Diário de 2070
2 23 de Janeiro de 2070
Primeiro dia de aula. Dia de Aula de História.
– Bom dia alunos! — Cumprimentou o Professor Diaz. — Bom, como meu dever, devo informá-los que perdemos mais dois alunos nestas férias, por desidratação. Maria Luisa Souza e António Machado Ferreira. Como sabem o colégio não fará homenagem nem dará feriado, pois se desse feriado para essas coisas, quase não teríamos aulas. E como temos 3 dias de aula na semana, não tem como. — Ele fez uma pausa.
Quando comentou dos alunos mortos, me senti mal. Não pela morte em si, já estávamos acostumados, mas sim por não ter notado. Os dois alunos mortos não eram muito chegados a mim, porém conversávamos no intervalo, discutíamos política e maneiras para termos mais águas. E eu não notei a falta deles. Chegamos mesmo ao ponto de se acostumar com a morte?
– Vocês sabiam que, era difícil um Aluno morrer antigamente? E quando morriam, eram prestadas homenagens e decretado feriado? Isso se chamava Luto. As pessoas ficavam mal pela morte, hoje virou um hábito, quase como beber água, antigamente, claro... — O professor fez uma pausa, olhando cautelosamente para a porta entreaberta, quase como se esperasse alguém aparecer. Já mencionei que vivíamos numa ditadura? O mundo todo (que sobrevivera à terceira Guerra mundial e à grande seca mundial) vivia em uma ditadura, o povo não tinha mais disposição para votar, ou para estudar, antigamente, tinha cinco dias de aula, hoje, só três. — E eu não sei se lhes contei, mas foi entre 2010 e 2020 que a seca começara em São Paulo. Quando eu era pequeno, o racionamento de água já era grande, mas havia ainda bosques verdes, lagos... No início do século XXI a água estava sendo já racionada, mas não controlada pelo governo, como é hoje. A questão é: Foi tarde demais. O governo não se importava tanto com a população ou com a água, e não creio que hoje seja diferente. Acreditem, a água hoje, é sinônimo de poder. Por isso é tão bem cuidada pelo governo. Pois é para isso que ligam, o Poder. Não se iludam, o governo não liga para vocês. Se ligassem, não expulsariam os incapazes de pagar-lhes com água, o que é direito deles! Porque acham que somos expulsos das Áreas Ventiladas, por não termos como pagar? Antes, era o dinheiro, quem não tinha dinheiro não vivia, era expulso da sociedade e jogado nas ruas. Hoje, meus alunos, é a água. Quem não tem água para dar ao governo, que nada fazem além de beber água do povo, é expulso e condenado à morte lenta. Somos obrigados a falar que aqueles que foram expulsos das Áreas Ventiladas "Sumiram", quando todos sabem que foram condenados à morte pelos políticos que juraram protegê-los. Isso porque somos hoje, a maior potência mundial! Graças à sorte de estarmos num País rico de rios. Mas saibam que mais da metade de nossos rios se foram em 70 anos! E a culpa, foi do governo, de todos os países! Pois esses dias de secas foram a muito profetizados. Mas na época, o país de grande potência, era aquele com mais dinheiro. Quem ligava pra água? Ela caia do céu de graça! Enchia nossos rios! Tinham problemas de enchentes! Estamos na miséria, com falta de água, por mau planejamento dos governos, não só daqui, como de todo o mundo. Agora, os rios secam, e metade da população mundial morreu pelas guerras e secas, pelo egoísmo e pela busca de poder.
Gerou-se um silêncio. Não estávamos assustados. Era normal vê-lo com raiva, o nosso professor era o mais velho que conhecíamos, com sessenta anos, ele viveu mais intensamente do que meu pai, a época em que a água não era tão controlada. A época em que animais corriam por aí e que eram caçados e o comíamos. A época em que frutas se vendiam por dinheiro, e não custavam caro. A época em que qualquer um podia ter uma plantação e colher as próprias frutas.
De repente, surgiu a diretora. Ela tinha apenas 34 anos, mas aparentava 50, era careca, como todos, e usava uma túnica cinza. Era negra e séria, Magra esquelética, como todos.
– Professor, tem gente te procurando. Querem te ver na minha sala.
– E quem seria tão importante para interromper minha aula?
– O presidente.
