Diário De Um Sobrevivente

6 Segunda-feira, 31 de dezembro de 2050


Hoje é o último dia do mês. Mais um mês que todos aqui sobreviveram. Mais um mês de luta. Mais um mês passado e ainda não voltei para casa. Não pude passar o natal com a minha família como sempre. Não pude achar entediantes e previsíveis as festas de família e provavelmente passarei o ano novo sem eles. Fico imaginando sempre e sempre, como estarão eles sem mim. Talvez estejam bem, e nem sentem a minha falta, talvez... não. É impossível saber notícias de lá, por mais desejos feitos. Rezar não adianta aqui, nada adianta fora nosso esforço para continuar vivo e a esperança de tudo melhorar algum dia.

Pensei que morreria em menos de segundos dentro desta união. Mas todos os membros pareceram apoiar a ideia “genial” da Helen em me colocar no cargo de estrategista. Durante a manha fui apresentado por ela ao centro de treinamento, localizado no décimo andar. Ela afirmou que apesar de meu cargo trabalhar com a parte mental eu deveria ter resistência física e aprender a utilizar armas, portanto tive de acompanha-la. A porta automática se abriu e pude ver um enorme espaço. Era questão do espaço de um campo de futebol. Nele, havia áreas diferentes. Uma das áreas era preparada com objetos infláveis e se assemelhava a um campo de paintball, onde os membros dividiam-se em equipes para treinarem ações militares. Outra área tinha alvo para treino de tiros. Próximo à parte de tiros, havia uma espécie de armário enorme onde continham armas de diferentes tipos. Entre esses lugares, uma equipe formada tanto por homens quanto por algumas mulheres, corriam. Aquelas pessoas correndo lembraram-me nos meus treinos em minha antiga escola e senti uma nostalgia ali. Gostaria de correr com eles. Assim poderia lembrar-me um pouco da sensação de estar em casa.

Fiquei estável observando a organização daqueles treinos. E também, observando o ânimo de todos, porque estavam todos se exercitando às cinco horas da manha. E eu não havia nem acordado corretamente.

̶ Até quando vai ficar aí dormindo em pé?Acha que viemos aqui à toa?̶ Afirmou Helen, observando-me parado no meio do campo. Logo ela gritou “Pegue!”, e jogou em minha direção uma arma enorme retirada de dentro do armário.

Tentei pegar a arma, porém foi tarde demais. Ela caiu em cima de meu pé esquerdo. A dor foi gigantesca. A arma deveria pesar de dois quilos a sete quilos. Resisti à vontade de gritar enfurecido ou falar palavrões. Devo ter ficado vermelho de vergonha por não tê-la pegado e também vermelho de raiva. Ela começou a rir, naquele momento percebi o quanto ela parecia-se com a garota qual paquerava. Seu sorriso era idêntico. Contudo, seus atos de militar passavam bem longe da imagem da outra menina, que transbordava gentileza.

̶ É mesmo um idiota. Como farei de você nosso estrategista se não sabe ao menos manejar uma arma? ̶ Afirmou Helen, rindo, mas ao mesmo tempo, preocupada.

̶ Você me pegou despreparado. Não estava prestando atenção, por isso não consegui pegá-la. ̶ Retruquei, retirando a arma do chão e tentando segurá-la em minha mão.

̶ Acha que em um campo de batalha sempre te avisarão antes de um acontecimento? Nós temos de estar sempre preparados para o pior. Se não aprendeu isso ainda, estou lhe ensinando agora. Vamos logo, tente acertar no peito daquele boneco. ̶ Disse ela apontando para um dos bonecos a frente. Ainda tentava ajeitar a arma nas mãos. Realmente, não sabia segurar aquele trambolho e muito menos atirar, era a primeira vez que segurava em uma arma apesar de tudo.

̶ Não me diga... É sua primeira vez?

