Do you remember me?
32 Depois
Notas iniciais
As mentiras que ele contava pareciam não ter fim. Ao dar entrada no hospital, justificou minhas feridas como resultado de uma briga de rua e ninguém sequer questionou mais nada. Cheguei ao ponto de esquecer da minha febre, lembrando apenas quando uma enfermeira alertou que minha temperatura estava alta.
Naquilo que a enfermeira chamou de "sorte", não precisei costurar o corte dentro da minha boca e não perdera nenhum dente. Não tinha nenhum costela fraturada, mas havia ocorrido algum trauma em meu maxilar, já que eu mal conseguia abrir a boca. Analgésicos, soro e um calmante foram o suficiente para me dar um descanso do meu medo.
Não sei dizer que horas eram quando acordei. Estava faminto e a febre tinha acabado, mas meu peito e rosto estavam muito doloridos. Arrastei minhas pernas, até poder me sentar, percebendo que eu estava de volta ao apartamento. Receoso, puxei o cobertor para cima de mim, olhando para os lados em busca de Laxus.
Se um cão raivoso estivesse no quarto, ele me atacaria, sem dúvidas. Eu exalava medo e senti meus olhos se encherem de lágrimas ao ver ele sair do banheiro. Com uma toalha enrolada na cintura, ele me olhou com pesar, antes de caminhar para perto de mim. Meu coração galopava no peito e travei minha boca, tentando reter qualquer sinal de sofrimento, porém, não consegui conter as lágrimas.
– Está sentindo dor? — ele questionou e travei por alguns segundos, sem saber se deveria dizer a verdade ou não.
Um soluço escapou da minha boca e lágrimas escorreram por meu rosto. Vendo aquilo, Laxus passou os braços em volta de mim e me puxou para seu peito, me abraçando. Sentado na cama, ele me puxou para seu colo, enquanto uma de suas mãos acariciava minha nuca. Fiquei um tempo abraçado com ele daquela forma, recebendo um beijo na testa quando ele me empurrou de leve. Mesmo ele sendo estranhamente carinhoso naquele momento, eu não conseguia deixar de sentir medo.
– Me desculpe Freed. Eu não sei o que me deu... eu não queria machucar você... me perdoe!
Eu soluçava, enquanto minha cabeça era apertada de leve contra seu peito. Sua mão direita massageava a minha nuca, enquanto a esquerda enlaçava minha cintura. Ficamos um tempo daquela forma, até que Laxus tornou a me dar um beijo na testa e abriu um sorriso sem graça para mim. Me senti uma criança quando ele enxugou minhas lágrimas e jogou minha franja para trás. Percebi com o tempo que ele fazia isso quando queria ser gentil comigo.
– Tenho certeza que está com fome. Vou pedir que tragam algo para você e-
– Eu não quero mais este contrato.
Meu coração batia forte quando o interrompi. Laxus arqueou uma sobrancelha, me olhando sem acreditar no que eu acabara de falar. Levei novamente minhas mãos ao peito. Não sabia como Laxus reagiria com a minha desistência, de forma que o medo me perturbava mais do que a dor em meu maxilar.
– Está desistindo pelo que houve ontem? — ele questionou sem me soltar, limpando algumas lágrimas que escorriam pelo meu rosto.
– N-não... é por tudo que já aconteceu.
Soluços escapavam da minha boca quando ele me soltou. Com medo, arrastei meu corpo para trás até minhas costas batessem de leve contra a cabeceira da cama. Não tinha coragem de olhar para ele naquele momento, de forma que abaixei a cabeça. O medo me aprisionara e sabia que eu não suportaria viver com aquele medo por mais tempo. Foi decisão tomada no impulso, mas eu sabia que era algo que devia ter feito há muito tempo.
– Tem mesmo certeza que quer isso?
