Dividida
1 A decisão
Ana tinha uma grande decisão nas mãos. Suas amigas não pensavam assim, achavam a coisa toda simples demais e Ana que estava complicando. Podia até estar, concordava. Mas pra ela nada era simples.
Não sabia o que fazer. Temia ser indecisa demais, medrosa demais para tomar alguma atitude. Mas no fundo sabia que não era isso que a incomodava. A verdade mesmo é que a única coisa que Ana podia dizer é que não sabia. Não sabia o que fazer. Não sabia nem bem o que ela queria. Não sabia o que ele queria dela.
Eram amigos antes de tudo. Antes de ele ter a beijado. Era incrível como algo tão bom, pudesse ter estragado outras coisas que costumavam ser muito boas também. Não pareciam mais amigos. Não pareciam mais nada.
Outra mensagem apitou no seu celular. Era só um ponto de interrogação, que completava a anterior. “Vai vir?”. Era só isso.
Queria que fosse simples assim pra ela. Que pudesse apenas dizer “estou a caminho” ou “não, tenho coisas mais importantes para fazer” e tudo fosse se resolver fácil assim.
Estava dividida.
Por um lado, queria ir. Queria muito. Queria sentir outra vez o sabor de seus lábios, o toque dos seus dedos em sua pele sensível, a pressão de seu corpo no dela. Assim que pensava nisso, as imagens voltavam automaticamente em sua mente, nítidas. Do silêncio constrangedor que antecedeu o beijo e como ela fez piada disso, porque simplesmente não tinha ideia de como agir àquilo. De como sua boca preenchia a dela e como ele a conduziu delicadamente até sua cama. A sensação de seus cabelos macios nos dedos dela, ou como sua boca contornava perfeitamente a barriga de Ana enquanto ele se abaixava para retirar a última peça de roupa restante entre os dois. Teve que balançar forte a cabeça para parar de pensar naquilo. Porque tinha o outro lado.
O lado que ela não suportava pensar. Não conseguia entender como a relação dos dois tinha ficado tão incômoda. Estava tudo bem no início. Até parecer que ele tinha esquecido que eram amigos. Ana simplesmente não conseguiu voltar à casa dele todas as outras vezes em que ele a chamara, pois sabia que ela ia se sentir insegura e desconfortável. Não necessariamente pelo que havia acontecido da vez anterior, mas porque agora ele só a chamava para sexo e Ana achava esquisito demais. Não o sexo. Mas é que não conversavam mais. Agora tinha uma pressão esmagadora em cima dela para que aquilo acontecesse novamente e Ana começava simplesmente a pirar.
Tentou não pensar demais, antes que desistisse da ideia.
“Estou saindo de casa.” – digitou rápido e apertou logo o botão de enviar.
Não podia mais esperar. Precisavam no mínimo conversar sobre a situação em que estavam. Estava cansada de toda vez inventar desculpas de última hora, por puro nervosismo ou medo do que pudesse acontecer. Não suportava mais ficar tão confusa assim e tão dividida cada vez que ele casualmente mandava um “vem aqui em casa”. Odiava nunca saber o que estava acontecendo entre eles. Calçou os sapatos, separou o dinheiro do ônibus e saiu de casa.
Haviam marcado no mesmo lugar. Um lugar perigosamente perto da casa dele, mas Ana tentou não pensar muito nisso. O lugar também possuía uma vista incrível da cidade, e isso a deixava um pouco mais tranquila. Ela sempre gostara de observar a paisagem.
Quanto mais o ônibus sacolejava em direção ao seu destino, mais nervosa Ana ia ficando. O coração batia cada vez mais rápido, quase a ponto dela achar que estava tendo um princípio de infarto. Tentou fazer os exercícios de respiração que aprendera na escola, mas não conseguia se concentrar direito nem pra isso. Quis chorar. Quis voltar pra casa. Mas sabia que não podia. Tinha que resolver tudo. Agora que já estava tão perto, não ia dar pra trás.