Mexi a cabeça positivamente. Helen suspirou, e aproximou-se de mim. Nós ficamos bem próximos. Ela segurou em minha mão (a mão dela era leve e muito macia.) e a posicionou no lugar exato. Havia um gatilho. Após isso, fui alertado para apontar a arma mirando ao alvo. E então atirei. Infelizmente minha mira não foi das melhores. Na verdade, foi um desastre. Provavelmente a força da arma ao atirar a moveu em outra direção, e acertei um homem nas costas, que também treinava tiro ao lado.

No momento me desesperei. Achei ter machucado muito o homem, e já imaginei minha sentença sendo programada. Mas, graças ao nosso uniforme, feito de nanotubos de carbono, a bala não foi capaz de perfurar, ou seja, ele ficou intacto, somente houve um pequeno roxo no local e obvio a discussão dele comigo.

Antes que eu apanhasse do homem, irritado por ter atrapalhado seu treino, a primeiro tenente interviu na discussão, ela explicou sobre minha iniciação a respeito de armas e pediu um pouco de paciência. No fim, fui obrigado há passar o dia todo treinando tiro ao alvo.

Pela noite, houve uma reunião festiva na zona livre de guerra para comemorarmos o fim de mais um mês dos sobreviventes. Perguntei a Alphonse, antes de nos dirigirmos para tal lugar, se não era perigoso houver ataques inimigos enquanto estivéssemos nos divertindo. Ele respondeu:

̶ Sim, há. Mas, somente de estarmos vivos já corremos perigo de morrermos. Então não iremos desperdiçar a chance de nos divertir. Fique tranquilo, nós levamos armas e equipamentos para casos de emergência. Alias quando chegarmos lá, você nem mesmo se lembrara de toda a pressão desse mundo.

Após sua fala, ele trocou seu uniforme sujo, por outro uniforme limpo, assim como fiz. Em seguida, entregou a mim um cinto preenchido com balas, uma arma (a mesma que treinei o dia todo) qual coloquei nas costas, uma faca e um celular para comunicarmos entre nós caso algo acontecesse. Alphonse, depois de equipar-se com instrumentos de guerra, segurou em sua mão um violão, retirado de um canto escuro do quarto. “Agora estamos pronto.” Falou ele, sorrindo. Esqueci-me de escrever aqui, mas o loiro é o atirador de elite do clã, e passei a admirá-lo depois de perceber a dificuldade de se acertar corretamente um alvo.

Praticamente todos os membros da união foram à reunião. Nós nos dirigimos para a zona livre de guerra utilizando carros flutuantes individuais, e destes havia inúmeros. O problema ao sair dos prédios do clã foi os mortos-vivos ̶ assim irei chamar aqueles sem sua inteligência. Alguns deles, com ainda um pouco de consciência e força tentaram atacar os carros dos membros. Acabei presenciando um massacre dos mortos-vivos. As pessoas da união colocavam o automóvel no piloto automático, e atiravam satisfeitos neles pelas janelas, como se eles merecessem esse sofrimento. O pior fui obrigado a fazer o mesmo. Como minha mira ainda não era muito boa, eu errei mais do que acertei. Apesar disso, senti-me culpado. Não era justo. Até agora tentava entender o significado do “vender a inteligência” e também compreender os olhos de Helen que me analisaram aquela vez no hospital. Outra questão incompreendida era a respeito de aonde vinham o dinheiro suficiente para a compra de equipamentos e comida. Mas essa pergunta logo foi resolvida ao pensar por uns segundos, o governo estadunidense deveria manter certo contato com algum líder e permitir tal sobrevivência dos clãs, se todos morressem não haveria guerra, e muito menos um vencedor.

Finalmente, chegamos. O local fora ocupado ao mesmo tempo. Não havia iluminação no campo, e assim ficou pelo resto da noite. Questionei o motivo da não iluminação e responderam-me para não atrair inimigos. Os carros foram deixados fechando um quadrado, e as pessoas ficaram ao meio. Todos se sentaram no chão e os responsáveis pelo alimento distribuíram bebidas alcoólicas para o restante. Imaginei ter fartura de comida, entretanto não foi o caso. Teve fartura de bebidas. No momento em que segurei em minha mão uma garrafa de uísque entendi por que Alphonse disse a mim que não me lembraria, ao estar aqui, da pressão do mundo, certamente porque estaria mais bêbado do que sóbrio.

