Diário de Catarse
1 Retalhos mentais
Notas iniciais
Através de uma pequena fresta da porta consigo ver o corredor que leva à sala. A luz da manhã nas paredes claras da cozinha me dói os olhos. Não consigo abri-los completamente, mas preciso me acostumar, pois não receberemos o tom dourado e quente do sol por algum tempo. Pelos próximos dias de junho e julho será tudo prateado e frio aqui em Divino. Eu costumava amar o inverno, mas ele se tornou constante demais.
Estou na cama, meu corpo esticado como um cadáver, pés juntos, mãos sobre o peito e o caderno aberto em uma página rabiscada. Não sei o que escrevo, está tudo rodando e sinto náuseas. Não consigo fazer meus olhos permanecerem abertos por muito tempo.
Me deitei às quatro da tarde do dia anterior. Dormi, deixe-me ver, por 15 horas. Nem é um recorde. Já faz alguns dias que isso acontece. Estou me sentindo sempre muito cansada, com um sono que não passa e uma sensação de não estar presente em nenhum lugar.
Quando você acorda, você sente seu coração acelerar? Eu sinto. Quando abro meus olhos e vou tomando consciência, tudo começa a girar e a primeira coisa que surge é uma batida forte no peito, como se fosse um susto.
“Ah, então estou viva, que coisa horrível”.
Aí vem a dor, algo como aquele nervosismo antes de uma apresentação em público, misturado com a sensação de estar em um velório. O único momento em que não sinto essa dor é quando estou dormindo. A dor, o suor e a taquicardia. Trio de esquisitice... Por isso gosto tanto de dormir. Não sinto nada, não penso nada, sou o nada...
Ouço minha mãe cantar em sua rotina mecânica de dona de casa e sei que meu pai deve estar trabalhando entre batuques, buzinas, anúncios em alto falantes, carros, motos e clientes tagarelas. Não sei como todos fazem para estar sempre sorrindo, sempre com uma aparência feliz. Como apenas eu pareço inerte e terrivelmente incomodada com a vida?
Não consigo me levantar. O celular indica que estou nessa enrolação há vinte minutos. Eu tenho que me levantar. Me sinto mal por não ser produtiva e mais ainda quando tento produzir e vejo que nada sai como deveria.
Quando fui ao posto de saúde em abril, o médico me receitou outra bombinha para minha asma, alguns antialérgicos e me mandou fazer exames. Não adiantaria, eu ficaria doente de novo, como sempre fico.
São as dores fortíssimas da gastrite, é a falta de ar, as tosses desesperadoras, a fraqueza e as inflamações recorrentes. Tudo me acompanha há anos. Eu preciso cuidar de mim, mas o fato, no entanto, é que eu não quero mais cuidar de mim. Desisto.
Me alimentar, passear e tomar remédios, tudo é uma recompensa e eu não quero me recompensar. Sinto prazer na tortura. É gratificante ouvir os gritos do meu corpo por socorro. Não vejo motivos para me salvar se até o momento a vida não valeu a pena. Quero me recuperar para quê? Nunca senti prazer em estar viva.
Talvez, eu penso secretamente, eu possa me permitir ficar bastante doente, até que não haja forças e meu coração desista de bater. Seria uma saída mais fácil para uma pessoa covarde demais para tomar uma atitude drástica. Pensamentos assim, tão insanos, me assustam, mas insistem o tempo todo.
Meu Deus do céu, ainda não consigo me levantar.
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