Diário de um Felino
15 Alice's POV
Notas iniciais
Solto um grito alto, e corro em direção ao Tom. Chegando mais perto, observo estática seu rosto pálido e a respiração difícil. O infeliz do motorista nem sequer parou o carro, filho de uma mãe. Nervosamente, tiro o celular do bolso e disco o 192, e espero enquanto a pessoa que atende não coloca o telefone na linha.
– Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, qual o ocorrido? – fala calmamente a voz do outro lado da linha.
– Um... um homem, meu namorado, meu Deus, ele foi atropelado e... – paro para respirar – vocês podem mandar uma ambulância?
– Oh, sim. Fique calma, e não mexa no rapaz de maneira alguma! Informe nos: onde exatamente você está?
– Avenida Bastos, Jardim florida... quase em frente a pizzaria Moira!
– O nome da rua, por favor?
– Rua Figueiredo!
– Estaremos enviando uma ambulância dentro de meia hora, senhorita...?
– Alice! Alice Mason! – falo, com uma voz um pouco esganiçada. Ela desliga, e eu me sento no meio fio. ‘’Como raios isso foi acontecer?’’ penso.
Espero por cerca de 20 minutos, quando uma ambulância chega, e um dos paramédicos fala para mim me afastar. Vou para trás, e espero enquanto levantam Tom e cuidadosamente o colocam em uma maca, que eles sobem no veículo, entro também, e me sento em um dos bancos. Sem que eu perceba, lágrimas começam a escorrer... eu não posso mais perder ninguém...
– Ei, moça! – exclama um dos paramédicos que entrou na parte de trás também.
– O que? – pergunto, levantando a cabeça.
– Pode ficar tranquila, ele vai ficar bem! Por sorte, o carro pegou só de raspão, e ele foi apenas... bem, apenas arremessado...
– Sério? – pergunto, esperançosa. Ele assente, e eu solto o ar que não tinha ideia de que estava segurando – nossa... fico muito aliviada, sabe?
– Hm... entendo.
Apenas assinto com a cabeça e volto a olhar para Tom. Se seu rosto não estivesse meio esfolado, e se ele não estivesse tomando soro por um aparelho, eu diria que estava dormindo.
[...]
Eles levaram Tom para uma sala de atendimentos, e eu fiquei esperando. Isso me lembra do dia em que eu levei ele para castrar e... espera... castrar? Será que... ah, esquece.
Uma mulher da recepção me chama, e eu vou lá.
– Olá! Você precisa assinar essa ficha, para melhor atendimento do seu conhecido. É só preencher aqui, aqui e aqui – diz ela, enquanto aponta os lugares – e pronto! Precisa de uma caneta?
– Sim, por favor.
Ela me entrega uma caneta, e eu volto a me sentar. Encaro os tópicos, e vou preenchendo:
Nome Completo do parente/conhecido: Alice Mason
Nome completo do paciente: Thomas
Qual é o sobrenome do Tom? Paro para pensar, e me lembro de uma vez que, enquanto jogávamos, ele falou algo sobre um ‘’sobrenome inventado pelo Phill’’ como era? Ah, sim, Carvalho. Volto ao papel e coloco, ao lado de Thomas, Carvalho.
Parentesco com o Paciente: ( ) Irmã(o) ( ) Primo(a) ( ) Conhecido.
Coloco um X no Conhecido, e depois coloco os outros dados, como CPF, contato, endereço e outras coisas. Me levanto e entrego o papel para a recepcionista.
Depois de me sentar novamente nas cadeiras de espera, me enrolo ainda mais na jaqueta de Tom... como será que ele está?
[...]
Depois de tanto tempo sentada, cochilei um pouco... acordei assustada com um médico chamando:
– Alice? Alice Mason?
– Eu! – falo, me levantando atrapalhadamente e andando em direção ao médico – sim?
– O Sr. Tom quer vê-la, hm, senhorita
– Ele já está melhor? Sério?
– Sim, sim. Entre, por favor.
Adentro a sala, e vejo um Tom sorridente deitado na cama, como se nada tivesse acontecido.
– Hey, Alice!
Me aproximo devagar, quase como se ele fosse sumir.
– Você está melhor? – indago, preocupada.
– Sim... né? – diz ele, olhando para os braços como se estivesse se certificando de que tudo estava certo – é, estou melhor sim! – anuncia, sorrindo.
Dou um sorriso enorme, e abraço ele da melhor forma que dá, com medo de machucar ele. Tom, também me abraça, e ficamos assim por um tempinho, até que ouço a porta abrir e se fechar. Viro-me e me deparo com...
– Ora, vejam só! A dona e bichinho de estimação! – exclama Phill.
– O que está fazendo aqui? – falo baixinho, me colocando entre ele e Tom.