Desceu do ônibus. Caminhou os poucos metros que a separavam do local marcado, as pernas pesando 10 kg a mais a cada passo. Quando chegou, suspirou aliviada. Ele ainda não havia chegado. Sentou-se na grama sem tomar cuidado nenhum se ia acabar manchando sua calça ou não. Fechou os olhos e respirou. Ficou assim por longos minutos até perceber que tinha finalmente se acalmado um pouco. Olhou para o cenário a sua frente. O sol começara a baixar, mas ainda brilhava forte atrás de todos aqueles prédios e ruas movimentadas. Era lindo.
Pegou o celular e já estava digitando a mensagem perguntando onde ele estava, quando ele surgiu. Estava sorrindo. Os cabelos e os olhos castanhos adquiriam um brilho dourado incrível com o reflexo do sol neles. Não pôde evitar sorrir também.
Guardou o celular de volta na bolsa e se levantou para cumprimentá-lo. Logo que se sentaram na grama novamente, desejou ainda estar com o celular em mãos. Depois do “como você está”, “bem e você”, um silêncio se instalara. Ana queria ver as horas, responder a algo que haviam a marcado no Facebook, colher as uvas de sua fazenda virtual, qualquer coisa que pudesse fingir ser muito mais importante naquele momento do que olhar para seu rosto. A calma que recém havia adquirido já se esvaíra e suas mãos tremiam. Então começou a falar, porque era o que fazia quando ficava nervosa.
Perguntou sobre a vida dele, o que ele andava fazendo e ele perguntou da dela. Conversaram sem parar por uma meia hora, e então tudo parecia ser como antes. Quando não havia nada pra se preocupar. Mas não andavam fazendo muita coisa e o assunto morreu. Não conseguiu ficar encarando ele no silêncio, então se virou para a paisagem. O sol já estava se pondo agora e deixava o céu todo colorido, as cores fortes e vibrantes como se uma criança houvesse pintado com giz de cera.
— É bonito aqui, né? – ele comentou.
— É. Muito bonito. – Ana concordou com um suspiro.
— Você deveria vir mais aqui.
Ela não respondeu nada dessa vez. Permaneceu olhando para o horizonte. Depois de um tempo, ele lhe perguntou:
— No que está pensando?
Ela não sabia bem. Demorou alguns segundos ainda pra falar alguma coisa, e o respondeu com uma pergunta.
— Você vem muito aqui? Sabe, só ficar olhando...
— Às vezes.
— E você nunca pensa nas pessoas?
— Como assim? Que pessoas?
— Aquelas pessoas. – falou apontando para as luzes que já se acendiam em alguns prédios e casas, apesar de ainda estar claro. – Você nunca fica pensando em como cada uma dessas pessoas, invisíveis daqui, têm sonhos, medos, alegrias, famílias, problemas, uma vida inteira totalmente diferente das que temos? Da que cada outra pessoa no mundo tem?
— Nunca havia pensado nisso.
— Não é incrível como podemos morar todos num mesmo mundo, num mesmo país ou até mesmo numa mesma cidade e ainda assim não termos nada em comum? Vemos tantas pessoas nas ruas todos os dias e elas parecem todas iguais. Apenas coadjuvantes na nossa história, sendo que cada uma delas possui a própria história. É loucura.
— Então você quer dizer que devíamos prestar mais atenção nas pessoas? Descobrir pelo que elas estão passando, quem elas são?
— Não estou dizendo nada. Está tudo bem. Às vezes não sabemos nada até mesmo da pessoa em que está sentada do nosso lado.
Ele ficou quieto depois disso. Ana não sabia se ele estava pensando no que ela tinha dito, sobre as pessoas nas casas ou que ele não sabia nada sobre ela. Ficaram em silêncio durante um longo tempo.
— Ah, viu só? Por culpa sua, minhas botas estão todas sujas. – apontou para os próprios pés.
