Doce Felicidade
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Doce Felicidade
Por Rebeca
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A felicidade é como usar botas apertadas e depois tirá-las para por os pés em água quente.-Machado de Assis
Por que mesmo não fui ao banheiro antes de ir pegar o ônibus? Porque sou uma anta! Assim que acabou meu trampo, eu corri para poder pegar o vermelhão que só passa de uma em uma hora. Sai do serviço em cima da hora e mais um pouco que me atrasasse, eu perderia o ônibus. Foi por causa desse meu desespero de chegar em casa logo que não fui ao banheiro na lanchonete. Achei que não fosse demorar muito para poder colocar meus pés para cima no meu sofá, enquanto assisto a novela das oito. Entretanto, como a tal lei de Murphyn... Não, espera. O nome não é esse. É lei de Murphys... Não, não. Como que minha avó falava para mim? Ah é. Lembrei! Então, voltando a minha linha de raciocínio. Como a lei de Murphy me adora, tudo o que tinha que dar errado, deu errado!
O ônibus nesse momento está lotado e devido a isso que me encontro em pé, segurando para não cair e procurando respirar pela boca para não inspirar esse maldito cheiro azedo de sovaco que não viu um bom desodorante. Não vou dizer que não tem como ficar pior, porque sempre tem como ficar pior. Maldita seja essa lei de Murphy! Dentro desse ônibus, me sinto como uma sardinha, de tão espremida que estou. O trânsito não colabora comigo. Tudo está parado em um verdadeiro caos. Aposto dez reais que um motorista filho de uma boa mãe não respeitou aqueles sinais engraçados das placas brancas e acabou causando um acidente. E por causa de tudo isso, eu estou aqui, louca para ir ao banheiro. Minha bexiga parece que vai explodir a qualquer momento. Achei que fosse conseguir segurar, mas a coisa está feia.
Tento me distrair, mas a vontade de fazer xixi só aumenta. Se eu me molhar por causa dessa maldita lei de Murphy, juro que vou lá no pai Zé – um pai de santo dos fortes – e mando fazer uma boa macumba pra esse senhor seu Murphy. Se ele estiver morto, então a praga vai pegar para seus filhos, netos, bisnetos, tataranetos e por ai vai. Começo a me desesperar, aperto as minhas pernas uma contra outra e fico observando o trânsito que não anda. Sinto o suor descer frio pelo meu rosto. Ai meu Deus! Me ajude antes que eu não aguente mais segurar e o xixi vaze pelas minhas pernas! Subitamente, o ônibus começa a andar vagarosamente e eu posso sentir uma pontada de alivio dentro de mim. Olhei através da janela as ruas para ver se era mesmo algum cretino irresponsável que avacalhou o trânsito. E realmente era! Um motoqueiro foi atropelado por um carro. Se o povo brasileiro fosse mais consciente, eu não estaria apertada e desesperada para chegar na minha humilde casa.
O ônibus consegue sair da bagunça, pegando sua trajetória de sempre que vai pelo bairro, graças a Deus! Agora é só contar os minutos para finalmente poder usar o meu banheiro. Coloco então meus fones de ouvido e fico perdida com Jorge e Mateus, cantando mentalmente junto com eles. Dessa forma, o tempo passa voando e quando vejo já estou próxima do ponto de parada em que desço. Dou o sinal, agradecendo a Deus e prometendo lhe fazer uma boa reza amanhã à missa das seis. Assim que o ônibus para e abre a porta traseira, eu desço dele e saio correndo para casa, louca para ir ao banheiro. Abro o portão o mais rápido possível e nem me dou ao trabalho de trancá-lo, pois todo o segundo é muito importante e necessário para mim. Abro a porta dos fundos e adentro a casa, corro desembalada para o banheiro e assim que entro nele, tranco a porta, retiro logo minhas calças e assento no vaso sanitário.
Nunca me senti tão aliviada em toda a minha vida! Isso sim é felicidade! E que felicidade agradável! Dá até para sentir seu doce gosto. Murphy, não foi dessa vez que me pegou, tente na próxima.
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