Diário de Um Nelliw - Crônicas da Luz
13 Destino e Acaso
-Sabe, eu amava o jeito dela de ser. Eu a amava, e esse o maior motivo de ter chegado tão longe.
Quando estamos com raiva, muitos se deixam levar por ela e se tornam verdadeiros selvagens. Mas quando ela vem junto com o sentimento de que nada mais importa você se torna frio, sem medo, sem esperanças. A única coisa que interessa naquele momento é a morte.- Raiga...- Por isso vim até aqui. E agora, sem mais ninguém, eu finalmente estou livre para morrer sem remorso.As palavras saiam como engasgos de brasa. Cada ponta de lembrança de Mizumi me vinha à cabeça. Quando nos conhecemos no meio de uma guerra. A vez em que lutei ao seu lado pela primeira vez. A ocasião onde finalmente havia decidido que seria ela a pessoa na qual eu iria dedicar minha vida, mesmo ela não aceitando ou recusando por sua timidez. Enfim, todas as lembranças de minha vida antes dela e depois, com todo aquele toque de humor, prazer e alegria, ainda que regados a uma chuva de lamúrias e tristezas. Tudo veio à tona, com o último sorriso dela, enquanto eu me preparava para minha última luta.Minha espada e escudo estavam muito longe, e o jeito seria lutar desarmado. Então me posicionei com os braços alongados. Era meu estilo de luta.- Eu, Raiga Nelliw, vou mostrar o potencial final do Kami Ryuu Keishiki! – Determinado, adiantei-me e encarei o mestre.- Cômico. – Ele falou no mesmo tom sério. – Parece que mesmo com essa infelicidade, terei o meu combate.Ele também se preparou, invocando suas esferas espirituais. Encaramos-nos por um tempo, e então fechei os olhos. Visualizei a imagem de Mizumi mais uma vez e gritei. Era hora do combate. Avancei rapidamente contra ele com o punho erguido. Ele saltou para trás e atirou uma das esferas, me fazendo mudar minha direção. Porém, quando cheguei mais perto vi que o mestre iria desferir um golpe. Defendi usando a palma da mão e comecei a socar. Nossa troca de golpes era fantástica, rápida e devastadora.- Você está disposto a morrer, só por que perdeu tudo? – Ele falava enquanto defendia um dos meus chutes.- Sim, eu já disse isso. – Recuei e girei baixo, com uma rasteira. Ele saltou e eu pulei para alcançá-lo. – Eu me importava muito com a vida deles, e por isso vivi. Porém... – Quando aterrissamos, ele atirou mais duas esferas e eu as rebati com o antebraço. – Agora que eu os perdi, não vejo razão para me cuidar.O mestre saltou para trás e começou a invocar mais esferas. Atirava uma por uma e invocava de novo. Eu corri na direção dele, levando a maioria dos ataques. Mas eu não me importava com eles. Muitas das esferas rasgavam minha carne, laceravam meus músculos, mas eu estava de pé, para morrer.- Se quer tanto morrer, farei o seu desejo virar realidade. – O mestre falava enquanto atirava uma rajada de esferas contra mim, em meu avanço descuidado. Desviei da última esfera e alonguei o passo, me aproximando mais dele e preparando um golpe com o punho. Ele notou antes que eu pudesse acertar e defendeu, mas a força foi tamanha e o jogou para trás. - Mas... como pode ter tanta força com esses machucados?- Eu já disse... que estou aqui para morrer...- Raiga...Ele ficou perplexo. Nos encaramos mais uma vez, cada um analisando o estado do outro. Eu estava cheio de marcas, hematomas e cortes enquanto ele estava praticamente sem um arranhão. Ele invocou as cinco esferas espirituais de uma vez só e as fez explodir em seu corpo, criando uma aura ao seu redor e invocou uma última vez suas esferas. Eu me preparei para meu último avanço.- Punho Supremo... – Ele parou por um segundo. – Não! Técnica dos combos! – E avançou contra mim. Eu apressei o passo e fiz o mesmo.- Kami Ryuu Kishiki!Nós corremos e mais uma vez a troca de golpes começou. Cada um estava dando o seu melhor em seus golpes. Socos, chutes, cotoveladas e joelhadas. Nenhum de nós dois tentava se defender dos golpes, mas apenas esquivar e atacara novamente. A quantidade de sangue que derramávamos era absurda, pois cada soco criava uma fissura na pele, cada chute rasgava a carne e vários golpes raspavam e cortavam levemente enquanto nós evitávamos cada golpe. O mestre me acertou um soco no estômago e começou a ganhar vantagem. Usou sua habilidade em desferir três golpes seguidos e me atirou para trás. Tentei acertar ele, mas fui atingido novamente por uma sequência esmagadora e combos. Ele estava pronto para desferir seu golpe mais violento, então eu parei de recuar e me joguei para a morte. Acelerei o passo, urrando para chamar minhas últimas forças. O mestre me acertou o seu último soco, mas eu não parei e cheguei muito perto dele, acertando um golpe de punho firme, o Shomem Shototsu. Iria iniciar minha sequência mais forte e ofensiva. Senti-o cuspir sangue depois do meu ataque.- Ryuujin Gyakushu... – Com a força do braço, fiz o punho afundar mais em seu estômago, forçando ele para trás. — Nelliw Fukkatsu No!A linha de golpes era destrutiva. Decorei cada movimento e comecei a recitá-los em minha mente, para cada golpe que eu usava. “Kabe, Kaminari, Hashira, Yari Oridecon, Raimei Keri, Han kage no tanken, Rakurai Shojun, e Hari”. Quando meus socos, chutes, técnicas de ataque concentrado o atingiram e usei a minha mão para perfurar seu peito, nada mais estava me importando naquele momento, muito menos a vitória. Vi apenas o corpo dele cair no chão lentamente, enquanto ele pronunciava fracamente suas últimas palavras. Eu as ouvi.