— Minha culpa? – ele perguntou um pouco indignado.
— Claro, só me chama pra vir nesses lugares cheios de barro. – ela riu.
— Nossa, eu arranjo um lugar bonito desses, com essa vista toda e você vem reclamar do barro? – ele perguntou brincando também, o clima mais ameno entre eles.
— Eu sou virginiana. É meu papel reclamar da sujeira. – Ana deu de ombros, inocente.
— Haha! Signos! Realmente a explicação para tudo!
— Qual o seu signo afinal?
— Áries. – ele respondeu com ar de soberano. – Ascendente em leão. – completou.
— Aaahh! Agora está tudo explicado!
— Está tudo o que explicado? Posso saber?
— Está explicado por que você é assim.
— Assim como? – ele levantou as sobrancelhas.
— Mandão. Dono da verdade. Teimoso. Se acha o cara mais fodão do mundo. – ela sorriu o desafiando a desmenti-la. Ele sorriu de volta.
— Querida, eu não me acho. Eu me tenho certeza. – e piscou.
Os dois começaram a rir e ficaram se encarando ainda sorrindo, exatamente como há três anos atrás, quando ficavam se provocando no colégio. E então aconteceu. Beijaram-se. Era incrível como Ana podia sentir tanta falta daquele beijo, do beijo dele, sendo que isso só havia acontecido uma única outra vez. Suas mãos fortes agarravam o cabelo de Ana. Ele também precisava daquele beijo.
As mãos de Ana foram subindo pelo seu peito até alcançar o rosto, os pelos macios da barba por fazer fazendo cócegas nas palmas dela. Ele por sua vez foi descendo seu toque por seus ombros e braços até chegar a sua cintura e por lá ficou, ora apenas deslizando a ponta de seus dedos pelo corpo de Ana, ora a apertando forte, a puxando para si. Ana simplesmente não conseguia pensar em nada. Só conseguia senti-lo. O beijava com vontade, mordendo levemente seu lábio inferior de vez em quando, só para voltar a beijá-lo com mais vontade. E então só seus lábios não eram suficiente. Foi beijando seu queixo, maxilar e pescoço. Ele também a beijava. Quando Ana precisou parar para respirar, ele continuou a beijar toda a extensão de seu pescoço, clavícula e ombro, causando arrepios maravilhosos por todo o corpo dela. E então quando ele começou a dar pequenas mordidas no lóbulo da sua orelha e sussurrou “vamos lá pra casa”, foi quando ela finalmente retomou a consciência do que estava acontecendo.
— Não! – falou rápido, se separando dele.
A expressão decepcionada e confusa na cara dele quase fez Ana rir.
— O quê? Por que não? – perguntou manhoso tentando a puxar de volta pelo braço, mas ela se desvencilhou. – Não... estava bom?
Ana soltou um risinho nervoso. Não era essa a questão, porque com certeza estava bom. Na verdade se ele tivesse passado só um pouco mais de tempo beijando seu pescoço, ela não teria nada a dizer além de “sim, vamos para sua casa”. Mas ela sabia que não podia deixar a situação daquele jeito. Eles iriam pra casa dele, transariam, mas e depois? A mesma coisa? Acabar se sentindo apenas usada? Não. Tinham que resolver isso. De uma vez por todas.
— Não é isso. É que é estranho. – falou um pouco tímida, já sentindo as bochechas corarem.
— Estranho por quê?
Ana arriscou olhar para ele. Estava com uma cara inocente, realmente parecendo não entender por que aquilo seria estranho. E o pior era que aquela expressão confusa ficava tão linda no rosto dele que ela quase quis agarrá-lo novamente. No entanto, respirou fundo e manteve-se firme.
— Sei lá, é que a gente é amigos. – falou e então se corrigiu. – Quer dizer, eu nem sei mais se a gente é amigos.
— Ué, e por que não seríamos?