Nosso professor gelou. Ele fitou a Diretora pálido, o que era difícil, já que a pele dele, como da maioria, era escura. Caminhou nervoso para fora da sala. Esperamos por alguns minutos seu retorno, mas fomos dispensados.
O resto do dia fora como todos os outros. Cheguei em casa, me limpei com a toalha e o azeite, comi nossa comida que era 80% sintética, tomei dois goles de água, e fui para o laboratório da minha prima.
Ela era cientista e procurava algo para acabar com a seca. Ela usava cadeiras de rodas, de tão desidratada, não tinha forças para andar. Só estava viva, pois fazia o suficiente para isso. "Estou guardando água para uma coisa melhor" ela dizia. Minha prima, Ana, ganhava bem, porém, inferior ao meu pai. Ela ganhava uma garrafa de água por semana. Me cumprimentou com o mesmo carinho quando cheguei lá.
– E aí, alguma cura?
– Cura não, mas o processo de dessalinização está em evolução, mais rápido, porém ainda seria caro e o lucro é de um terço de água potável... E tem dois terços restantes de salmoura... O descarte desse resíduo é um dos grandes dilemas da dessalinização, sabia? No solo, a salmoura inibe o crescimento das plantas, que, cá pra nós, já é escasso... Se a mistura cair em correntes de água doce, causaria um grande estrago ao pouco que resta dos peixes que são sensíveis ao sal... Sem falar também, que esse processo, exclui também muitos nutrientes como cálcio, potássio e etc...
– Mas não pode simplesmente colocá-los de volta? Sei lá.
– É o que eu estou estudando. Mesmo que eu consiga tudo isso, o governo vai pedir muita água para realizar o projeto, e cada vez vai pedir mais. E eu não tenho muita água.
– O papai tem! Nós recebemos uma garrafa de água por dia, e damos dois goles cada um por dia! Ele guarda metade num cofre, e o resto ele dá pro governo, quando sobra água a gente bebe um copo por mês!
– Eles vão pedir bem mais do que um copo por mês, Rita, entenda, enquanto não faltar água para eles, eles não vão ligar.
– Como assim? Claro que falta água pra eles!
– Não falta não. Ou você acha que eles fazem o que com tanta água que recebem? Só cientistas e pessoas como seu pai que ganham muita água, o resto, uma ou duas garrafas por mês! Eles não se controlam como nós. Como eu.
Está ai uma realidade que não queria aceitar.O governo seria tão mal assim?
– Custa apresentar esse projeto para eles? A água pode chegar a faltar lá também, meu pai pode te apoiar, ele pode ajudar a pagar e pode te dar apoio! Meu pai é importante, ele pode dar uma moral.
– Quando eu descobrir um jeito de tornar a agua salgada em água doce sem tirar as proteínas, eu falo com seu pai, combinado?
Eu balanço a cabeça careca e a abraço.
O estranho do abraço, é que dá para sentir nossos ossos se encostando. As túnicas, disfarçam nossos corpos esqueléticos, mas não os escondem da sensação de um abraço. Osso Roçando em osso.
Mesmo sendo mais hidratada do que ela, isso não fazia de mim uma pessoa hidratada. Ninguém é. Passei o dia no laboratório com minha prima Ana e sua equipe, de mais dois cientistas, eles trabalham todos os dias, em busca de uma cura para a seca. E isso é de fato impressionante.
Depois vou para o antigo parque do Ibirapuera e fico sentada na ponte onde costumava ter um rio debaixo dela, hoje tem apenas terra. Eu gosto de sentar lá até o toque de recolher, e imaginar que lá tinha água. Meu pai me conta que a água brincava de céu. As nuvens refletiam nelas, assim como o imenso e infinito azul. Meu pai contava também que eleia para a praia nos dias mais quentes, que hoje, para nós, são os mais frios. E ele contava como brincavam na água.
Hoje, ir para a praia e nadar é proibido por lei. A água do mar se encontra muito poluída, e de vez em quando aparece peixes mortos envenenados pela água. O processo para despoluir essa água e depois torná-la em potável, ia mesmo sair muito caro, custaria mais água do que renderia. E eu sei porque Ana economiza tanta água, e bebe o suficiente para não morrer. Porque ela quer tornar isso realidade. Me pergunto se, suas economias, e as economias de meu pai juntas, não daria para pagar... Seria muita água,e hoje, com duas garrafas, você compra um apartamento grande, pergunto-me:
Quantas garrafas de água são necessárias para gerar água potável?
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