Silêncio. Nada além do silêncio que emergia daquela luta sangrenta era sentido por muitos metros. Eu estava sereno, ainda que com muitos ferimentos, mas estava frio. Dei alguns passos em direção à cidade dos mortos, mas parei. Lembrei-me de algo que estava esquecendo de fazer, e então voltei para onde estava o corpo de Mizumi.Nenhum monstro veio até mim depois que derrotei o mestre e comecei a caminhada pela cidade. Nada veio intervir em meu avanço. Eu carregava Mizumi nos braços calmamente em direção ao castelo onde estava a rainha dos mortos. Passei por uma fonte de águas negras e entrei no castelo, onde tinha um corredor imenso com luzes fracas. O corredor dava para um grande salão e ali, sentada em um trono de ossos, estava a deusa guardiã do reino dos mortos. Larguei cuidadosamente o corpo de Mizumi ao meu lado e fique de pé encarando a deusa. Ela me olhava com seriedade. - Você veio atrás de alguém que não vale a pena e pagou com um preço muito maior. – Ela falava com um tom de reprovação, como se quisesse me fazer entender. Eu apenas olhava para ela, sem mudar minha expressão. – Arriscou a sua vida e perdeu quem ama. Acha que isso foi justo com você?- Eu fiz o que eu e ela achamos que fosse justo. A decisão não foi só minha... – Calmamente respondi.- Seus olhos agora são como os de um homem sem vida, sem esperança, e são frios. Sabe o que aconteceria se seu menino ficasse vivo? Solto por aí?- Não tenho a intenção de saber. – Com a mesma tranquilidade, eu estava respondendo a rainha dos mortos como se fosse uma pessoa qualquer. – É a minha escolha.Ela suspirou ao ver minha reação tranquila e sem menção de desistência. Seu olhar correu do corpo de Mizumi deitado ao meu lado até a mim, e ela ergueu uma sobrancelha. - Por que a trouxe?- Estou pronto para fazer minha última troca. – Eu tinha um plano. Era suicida, claro, mas era um plano que asseguraria a minha redenção e a salvação de Aldora.- O que quer dizer com isso?- Eu quero que Mizumi tenha um pós-morte digno. Ela merece isso. – Eu encarei a rainha dos mortos por um tempo, até que ela acenou com a cabeça em sinal positivo. Recomecei. – Agora vamos ao grande trato. Liberte Aldora e deixe-o para que viva do modo como ele puder...- Mas isso é jogar um demônio em meio às pessoas. Você sabe que ele será...- O que ele vai ser... – cortei a conversa mais velha do mundo. – E o que pretende ser... É uma questão que ele vai escolher. Ele ficará sabendo de suas obrigações.A rainha dos mortos me olhou pasma, se mexendo muito em seu trono. Parecia desconfortável para ela. - Tudo bem, mas para que ele volte há condições e eu preciso...- Tudo bem, eu já sei disso. – Interrompi novamente. – E acho que já vivi demais, fiz coisas que não precisava fazer e o mundo não precisa mais de minha existência física.- O que quer dizer com isso?- Eu não vou deixar de existir, mas quero que me deixe viver em Nifflheim. – Eu dei um passo à frente e me ajoelhei. – E assim poderei ver Kem e Aldora, bem como cuidar de suas vidas. Intrigada, a rainha dos mortos começou a gesticular com os dedos, de modo que eu soubesse que ela estava tentada. O objetivo inicial era me ter silenciado do mundo, e depois surgiu o problema com Aldora. Mas ela sabia que mesmo Aldora sendo prometido do destino, esse trato que eu repassava era mais que o acaso para ela. - Raiga Nelliw. – ela falava em tom ordenante. – Você está livre para permanecer nos meus domínios. Aldora está a salvo em mãos amigas. - Muito obrigado, minha senhora. – e dizendo isso me levantei. O corpo de Mizumi foi tragado pelas sombras e eu fiquei sozinho. Minhas feridas começaram a se curar, e eu sabia que não era mais um ser vivo. Antes de eu sair do castelo percebi como as coisas tinham saído como a rainha dos mortos quisera. Tudo saiu conforme a vontade dela, e eu fui apenas mais um peão para seus planos. Porém, fui muito mais que isso. Sabia que Kem estava sendo treinado em Umbala por Shen, mas só naquele momento tinha percebido que aquilo também fazia parte dos planos, pois Shen dominava uma arte proibida, e como Kem era meu filho, era a pessoa mais indicada para eliminar esse mal. sorri ao pensar em uma luta entre meus dois filhos. Tal pai, tal filho. - Raiga... - a rainha dos mortos gritou ao longe, então eu parei. – Você sabe que vai chegar um dia em que Kem servirá a mim também. O que pensa a respeito.Essa pergunta eu sabia que seria feita. Então me virei, saquei o meu diário e apontei para ela, com um sorriso singelo.- Ele vai ficar sabendo, pois o legado dos Nelliw é passado a diante...Então, desde aquele momento, eu vivo escrevendo, olhando por meus filhos e cuidando do diário pertencente a família Nelliw. Se estão se perguntando como estou escrevendo ainda, é por que não morri de fato, mas estou preso por um vínculo em Nifflheim e aqui eu espero pelo meu dia, o dia em que finalmente poderei ajudar Kem, Aldora e mais tarde me juntar a minha amada Mizumi. Até lá, bons dias virão. Talvez nem sempre, mas sei que o nome Nelliw será referência e sinônimo de bondade, respeito, honra e poder.Por que tudo nessa vida é belo. Tudo é...Digno de um Nelliw.
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