Do I Wanna Know?
5 Capítulo 5.
Kise
O loiro expirou fundo e levantou a mão em punho, dando dois soquinhos na porta. Demorou um minuto até que o moreno abrisse a porta e, quando o fez e encontrou Kise, seus olhos azuis se arregalaram e a expressão cansada rapidamente passou para uma alarmada.
— Sakura está bem! — exclamou Kise, vendo-o expirar de alívio. — Eu a deixei com Kagamicchi.
— Ah, claro. — resmungou ele, realmente respirando mais calmo. — Entre que eu vou me vestir. — Kise percebeu que o outro usava apenas uma toalha enrolada nos quadris e água escorria de seus cabelos. Ele fez o que foi pedido e se acomodou no sofá, meio nervoso. Sobre o que iria falar? Não acreditava que teria coragem de falar tudo. — Está tudo bem? — a voz de Aomine bradou baixo e uma lata de suco foi posta a sua frente.
— Obrigado. — brincou com a tampa da latinha antes de abrir, observando Aomine sentar na poltrona a sua frente apenas com a calça moletom larga e, de imediato, recordou-se do último beijo que tiveram e de toda aquela ânsia que existiu entre os dois. A necessidade de um pelo outro, a voracidade e o desejo com que provavam um ao outro e como os toques dele eram deliciosos para o corpo de Kise — deliciosos de uma maneira como nunca sentira antes. O pensamento o deixou mais desconfortável ainda. — Quero conversar sobre... A gente. — Daiki suspirou e fitou os olhos cor de uísque de Kise.
— Vem comigo. — comentou ele, ficando em pé e pegando uma blusa jogada sobre uma das poltronas e vestindo-a rapidamente. Kise franziu o cenho, mas atendeu ao pedido, acompanhando-o na saída do apartamento até entrarem no carro e deixarem o prédio dele. O loiro olhou a janela distraidamente, tentando não se incomodar com o silêncio repentino que existia entre os dois. Não demoraram muito e pararam em frente a uma escola. — Lembra o que aconteceu aqui? — questionou Aomine, olhando-o por rabo de olho. O loiro se esforçou um pouco.
— Touou x Kaijo pelo Interhigh. — Aomine assentiu e deu partida no carro, levando-o até uma quadra próxima a casa dos pais do moreno.
— E aqui?
— Às vezes, jogávamos aqui. Você, Kuroko e eu. — novamente, uma aquiescência e o deslocamento suave do carro percorrendo Tóquio. Kise se questionava as coisas que o outro estava fazendo. Dessa vez, pararam em frente a uma padaria o loiro respondeu automaticamente. — Vínhamos comer aqui ao fim das aulas na Teiko. Bons tempos.
— É verdade. — ele sorriu de lado e continuou o trajeto. Kise já imaginavam onde iriam parar e não errou, ao ver a fachada da antiga escola onde cursara o fundamental. — C'mon. — disse, deixando o carro e trancando-o com o minúsculo controle remoto em sua mão. Caminharam pelos largos pátios, mas não adentraram o prédio; em vez disso, subiram por uma escada de emergência que dava para o terraço da escola. Kise sabia que era ali onde Aomine matara maior parte das aulas e treinos e admitia que havia algum tipo de tranquilizante naquela brisa fresca que circulava e completa ausência de som. Aomine caminhou até a beirada e se apoiou sobre a murada, fitando a cidade com um olhar calmo por longos minutos, antes de se virar para Kise.
— Por que estamos aqui, Aominecchi?