– Eu? Bem, eu vim me certificar que meu experimento não vá por água a baixo, vai que esses intrometidos dos médicos decidem fazer teste de DNA? Eles descobririam que o seu foi alterado, e vocês na certa me entregariam!
– Entregaríamos mesmo! – falo – acha que iríamos ficar te defendendo, seu maníaco?
– Isso aí! – exclama Tom, tentando participar.
– É, mas acho que vocês não iriam querer que eu fosse ‘’desmascarado’’...
– E por que não? – pergunto, curiosa.
– É simples: se eles me pegam, serei obrigado a reverter sua situação... você com certeza não gostaria de voltar a ser um gato, não é, Tom?
Percebo, triste, que ele ficou realmente sem palavras... ele realmente CONSIDEROU voltar a ser um gato? E eu? Meu Deus, o que eu faria se ele voltasse a sua forma original? Eu ficaria encarando meu gato feito louca, e me lembrando dele como humano...
– É claro que não! Eu já criei uma vida nova como humano, e você vem querer tirar isso e Alice de mim? Ficou louco? – reclama Tom.
Respiro fundo, aliviada.
– Proponho, então, um acordo: vocês não me denunciam, e eu volto para meus experimentos. Vai demorar anos até eu conseguir desenvolver a fórmula certa para fazer a operação inversa e... – ele é interrompido pelo médico:
– O tempo de visita está quase acabando... ele – e aponta para Tom – vai ter que passar a noite aqui. Qual dos dois vai ficar com ele?
– Eu. Tom, vou voltar pra casa e pegar algumas coisas pra passar a noite – aviso, me virando para ele – ah, e Phill, volte para casa, sim? – falo, sorrindo forçadamente.
– Sim, sim. Tchau – fala Phill, saindo dali rapidamente.
Me despeço de Tom com um beijo, e saio da sala, deixando Tom e o médico sozinhos para poderem fazer os exames.
Percebo que o carro ficou lá no estacionamento da pizzaria, e xingo em silêncio. A solução é pegar um ônibus mesmo.
[...]
Revejo as coisas que peguei: duas mudas de roupa para mim, duas para o Tom, um saco de dormir para mim, sabonete, escovas de dente, creme dental, toalhas, duas cobertas mais finas, dois travesseiros... é, acho que está tudo certo sim. Agora é só colocar na mala. De um lado as roupas, do outro lado, bem dobrados, os dois travesseiros e duas cobertas. No bolso da frente o resto das coisas.
[...]
Já cheguei no hospital. Tom mudou de sala, ele vai ficar em uma que acho que foi feita pra quem vai ter que passar a noite: várias macas, com cortinas entre elas, e um espaço um pouco maior. Começo a desenrolar o saco de dormir, e arrumo as outras coisas também. Estou esperando Tom tomar banho, ele já levou a troca de roupa e a toalha. Me sento em uma cadeira, e pego um papel e uma caneta que estavam por lá em uma pequena mesa.
Tom,
Fui arranjar comida, daqui a pouco volto.
Ali
Pronto. Saio daquele quarto, e vou procurar alguma lanchonete. Deve ter alguma por aqui...
Avisto uma, quase do lado do hospital. Vou até lá e compro uma marmita mesmo. Compro também um refrigerante de limão, já que aqui não vende Coca.
Tom já tinha chegado e estava sentado na maca brincando com um pequeno cubo mágico.
– Ah, você não vai conseguir montar, Tom, é impôs.... COMO ASSIM VOCÊ MONTOU? Me dá aqui! – falo, tirando o cubo da mão dele, e comprovando: todos os lados de uma cor só...- ah, seu feio! Como você conseguiu?
Ele começou a rir, e tentou parar, o que não deu muito certo.
– Agora é a minha vez de tomar banho. Já volto – aviso, e pego minhas coisas.
[...]
Quando volto, ele está com a marmita na mão, batucando nela com os dedos.
– Está viva? Certeza que não derreteu em baixo da água? – pergunta, sarcasticamente.
– Tenho! – falo, e pego a marmita da mão dele.
– Ei!
– Calma, eu peguei dois pratinhos descartáveis, aí colocamos metade da marmita pra cada um – explico.
– Se é assim – fala, esperando eu abrir a marmita e separar a comida entre nós dois.
– Pronto. Vamos comer! – falo, pegando meu prato e um garfinho plástico que arranjei junto com os pratos. Tom balança a cabeça, concordando.
Terminamos, e já está de noite. Tom se deita, e eu me deito no saco de dormir.
– Boa noite, Ali – fala Tom, de cima da maca.
– Boa noite, Tom.
Viro de lado, e adormeço aos poucos.
Fale com o autor