Não demorou muito até as rodas de amigos se formarem para conversas. Cada um recebera uma garrafa de diferente bebida alcoólica. Alguns haviam levado instrumentos musicais para animar um pouco o clima tenso da noite. Eu não havia saído de perto de Alphonse, tudo era muito novo, e de certa forma, o caso da bebida era mais novo ainda. Nunca havia consumido nenhum tipo de álcool anteriormente, era proibido para menores, então seria a minha primeira vez.

O loiro me apontou umas garotas da união em algumas rodas diversas. Eram bem poucas mulheres comparadas a quantidade de homens. A cada seis homens tinha-se uma mulher. A maioria delas já bebia há certo tempo, e algumas já permitiam serem beijadas por quem as quisesse. Não era uma cena muito divertida de se ver. Afinal elas perdiam a razão facilmente e qualquer um era bom o suficiente. Aquilo me deixou incomodado. Talvez a pressão da guerra e a saudade da família acabavam levando-as a querer esquecer tudo, e sentirem prazer alguma hora antes de morrerem.

̶ Quer uma dica? Se quiser beijar alguém aqui, espere até o “quase fim” da reunião. Elas estarão mais bêbadas do que você e pode apostar, será bem mais fácil se aproximar. ̶ Disse Michael aproximando-se de nós dois, percebendo minha observação nas garotas de outras rodas. Fiquei corado. Sempre pensava nas mulheres como sentimentais, e não como objetos. Mesmo assim, realmente queria beijar alguém ali, era como uma necessidade por há tempo nem mesmo ter conversado normalmente com uma delas.

̶ Penso que você não teria coragem, Harry. Teria? ̶ Falou Alphonse, duvidando.

̶ Teria. Porém estou tranquilo aqui.

Os dois riram da maneira falada por mim. Eles não acreditavam na minha iniciativa de forma alguma não importaria o quanto afirmasse ter. Após alguns minutos nós três nos encontramos com Helen e com o asiático. Sentamos-nos em um círculo. Eu fiquei entre a mulher e entre Michael, ao outro lado de Helen estava Alphonse, e ao seu lado, o asiático.

Reparei na mulher ao meu lado, ela estava incrivelmente bonita. O uniforme usado por ela não mais se deduzia a calças compridas cobrindo suas pernas, e a mangas longas nos braços. Mas sim, a mangas curtas, que permitia mostrar seus braços, e uma saia curta, terminada antes dos joelhos. Seu cabelo liso castanho claro caia sobre seu corpo não mais preso em um rabo de cavalo. Apesar de sua beleza, atrás de seu corpo estava pendurada uma arma, como em mim e nos outros, e havia também um “porta-arma” preso em sua coxa, onde guardava objetos cortantes, como diferentes tipos de facas.

̶ Harry, este é Yoshio, ele é nosso segundo tenente, meu braço esquerdo. ̶ Disse Helen sorrindo, referindo-se ao asiático, logo ele me cumprimentou com um aperto de mão. ̶ Pronto agora que todos se conhecem, vamos fazer um brinde e conversar até não aguentarmos mais!

Todos pegaram suas garrafas. Elas mesclavam-se entre uísques e vodkas. Uma frase foi dita em uníssonos por todos, menos por mim. “O povo, unido, jamais será vencido! Pela sobrevivência!”. Ouvi o soar dos vidros se chocando. Abriram-se as garrafas e os membros deram um gole, mas eu decidi não tomar, ainda não.

