Nenhum de nós estava muito animado ao acordar de manhã. Meus olhos ainda estavam inchados, pois mal conseguira fechá-los a noite. Ainda assim, vestimos nossas semi-armaduras, pegamos as armas e partimos mata adentro.

Eu fui na frente, o arco armado e decidida a encontrar Dugald McClivert o mais rápido possível. Logan vinha logo atrás, com sua espada na bainha, e Liz e John mantinham as varinhas erguidas. Mesmo assim, não ouvimos o Quintípede chegar.

A mata era espaçada o suficiente para um monstro daquele tamanho nos alcançar sem fazer barulho e, quando dei por mim, o quintípede já estava em cima de nós. Brandiu a pata dianteira, lançando John e Liz para longe.

– CUIDADO! — Logan gritou para mim, mas eu já pensava no que fazer. O último quintípede que encontramos era praticamente imune a flechas. Foi então que uma imagem veio à minha cabeça: quando uma Fúria atacou Hogwarts, foi meu irmão Lee quem a afugentou com uma flechada no olho.

– Logan, distraia ele.

Ele arregalou os olhos. – O quê?

– Eu tenho um plano! Ataque as patas dele!

Log não discutiu e correu de encontro ao monstro. Ele brandia a espada contra as pernas peludas do quintípede, que não se machucou. Mas se enfureceu, exatamente como eu queria que fizesse. Ele se concentrou em Logan e esqueceu dos outros. Armei duas flechas no arco e disparei: em cheio num dos olhos vermelhos da fera, que urrou de dor. Disparei mais duas flechas no olho que restara. Agora, o quintípede estava completamente cego.

Não vi quando John se levantou de onde o monstro o tinha arremessado, nem a hora em que se aproximou de nós de novo. Só vi um feixe de luz muito verde passar zunindo por mim e acertar o peito desprotegido do quintípede, que urrou mais uma vez e tombou no chão.

Morto.

– Muito bom — falei para John, baixando o arco. Ele sorriu.

– Foi um bom plano.

Logan ajudou Liz a se levantar.

– Estão todos bem? — indaguei.

– Sim — foi Liz quem respondeu, mas ela mancava e tinha os braços e pernas ralados. Meu coração apertou.

– Vamos continuar. Não vejo a hora de sair daqui.

Andamos por horas sem encontrar nada — nada de quintípedes, fúrias, e nenhuma comida ou água, apesar da vegetação ficar mais densa a medida em que avançávamos.

– Não da pra continuar assim — disse John de repente, — estou faminto! Vou caçar alguma coisa pra nós enquanto ainda há alguma luz do sol. Fiquem aqui e ascendam uma fogueira.

– Então um de nós vai com você — Liz falou.

– Não, quanto mais pessoas forem, mais barulho faremos. Fiquem aqui. Volto já.

E saiu sem esperar resposta.

Log, Liz e eu começamos a reunir lenha, mas não fizemos muita coisa: apenas alguns minutos depois, John voltou correndo.

– Vocês não sabem o que eu encontrei!

– Comida é que não foi — apontei para suas mãos vazias.

– Me dê o mapa, Cice! — Ele gritou, ignorando meu comentário irônico. Peguei o pergaminho de dentro da mochila e o entreguei.

– Aqui — ele desenrolou o mapa que eu havia desenhado no dia em que chegamos e apontou para a caverna circulada. — Você disse que o cara estaria escondido na caverna mais alta. Se ele está lá eu não sei, mas essa caverna é logo ali.

– Mas daqui não da pra ver nada! — Liz argumentou.

– É porque estamos num vale. A vegetação está tapando nossa visão.

– Se estamos tão perto — Log falou, — devemos continuar.

Fiz que sim com a cabeça.

– Então vamos.

Andamos uns 10min até chegarmos ao pé de um monte alto e rochoso, com uma caverna no cume.

– Então, aqui estamos — disse John. — E agora?

Liz encolheu os ombros.

– Vamos escalar.

– Nós quatro escalando isso?! — Falei. — Não vai rolar. Não tenho certeza nem se um de nós consegue, quem dirá nós quatro.