Assenti e houve um curto silêncio, antes que escutasse um suspiro pesado dele. Laxus ficou de pé e caminhou em passos pesados até o banheiro, batendo a porta depois entrar. Apertei meu peito ainda mais forte, movendo meu olho esquerdo, o único com que eu podia enxergar, para meu celular na escrivaninha ao lado da cama. Ao desbloqueá-lo, vi várias e várias chamadas perdidas e mensagens de Dave. Tive vontade de ligar para ele, mas falar estava difícil demais. Ignorando todos os seus questionamentos, pedi que ele me buscasse, limitando a dizer que precisava ficar o mais longe possível de Laxus.
Com dificuldade, me levantei da cama, depois de enviar a mensagem. Meu estômago roncava alto, mas comer naquele momento estava fora de cogitação. Caminhei até minha mala, jogada em um canto, procurando pelas roupas que estava usando quando aceitei o contrato. Aquelas eram realmente minhas e foram pagas com meu dinheiro. Como estava quebrando o contrato, não queria carregar nada que eu havia comprado com o dinheiro de Laxus. Sequer terminei de me trocar e meu celular começou a tocar. Dave havia visto minha mensagem, mas rejeitei a ligação. Eu não conseguiria conversar com ele sentindo tanta dor na boca e no maxilar.
Terminei de me vestir o mais rápido que pude. Tentava engolir o choro, mas realmente estava difícil. Retirei o chip do smartphone e coloquei de volta no meu humilde e ultrapassado aparelho de abrir e fechar. Arrumei a minha mala, deixando tudo organizado e a fechei. Arrumei a cama, organizando qualquer bagunça que fizera e logo tratei de ir para fora daquele quarto.
Não haveria despedidas e eu realmente não queria continuar ali. Usando o espelho do corredor, coloquei um curativo parecido com um tapa olho no meu olho direito e apertei o botão do elevador. Meu celular tocou novamente e sabendo que Dave não iria sossegar enquanto não falasse comigo, resolvi atender.
– Freed o que aconteceu? Onde você está? Você está bem?
Dave falava muito rápido e eu sequer conseguia falar. Com dificuldade pedi que ele se acalmasse, contendo lágrimas em meus olhos. Droga... eu não conseguia me conter. Me sentia humilhado demais.
– E-eu... quis ter-terminar o-o con...contrato. — disse com dificuldade, tornando a apertar o botão do elevador. Não sabia dizer se Laxus não me arrastaria de volta para dentro.
– Sua voz está estranha. Meu Deus, me diz, onde você está? Eu estou indo te buscar!!
Sequer tive a chance de responder. As portas do elevador se abriram e dentro estavam Yakumo e Evergreen. Segurando mais um urso de pelúcia gigante, Evergreen arregalou os olhos ao olhar para meu rosto. Yakumo fez uma expressão irritada, antes de apontar o dedo para mim.
– Quem fez isso com você?
Dave gritava no celular, chamando Evergreen começou a soluçar e Yakumo me puxou para dentro do elevador, fechando as portas. Apertando o botão do hall do prédio, ela praticamente me colocou contra a parede, antes de me encher de perguntas. Sequer tive a chance de responder e sendo atrevida, ela tomou o celular das minhas mãos, perguntando quem estava falando.
Aquele dia foi bastante doloroso e conturbado. Yakumo começou a conversar com Dave e não me surpreendi ao ver que eles se conheciam. Contou minha situação, alegando que eu estava sendo irresponsável de sair sem sequer saber falar o idioma local ou ter algum dinheiro. Ela confirmou um local para nos encontramos naquela cidade e desligou, alegando que cuidaria de mim e que Dave não precisava se preocupar.
A ligação foi rápida o suficiente para que chegássemos ao Hall com meu telefone desligado. Me puxando pela mão, Yakumo me levou ao seu carro, enquanto Evergreen fazia várias e várias perguntas. Mal conseguia abrir a boca para falar, mas Evergreen parecia não perceber. Irritada, ela dirigiu apressada para uma praça movimentada no centro da cidade e estacionou o carro, trancando as portas quando eu tentei descer. A olhei sem entender e um terrível semblante sério estava estampado em seu rosto.
– Você não sai enquanto não me contar o que aconteceu.
E isso, não era uma opção.
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