Diário de uma paranormal
19 Inconsequente
Notas iniciais
As luzes da delegacia ainda nem estavam acesas, era muito cedo para qualquer movimento criminal em uma segunda feira. Principalmente em Junesville. Lá dentro um policial roncava baixinho, cochilando, em duas das cadeiras dedicadas a quem esperasse ser atendido pela secretaria. A mesma dividia com outra moça um caça palavras do jornal. No canto da sala um cara visivelmente novato, pelo modo que suas roupas pareciam rígidas, resistia a tentação de se entregar ao tedio. Ninguém os culpava, não era como se existisse índice relevante de violência na cidade. Além do mais era começo de semana e ninguém parecia muito disposto a nada. Entretanto, eles não faziam ideia que estávamos planejando um assalto a delegacia local.
Okay, assalto foi meio dramático, mas ainda sim iremos roubar alguma coisa, o que leva ao mesmo sentido. O nosso gesto é algo que vai fazer bem para ambos os lados, um modo de que todos alcancem o que querem. A policia quer justiça e nós queremos a nossa barra limpa para voltarmos a morar em Junesville. A proposito, foram plantadas provas falsa s no incêndio da minha casa apontando para que minhas amigas e eu fossemos culpadas pelo acontecido. O que obviamente, é uma fofoca ridícula, mas alguém aproveitou esse boato para nos complicar. Bygron talvez. Mas será que até morto o miserável atrapalhava a nossa vida? O importante é que iriamos resolver esse contratempo hoje e logo voltaríamos -temporariamente- a morar com Josh.
Mas vocês devem estar se perguntando como nós vamos roubar algo que fica guardado provavelmente em um cofre muito bem protegido. É aí onde os contatos de Liester entram. Bendito namorado de Amber! Ele tem um amigo que trabalha na delegacia, George, que não podia se comprometer, mas prometeu deixar a porta destrancada para nós conseguirmos entrar.
–Esse seu pior plano em anos. -Becky reclamou atrás de uma arvore. A proposito todas três estávamos atrás dessa arvore.
Coloquei a mão na cintura, explicando pela milésima vez que se alguém tivesse uma ideia melhor podia se pronunciar.
–Ah, e eu já tive ideia piores. Como quando invadimos o colégio a noite para colar cartazes de protesto pelo preço da cantina. -exemplifiquei. Becky não pareceu mais feliz. E Amber se lembrou da baita detenção que ganhamos, mais as mordidas do cão de guarda noturno.
–Nós deveríamos colocar um pouco de fé. Katherine algumas vezes consegue se sair muito bem nesses planos sem pé nem cabeça.
Becky fuzilou Amber com os olhos. Não era ela que iria se jogar de baixo de um carro.
Interrompi as duas antes que anoitecesse e alguém resolvesse dar uma festa levando a delegacia a encher de gente. O que iria atrapalhar o nosso esquema ,certo?
–Tuuuudo bem, formulei mal a explicação do plano. Eu não deveria estar contando isso porque só em mencionar eu já estou mudando o futuro. Mas nós precisamos fazer algo dentro da delegacia. Não me perguntem o quê, mas eu tive uma visão onde nós estávamos lá dentro. Depois ,só assim Becky será atropelada.
A morena logicamente ficou irritada.
Ela continuou a teimar, se recusando a seguir minha orientação de que deveríamos entrar logo. Não entendo porque tanto drama ,eu vi o futuro e ela não iria se ferir. É tão difícil acreditar em mim?
–Porque você ou Amber não vão?
A loira parecia bem nervosa com essa discussão então sugeriu que resolvêssemos isso na sorte, para que não houvesse questionamento depois. Nós duas concordamos que esse era o modo mais justo de decidir.
Justo, não queria dizer certo. As coisas só dariam certo como na minha visão se seguissem o curso sem mudanças. Uma mudança tão grande como o protagonista da premonição não era algo a se discutir. Preciso me assegurar que esse detalhe não iria mudar.
–Zerinho oooooou um! — recorremos o nosso jeito adulto de resolver decisões importantes.
Instantes antes eu conseguia ver com perfeição a decisão que cada um iria tomar. Becky jogaria um, Amber zero.
–Droga!- Becky xingou.
–Não pode reclamar agora.
Acrescentei enquanto andávamos:
–A proposito temos que chamar atenção do policial novato, ele que vai tomar a iniciativa de te levar para dentro da delegacia.
Becky balbuciou algo e tomou as rédeas da situação.
Antes mesmo de abrir a boca, nós já sabíamos o que nossa amiga iria dizer. Era uma desculpa compartilhada pelas três.
