Diário de Um Nelliw - Crônicas da Luz
6 Destino Inexorável
O Senhor das Trevas ficou pasmo diante meu avanço rápido e surpreendente. E quem não ficaria assim depois de ver sua magia mais forte ser rebatida e usada contra ele mesmo? Eu estava segurando seu braço, que tinha uma faca ritualística nas mãos. Certamente ele usaria aquele bebê para poder usar mais de seu corpo recém encarnado.
Gothan tentou se desvencilhar do meu aperto, mas recebeu um golpe do meu punho que segurava o escudo, dobrando o peso e a força do impacto. O golpe fez com que ele se desequilibrasse, mas não o deixei cair. Segurei firme e o puxei para perto, e acertei um chute frontal nele. O demônio foi jogado para trás violentamente, enquanto eu ia ao seu encontro à passos lentos.- E então Gothan, quer sentir um pouco mais de dor? – Ameacei. O Senhor das Trevas podia ser forte, mas incorporado não passava de um humano com uma força e energia privilegiadas. Ele começou a se levantar, e sangue escorria da sua boca. Quando limpou o sangue com o dorso do seu punho e viu o estrago, ficou irado.- Seu humano insignificante. Eu vou acabar com você e toda essa sua raça imunda. – Ficou de pé e então uma aura negra o envolveu, até percorrer todo o corpo e se dirigir totalmente para sua mão direita. – Irei esmigalhar todos os seus ossos, com apenas um golpe.- Mostrarei o estilo de luta que criei, e o segundo motivo da minha alcunha. – Coloquei o escudo pendurado nas costas e fiquei de lado, com a perna direita como apoio, a esquerda à frente para ter distância. O braço direito recolhido com a mão semi-aberta, e o outro esticado, não totalmente, mas com os dedos abertos em palma, esperando o ataque. Usaria o estilo do dragão ascendente. – Postura do Dragão: Contra-Ataque!Gothan veio urrando em fúria, com o seu punho carregado de energia sombria, pronto para me derrubar. Contei seus passos, até que faltavam apenas dois para me alcançar. Naquele momento, ele recolheu o punho para dar um golpe, então flexionei minhas pernas para receber o ataque. O soco veio direto no meu peito, mas desviei apenas dando um tapa em sua mão com a minha esquerda, e senti aquela energia sendo descarregada para trás, como um enorme jorro de fogo. No mesmo instante, usei a mesma mão para dar um pequeno empurrão em seu peito.- Postura do Dragão: Cauda! – Fiz um rápido movimento com a mão direita e acertei um soco em suas costelas, sentindo algumas delas se partirem. Ele cuspiu sangue, e notei havia saído um líquido escuro e denso misturado. Cambaleou para trás, segurando o flanco esquerdo enquanto me preparava para mais um movimento. – Postura do Dragão: Asas! – Naquele instante, com o corpo virado ao oposto do meu outro movimento, impulsionei-me para frente, virando-me de costas e girando minha perna esquerda para trás, criando um movimento de arco no ar. O chute giratório que acertei começou com meu calcanhar batendo no maxilar de Gothan, e então girei meu corpo com o impulso e me joguei de lado para frente, arqueando minha outra perna na seqüência e acertando um segundo chute mais forte na cabeça do encarnado.Quando toquei o solo, olhei para frente e vi que o demônio estava caindo no chão, então preparei mais uma das posições. - Postura do Dragão: Presas! – Fiquei com as duas pernas niveladas, pouco flexionadas nos joelhos e com os dois punhos para trás. Gothan caiu no chão e se debateu. Os golpes tinham sido rápidos e se não fosse sua grande força, certamente teria morrido. Ele olhou furioso e levantou-se novamente, correndo em minha direção. Antes de me alcançar, avancei com minha perna direita para avançar e o surpreendi tencionando violentamente meus braços de trás para frente, e fiz com que minhas mãos abertas em forma de garras atingissem o tórax de Gothan, esmigalhando seus ossos e o jogando bruscamente para longe.Fiquei com a postura reta novamente. Vendo aquele ser desprezível no chão, me senti desanimado em pensar que fui para Glast Heim por nada. Estava prestes a retirar minha espada do lugar onde eu a havia encravada, quando senti aquela energia sinistra erguendo-se no ar novamente.- Acha que me derrotou? Eu? Um dos sete generais? – Finalmente alguma coisa interessante para se ouvir dele. Me virei e vi Gothan se levantando, sangrando e respirando rapidamente. Sua voz outrora grave e sombria sibilava como a de um humano comum em agonia, ainda que com aquele tom grosso e tenebroso do monstro que era.- O que quer eu faça, acho que nunca vou me livrar de seres como você,não é? – Respondi entediado. - Você é um verme, Raiga. – Ele jogou o insulto com um cuspe vermelho em minha cara. – Saiba que essa criança é meu vassalo, e um dia irei reclamar seu corpo e depois, toda a Midgard. - Então foi pra isso. – Fiquei sério, olhando para aquele desarrumado monstro incorporado. Pensei por um minuto, e foi tempo suficiente para que o Senhor das Trevas corresse em minha direção, tentando me abater. Peguei a espada do chão e puxei o escudo das costas. – Postura do Dragão: Garra Tripla!
