiva de mim? Sente nojo ao me olhar, depois de me ver fazendo aquelas coisas na arena?
–Claro que não.- os olhos azuis faiscavam. – Você que desvia seu olhar sem parar. Eu te pedi para fazer aquilo. Os sentimentos deveriam estar invertidos: era para você me odiar.
Link a abraçou, colocando o rosto na curva do pescoço da loira.
–Você visitaria o túmulo dele comigo...? Apesar de ter sido um homem tão deturpado, era meu pai. Depois disso, acho que posso dormir com o coração tranquilo.
–Agora?
–Bem... Se não se importar.
Link caminhou lentamente com a princesa encostada em seu ombro e o braço ao redor da sua cintura esguia, até chegarem ao lugar onde o rei estava sepultado, nos limites do jardim dos fundos do castelo.
O túmulo era feito de mármore bem firme, e a luz da lua criava sombras suaves, fazendo ele ficar realmente bonito.
Zelda se ajoelhou para rezar. O loiro apenas observava com o coração apertado. Como ela dissera, apesar de tudo, era seu pai. Mesmo não sabendo como era ter um pai, Link já havia imaginado várias vezes, e perdê-lo não devia ser nada bom.
Soluços ecoaram pela noite, a lua cheia iluminava a cena. A ocarina pareceu pesar o bolso do herói. Ele mal se deu conta de que pegara, e naturalmente começou a tocar uma melodia: Requiem of Spirit.
A princesa deixou seus sentimentos transbordarem e chorou bastante, até Link tirar o instrumento dos lábios e abraçá-la.
– Hyrule precisa de um rei bom, sábio. A história não pode se repetir.– a princesa soluçava baixinho entre as palavras, mas parecia ter extravasado boa parte de sua tristeza. – Acha que podemos fazer isso, Link?
–Sim. – A resposta foi calma, porém firme.
Um sorriso se formou nos lábios de Zelda, e seus olhos pareciam refletir uma luz nova.
–Vamos conseguir trazer paz ao reino. E agora podemos ficar juntos, enfim.
–Enfim.
Link emendou a palavra com um beijo. A imensidão branca e preta da noite parecia emoldurar perfeitamente aquele momento, aquele pequeno período de paz após tão longo sofrimento. Aquilo valia demais.
–Vamos voltar para o quarto. Você tem que descansar, mocinha! Amanhã vai ser o dia.
Ele fez menção de pegá-la no colo, mas Zelda o afastou.
–Eu consigo andar sozinha. Você vai acabar me tornando uma rainha mimada.
–Você não muda mesmo!
Ele agarrou-a, enquanto ela resistia inutilmente.
–Me solta! Argh! Já entendi que você é forte, mas não precisa fazer isso!
–Me obrigue a te soltar, princesa. – Um sorriso maquiavélico brotou no rosto do jovem.
Depois de muita luta por parte de Zelda, e quase nenhum esforço por parte de Link, eles chegaram ao quarto.
Qual não foi a surpresa dos dois ao dar de cara com alguém (alguém..?!) que não viam há tanto tempo?
–NAVI?! –Os dois exclamaram ao mesmo tempo.
–Tinham se esquecido de mim, não, bastardos? Até meu companheiro de aventuras, Link...? – Navi flutuava sobre a cama.
–N.n...não! Imagine, Navi! Eu nunca me esqueceria de você! Só estava um pouco... Ocupado.
‘‘Pelas galinhas demoníacas de Kakariko Village, tínhamos esquecido ela.’’ – Link e Zelda compartilharam um olhar culpado.
–Ah. Não importa, sei que é mentira. A verdade é que também posso ter esquecido um pouquinho de vocês... Queria... É... Apresentar alguém...
Se for possível que fadas fiquem coradas, assim estaria Navi.
–Este é Tael. O conheci enquanto voava por aí.
Só então os dois notaram que ao lado de Navi estava uma fada que emitia um brilho roxo bem escuro.
–Tael? Sinto que te conheço de algum lugar... Mas, hm, prazer.
Eles fizeram uma mesura, e Tael apenas respondeu:
–Prazer.
A conversa foi bem rápida, porque Navi e Tael (obviamente seu namorado, segundo as observações de Link e Zelda) perceberam que a princesa estava com muito sono. No final, eles apenas se autoconvidaram para a festa de coroação (de cuja existência Link nem sabia) e se despediram.
Pelo visto era o fim de vários Hey, Listen! na cabeça de Link todo dia, agora que Navi tinha Tael e Link tinha Zelda. Ou será que não?
Mas algo era certo: o sol traria consigo um dia nada tranquilo.
Fale com o autor