Quando entramos o novato tomou um choque de energia, o garoto já estava entrando em um estado de inercia encostado em uma das paredes do lugar. Meu Deus ,eu realmente devo voltar ao colégio, isso o que pensei não parece fazer muito sentido. Tenho quase certeza que é sobre física.
Tenho que dizer que ele era até bonitinho, fazia o tipo de Becky, imagino o esforço que ela deve estar fazendo o distraindo. Devia ter uns 22 anos, usava o uniforme preto da policia -
ah, vá é mermo?- ,cabelos castanhos arrumadinhos e sardas sobre o nariz e bochechas, era uma graça. A proposito distrair pela parte de Becky queria dizer dar em cima dele, espero que ela ainda se lembre que está tendo um lance com o Josh, o garoto é meio sensível.
Amber e eu ficamos a uma distância segura para que ele não prestasse atenção em nós.
–Boa tarde- Rebecca foi diretamente ao moreno. Que sutil. — Você é amigo da Nicki, não é?
Todo mundo conhece a Nicki, a garota é muito popular na cidade, então é a mesma coisa que perguntar se sabe quem é o prefeito.
–Sou — ele disse, confuso com o assunto da conversa.- Porque?
–Ela me pediu para avisar que hoje tem festa. Talvez você podia dar uma passadinha lá.- A garota deu um sorrisinho a ele.
Amber deu uma tapinha na testa, reprovando a atitude da amiga. Ambs não entendia como garotas normais precisavam fazer isso quando queria chamar um garoto para sair, nem todo mundo tinha essa influência quase sobrenatural sobre os machos.
–Vocês vão estar lá?-ele perguntou, dando um sorrisinho e depois virou para a Amber e eu.
Essa foi minha vez de bater a mão na testa, éramos tão discretas como elefantes.
O novato mantia o sorriso no rosto, o que me fez rir. Ele era mesmo bem descarado.
–Não perderíamos por nada-respondi.
Becky se juntou a nós e fomos andamos em direção a porta. O cara disse alto seu nome quando saímos. Beckye e eu demos um risinho atravessando a rua. Ela estava prestes a dizer algo, obviamente eu havia esquecido da situação dela com Josh e só estávamos agindo como antigamente. Comemorando quando conseguia conseguir o garoto que queríamos e rindo quando alguma das duas falava alguma besteira na frente deles.
–Logan, eu já disse o quanto gosto desse nome?- falei rindo e dei uma piscadela a ela.
–Espero que ele esteja lá, talvez podíamos passar lá mais tarde. — disse sonhadoramente. Com a festa, espero.
–Você poderia levar Josh, aí eu cuido do Logan por você.- soltei, trazendo a lembrança de meu primo.
Atravessamos a segunda faixa da avenida. Amber andava ao nosso lado calada.
–Você sabe que sou muitas coisas, mas não pode reclamar que sou
–Verdade, verd...-falava quando Amber em interrompeu com um grito.
–Cuidado!
Escutei um barulho muito alto de freio. Uma caminhonete com o logo da policia vinha em nossa direção em alta velocidade. No tempo de uma piscada, Becky foi derrubada pela lateral da viatura. Amber olhava com os olhos arregalado onde antes estava Becky e agora tinha um carro imponente parado. Percebi depois de alguns instantes que eu estava arfando e mexendo meus ombros rapidamente por causa do movimento. Claro que sabia o que iria acontecer, mas não estava preparada para isso.
Me deu um pouco de pena quando olhei para a dupla que estava na caminhonete, não era exatamente culpa deles. Os dois tinham um ar meio cansados e a mulher parecia ter voltado de uma perseguição, seu cabelo mesmo preso estava bem bagunçado e embaraçado. Os dois desceram do veiculo com um pulo, como se estivesse recebido um choque de energia. Assustados, eles não pararam de se desculpar e ofereceram ajuda.
Logan apareceu no lado deles, e disse a eles para leva-la a delegacia.
Não se preocupe, não foi nada serio. Becky já estava flertando com Logan novamente. Ela estava sentada no banco longo de madeira que ficava no centro do saguão da delegacia. Tentaram ligar para a ambulância vim busca-la, mas convenci a eles que não era necessário e que era uma atitude muito dramática.
–Para tranquilizar você nós a levaremos quando sairmos daqui a um posto médico.
O atropelador de Becky disse baixinho "Adolescentes, acham que são imortais.", junto com um balanço de cabeça.
–Mas você está se sentindo melhor? -a atropeladora perguntou. Magie era muito gentil e cuidou de tudo o que Becky precisasse.
Tudo estava muito bom, mas precisávamos voltar ao nosso proposito inicial: destruir as falsas provas contra eu e minhas amigas. Troquei um olhar com Amber, ela não havia perdido o foco por nenhum minuto. Não era de se admirar a loira era muito determinada nas nossas missões, desde invadir o colégio a noite para fazer alguma pegadinha até uma situação com a de agora. O que se tornava uma ótima qualidade quando Becky e eu nos distraímos, acontecia quase sempre.
