Notas iniciais
A história de Cice teve um final feliz, mas tudo começou numa praia há muito tempo, quando os deuses do Olimpo ainda podiam descer à Terra...

Carmem estava sentada ao sol daquela praia que já não visitava há anos. Desde a morte de seus pais, ela ainda não se atrevera a voltar ali.

Era um dia quente de agosto, quente demais até mesmo para uma praia em Long Island. O lugar estava cheio, mas ela não conseguia tirar os olhos daquele homem que caminhava ao longe, cujo cabelo era loiro e a pele dourada pelo sol. Um surfista, pensou Carmem.

Ele não tardou a vê-la também, e seu sorriso de dentes muito brancos foi o suficiente para fazer as borboletas do estômago de Carmem voarem. De perto, ele era ainda mais impressionante. Seus olhos eram claros de uma maneira que ela nunca vira antes, pareciam dois sóis em pleno meio-dia. Seu rosto bronzeado era coberto de sardas como o de uma criança, em contrapartida com seu corpo escultural de homem. E que homem.

Carmem, por sua vez, não tinha noção do quanto era atraente com seu cabelo castanho comprido e seus pequenos olhos verdes, e não acreditou quando o homem veio demonstrar interesse. Nick — que era como o loiro disse se chamar — riu, achando-a adorável. Horas de conversas e cortejos depois, Carmem levou-o até seu pequeno apartamento no subúrbio da cidade, e ele passou a surgir ali quando bem entendesse. Ela adorava isso. Foi o mês mais feliz de sua vida até então.

Até que veio a última tarde daquele clima estranhamente quente. E a última visita de Nick.

Ele disse que sua família o esperava em casa, e estava de partida. Você não pode partir agora, disse Carmem, eu preciso de você. Agora mais que nunca. A notícia da gravidez não pareceu surpreender Nick, que assentiu, desculpou-se e saiu.

Por tantas vezes ela pensou em não ficar com aquela criança que crescia sem permissão em seu ventre, e ao entrar no quarto mês de gestação ela já se decidira. Assim que nascer, vou deixar num orfanato.

Carmem, agora, odiava aquele apartamento que ainda tinha o cheiro de Nick. Odiava aquela praia que uma vez fora o cenário dos passeios de sua infância, e agora era apenas o lugar onde ela havia conhecido o homem que estragou tudo. Odiava aquela cidade, onde todos sabiam que ela fora abandonada grávida. Carmem decidiu que ia sumir de Long Island, dos EUA, do planeta se fosse possível. Vendeu o apê e tudo que podia para juntar dinheiro, e comprou passagem só de ida para o lugar mais longe que conseguiu.

A criança nasceu em Londres algumas semanas depois de ela se instalar. No momento em que Carmem olhou pra ela pela primeira vez, se apaixonou. Todo o ódio que Nick plantara em seu coração foi substituído por um amor inexplicável por aquela garotinha perfeita, de cabelos ruivos e grandes olhos castanhos. Seu nome chegou aos ouvidos de Carmem como se o vento o houvesse sussurrado: Cecília.

A moça conseguiu um emprego como professora perto de casa e, assim, as duas começaram uma nova vida. Os dia foram se passando, e Cecília demonstrava cada vez mais ser uma criança carismática, esperta e elétrica. Não parava quieta, e Carmem corria de um lado pro outro atrás da garotinha — o que não a incomodava nem um pouco. Os problemas só apareceram quando ela percebeu que Cecília tinha dificuldade de aprendizagem, apesar de sua esperteza. Foi diagnosticada com dislexia e hiperatividade.

Apesar de tudo, as duas se entendiam e sempre arrumavam um jeito de burlar os problemas. Carmem se intrigava com os cabelos ruivos e os olhos castanhos da menina, mas isso não era um problema. Nada em Cecília lembrava o pai. Elas estavam felizes, e o passado estava no passado.

Até o dia em que Nick reapareceu em sua porta.

Seu estilo mudara, mas seu rosto era exatamente igual ao que era 4 anos atrás. Carmem se lembrava de cada sarda. Ela queria esmurrar Nick, xingá-lo, colocar ele pra correr pra bem longe de sua filha, mas ela não fez ou disse nada. Nick não deu espaço para tanto.

Num só fôlego, ele contou toda a verdade. Disse que era Apolo, o deus do sol; que só foi embora porque seu pai, Zeus, proibiu os deuses de descerem do Olimpo e se relacionarem com humanos; que Cecília era uma semideusa e corria perigo; que Quíron a encontraria, pois ele era o único que podia ajudar a manter a criança escondida e em segurança.

