Do Outro Lado
1 Casa
Me acordei me sentindo totalmente descansado, quanto tempo não me sentia desta maneira, mas não conseguia me lembrar de quando fui para a cama ou de nada que tinha acontecido na noite passada, sentia como se tivesse dormido semanas, nem me lembrava em que dia estava.
Me levantei da cama e decidi ir até a cozinha, a melhor parte da casa, abri a porta, desci as escadas daquela antiga casa e entrei na cozinha. Meus pais foram a primeira coisa que reparei, Luciana e André estavam muito felizes, minha mãe estava preparando café enquanto dançava uma música que meu pai cantava, era “Daire Straits”, eles gostavam para caralho daquela banda antiga, eles se conheceram em um baile ao som dela. Fiquei parado observando aquela cena de musical que meus pais estavam encenando.
Não sei por quanto tempo fiquei parado, só lembro que a pequena Isabela, minha irmã de dez anos, entrou na cozinha meio triste, puxou uma cadeira e se sentou a mesa, então minha mãe se virou, ela estava com uma frigideira com ovos e queijo na mão e usava um avental que eu achava engraçado, pois estava escrito em verde o sobrenome da nossa família, “Dantas”, parecia até vindo de um seriado americano dos anos 60.
— Bom dia, filha – minha mãe passou os olhos por mim e me ignorou, me senti mal por isso, sempre tive um bom relacionamento com minha mãe.
— Bom dia, mãe e pai – a voz da Isabela estava com um tom muito triste, acho que meu pai percebeu.
— Está tudo bem com você, filha? – meu pai perguntou preocupado – vomitou outra vez? – Reparei nesse momento que ela estava com o narizinho vermelho, e ainda usava o pijama em horário de aula. Estranhei, Isabela nunca ficava doente.
— Não – Isabela respondeu com uma voz tão baixa que quase não deu para ouvir –, já to me sentindo um pouco melhor.
— Ainda bem. Mas por que você está tristinha?
— Sonhei com Marcus hoje – ela falou isso com uma voz de choro, eu me sinto tão mal quando ela chora -, por que ele nunca voltou para casa?
Meus pais se entreolharam, minha mãe se sentou à mesa e meu pai pegou o seu notebook, ele sempre olhava seus e-mails enquanto tomava café, e minha mãe começou uma conversa séria com minha irmã, mas não estava prestando atenção, tentava entender o porquê da minha irmã perguntar quando eu voltaria para casa.
De repente, uma imagem invadiu minha memória, algo que tinha acontecido na noite passada, lembrei de estar deitado no asfalto, numa poça do meu próprio sangue.
— Quem é Marcus? – perguntei para Isabela, mas ela não me ouviu.
Ignorei toda aquela cena na cozinha e corri pelas escadas, precisava me olhar no espelho. Subi e entrei no meu quarto, percebi que ele estava cheio de caixas e a “cama” que passei a noite era um amontoado delas. Corri para meu velho armário e percebi o quão sujo e cheio de poeira estava todo aquele ambiente, talvez ninguém o usasse mais. Eu nunca me senti tão confuso e desesperado na minha vida.
Abri meu armário, onde ficava meu espelho, minhas roupas não estavam mais lá, exceto por uma jaqueta que estava pendurada e envolta num plástico, não entendi o porquê de guardar uma única jaqueta.
Empurrei-a para o lado à procura do espelho, achei, estava quebrado no canto, lembrei de um dia dar-lhe um soco para descontar a raiva que sentia de alguma coisa, me foquei no meu reflexo e me surpreendi, senti como se tivesse encontrado uma pessoa familiar na rua e só me lembrei depois de alguns segundos.
Primeiro reparei no meu cabelo moicano, cortado bem baixo, e nas minhas cicatrizes no rosto, uma bem grande próximo a minha orelha direita. Reparei nos meus piercings, três na minha orelha esquerda e um no meu lábio inferior, vi também as minhas tatuagens, várias tribais me cobriam dos pulsos até o peito, me virei de costas e vi um nome escrito próximo a minha nuca “Trash”.
