Do outro lado da linha
79 Atendimento #079: Educação financeira
Notas iniciais
Atendimento #079: Educação financeira
Gastar é algo que muitos fazem sem necessidade; roupas, utensílios de cozinha, revistas cujo conteúdo presa apenas por atacar o governo, cartas de baralho customizadas, etc. Se você gasta mais da metade do seu salário comprando roupas de qualidade duvidosa, sinto dizer, mas você está fadado a abrir um brechó no futuro…
Nosso herói não têm esse problema, seus gastos se resumem basicamente a; cinema para dois, eventuais reformas na casa e comida. Esse ultimo item era realmente necessário, ele e Amanda eram dois poços sem fundo. Quando chegam em uma churrascaria é uma tristeza para os donos, pois o prejuízo é feio…
— Calculadora financeira não é? — Ezequiel olhava para um catálogo com os melhores rodízios de comida japonesa da cidade, sua saliva escorria tamanha era a suculência do alimento. — Esse produto é raro de aparecer.
— Eu acho que deve ser mesmo, só nós que comprariámos uma calculadora tão cara assim. — Cassimira falara com certa raiva, uma espécie de alfinetada para a empresa que vendia um produto extremamente caro para fazer uma função simples. — Se eu não fosse gestora financeira jamais que eu compraria uma coisa dessas.
— Meus pêsames senhora. — O atendente fechou a revista de alimentos.
— Por que meu pêsames? Acha que é ruim ser gestora financeira? Olha eu não tô falando da sua profissão não ein, respeita minha.
— Não, — interferiu ele blasé. — Eu me referia a ter comprado a caculadora mas beleza. — Nosso herói namoricava a imagem de um temaki. — O que acontece com ela? Quebrou, explodiu ou pegou fogo?
O aparelho realmente podia fazer isso, muita gente não sabia, mas um cliente chegara a perder um olho com a explosão de uma bateria dessas calculadoras. O engraçado desse foi que ele resolveu colocar um tapa olho, uma roupa preta e sair por ai chamando pessoas para sua equipe.
— Não, é só que ela tá meio maluca sabe?
— Ué, como isso pode ser possível? — Exatamente, como? Uma calculadora é algo preciso e que não deixa margem a erro, se algum problema nesse sentido acontecia com ela provavelmente o erro é pela parte do cliente.
— Eu sei lá ué, eu sei que eu to fazendo um cálculo aqui das minhas despesas e ele tá saindo todo errado.
Levando a mão na cara com um tapa, Ezequiel constatou o que acontecia.
— Senhora a senhora é burra ou o que? — indagou ele abismado.
— Dadas as opções eu sou o “oquê” — Cassimira teria xingado a mãe de Ezequiel, mas ela estava vacinada com os atendentes, portanto se controlou.— Como é que vai ser, vai dizer o que houve ou vou ter de ligar pra outra pessoa mais capaz?
— Eu não sei se ligar resolveria, por que o incapaz aqui é a senhora.
— Como ousa.
— Olha só, ela é nobre. — Imitou um tom pomposo como os ingleses. — Senhora eu aposto o que você quiser que esse produto está funcionando perfeitamente. — Olhou para o catálogo, conferiu o DDD da cliente. — Eu vejo que a senhora está na mesma cidade que eu, se eu estiver certo você vai pagar um rodízio de comida japa pra mim e minha esposa, pode ser?
Cassimira tinha plena convicção que estava correta, sabia que seus cálculos eram infalíveis e que o produto tinha de estar com defeito.
— Vocês acham que seus produtos são a coisa mais maravilhosa do mundo não é? Tá bom, vamos fazer assim. Eu aceito, mas se eu vencer você me devolve o que eu paguei nessa calculadora.
Os valores das apostas eram desproporcionais. O jantar de Ezequiel e Amanda custaria apenas cem reais, enquanto a calculadora da cliente fora comprada por trezentos. Era uma aposta perigosa, de fato. Mas se vencesse teria como saciar aquela vontade louca, maluca, quase sexual de comer sushi.
— Então bora vê. — Desafiou o atendente forçando um sotaque nordestino do agreste.
— Comece espertalhão.
— Eu não sou gestor financeiro, mas eu sei que essa calculadora não erra. O que está acontecendo é que a senhora teve gastos não planejados.
— Impossível! Eu sou perfeita na minha organização. — A mulher sentiu a acusação como uma afronta pessoal, era como se escarrassem em seu olho. — Eu vou mostrar pra você que eu tô certa: Ipva, Iptu, Conta de água, luz, telefone e…
— Aham...— O atendente apoiava-se nas mão já se preparando para a catarse da cliente.
— A não…
— Aham. — Sorriu malignamente.
— Nunca mais eu solto o meu cartão na mão da minha filha. — A cliente constatara o erro. — Gabriele! — Gritou ela para a filha. — Por que você comprou quase duzentos reais de cueca box?
Ao fundo o atendente escutou os passos da filha a cliente.
— É melhor e mais confortável que calcinha, — A menina deteve-se a falar quando a mão armou o tapa. — Você que falou pra eu comprar alguma coisa que não ficasse atochada no meu rabo.
— Só um momento senhora. — Ezequiel lançou a revista por cima da divisória das mesas. A ligação permaneceu fora do mute.— Olha ai o que vamos jantar hoje.
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