Do you remember me?
41 Dias de convivência
Notas iniciais
– Você precisa comer Freed.
Segurando uma colher com sopa, Laxus a levava na direção da minha boca e eu desviava de sua direção, o deixando irritado. Sabia que normalmente ele apertaria minha boca e viraria toda a sopa que estava na tigela dentro da minha boca, mas eu não queria comer. Eu queria ir embora.
– Vamos, coma logo! Está parecendo uma criança!!! — ele gritou, forçando a colher na minha boca. Cerrei os lábios e isso fez com que todo o conteúdo da colher escorresse do meu queixo para o meu peito, me queimando.
Afobado, comecei a passar a mão onde estava o caldo, fazendo uma sujeira ainda maior. Impaciente, Laxus foi até uma cômoda e trouxe uma fronha branca de travesseiro, usando-a para me limpar. Parecia um irmão mais velho cuidando de um irmão menor, mas não éramos irmãos. Em dois dias eu via Laxus como um criminoso, um sequestrador.
– Me deixa ir ... por favor Laxus! — supliquei mais uma vez, como fizera nos últimos dois dias, mas ele continuou a passar a fronha no meu rosto, fingindo não me ouvir. — Eu farei tudo o que puder para lhe pagar, mas por favor... me deixe ir!
Soluços escaparam da minha boca, acompanhado de lágrimas. Chorar e implorar. Nos últimos dois dias foi tudo o que fiz, chegando ao ponto de não conseguir dormir a noite. A fome se fora, alegria, qualquer coisa. Eu me sentia e era um cativo. Não vira ninguém além de Laxus nos últimos dois dias e a ideia de que eu nunca veria mais ninguém além dele me enlouquecia.
Em silêncio ele me observou enquanto eu chorava e dando um suspiro, passou a mão entre meus cabelos como um dono acaricia um cachorro. Eu soluçava, abraçando meus próprios braços, me condenando por ter deixado que ele entrasse em minha casa e gritando por socorro em pensamento.
– Eu juro, eu irei lhe pagar, mesmo que isso custe a minha vida, mas por favor... me deixe ir embora.
– Não há meios disso acontecer Freed. Mesmo que venda seus órgãos jamais conseguiria esse valor e além do mais você não está aqui por causa da sua dívida.
A voz dele estava inalterável, como se fosse uma simples conversa. Suas mãos grandes bagunçaram meu cabelo numa tentativa de me consolar, o que não resolveu muito. Solucei um pouco, antes de segurar sua mão, apertando-a antes de empurrá-la de mim.
– Não toque em mim! Eu não quero suas mãos nojentas em mim! — gritei, antes de pegar a tigela de comida e jogar em sua direção. Laxus desviou e em seguida me empurrou na cama. Tentei me levantar, mas ele segurou meus pulsos com uma mão enquanto e apenas me observou enquanto eu me contorcia.
– Eu não quero te machucar ... e não me obrigue a isso! – sua voz demonstrava impaciência, nervosismo.
Por alguns segundos, tentei me debater, mas Laxus me segurou com uma expressão séria, até eu perceber que não tinha como escapar naquele momento. Meu rosto, já vermelho e inchado de tanto chorar, parecia estar em brasas. Meu coração batia forte, mas parecia pesado. Na verdade, todo o meu corpo parecia ter um enorme peso sobre ele. Um peso que fazia com que um gosto horrível subisse à minha boca.
Quando me acalmei, Laxus por fim me largou no quarto, durante horas. Inquieto, eu me virava na cama, me perguntando se Dave já sentira minha falta e estava me procurando. Me perguntava muitas coisas. Como seria minha vida, se Laxus iria me soltar, se meu coração iria aguentar tanta bagunça e mais sofrimento.
Com dores nas pernas, fiquei de pé e cambaleei pelo quarto até alcançar uma janela. Por pouco não quebrei o suporte da cortina, tamanha força que eu puxei o tecido para o lado, sentindo meu desespero aumentar quando olhei para fora.