– Pelo menos dois vão conseguir — a voz de Logan era fria, como se ele não gostasse do que estava propondo (e não gostava mesmo). — Eu e John vamos. Vocês duas ficam aqui.

– Não. Sou eu quem ele quer, não vocês — falei num tom de quem não aceitava discordância. Log me encarou por alguns segundos antes de responder.

– Então eu vou com você.

Quando comecei a escalar, aquela discussão toda provou-se um desperdício de tempo. Antes que Logan começasse a sua escalada, uma fúria mergulhou do cume da rocha, urrando, fechou suas garras em torno de mim e me levou para dentro da caverna.

Não tive tempo nem de gritar.

***

– Finalmente… — uma voz baixa falava quando atingi o chão frio da caverna. — Finalmente!

Levantei-me com dificuldade, as pernas tremendo. O sol de punha atrás de mim e, à frente, só havia o escuro.

– D… Dugald? — Gaguejei.

– DUGALD?! — O homem berrou de volta. — Dugald! Hahahaha! — Rindo desvairadamente, ele veio para luz. Era magro, tinha longos cabelos grisalhos e uma barba branca mal-cuidada. Sua risada era insana, e logo percebi que não estava em seu estado perfeito. A ilha o transformara num louco, assim como fizera com Emily. Segurei o punho da adaga que, graças aos deuses, ainda estava segura em meu cinto. — Dugald está morto! Todos eles estão mortos! E você vai trazer minha família de volta!

– E-escute, Dugald…

– EU NÃO SOU O DUGALD! — Ele gritava, — TRAGA MINHA FAMÍLIA DE VOLTA!

– Mas o quê...??? Não posso! Não posso trazer os mortos de volta! Nem Apolo pode, duvido que eu possa!

– MENTIROSA! — O homem pulou em cima de mim, me agarrando pelo pescoço, e caímos ao chão. — Traga eles de volta agora! AGORA!

Tirei a adaga da bainha e espetei-a em seu ombro da melhor maneira que consegui. Ele gritou e rolou para o lado, gemendo e se debatendo.

– Se meu pai curou a Emily, eu posso te curar também.

Segurei a cabeça do homem que se debatia e apertei os olhos. Comecei a murmurar palavras repetidas, e um brilho dourado encheu o ar. Então ele parou de se debater, e o barulho da adaga atingindo o chão de pedra me fez abrir os olhos. O homem se sentou e virou-se para mim, devagar.

Olhou-me com curiosidade, depois franziu a testa. Abriu a boca algumas vezes antes de conseguir falar.

– Obrigado — ele finalmente disse. Respirei fundo antes que pudesse responder.

– Parar de tentar me matar ou machucar as pessoas que amo pode ser uma forma melhor de agradecer.

O bruxo abaixou a cabeça, pegou a adaga do chão e me devolveu.

– Você tem todo o direito de me matar, depois de tudo o que fiz.

– Não — peguei a lâmina e fiquei de pé, colocando-a de volta no cinto. — Não sou como você. Não sou uma assassina.

Ele se levantou, parecendo frágil como um lago congelado.

– Essa ilha me tirou tudo. Minha família, minha varinha, minha lucidez. Me tornei um velho louco e estúpido — ele suspirou, e por um instante senti pena dele. — Espero que um dia possa me perdoar.

O homem falava olhando-me nos olhos. Depois de alguns segundos, seu olhar tornou-se pesado demais. Virei as costas.

– Esse lugar fez o mesmo com minha amiga Emily. Entendo o que a loucura pode fazer com as pessoas. — Foi minha vez de suspirar. — Já não te culpo por nada, Dugald.

Ele fez que não com a cabeça. – Dugald era um bruxo medíocre. Poderoso, mas burro feito uma porta, assim como o resto dos McClivert.

Voltei-me para ele novamente.

– O que está dizendo?

– Estou dizendo que Dugald está morto.

Ergui as sobrancelhas. – Mas a lenda diz que…

– A lenda está errada. Eu sou Quinto, líder do clã dos MacBoon. Ou já fui, um dia. Agora sou só um velho vivendo sozinho nesse lug…

– Cice! — Log, John e Liz adentravam a caverna, com as armas em punho. — Afaste-se dele!

– Não — gritei, — não o machuquem! Não precisamos derramar mais sangue.