–Você pode se levantar, Becky? — Amber indagou, conduzindo a situação.- Ia ser bom se você fosse ao banheiro limpar as feridas.
–Tem banheiro aqui, não é? Onde fica? — perguntei realmente em duvida sobre a primeira questão. Claro que os policiais precisavam fazer suas necessidades e tal, mas eu nunca tinha visto um em uma de minhas visitas. Não que eu fosse acostumada a frequentar delegacias...
–Claro que temos.- o atropelador mal humorado disse.
Esse é um momento que pessoas prestativas são irritantes. Maggie se ofereceu para ir buscar primeiros socorros para Rebecca. Ah, a lindinha atropelada parecia ter esquecido o nosso plano, a garota não fazia ideia porque Amber estava insistindo no assunto.
–Achei uma boa ideia ela mesma ir lá porque pode querer vomitar.
Antes de que Maggie se voluntariasse novamente para ajudar, eu praticamente obriguei que Becky fosse até o banheiro. A garota iria acabar correndo para lá para se esconder. Sem comentários sobre a minha próxima frase, as vezes eu não penso quando vou falar. Só tenho dizer que foi sem querer, ops.
–Não é bom segurar vomito ou esses lances assim quando se está gravida.
"Gravida?",Becky me fuzilou com os olhos, "Eu vou te matar Smith quando chegarmos no banheiro."
Até as pessoas em volta pareciam meio chocadas, mas tentaram disfarçar, porque afinal de contas não era algo tão chocante isso acontecer na nossa idade. Logan acabou pisando no pé de uma das secretarias que assistiam a cena, eu havia esquecido de sua presença. Tadinho, deve ter achado que tinha alguma chance com Becky.Maggie não insistiu mais sobre que ela ter que ficar sentada e se mostrou confusa com a nossa logica. Ela era a mulher mais velha que estava presente, as outras não deviam já ter filhos então o que nós falamos não pareceu tão sem sentido.
–Kath só tá exagerando. É o sobrinho dela que tá dentro dessa barriga.
Me segurei para não rir, não pela cara de choque de Becky, mas por imaginar como seria essa situação. Josh descobrindo que vai ser pai com 22,hilario,provavelmente iria desmaiar.
–Okay, vamos logo.- Becky disse se levantando apressada do banco, sem disfarçar a irritação.
A pessoa faz isso logo depois de sido jogada no chão por uma caminhonete e não deu outra: ficou tonta. Sorte que a seguraram pelo braço.
–Ah, querida, eu ficava tonta muito na minha primeira gravidez.
Dessa vez Becky não disfarçou fingindo que estava passando mal quando fuzilava Amber e eu. Deu direto um olhar de morte para nós duas.
–"Fiquei muito assim na minha primeira gravidez"-Becky imitou dessa vez totalmente mal humorada.-Eu te odeio, Katherine.
A gestante apoiava as duas mãos na pia olhando para mim através do reflexo do espelho. Eu tinha uma distancia segura dela, e também fitava o espelho. A terceira de nós andava de lado a outro, imaginando o que faríamos agora.
–Ah, não seja tão dramática, não é como se você estivesse mesmo. Além do mais, Josh ficaria uma gracinha sendo pai, ia ser daqueles bem bobos.
Amber parou de se mover de um lado a outro e nos encarou. Ela não gostou nenhum pouco do papo fiado que estávamos tendo enquanto a própria fritava os miolos e suava frio com o nervosismo da missão.
–Vocês já se perguntaram o que vamos fazer agora?
A ficha caiu para Katherine.
–Na verdade não.
Becky perguntou se ainda tínhamos o mapa da delegacia. Iriamos nos separar, essa era a linha de pensamento. Mas o lugar não é tão grande assim então uma teria que ir sozinha ,já estava pronta para seguir como sempre acontecia, eu e mim mesma, porém Amber insistiu que Becky fosse comigo. No fundo me surpreendi porque mesmo que fossemos um triunvirato, a verdadeira dupla era elas duas. Conseguia ver no rosto da loira que ela tinha um mal pressentimento, por isso estava tão apreensiva. Tentei checar o futuro, mas com o coração ainda batendo nos ouvidos por conta da adrenalina de fazer algo tão arriscado não consegui me concentrar.
–Nós precisamos nos apressar, vão perceber se demorarmos muito. -Becky comentou com muita sabedoria. Se fosse em outro momento soltaria algum comentário, zombando.
–Vamos logo, para evitar pensar. -falei abrindo a porta do banheiro.
