Diz que Me Ama
5 O5
Notas iniciais
Passaram-se vários dias. Fiquei em casa todo tempo, só do colégio para casa e da casa para o colégio. Vergonha? Medo? Desespero? Dúvida. Eu ainda não entendia porque havia dito aquilo para ele. Meu garoto interrogação. Ele me fazia raiva, me deixava frustrado e ainda pisava em mim, mas eu não conseguia embora tentasse deixar de amá-lo.
Admito que comecei a entender isso de uma forma estranha. Eu estava gostando de apanhar e quanto mais isso acontecia apenas com palavras, mas eu me apaixonava. Ele estava em meus sonhos e na minha atitude ausente para com meus amigos, até para com minha família.
Na semana que estava começando tive uma surpresa. Estava escrevendo umas coisas em um caderno durante a aula de Geografia quando alguém entrou. Era um aluno novo. O professor o apresentou para classe, e para minha surpresa, era meu garoto interrogação.
Ele procurou um lugar para sentar e passou por mim como se eu não estivesse ali. Sentou-se lá atrás e sorriu para Milena, uma garota que sentava atrás também. Parecia uma provocação, o ciúme me corroeu por dentro e sem perceber disse um palavrão em voz alta.
- Alex! O que foi que você disse? – perguntou o professor, parando a aula.
- Eu... Foi sem querer.
- Dessa vez vou deixar passar, mas não quero que se repita entendeu?
- Sim. – respondi.
No intervalo fiquei o mais longe possível de Pedro. As garotas ficavam interessadas nele, perguntando coisas e ele não era nem um pouco tímido. Era cortejador, cheio de charme. Fui até o bebedouro e tive minha costa apertada.
- Lunático. – disse ele sério.
- Não sabia que você iria estudar na minha escola.
- Nem eu. Mas minha mãe insistiu e parte disso é sua culpa!
- O que foi que eu fiz? – perguntei.
- A convenceu que somos amigos.
- E não somos? – perguntei aflito.
Ele olhou para mim por uns segundos percebendo minha aflição e respondeu.
- Eu pensei que fosse óbvio. – disse ele, saindo em seguida.
Ao chegar em casa deixei minha mochila no sofá e fui direto para casa dele. Estava disposto a ser franco em relação aos meus sentimentos. Toquei a campainha, minhas mãos suavam. O carro não estava na garagem, provavelmente tinham saído, mas com certeza Pedro chegaria a qualquer momento. E eu o esperaria. Na verdade, eu esperei, esperei, esperei, mas ele não chegou. Voltei para casa com raiva.
Mariana estava me esperando. Era a minha colega, tínhamos combinado de fazer o trabalho de biologia.
- Onde você estava? A Mariana está te esperando a um tempão. – falou minha mãe.
- Alex. Vamos, não temos muito tempo.
- Desculpe Mariana, eu estava tentando resolver uma coisa. Vamos, podemos começar.
O trabalho não ajudou em nada. Tudo que eu ouvia de Mariana era simplesmente a voz linda do meu garoto interrogação. Não parava de pensar nele e na minha óbvia homossexualidade. Não estive no meu quarto um só minuto. Mantinha a cabeça em Pedro. Só nele. Quando Mariana foi atingida por um sabonete.
-Ai! O que é isso? – disse ela levando a mão à cabeça.
- Um sabonete! – gritei animado.
- O que?
- Desculpe Mariana, mas preciso ler isso sozinho.
- Ler o que? O sabonete? O que é que está havendo?
- Nada. Pode descer um pouco, preciso ficar sozinho.
- Alex. Temos que terminar esse trabalho.
- Está bem. Espera um pouco, vou ali e volto já.
- Não demora. – disse ela voltando ao trabalho.
Peguei o sabonete e o bilhete enrolado nele. Abri devagar, nervoso, o que poderia conter ali? O que será que estava escrito?
Abri e li respirando fundo.
Lunático, eu queria me desculpar pelo jeito que falei com você hoje no colégio. Somos amigos não somos?
Pedro
Mais uma vez ele estava confundindo minha mente. Como ele podia me tratar daquele jeito e depois mudar isso? Mesmo assim, fiquei feliz por ele ter assinado o bilhete e ainda por dizer que nós éramos amigos. Possivelmente a qualquer hora ele podia mandar outro sabonete com um bilhete bem grosso, desaforado, mas não importava. Receber algo dele era como se completar momentaneamente e ainda mais, sentir que mesmo do jeito complicado dele, ele ainda se importava comigo.
Quando voltei para o quarto, Mariana já havia terminado o trabalho e foi embora logo em seguida, não muito satisfeita. Fiquei olhando a janela dele. Na esperança de vê-lo passar ou olhar para fora. Me distrai um pouco e quando voltei a atenção ele estava olhando fixamente para mim. Meu coração começou a bater mais forte.
Eu sorri para ele, um pouco desconcertado. Esperei um retorno e quando parecia que não o teria o vi sorrir. Eu não sei como explicar, meu coração dobrou as batidas e minhas mãos suaram, senti um leve arrepio e fiquei admirando ele na janela, sem blusa e com aquele olhar fixo e forte.
Demoramos um pouco daquele jeito, até que ele fechou janela e a cortina e antes disso sorriu de novo. Meu garoto interrogação não era minha cidade, era meu universo! Só havia uma coisa que eu desejava mais do que tudo, conquistá-lo. Não desistiria, mesmo que fosse praticamente impossível. Queria Pedro para mim.
Fiquei pensando. Depois de eu ter me declarado o que ele achava daquilo tudo, se nunca ele tocava no assunto e não havia nenhuma reação?
Mesmo sem saber de nada, o que estaria passando na cabeça dele, do meu garoto interrogação, eu estava bem, qualquer movimento simpático dele mudava o rumo das coisas, um pequeno movimento causava uma explosão dentro de mim.
Um objeto bateu na minha cabeça. Outro sabonete. Levantei da cama e abri rapidamente.
Lunático. Gostei do seu sorriso.
Ps: Não tenho mais sabonetes, poderíamos conversar na internet, seria bem melhor.
Ass: Eu.
Não me agüentei, comecei a rir. O pos script dele era muito engraçado. Ao mesmo tempo minha emoção falou mais alto e dei gritos de alegria. Como já estava anoitecendo, deitei na cama e dormi.
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