– Pelos deuses, o que está acontecendo aqui? — Logan se aproximou. — Você está bem?

– Estou. Ele tem uma história pra contar, e acho que devemos ouvir.

– Você é Dugald McClivert, não é? — John perguntou para o velho.

– Não, jovem bruxo, não sou.

– Não é? — Indagou Liz, surpresa.

– Então a lenda é falsa — ponderou Log.

– Mas não entendo — falei para o velho. — Por que precisa de mim, já que a lenda é falsa?

– Lendas carregam a verdade. Não sei como a história foi contada, mas a verdade é que houve uma época em que essa ilha era povoada por duas das famílias mais poderosas do mundo: os McClivert e os MacBoon. Mas não vivíamos em paz. Dugald McClivert e eu queríamos a ilha inteira para nossos respectivos clãs, e isso nos levou a guerra. Até que matei Dugald num duelo, há 30 anos. Os McClivert, cegos de raiva e com sede de vingança pela morte de seu líder, atacou nosso clã. Eu consegui fugir, mas os outros MacBoon foram transfigurados em quintípedes. Ficaram tão poderosos como monstros que mataram todos os McClivert de uma vez só. Com o tempo eles perderam a consciência humana e resistiram a todas as minhas tentativas de transformá-los de volta. Foi então que transfigurei os morcegos da ilha em fúrias, para me proteger dos quintípedes. Foram essas fúrias que mandei à sua procura.

– Por que você não fugiu daqui?

– O que seria da minha família se eu fugisse? É por isso que eu preciso do seu poder, Cecília, para trazê-los de volta. Se eu não ficasse para ajudá-los, estariam condenados.

– Eles já estão condenados. Não tenho o poder de transfigurar os quintípedes de volta em pessoas. A transfiguração não é uma doença ou uma ferida que possa ser curada.

Ele piscou algumas vezes, incrédulo. – O quê?

– Ela está certa — disse John, — só o que pode trazer sua família de volta é uma varinha e um bruxo poderoso para empunhá-la.

Os olhos de Quinto MacBoon se encheram de lágrimas, e ele nos deu as costas sem dizer nada. Nós quatro nos entreolhamos em silêncio por um tempo.

– Eu posso ajudar — disse Liz, finalmente. — Posso te ajudar a transfigurá-los de volta em humanos, sei que posso. Sempre fui muito boa com feitiços e transfiguração.

– Se fosse fácil assim eu já teria conseguido, menina tola! Mesmo se eu tivesse minha varinha, ia levar anos!

Liz suspirou. – Então que eu fique aqui por anos.

Aquilo nos pegou a todos de surpresa.

– Liz!?

– Agora é a minha vez de ajudar, Cice. A viagem inteira fiquei me perguntando o que eu estava fazendo aqui, porquê eu tive que vir. Agora eu sei. “Nem todos retornarão”, se lembra? Sou eu quem deve ficar aqui.

– Você tem certeza disso, Elizabeth?- Perguntou Log. — Pode ser que nunca mais saia dessa ilha.

– Absoluta.

– Você disse… “mesmo se eu tivesse minha varinha” — John perguntou à Quinto. — O que aconteceu?

– Ela se partiu quando um dos Quintípedes me atacou, há muito tempo.

– Então talvez demore um pouco menos se você usar a minha — John estendeu sua varinha para o bruxo, que a pegou sorrindo.

– Obrigado, meu jovem. Que Merlin acompanhe sua jornada.

– Poxa, eu fiquei muito feliz por termos matado um quintípede — ponderei, — mas agora me sinto mal. Era sua família. Nos desculpe por isso…

Ele pareceu assombrado. – Vocês mataram um quintípede? Como?

– Quatro flechas nos olhos e um avada kedavra no peito — Logan respondeu como se estivesse dizendo que dia é hoje. A frieza em pessoa.

O bruxo baixou os olhos e não respondeu nada.

– Bom, minha mãe está morta graças a você. Estamos quites.

Log me olhou com um misto de assombro e divertimento.

– Acho que você está passando tempo demais comigo.

***

Apenas algumas horas depois, Logan, John e eu voávamos em Daphne e Blackjack de volta pra casa.