E, mais uma vez, foi embora. Carmem nunca mais o viu.

Naquela noite, ela foi dormir chorando. Não por raiva ou por amor, mas por medo. Medo de acreditar no que Nick dissera, medo de ver as provas de que tudo era real. Acima de tudo, medo de perder sua menininha.

Quíron não tardou a encontrá-la, confirmando todos os seus temores. Por outro lado, ele prometeu que ajudaria Carmem caso alguma coisa acontecesse. E aconteceu, é claro.

Ela ouviu antes de ver. O barulho das asas cortando o vento, o urro estridente que fez sua cabeça fincar de dor.

Carmem correu para o quarto onde a filha estava, trancando a porta atrás de si. Cecília parou de desenhar e olhava ao redor, com os olhos arregalados, e Carmem correu para envolvê-la em seus braços. Minha garotinha valente, foi a última coisa em que conseguiu pensar. A Fúria estraçalhou a janela do quarto ao entrar voando. Cecília gritou quando o monstro mergulhou em direção às duas, e as garras rasgaram a pele pálida do ombro da criança.

Carmem entrou em desespero. Se ela não matasse a Fúria, a Fúria mataria Cecília. A escolha foi simples.

O monstro havia pousado em um canto alto do quarto. Quando mergulhou novamente, Carmem pulou em suas costas, armada apenas com o canivete que adquirira o hábito de manter no bolso. Ela rasgava a pele da Fúria tanto quanto as garras dela rasgavam a sua. O choro de Cecília era sua única motivação para continuar lutando.

Carmem só sentiu a dor após uma última facada na Fúria, dando fim à luta. Monstro e mulher foram ao chão, cobertas de sangue uma da outra. Carmem sentia sua vida se esvaindo por cada rasgo em sua pele, mas ela não podia morrer. Ainda não.

Arrastou-se até onde sua filha desenhava há apenas alguns minutos, e com um lápis azul claro e as mãos tremendo, ela conseguiu rabiscar umas palavras na folha manchada de sangue. Arrastou-se mais uma vez, agora até onde Cecília estava, e deitou a menina que ainda chorava sobre seu peito.

Quando Quíron chegou, quase uma hora depois, o corpo de Carmem ainda abraçava uma Cecília adormecida. No ombro esquerdo da criança, uma cicatriz em forma de três garras sorria para ele.

***

Quíron pegou a criança no colo, que começou a remexer e abrir os olhos. Ao ver o corpo da mãe, pareceu entender tudo. Chorou aos berros, as lágrimas abriam caminho em meio ao sangue seco em suas bochechas.

Ele a aninhou em seus braços e saiu do cômodo. O galopar de seu tronco de cavalo acalmou Cecília, que em alguns minutos parou de chorar. Quíron sabia exatamente para onde devia levá-la, os deuses sussurraram pra ele.

Irmã Lorelai abriu a porta com um sorriso cansado no rosto, mas Quíron não conseguiu sorrir de volta. Explicou que a criança era filha de uma amiga que acabara de falecer, e em sua condição de cadeirante ele não poderia cuidar de uma criança disléxica e hiperativa de 4 anos de idade. Se a Irmã acreditou naquilo, Quíron nunca soube dizer. Ela assentiu docemente, pegou Cecília no colo e entrou de volta no orfanato, fechando a porta atrás de si.

Apenas 14 anos depois, Cecília e Quíron se encontrariam novamente.

***

Cecília era uma criança dócil, mas extremamente agitada. Esperta também, mas a dislexia atrapalhava muito seus estudos e sua aprendizagem ficava prejudicada nas escolas comuns.

Apesar de sempre arrumar encrenca no colégio e principalmente no orfanato, Irmã Lorelai e Cecília se afeiçoaram uma à outra como mãe e filha, e foi difícil para ambas quando Cecília foi adotada, aos 6 anos de idade. Seus cachos ruivos e as sardas que pipocavam seu rosto faziam com que vários casais se interessassem em adotá-la. Logo que descobriam seu histórico de artimanhas e cuidados especiais, porém, os pais em potencial eram afastados com a mesma facilidade.

Apenas um casal topou o desafio.