Gradeada com grossas barras, a janela dava vista para o lado de fora da casa. Um quintal pequeno se estendia nas laterais da casa e um muro absurdamente alto mantinha o lugar a "salvo" do lado de fora. Podia ouvir alguns carros passando na rua e a neve caía devagar, deixando quase todo o cenário na cor branca. Eu não estava na minha cidade, sabia disso, mas procurei confirmar indo em outras janelas, olhando uma por uma para tentar entender onde estava, o que não adiantou muito.
Eu não sabia dizer qual era meu maior medo. Laxus me manter daquele jeito o resto da vida, me bater, me estuprar ou até mesmo me descartar quando se cansasse de mim. Dave... como eu queria que ele estivesse comigo e me salvasse daquele pesadelo. Eu chorava cada vez mais e sentia meu corpo se esgotar aos poucos pela recusa de comida e falta de sono.
Encostei a testa no vidro da janela, soluçando. Meu Deus, em que eu havia me metido? O que eu devia fazer? Minhas mãos trêmulas esfregaram meu rosto cansado. Meu coração batia forte, de medo, de desespero.
– Está tudo bem?
Calafrios acompanharam meu pulo de susto e virei o corpo o mais rápido que pude, levando minhas mãos ao peito. Dei alguns passos para trás, parando apenas quando minhas costas bateram contra a janela. Medo. Essa era a palavra perfeita para definir qual sentimento me dominava naquele momento. Eu não conseguia entender suas intenções e só conseguia pensar no pior vindo dele.
– Você está cada vez mais pálido ... você precisa comer. — sem esperar qualquer resposta ou reação da minha parte, Laxus pegou minha mão e me puxou para fora do quarto. Estranhei ao ver a porta aberta e pela primeira vez em dias eu conheci outros cômodos daquela casa.
Laxus sempre foi estranho. Era claro que ele não sabia lidar com outras pessoas e toda aquela história de sequestro era, na verdade, uma tentativa do que ele chamou de "não me perder". Ele queria que eu gostasse dele, mas em vez de conversar comigo sobre o assunto, ele preferiu cortar qualquer contato que eu tivesse com o mundo exterior. Sua intenção era que ele se tornasse o mundo para mim, algo assim. Até hoje não consigo entender o que se passou na cabeça idiota dele.
Me mostrando onde era a mesa de jantar, ele mandou que eu sentasse e obedeci. Laxus era violento e assim como eu sabia que queria fugir, também sabia o que podia acontecer se eu não o agradasse. Quieto, eu prestava atenção em tudo que ele fazia, chegando a assustar quando acontecia algum movimento repentino da parte dele. A falta de sono realmente estava me afetando e eu mal acompanhava a agitação de Laxus que mexia em sacolas com sanduíches e latas de refrigerante. Quando ele por fim terminou de organizar tudo, colocou um sanduíche em um prato e abriu uma lata de refrigerante, antes de colocar ambos na minha frente.
Meus olhos alternaram dele para o sanduíche e levei as mãos até ele. Eu não sentia fome e não queria comer, mas tentei obedecer naquele momento. Deu uma mordida pequena e mastiguei devagar, levantando um pouco a cabeça ao perceber que Laxus não estava me observando. Senti que engolia pedras ao engolir o que mastigara e embrulhei o sanduíche empurrando o prato. Estava frio e esfreguei meus braços, encolhendo as pernas debaixo da mesa.
– Coma tudo Freed. Vou colocar uma sonda de alimentação em você se recusar comida mais uma vez. – ele disse sério.
Cheguei a soluçar, antes de levar as mãos novamente até o prato e pegar o sanduíche. Minha mente chegou a formar a cena de terror em que eu acordava com tubos presos no meu corpo. Ele podia me manter vivo, mesmo que eu tentasse definhar até a morte. Não cheguei a ver que ele sentara à minha frente, enquanto mastigava o sanduíche. Era de atum e tinha um gosto muito forte, algo que eu não estava acostumado. Peguei o refrigerante e levei a boca, estranhando a embalagem depois de beber um pouco. Teria a atenção totalmente tomada por aquilo, se uma frase dita por Laxus não ganhasse em questão de relevância naquele momento.
– Precisamos sair e comprar algumas roupas para você.
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