Uma das duas disse que invejava esse espaço vago na minha cabeça, talvez por esse motivo eu nunca tinha preocupação em um momento como de agora. Provavelmente, Amber. Mas não dei atenção, estava muito ocupada me colocando no modo missão.
Haviam dois corredores principais, onde nós três iriamos seguir. Beckye e eu voltaríamos pelo esquerdo, para que não levantasse suspeita. As pessoas ainda acreditavam que estávamos no banheiro. Amber foi pelo corredor direito, esperávamos que ninguém desse falta dela, se acontecesse diríamos que ela ainda estava no quartinho.
Começamos andando naturalmente,não durou muito tempo e já estavamos dando grandes passadas,o som dos nossos pés intensificando,nossos ombros se tocavam eventualmente enquanto trocavamos de lado,conferindo qual dessas salas seria a de provas.Porque de repente a delegacia pareceu ter triplicado o numero de salas?Becky abria de um lado e eu de outro.Várias delas estavam vazias,eu tinha acabado de abrir uma onde um policial ficou assustado quando abri a porta em rompate e fechei.Aceleramos a busca,provavelmente o nosso tempo deve ter encurtado uns bons minutos.
–Ei!- o policial assustado chamou — O que vocês estão fazendo?
Tínhamos menos tempo do que eu esperava.
Parei do nada no meio do corredor e empurrei para que Becky continuasse a busca sem tentar levantar suspeitas. Era a hora da enrolação. Sempre eu que fazia o trabalho sujo na hora de enganar professores ,parentes e outras pessoas. Eu tinha mentiras rápidas e cara de pau suficiente para que qualquer um acreditasse em mim, Becky afirmava que a minha cara de criança boazinha ajudava — mas isso nunca foi confirmado. Espero não ter perdido a pratica.
–Nós?- franzi a testa — temos que entregar algo para o delegado.
–É muito importante. -acrescentei. Tentei terminar com o assunto antes que ele perguntasse quem sou. Tenho certeza que se pensasse muito não iria engolir. Porque uma adolescente vestindo uma camiseta enorme do Chicago Bulls- que era do meu primo, só para deixar claro. Nem de basquete eu gosto. — estaria trabalhando com algo importante de qualquer delegado normal?
O policial olhou para mim, me analisando. E antes que eu desse as costas para ele, o homem disse:
–Eu sou o delegado.
Xinguei mentalmente e quase bati na minha própria testa. Que falta de sorte.
–Quer dizer que o Jonh não é o delegado? -perguntei fingindo confusão.
–Não, eu sou. — o delegado respondeu impaciente.
–Pensei que o Josh fosse. Já vou entregar o que eu tinha que entregar a ele. Desculpe pela minha correria, estou com pressa.
–Josh? -o delegado perguntou desconfiado.
Peguei um papel de comercial de dentro do meu bolso.
"Burguer King
Promoção
Compre um combo(R$ 15) e ganhe a batata frita grátis."
–Ops. Jonh, eu tinha anotado. Preciso ir agora.
Caminhei para longe esperando que o delegado voltasse a sua sala. Quando ele entrou procurei Becky que estava parada no lado de uma porta.
–Não disse para procurar a sala?- perguntei, consciente do tempo esgotando.
–Ia ficar dando na cara. Agora podemos entrar, rápido.
Entramos na sala de provas, não era exatamente como eu imaginava. Na minha mente seria um lugar grande com uma mesa central iluminada por uma luz debaixo do vidro e armários de provas separados por ordem alfabética. Tipo CSI. Ou pelo menos um lugar que tivesse uma parede no mínimo rebocada ou sem infiltração.
Me adiantei buscando o lugar que a chave dos armários estariam escondidos. O amigo de Liester havia deixado embaixo das pastas que estavam espalhadas.
–Cadê Amber?
Continuei vasculhando o balcão cheio de pastas, embaixo de todas elas havia a bendita chave. Parti para os armarios, enquanto Becky segurava a vontade de ir checar se a loira estava vindo. Ela ficou próxima a entrada escutando o movimento do lado de fora. Becky franziu a testa e encostou a cabeça na porta, enquanto eu dizia:
–Espero que ela na encontre com ninguém nos corredores, ela é uma péssima mentirosa.
A morena não se abalou pelo fato, por um motivo obvio. As vezes eu esquecia que nem todos tinham uma habilidade tão inútil na vida real como a minha.
Abri depois de algumas tentativas o armário certo. Uma caixa com o meu sobrenome chamou minha atenção. Estava etiquetada como: "Caso 4940" e classificada como incêndio — o que foi usado para acobertar os assassinatos acontecidos.