Joanne e Daniel Rooney já eram casados há 12 anos, mas o acidente de carro que matou seus filhos gêmeos também arrancou a fertilidade de Joanne. Durante anos o casal procurou uma criança para adotar, mas não pareciam ser capazes de amar de novo. Até conhecerem aquela magricela ruiva encrenqueira.

A ficha desastrosa de Cecília nem se comparava aos desenhos incrivelmente artísticos para uma menina de 6 anos, pelo menos não na visão dos Rooney, e eles não pensaram duas vezes antes de adotá-la.

Apesar de sentir falta da Irmã Lorelai, Cecília estava se adaptando bem à nova vida e aos novos pais. Eles formaram uma família feliz por quase uma semana.

Exatamente seis dias após a chegada da menina à casa do casal, os monstros seguiram seu cheiro novamente. Enquanto a casa — e os Rooney — pegavam fogo, Cecília chorava baixinho no jardim, escondida. Quando os bombeiros a encontraram, havia apenas cinzas e fumaça.

Cecília nunca mais foi adotada. Ela mesma não se sentia segura fora do orfanato, e recusava qualquer entrevista de adoção que a Irmã Lorelai pensasse em arranjar pra ela. Por algum motivo que ninguém conhecia, os monstros não atacavam o orfanato, então ela não iria a lugar nenhum. Ninguém mais morreria por ela.

Aquelas duas noites, em que sua mãe e os Rooney morreram, nunca saíram da cabeça de Cecília. Enquanto ela dormia, revia tudo em pesadelos. Enquanto acordada, a cicatriz estava em seu ombro esquerdo como lembrança.

À medida em que os anos iam passando, as lembranças ficavam cada vez mais confusas e menos nítidas, de forma que Cecília passou a duvidar delas. Principalmente porque todos diziam que tudo aquilo era fruto de sua mente hiperativa, e os monstros que assombravam seus sonhos eram apenas criações de uma super imaginação infantil. Era nisso que eles queriam que ela acreditasse.

Era no que eles queriam acreditar.

***

Nenhuma escola parecia ser boa o bastante para ela. Em qualquer uma delas, Cecília brigava com os outros alunos e com os professores, não aprendia a ler ou escrever, ficava dispersa nas aulas e seus cadernos tinham desenhos ao invés de matéria. Cecília era carismática e dócil, mas não aceitava que zombassem dela — seja por ser disléxica, hiperativa ou órfã.

Depois de já ter passado por quase todas as escolas públicas da região, Irmã Lorelai achou melhor que Cecília fosse educada em casa. O Sr. Peterson, especializado na alfabetização de crianças especiais, foi o único professor que arrancou resultados de Cecília. Frequentou o orfanato durante dois anos, até que foi morto misteriosamente depois da aula, à caminho de casa. Cecília guardou os cartões de aniversário que recebera dele dentro de uma caixinha de sapato, junto à carta de sua mãe e uma foto de Joanne e Daniel Rooney, um dos poucos artefatos que saíram ilesos do incêndio.

A Irmã Lorelai, então, decidiu que ela mesma daria aulas à Cecília, e assim foi até que ela completou 15 anos. A adolescente prometeu que se comportaria, e foi matriculada novamente em um colégio comum.

Cecília aprendeu a ignorar as provocações, mas tampouco fez amizades. Os outros alunos riam de suas dificuldades e a excluíam dos grupinhos, enquanto suas notas e seu humor iam de mal a pior. Por recomendação do diretor, Cecília foi transferida para o Colégio Tommy High School para pessoas especiais.

No colégio novo, todos eram diferentes entre si. Havia alunos com transtorno de déficit de atenção, portadores de síndromes, disléxicos, entre vários e quaisquer outros problemas. Pelo menos ali, ela era apenas mais uma. O que não a fazia se sentir muito melhor, porém. Ela continuava sozinha.

Algumas semanas depois das aulas começarem, Logan passou a se sentar perto dela. Ele também sofria de dislexia e hiperatividade — e acessos de fúria, como Cecília descobriria mais tarde -, o que fez com que os dois se aproximassem. Os acessos de raiva de Logan, além de estarem cada vez mais frequentes, faziam com que ele desse leves choques elétricos nas pessoas. Cecília era uma vítima constante, e a convivência com ele às vezes era um inferno. Ela tentava se afastar, mas ele estava sempre ali — e, apesar de tudo, ela sentia sua falta toda vez que ele não estava por perto.

Durante os dois anos que passaram no Tommy High School, até se formarem, Logan foi seu único e melhor amigo.

Foi então que tudo começou a mudar.

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