A escola está me matando, já não aguento!
Enquanto penso que poderia estar agora, praticando algum solo, estou aqui, em uma sala de aula copiando da lousa atividades paranormais de química.
Estou sonolento, fui dormir um pouco tarde ontem á noite -pois estava assistindo a melhor e única coisa que realmente presta na tevê- sem falar que ninguém merece ser acordado pela buzina do ônibus escolar, e depois de 5 tortuosos minutos bancando o ''The Flash'' pra se arrumar, ser ignorado pelo motorista ao correr atrás do ônibus em pleno quarteirão da rua Abrantini. A rua Abrantini, é a rua mais nobre do bairro em que eu moro. Eu moro um ou dois quarteirões antes ou depois da Abrantini, não sei ao certo. Até porque isso, depende muito de coisas que envolvem a rosa dos ventos, e a rosa dos ventos, envolve Geografia, e eu odeio essa matéria, enfim. Só sei que moro entre a rua Abrantini e entre a rua Costal, e também sei que o nome da rua em que moro é muito cafona, se chama Almiro Braga. Pra falar a verdade, eu realmente não me importo muito com o nome da minha rua, e sim, com as pessoas que moram nela. Nessas pessoas é que eu tenho de ficar de olho.

Bom, fazem menos de três anos que eu e a minha família moramos na cidade de Caricatura, capital de Albaque. Nós viemos do interior, morávamos numa pequena fazenda deixada por meus avós para seus dois casais de filhos. Ao longo do tempo, a tia Angeline morreu, e logo em seguida foi a vez do tio Ben. O que foi uma tristeza total. A tia Angel era uma das pessoas mais educadas e solidarias que eu já conheci. E o tio Ben? Bem, ele era um grande amigo. Foi ele quem me deu meu primeiro disco de vinil, e quem também me ensinou a tocar violão. Foi ele quem me apresentou a paixão da minha vida, o rock 'n' roll. Sem falar nas histórias que ele me contava, nas coisas novas que eu sempre aprendia. Sinto saudades, muitas saudades. Depois disso tudo, continuamos a viver, prosseguindo com a vida. Mas foi quando o meu pai entrou pela cozinha dizendo:

–Brian, preciso de ajuda! Vá para a sala com seu irmão e ligue para sua tia Cristina, diz pra ela vir aqui agora, sem demora. Diz que é urgente!

–Pai, o que houve? É fogo? Por que a fumaça?

–Não dá pra explicar, liga agora pra sua tia!

–Mas pai, eu só quero te ajudar. Me diz o que tá acontecendo.

–Brian, eu não vou falar duas vezes. Quer ajudar? Então vai na sala e liga pra sua tia.

Liguei pra minha tia e avisei pra ela vir. Ela ficou me perguntando porque deveria vir com tanta urgência. Mas eu disse que a minha mãe não estava em casa, e que eu não sabia explicar. Depois disso, não deixei com que o meu irmão saísse de casa e fui atrás do meu pai. Ele estava desesperado lá no milharal, que já estava quase todo em chamas. Fiquei muito preocupado e tentava gritar perguntando se ele estava bem, mas ele me mandava ficar longe através de gestos. Imagine a minha situação, eu estava vendo a fonte de renda da minha família acabar, e mais importante, o meu pai correndo risco de morte, sem que eu pudesse ajudar. Como eu me sentia? Eu me sentia um inútil. Quase sem esperança, vi a minha tia chegar, não sei como ela adivinhou, mas trouxe o corpo de bombeiros:

–O que foi que aconteceu, Brian?

–Eu não sei, de repente ele me mandou te ligar e saiu correndo pra lá. Não me deixou fazer nada para ajudar.

–Seu pai é louco!

–Eu sei. Estou com medo.

–Fica calmo, pensar no pior numa hora dessas é a última coisa que se deve fazer, certo?!

Ouvi um dos bombeiros conversando com a minha tia, disse que ele estava preso entre duas partes importantes do milharal. Uma que estava em chamas e outra que dava para o rio. Quando ouvi isso não tive dúvidas. Ou ele se jogava no rio e morreria afogado, ou ele ficava esperando o fogo chegar até ele, porque daqui que os bombeiros conseguissem apagar não daria tempo. Resumindo, o meu pai morreu queimado. Sim, é muito triste lembrar disso. Foi o pior dia da minha vida.

Depois disso tudo, tivemos que nos mudar pra onde moramos hoje. A minha mãe arrumou um bom emprego, comprou a nossa casa, e conseguiu por a gente no melhor colégio da cidade, o Albaque. Aqui tudo é muito estranho, principalmente a rua onde eu moro. Os vizinhos são esquisitos, não falam uns com os outros. Eu observo tudo por aqui, fico de olho em todos eles. Apesar de morar aqui há algum tempo e não ter ouvido falar sobre nada que possa justificar isso, ainda desconfio de algo sério, que pode ter acontecido no passado.

Notas finais
Espero que tenham gostado, rs