Praticamente joguei a tampa para o alto, curiosa e tensa em saber o que haveria dentro. Não sei dizer se senti surpresa ou raiva das provas plantadas. Tirei a pilha de folhas e as repousei no balcão disponível acima dos armários. Junto com o isqueiro embalado em uma proteção de plástico protegendo de interações exteriores, além de sua respectiva foto documentando onde foi encontrado. Becky se apressou ao meu lado, querendo ver os itens espalhados. Comecei a folhear os papeis da investigação, como eram muitos dividi a metade para que a minha amiga ajudasse. Muitas folhas falavam sobre as garotas, eu, os nossos pais e relatos de nossas vidas influenciados por boatos caluniosos. A nossa situação tava feia se ainda realmente nos importassemos. O que iriam fazer? Nos prender?
Soltei uma risada sarcástica.
–Você leu isso? — mostrei as folhas e ela pegou me olhando estranho. Leu rapidamente e sorriu, feliz.
–Eu me sinto como aquelas celebridades que os tabloides inventam várias mentiras só para ter algo para falar.
Eu não havia pensado dessa forma.
–Obviamente você seria a Kim Kardashian.
Me referi a sua ascensão meteórica ao topo da hierarquia social simplesmente por namorar alguém muito querido pela população da cidade. Claro que não é exatamente igual a historia da minha comparação, mas...tudo bem. Serio, as vezes ela podia parecer muito com a Kim.
–E você é a Taylor Swift? Rá, por favor. -ela riu da minha constante comparação com a minha idala, mesmo que eu não houvesse mencionado.
–Cala boca.- dei um tapa no braço dela.
Becky não reclamou nem nada ,o que achei estranho, mas não dei atenção, porque eu ainda estava lendo os que dizia do caso contra a gente.
–Eles vão processar a gente, Becky. Eles querem prender Amber,e nós duas! Aquela ri...
Becky ainda encostada com a orelha na porta, fez sinal desesperadamente para que eu fizesse silencio. Encarei-a ,procurando uma explicação. Não tive resposta, Rebecca estava muito concentrada. Corri para a me juntar a ela, tentando ouvir o que chamava a sua atenção.
No lado de fora alguém passeava pelo corredor, não entendi o alarde de Becky, já que os passos estavam ficando cada vez mais longe. Até que eles vieram correndo na direção contraria, na nossa direção. Não sabia dizer porque, mas algo naquelas passadas me apavoraram, olhando para o lado percebi que não era a única que sentia o mesmo. E os nossos olhos voaram para o balcão cheio de coisas espalhadas. Finalmente, a consciência do que estávamos fazendo veio a tona. Foi uma péssima ideia vir até aqui, estávamos correndo diretamente uma armadilha. Essas provas falsas e boatos iriam fazer que perdêssemos a ultima coisa que podíamos nos agarrar: Junesville. Com a morte de Bygron tudo parecia já ter se ajustado. Para que fomos continuar nos intrometendo no que acontecia e nos incriminando cada vez mais? Uma lista enorme de erros se estendeu me fazendo perceber que poderia não ter precisado passar por tudo isso e as minhas ações complicaram tudo ainda mais.Becky no meu lado mantinha os olhos fechados, torcendo que o estranho no outro lado da porta fosse embora.
A maçaneta se moveu de um lado a outro, tentando abrir. Nós duas gelamos de medo. Mas a porta não se mexeu, graças ao nosso peso encostado. Sentimos a presença do estranho que estava no lado de fora se afastar. Relaxamos por um instante desencostando da porta, até recebemos uma portada na cara e nos desequilibrarmos. O susto/medo não permitiu que reclamássemos.
Uma sombra cobria o meu campo de visão limitado -sim, pelo meu rosto que está colado ao chão- e tornava tudo mais lento e dramático. Alguém nos trancou, e antes que o meu coração parasse não aguentando tanto suspense, ela perguntou qual era o nosso problema.
A loira não se incomodou em nos ajudar a levantar e se dirigiu para os documentos.
–Amber! Você quase me matou de susto!-falei moderando no grito. Eu tinha noção que alguém poderia estar passando perto da sala. Mas nem todo mundo era assim.
–É,A MIM TAMBÉM.
–Kath, esse é o nosso inquérito?-Amber mexia nas coisas, olhando livremente as fotos.
–Que vocabulário difícil.- falei um pouco irritada.- Sim, é ele.
Mas eu não gastaria meu tempo com discursões e tentar explicar que não é muito educado bater a porta na caras das pessoas e não ajudar a levantar nem se mostrar despreocupada com elas.
–Você precisa ler uma coisa. Você também, Becky.-mostrei a elas a página que havia deixado no topo da pilha.
