Do Outro Lado Da Porta

2 🌙Capítulo 1 - A Casa Que Não Parecia Nova


20.12.26 — São Paulo/SP

(everything i wanted — Billie Eilish)

Entro na casa de madeira, com dois andares e flores espalhadas pelo jardim.

Respiro fundo.

O cheiro é estranho — mofo, naftalina... e alguma outra coisa que não sei identificar.

A casa é bonita.

Tem aquele ar de casa de vó... acolhedora demais pra ser completamente confortável.

Ando por ela e encontro a sala de estar: um sofá vintage, estantes organizadas, uma mesinha de centro sobre um tapete delicado e um móvel simples com a TV em cima.

Tudo está limpo demais.

Sem poeira. Sem teias de aranha.

Isso deveria me tranquilizar.

Mas não tranquiliza.

Continuo andando.

A cozinha é grande, com fogão, geladeira, forno, balcões e armários bem organizados. As janelas têm cortinas bordadas, e tudo parece perfeitamente cuidado.

Abro uma porta e encontro a lavanderia.

Uma máquina de lavar, uma de secar, prateleiras, armários e pequenas janelas. Tudo no lugar certo.

Como se alguém ainda cuidasse da casa.

Ou nunca tivesse ido embora.

Saio da cozinha e vejo a sala de jantar.

Uma mesa de madeira linda, com as pernas entalhadas em detalhes delicados, combinando com as cadeiras ao redor.

Subo as escadas, que rangem levemente a cada passo.

No andar de cima, há um corredor com quatro portas.

A primeira, à minha esquerda, é um banheiro simples e limpo.

A segunda é um quarto enorme.

Uma cama de casal de madeira com detalhes entalhados, um armário grande, uma penteadeira... e outra porta.

Abro.

Um banheiro enorme, com box de vidro, prateleiras e armários. Tudo impecável.

Provavelmente o quarto da minha mãe.

Saio e continuo pelo corredor.

No final, um quadro chama minha atenção.

Uma réplica de "Noite Estrelada", de Vincent van Gogh.

Bonito demais pra estar ali... sozinho.

Abro a porta ao lado.

Um escritório.

Mesa simples, cadeira, estantes e armários. Uma porta de vidro leva a uma pequena sacada, com um puff em perfeito estado.

Como se alguém ainda sentasse ali.

Saio e abro a última porta.

Meu quarto.

Menor, mas aconchegante.

Uma cama de solteiro com cabeceira entalhada, uma escrivaninha, um espelho oval com moldura delicada, um armário grande e simples... e um tapete preto no chão.

Tem outra porta.

Abro.

Um banheiro igual ao do outro quarto.

Escuto minha mãe me chamar lá de baixo.

Desço as escadas correndo e saio da casa.

— Filha, pega suas caixas e leva pro seu quarto, por favor?

— Claro, mãe! Depois te ajudo com as outras!

Pego uma das minhas caixas e subo.

Depois outra. E outra.

Repito isso algumas vezes até ficar exausta e suada.

Desço novamente e pego uma caixa da cozinha.

Minha mãe me vê e sorri.

— Filha, pode deixar que eu cuido do resto. Vai tomar um banho e descansar.

— Não, mãe, eu quero te ajudar.

— Pode ir. Eu dou conta.

Concordo.

Ela me dá um beijo na testa.

Subo as escadas, entro no meu quarto e abro uma das caixas. Pego uma toalha, um pijama e meus produtos.

Entro no banheiro.

Penduro a toalha, deixo a roupa sobre uma prateleira vazia, tiro minhas roupas e entro no box.

Abro o registro.

— Ah!

A água gelada me atinge de surpresa, fazendo meu corpo se contrair. Ajusto a temperatura até ficar morna.

Respiro fundo.

Sinto a água escorrer pelo meu corpo, relaxando cada músculo, levando embora o cansaço e o suor.

Fecho os olhos.

Tudo está mudando.

Mamãe conseguiu um emprego ótimo em São Paulo... então tivemos que sair de Santa Catarina.

Deixei meus amigos. Minha família. Minha infância.

Doeu no começo.

Mas talvez seja melhor assim.

Uma vida nova. Pessoas novas. Um recomeço.

De repente—

Sinto algo diferente.

Como um choque leve percorrendo meu corpo.

Abro os olhos.

Não tem nada ali.

Termino o banho mais rápido, desligo o chuveiro e me seco. Visto o pijama, enrolo a toalha no cabelo e saio do banheiro.

Respiro fundo.

Algo está diferente.

Não sei explicar...

mas sinto como se alguma coisa fosse acontecer.

Um pressentimento.

Bom... e ruim ao mesmo tempo.

Me jogo na cama.

O colchão macio parece me engolir.

Fico olhando para o teto, tentando organizar meus pensamentos...

até o sono chegar.

⋆⋆⋆