Começaram-se as conversas paralelas. Yoshio comentava sobre seu trabalho duro com Michael. Alphonse e Helen pareciam ter uma relação muito mais íntima do que simplesmente amizade. O loiro acariciava os longos cabelos dela, enquanto sussurrava algo em seus ouvidos e a fazia sorrir, os dois ainda não bebiam tanto quanto os outros. Fiquei os observando-o. Ninguém conversava comigo, então me senti excluído naquele momento. No fundo, eu gostaria de estar no corpo de Alphonse naquela hora.

̶ Está com ciúmes, garoto Harry? ̶ Ouvi Michael, já terminado sua conversa com o asiático, vendo meu rosto decepcionado. Não respondi, somente abri finalmente a garrafa e a virei em minha boca. Seria melhor não estar lúcido vendo a relação dos dois.

̶ Está com ciúmes. É melhor beber bastante. Nós três aqui já tentamos conquistar a garota, mas ela é mais difícil do que aparenta. O único que ela deu chances foi Alphonse. Afinal geralmente mulheres gostam de homens mais velhos e também... Loiros. Quer a verdade? Posso lhe dizer agora, antes de criar-te expectativas demais. ̶ Continuou o homem de barba, eu deixava de virar a garrafa no termino de sua fala. Minha garganta ardia muito, a bebida era muito forte. Pelo menos para um amador no ramo do álcool. Em breve estaria completamente bêbado.

̶ Diga então. ̶ Disse tentando ignorar o gosto ruim em minha boca.

̶ Eles namoram há dois meses.

Aquela afirmação foi o suficiente para que eu começasse a passar mal. Meu estômago ficou embrulhado pelo álcool e por aquela informação. Acho que Michael percebeu meu estado, ele deu uma batida em minhas costas e riu em meio sua fala.

̶ Estou brincando. Os dois só “ficam” algumas vezes. Geralmente é quando Helen baixa sua defesa contra homens.

Suspirei. Por alguns segundos havia acreditado, mesmo assim, ela parecia gostar muito de Alphonse. Observei minha bebida e surpreendi-me ao ver ter tomado metade do líquido. O único que tomou a mesma quantidade até aquele momento fora Michael. Para animar o pessoal e quebrar o silêncio da roda, o loiro pegou seu violão e perguntou que músicas gostariam de ouvir. Ninguém sabia ao certo, então ele tocou uma a seu gosto, sentando-se dentro da roda. Assim, ela ficara mais próxima de mim. Enquanto ouvíamos o som, Helen observou minha bebida.

̶ Já tomou tudo isso? ̶ falou ela surpresa ̶ Pensei que você nunca tivesse tomado algo alcoólico antes.

̶ E não tomei, até ha minutos antes. ̶ Disse, já com a voz mole.

̶ Não acredito, nem eu consigo tomar essa quantidade de uma só vez.

Fiquei em silêncio. Estava ficando cada vez mais tranquilo e com sono, mas eu queria continuar ali, ao lado dela e de todos.

̶ Quantos anos você tem? ̶ Perguntei a ela, já sem noção das perguntas.

̶ Dezoito. Por que a pergunta?

Balancei a cabeça negativamente. Era por curiosidade apenas, então ela era mais velha. Alphonse então deveria ter seus vinte anos, deduzi.

̶ Você nunca olharia para um cara como eu, não é?

Eu já estava bêbado, falava mole, e sinto ter sido um idiota ao dizer isso a ela. Ela ficara em silêncio, observando Alphonse. Ela me ignorou, certamente por saber da minha não sanidade naquele momento. A música estava divertida, e todos sorriam e cantavam junto dele. Em pouco tempo, a maioria já estava fora de si. E não nego que Helen também ficara bêbada, mesmo assim, esqueceu-me dali. Seus olhos só brilhavam para o loiro, e não demorou muito para ocorrer vários beijos entre os dois. Enquanto via aquilo, acabei terminando o uísque da garrafa inteira.

Deitei-me no chão, colocando a arma ao meu lado, observei o céu, havia poucas estrelas aparentes. Adormeci de imediato relembrando um pouco de casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.