A pagina indicada por mim era um depoimento documentado e assinado por Elisa Ferg, minha vizinha. Onde ela confirmava a culpa do nosso triunvirato em ter incendiado a casa com nossos próprios pais dentro. Meu Deus! Porque ela faria isso? Eu pensei que ela gostava da gente. O que Elisa ganharia fazendo isso!?
Amber leu, imediatamente mudando sua expressão para uma indignada, e antes que a loira tivesse oportunidade de passar Becky roubou a folha de sua mão.
–Aquela vaca! Sempre soube que ela odiava a gente.
–Peraí. Sempre soube?-perguntei- Pensei que Elisa era uma pessoa legal.
–Não Elisa era uma vaca e a filha dela também. Aquelas duas se faziam de amiga, mas eram umas invejosas só falar mal por trás.
Fiquei indignada, mas depois confusa.
–A filha dela eu sempre soube, mas Elisa era legal...não era?
Amber sendo a mais racional de nós — o que normalmente era — ignorou nosso dialogo construtivo e leu, tentando decorar tudo que era util. Chegou a conclusão que não serviria muito aprender sobre esses documentos quando estivessem queimando. Pegou os papeis e enfiou dentro da sua bolsa, junto com o isqueiro e o plástico que o envolvia. Acabou decidindo que iria levar tudo, pegou o conteúdo da caixa e despejou dentro da mochila vazia.
–Katherine, Katherine, você acredita em todo mundo.
–Nós temos que ir.-Amber anunciou, fechando o zíper da pequena mochila.
Antes que pedíssemos alguma explicação, ela se apressou dizendo que podíamos queimar o que fosse quando estivéssemos fora daqui. Concordo totalmente com a logica dela, mesmo não tendo pensado nisso. Arrastamos Becky para fora de lá.
Fase 1-entrar- e 2 — roubar as provas :completa. Agora vinha a fase mais fácil, teoricamente, que era sair. Se deveria ser a mais simples, então porque a ideia de sair discretamente parecia ilusória? Meu cérebro em um dos muitos momentos que mais preciso dele, parecia ter sofrido um curto circuito. Estava tudo escuro e vazio, com nada para me guiar.
–Você tem uma ideia melhor? -Becky respondeu a mim quando protestei.
–Não podemos colocar tudo a perder agora, vamos com calma.
Concordei com a loira balançando a cabeça lentamente, o movimento se tornando cada vez mais lento. Talvez algo dentro dela voltou a funcionar com esse balanço todo, porque tive uma ideia genial.
–Janelas! Aqui tem janelas, não. Daquelas bem grandes? Vamos pula-las. Uma pena Amber que você esteja de saia.
No final da frase eu já estava convencida que essa era a minha melhor ideia do dia. Rebecca deu de ombros, ela sabia que eu era igual a ela nesse aspecto, uma garota mimada, e iria ter o que eu queria. Amber olhou para as próprias pernas rapidamente — não havia sido uma boa escolha de roupa -. E por outro lado rolou os olhos irritada, ela não gostava nenhum pouco de coisas arriscadas assim. Becky checou o mapa, viu que se dobrássemos e seguíssemos até o final de outro corredor encontraríamos uma parede com janelas grandes o suficiente para que saíssemos. Estávamos paradas tempo demais ali, iria acabar chamando atenção.
Caminhei de pontas dos pés para ver se o caminho estava livre. Iria encostar logo mais à parede para dar uma espionada antes de entrar no próximo corredor. Parei em rompante assim que pensei ter escutado vozes conversando. O que acabou resultando-graças a Becky e Amber no meu encalço- em varias tropeçadas a frente, revelando nossa posição. De olhos fechados esperei que as vozes não viessem desse corredor. Porém ultimamente eu não tenho tido muita sorte com essas coisas.
Vi as minhas duas amigas no canto do olho paralisadas, sem ter ideia do que fazer. Nós tínhamos poucos segundos restantes para decidir se fugíamos e para onde. Os três segundos que eu julgava o limite da decisão se prolongaram de um modo que tudo pareceu mais lento, junto com a promessa que em breve algo grande aconteceria . Os três segundos de tolerância haviam acabado e eu já tinha uma reação. Bem plausível para os outro, eu esperava. Continuei a caminhar como se nada tivesse acontecido, como se o tropeção fosse um mero acidente. Alguns metros a frente e com minha dignidade recuperada, chamei Becky e Amber tranquilamente -como se eu tivesse o dia inteiro e não estivesse fugindo.
–Vamos garotas.-Virei quando disse isso e troquei um olhar rápido que dizia para prestar atenção no meu roteiro de fuga. Para que só elas ouvissem, sussurrei. -Ajam naturalmente.