Deixei meu corpo de lado novamente, posicionando o braço do escudo à frente, e a espada para trás. Quando Gothan estava mais próximo, com suas garras afiadas prontas para me rasgar, joguei o corpo para frente antecipando seu movimento e acertando-o com o escudo. O golpe fez com que o peso dele me firmasse, então abaixei o braço e usei contra-peso para jogar a proteção para trás, enquanto trazia a espada acima de minha cabeça em um arco, cortando o seu peito. Com a arma já abaixada, girei meu corpo e recomecei o movimento. Repeti o mesmo ataque duas vezes, girando e acertando com escudo e a espada até que ele estivesse com três cortes compridos e profundos em seu peito. Movimentos perfeitos os meus, bem trabalhados na questão de força, defesa e acrobática. Realmente um feito digno de um Nelliw, devo dizer. Mesmo assim, Gothan não caiu definitivamente. Cambaleou e estava totalmente encharcado de sangue. Notei que tinha feito aparecer garras, presas e chifres na testa e seu corpo estava maior. Guardei minha espada e o escudo pendurei nas costas. - Desista, já não tem forças para suportar este seu corpo, quanto mais me enfrentar. - Cale-se! – Mais uma vez, uma energia pairou no ar e do alto várias bolas de fogo desciam até onde eu estava. - Está bem. Vou usar o terceiro golpe do Deus Dragão, criada pelo meu pai através de seu duro treino, e aperfeiçoada por mim graças às pesquisas do povo antigo. E diferente das outras técnicas, essa tem um nome.Os meteoros estavam perigosamente próximos, e dava pra sentir seu calor mais intensamente conforme iam chegando. Espalmei minhas duas mãos para frente e concentrei toda a força, e pude sentir meu corpo ficar mais rígido, forte e com mais resistência, como se tivesse ganhado a benção dos deuses. Como Uriu havia feito e me ensinado, a luz contida na Crux Magnum que é liberada através de todo o nosso potencial, de nossa própria energia.- É a luz da criação que eu uso para libertar-lhe. - E então, um forte brilho saiu de minhas mãos, e explodiu a frente, como se o sol pairasse em nosso meio. Os meteoros foram consumidos pela luz e se desintegraram, e então toda aquela energia atingiu Gothan. A dor que sentia era terrível, mas a que o demônio experenciou, não gostaria de ter em minha pele. Com toda aquela claridade não pude enchergar, mas consegui ouvir os urros de desespero, enquanto seu corpo fervilhava com a intensidade luminosa.Quando a luz cessou, só restava um corpo agonizante e queimado. Respirei fundo. Usar aquelas magias e posturas me consumia muito. Mas algo chamou a atenção. Ví sombras envolviam o alquimista derrotado, e um líquido negro saiu de seus ofirícios. Soube que era Gothan, quando sua voz ecoou no cemitério, como se viesse das paredes.- A batalha de hoje foi ganha por você, Deus Dragão. Mas saiba que não viverá para sempre, e em breve, quando o mundo estiver coberto pelas trevas, os generais vão sair e encontrar os seus vassalos. Espero que cuide bem da criança...pois ela é vítima do destino. Dizendo aquilo, a sombra desapareceu e deixou apenas o cadáver jazendo ali. Olhei para os lados e então encontrei o bebê, que havia caído da mesa podre de madeira e estava berrando por causa da dor, ou porque já entendia que seu destino estava traçado. Pobre criança, a tomei como minha e a carreguei nos braços. Esmaguei uma pequena asa de borboleta, que havia em meu bolso, e fui teleportado para Geffen rapidamente com a criança nos braços.A caminho de casa, avistei minha adorável esposa me esperando na porta. Naquele dia senti pela, primeira vez, a alegria de estar vivo. Quando me aproximei, ela notou o pequeno bebê, que chorava muito, e ficou séria.- Esta criança, de onde veio? De quem é ela?- É um órfão, querida. E gostaria de criá-lo como um irmão para nosso jovem Kem. – Já havia escolhido um nome para meu filho, mas me vi sem graça quando minha esposa deu um largo sorriso e perguntou qual seria o nome dele. Respondi o primeiro que veio a cabeça. – Vamos chamá-lo de Aldora. – A criança tinha que ter um nome afinal. — Aldora Nelliw!
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