— Sabe quais são minhas memórias dos lugares que te mostrei? — ele cruzou os braços sobre o peito exercitado e sorriu, olhando para baixo. — Aqui foi onde eu chorei pela primeira vez por causa dos meus sentimentos. Era errado, não era? Me interessar por um cara sendo eu um homem e querer ser correspondido? E, apesar de tudo, eu não conseguia entender: eu achava mulheres — e seus peitos gigantes, diga-se de passagem — atraentes, mas não importava com qual eu estivesse, porque eu não conseguia te esquecer. — Kise engoliu em seco ao ouvir as palavras tão cruas e cheias de emoções envolvidas. — A padaria era onde comemorávamos nossos pequenos ganhos durante o fundamental e, que quando eu passo, eu fico pensando em como não devia ter sido tão leviano nessa época. Eu deixei de aproveitar sua companhia muitas vezes pelo meu egocentrismo. — levantou o rosto para o loiro. — São muitos anos, Kise, para eu explicar em tão poucos minutos. Mas eu sei que eu errei com você várias vezes e eu queria pedir desculpas. — o loiro mordeu o lábio, vendo-o ser tão sincero. De alguma maneira, era como se ele estivesse uma nova face de Aomine naquele momento. — Só que eu ainda sou incapaz de lidar com meus sentimentos, apesar de aceitá-los. Ainda sou imaturo demais... Mas eu ainda queria que você me aceitasse assim. — confessou ele, com um sorriso nervoso. Trocaram um olhar longo, azul nos castanhos.
— Conversei com a Sakura hoje. — confessou Kise, enfiando as mãos nos bolsos, caminhando em direção a murada e ficando ao lado do moreno.
— Gostou dela? — questionou Aomine, seu sorriso se enriquecendo de felicidade.
— Ela me disse uma coisa que eu talvez nunca tivesse pensado antes. — ele olhou o céu azul, de poucas nuvens. Olhou o sol e sua luz intensa, antes de olhar para Aomine. Ele era quase comparável ao sol, tamanha a intensidade que exalava. Balançou a cabeça negativamente. — Não, existiu uma pessoa que me fez pensar isso antes dela...
— Seja claro, Kise. — o loiro sorriu.
— Sakura e Kagamicchi disseram a mesma coisa. — Aomine franziu o cenho, arqueando uma das sobrancelhas, em clara expressão de não-entendimento. — Ambos dizem que você e Sakura formariam um casal excepcional. — o moreno cruzou os braços, duvidoso. — E, realmente, vocês fazem um par legal.
— Kise... — o loiro interrompeu com um gesto.
— Mas Sakura é louca pelo Kagamicchi e eu finalmente compreendi o que eles queriam me dizer quando os vi juntos hoje. — Kise umedeceu os lábios antes de falar. — Eles me disseram para eu ser feliz, Aominecchi. Eu não entendia o que isso queria dizer de verdade. Eu achava que era feliz. Eu tenho bens materiais, eu sou bonito e eu tinha Misaki. — Aomine sorriu com a pretensão dele inocente dele. — Só que quando eu vi o olhar da Sakura para Kagamicchi hoje, assim como o olhar dele, eu percebi que nunca vi isso quando Misaki me olhava. Ou quando eu a olhava.
— Tinha Misaki? — a conjugação verbal não passou despercebida ao moreno e isso satisfez o loiro.
— Ela e eu não éramos um nós, Aominecchi. — Kise sorriu, o rosto extremamente ruborizado. — Não do jeito que eu quero que nós sejamos.
Aomine levou um minuto para compreender o que o outro disssera. Ficou ali, parado, olhando o menor de um jeito desconcertado, quase como se estivesse encantado pelo rosto dele. E por seus olhos felinos cor de uísque. E pelo seu cabelo loiro que refulgia ao sol. Esticou a mão, tocando a pele de porcelana como se ele fosse quebrar, mas Kise tomou a iniciativa e deu um passo longo para frente, seu rosto ligeiramente abaixo do de Aomine. Aquilo era tentador demais para que não aproveitasse, então Aomine fez o que mais desejava fazer naquele momento. Enfiou os dedos nos cabelos macios e juntou suas bocas, beijando-o com tamanho carinho e amor que fazia Kise sentir-se trêmulo. Os corações de ambos batiam, disparados; as respirações descompassavam-se conforme aprofundavam mais o beijo, matando uma saudade que mal lembravam de existir.
O vento soprou suave quando encostaram a testa uma na outra e se entreolharam, cada qual observando a vergonha e a pequena timidez que o outro exibia. As mãos se entrelaçaram e, naquele sorriso mudo, compreenderam uma única coisa.
Felicidade é só questão de ser.
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