Continuamos normalmente pelo corredor, comigo na frente dando passos firmes disfarçando a breve confusão delas. A cada passo ficávamos mais próximos de meia dúzia de policiais que conversavam. Eu conseguia sentir a inquietação atrás de mim, o que não ajudou a relaxar. Minhas mãos começaram a suar. Os agentes reclamavam dos armários que as tranca dos vestiários estavam quebrados. Não duvido nada, pensei, imaginando se o resto da delegacia era tão mal cuidada como a sala de provas.
–Boa noite. — cumprimentei os policiais, dando um sorriso. Queria que acreditassem que não há motivos para desconfiar de mim. Usava sempre que possível a minha aparência infantil ao meu favor.
Eles responderam educados, sem dar muita atenção. Respirei fundo quando consegui ver o final do corredor e as benditas janelas. Amber e Becky aparecem no meu lado, aliviadas e com sorriso no rosto. Mas com a imagem da nossa saída improvisada percebi algo. Como iriamos fugir com a presença daquele grupo de policiais não muito longe? Eu inclinei a cabeça à direita para informar a elas a minha conclusão. Percebi que Amber havia chegado a mesma conclusão. Estávamos prestes a contar a Becky, quando...
–Essa são Katherine Smith e as suas cumplices?-mesmo baixo a pergunta ecoou por todo corredor.
Uma policial de cabelos negros tinha a mão no cinto, localizando um radio. O casaco amarrado na minha cintura ainda girava em minha volta, quando por reflexo nos viravamos. As coisas ficaram tão lentas que pareciam ter parado, acontecia sempre antes de uma premonição. Então a onda de imagens se desenrolaram atrás das minhas pálpebras. Não tive tempo de processar o que tinha visto, o efeito de tempo se arrastando acabou.
–Minhas cumplices?-falei rindo, imediatamente sentindo o deja vu.
Becky fez uma careta com menção de não ter sido lembrada. Amber em pânico nos empurrou para que nos movêssemos para longe dali. Nos atrapalhamos toda, quase nos fez girar em círculos decidindo se iriamos juntas. Minhas experiências com Scooby-Doo me fez soltar um "vamos nos separar!". E encaminhar cada uma para o lado oposto da outra. Amber jogou para mim a mochila com as provas, assim ficaria mais rápida.
Amber para direita, Becky esquerda e eu simplesmente para frente. Cada uma conhecia a planta do lugar o suficiente para saber para onde estava indo. Então partimos.
A nossa separação fez os policiais dispersarem e os meus perseguidores se reduziram a tres. Correr com uma mochila batendo nas costas me fazia mais lenta. Sentir aquelas folhas saltando e dando pancadas cada vez mais parecia um modo de me punir por fugir deles. O corredor parecia ter dobrado de tamanho, chegar até as janelas e conseguir atravessar elas nessa situação havia se tornado praticamente impossível. A distancia entre eu e eles diminuía a cada passo, minhas pernas eram curtas de mais para dar conta. Estava sem coragem para olhar para trás. Em pouco tempo seria possível me puxar pela mochila. Péssima ideia usar isso nas costas. Continuando nesse ritmo nem precisava ser vidente para saber o que iria acontecer. o sangue zunia tão alto no meu ouvido que imaginei que não escutaria uma policial -a do radio -insistindo em complicar mais a minha vida:
–Souza! Katherine Smith em direção ao final do corredor da sala dos videos.
–Katherine Smith? A desaparecida? — Souza respondeu.
Ah, não! Eles me conheciam! Isso era mais grave que eu imaginava. Eu era mesmo uma fugitiva da policia! Esse era um ótimo momento para uma fuga incrivelmente sortuda ala Kath S. entrar em pratica. Sem pensar muito mais entrei em um dos corredores que cortava o atual. Despistei os policiais por alguns instantes, me dando uma dianteira de vantagem. Registrei logo depois onde havia entrado: direita, o lado escolhido por Amber, saída dos fundos como objetivo — provavelmente o mais seguro de todos.
Como minha falta de condicionamento aparecendo e minha respiração pesada não bastasse uns policiais que estavam caminhando em minha direção ficaram alarmados por ter uma desconhecida correndo na delegacia. Passei por eles direto, metros depois olhei para trás. Os três policiais que teoricamente deixei para trás entraram no corredor atual no maior estilo O clube dos cinco, gritando para que os desavisados me seguissem. Tentei me localizar no meio daquele labirinto. Tive até algum sucesso, mas eu estava em pânico só queria tomar uma distancia MUDAR deles. Minha prioridade no momento era tomar uma distancia. O som dos meus pés batendo no chão, cheios de força, tentando manter o ritmo deve permitir que ninguém me perca no meio desse labirinto. Nessa altura eu dobrava outro corredor sem nem mesmo prestar atenção no caminho. E dei de cara com Logan, e mais três oficiais.