Me lembrei de como meus pais ficaram putos quando coloquei os piercings, decidi retira-los, como se isso fosse mudar alguma coisa agora. Retirei a jaqueta do plástico e a vesti para cobrir as tatuagens , não via essa jaqueta a muito tempo, era uma amarela e cheia de pequenas caveiras. Me vesti e segui rumo à porta do quarto.
Assim que abri a porta dei de cara com minha irmã subindo as escadas chorando, ela correu para o quarto que ficava bem em frente ao meu, eu a segui, ela entrou e foi direto no seu criado mudo, puxou a última gaveta que não tinha nada além de três chaves presas em um chaveiro do Stitch, do filme. Ela passou a mãozinha por toda a gaveta vazia até finalmente achar a chave, então tive um glimpse de memória, lembrei de um dia deitado no chão da sala assistindo o filme “Lilo e Stitch”, Isabela estava com a cabeça no meu ombro e eu segurava um celular próximo a minha barriga, dividíamos a mesma tela e o mesmo fone de ouvidos, mas ela não olhava para o celular, olhava para o teto enquanto eu ia descrevendo todos os ocorridos do filme.
Ela saiu do quarto com a chave na mão e foi direto para o meu quarto, passou a mão por toda a porta do quarto até achar a fechadura, ela procurou pela chave no chaveiro e destrancou a porta, tive outro glimpse de memória, lembrei de entrar quarto da minha irmã no meio de uma noite e escrever uma carta usando um reglete, um tipo de quadriculado para ajudar a escrever em braile e deixei a chave do meu quarto na sua escrivaninha.
Ela adentrou no quarto e andou até meu armário, desembalou a jaqueta, a mesma que eu estava usando. Toda aquela situação estava muito confusa, ela também pegou um papel que tinha sido dobrado varias vezes e guardado no bolso da jaqueta. Andou até onde costumava ficar a minha cama e vestiu a jaqueta, ela uma vez me disse que era a sua favorita, ficou tão grande que ela teve que puxar uma das mangas para pegar o papel que deixou cair.
Ela se sentou no chão e se apoiou em uma das caixas, abriu o papel e passou os dedos por ele, era a carta que eu tinha escrito para ela, tudo estava voltando na minha cabeça, aprendi a escrever em braile para ensiná-la, pois ela nasceu com 96% de cegueira.
Isabela, littlesister, enquanto vc estiver lendo esta carta eu não estarei mais em casa, tive que sair às pressas, fiz muita coisa errada e não posso arriscar que vcs se machuquem por minha causa, fale para ppai e mmãe que eu os amo, e peço desculpas por ter sido um filho tão ruim.
Não me odeie por ter saído sem falar tchau pessoalmente, vou sentir muitas saudades dos seus cachinhos de anjo, estude e não se misture com más influencias, não quero que vc acabe como eu. E nunca deixe de acreditar em seus sonhos.
Sempre estarei te vigiando e te protegendo, com amor, seu irmão esquisito, Mark.
Ela leu e releu a carta várias vezes enquanto chorava e enxugava as lagrimas na minha jaqueta, de alguma forma a jaqueta que eu vestia também ficava molhada de lágrimas. Tentei abraçá-la mas algo me impediu, era como um imã repulsando outro pólo idêntico. Decidi ficar sentado no quarto fazendo companhia a ela, mesmo sabendo que ela não era capaz de me ver ou me ouvir achei que ela se sentiria melhor.
A porta do quarto abriu, dando um pouco de luz ao quarto sem lâmpadas, eram meus pais, eles entraram no quarto e a abraçaram, ficaram os três parados como uma família esculpida.
— Sinto falta dele – Isabela falou com dificuldade, o choro a atrapalhava.
— Eu sei filha – meu pai falou chorando.
Fiquei observando a cena por alguns minutos, mas não conseguia me aproxima mais de um palmo de distância, percebi que não fazia mais parte daquela família.
Decidi sair da casa, tal como fiz há um ano.
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