–Katherine Smith! Pare!
Quem disse isso tinha sua arma em punho, enquanto os outros tinham preparados para sacar os seus revolveres a qualquer sinal de resistência.
Antes de cogitar girar os pés, escutei a zoada de pés desacelerando às minhas costas. Os meus perseguidores se acumulando um ao lado do outro. Olhei para minhas duas direções e percebi o quanto estava ferrada. Ferrada pra caramba. O cerco havia se fechado. O corredor bloqueado por inimigos circunstanciais.
–Levante as mãos. — o da direita de Logan disse, apontando seu revolver para mim, balançando de modo arriscado.
Os outros se limitavam a ter elas em punho, pronta para usa-las.
Fiz o que o cara pediu, por estar muito aflita com a preocupação desnecessária acerca da segurança de todos a minha volta. Como se eu fosse uma bomba relógio prestes a explodir e ferir todos. Buscava seriamente um motivo para ser tratada assim. Surgiu na minha mente um lembrete de que todos em Junesville acreditavam que eu era uma assassina de sangue frio.
–Souza, isso não é necessário. Não tem como Katherine fugir, ela está cercada.
Me senti estranhamente grata pela demonstração de confiança de Logan. Não era grande coisa, mas nesse momento realmente foi importante para mim.
–Tanto faz.- Souza disse incomodado.
A policial do radio tomou a dianteira, passou pelos "idiotas"-algo dito pela mesma-ali que decidiam quem iria dar a ultima palavra. Ela tirou as algemas de seu cinto e prendeu minhas duas mãos juntas.
–Você está presa, Katherine Smith. Tudo o que você dizer poderá e será usado contra você no tribunal. — foi algo que a oficial não disse, pois não estamos em um filme. Ela só me empurrou para a frente, levando para me fichar.
Percebi que estava parada em pé de modo nenhum pouco natural, devo ter parado em algum momento de andar de um lado a outro, enquanto pensava em tudo acontecido. Por medida preventiva fomos encarceradas. Amber e eu ficamos na mesma e Becky na do lado. Mesmo que não conseguisse ver Rebecca, conseguia ver suas mãos em volta da grade. Amber estava sentada no chão, com cabeça baixa como se estivesse muito concentrada. A loira sempre colocava o peso dos nossos problemas sobre suas próprias costas. Como se ela pudesse evitar a loucura dos meus planos e ações. Só porque Amber consegue influenciar as pessoas não quer dizer que consiga com todos. Sua expressão me lembrava muito o de Logan. Fiquei pensando durante um longo tempo em Logan desviando o olhar de mim na hora do depoimento todas as vezes que tentei fazer contato visual. Joguei o meu cabelo formando uma cortina, espiando através dela. Logan estava sentado no fundo enquanto os outros estavam a minha volta. No começo até fingiu que estava escutando o meu relato, mas desistiu, ninguém estava notando ele mesmo. Colocou a cabeça entre as mãos escondendo sua expressão. Senti um pouco de culpa. Nós tínhamos conseguido o enganar, éramos confiáveis porque tínhamos a desculpa de Nicki. Talvez até já tivéssemos nos visto em uma das festas dela. Usamos ele para ganhar confiança de seus colegas e não imaginei que fosse ficar assim. Cheguei a conclusão de talvez, talvez, eu nunca havia dado a devida atenção no rastro das minhas ações nas pessoas.
–Katherine! -voltei à realidade. — O que a gente faz agora!?
Becky disse cheia de irritação.
–Não sei. Estou sem ideias.
Um espaço longo entre as conversas. A epifania preenchendo o silêncio. Nós estávamos tão acostumadas em confiar na sorte para nos salvar, que havíamos nos tornado confiantes demais. Então quando fizemos algo com consequências bem reais não acreditamos que daria errado. E agora estávamos presas. De verdade.
–Rebecca Black? Amber Thompson? Katherine Smith? Vocês tem visitas — um cara disse rudemente.
Nunca tinha ouvido palavras mais bonitas. Um sorriso brotou no canto da minha boca. Amber pareceu relaxar, fiquei feliz por isso. Será que Liester soube do nosso pequeno problema no curso do plano e veio nos salvar? Ótimo, como eu amava o namorado da minha amiga! Eu já conseguia visualizar na sala que estávamos sendo conduzidas. Josh, Liester e Harry -junto com advogado ,espero -nos esperando para tirar suas queridas pessoinhas de dentro da prisão. Mesmo que depois não pudéssemos nunca mais voltar para essa cidade. Porém toda expectativa do corredor inteiro foi abaixo. Não havia nem um dos garotos, com o conforto de suas presenças lá. Só um desconhecido vestido formalmente oferecendo uma proposta duvidosa.
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