— Não sei, mas a gente nem conversa mais. Eu não sei nada da sua vida atualmente e nem você da minha. Bom, sei só o que você me contou hoje.
— Ah, pois é. Mas se a senhorita viesse mais vezes aqui, a gente conversaria mais. – fez um tom de voz que fingia estar dando bronca e deu um empurrão no ombro dela de brincadeira no final.
— Você não me chama pra conversar. – Ana falou séria olhando bem nos olhos dele e virou-se para o chão de novo. Ele também ficou quieto dessa vez.
— Desculpa. – disse depois de um tempo. Pareceu sincero. – É que eu gostei de ficar com você.
Ana mordeu o lábio.
— Eu também gostei de ficar com você. Só que não significa que nossa relação tenha que ser só isso agora, entende? – ela disse e ele concordou com a cabeça. – Eu queria que ainda fôssemos amigos.
Fechou os olhos. Este era o momento derradeiro. Era agora que ele diria o que queria dela e então ela saberia como essa relação iria terminar. Estava quase chorando, porque tinha muito medo de que o que ouviria fosse que ele realmente não queria a sua amizade. Só que ela queria. Queria mais que tudo. Por isso ainda estava ali, depois de todo aquele tempo, tentando desesperadamente recuperar uma coisa que já parecia perdida. E se o que ele quisesse com ela fosse algo puramente sexual, não poderia continuar. Não conseguiria ficar bem sabendo que foram tão próximos um dia e agora eram apenas dois corpos juntos apenas para satisfazer seus desejos, assim como jovens que se conhecem na balada durante uma noite aleatória. Menos que isso.
— A gente ainda pode ser amigos, eu acho. – disse e então ela foi abrindo os olhos cuidadosamente.
— Sério?
— Claro, menina. – ele sorriu e então a puxou para um meio abraço desajeitado. – Você sabe que eu gosto muito de você. Nós nunca vamos deixar de ser amigos.
Ana deu um sorrisinho, mas seu coração ainda pesava no peito. Não sabia se aquilo ia funcionar realmente. Parecia tudo meio forçado. Ele a soltou do abraço.
— Foi mal, eu acho que estava sendo meio babaca esse tempo todo. Eu não sabia que você não me considerava mais seu amigo. Eu só mandava aquelas mensagens, sabe, pra você não achar que não era gostosa e tudo o mais, ficar depressiva, etc... – ele falou brincando e Ana deu um tapa no braço dele.
— Bobão.
— Capaz. Mas falando sério agora, é que eu realmente gostei muito de ficar com você. E realmente gostaria de ficar de novo. – ele disse dando bastante ênfase nos “realmente” e completou fazendo uma ceninha. – Mas se você só quer ter uma amizade, tudo bem. – e fingiu limpar uma lágrima inexistente.
— Olha. – Ana começou, com um sorriso travesso. – Eu nunca disse que a amizade não poderia ser, digamos, colorida.
Ele virou a cabeça para ela e retribuiu o sorriso.
— Ah é?
— É. Mas, sabe, tem que ter a porra da amizade antes.
Ele riu e então estendeu a mão para ela.
— Amigos? – perguntou e Ana apertou a mão dele.
— Amigos.
— Com futuros benefícios? – arqueou a sobrancelha, numa cara safada e encantadora ao mesmo tempo e Ana soltou a mão dele quando começou a rir.
— Talvez.
— Tudo bem. Posso conviver com um “talvez”. – e piscou.
Resolveram então levantar e caminhar um pouco, já que já estava escurecendo mesmo. No caminho foram falando sobre besteiras, comidas esquisitas, desenhos animados e uma mãe que discutia com o filho no meio da rua. Não falaram mais sobre o relacionamento deles. Enfim chegaram no ponto de ônibus e se despediram com um abraço um pouco mais longo que o de quando se encontraram, mas com muito mais carinho.
No entanto, assim que Ana entrou na condução, a insegurança voltou a bater. E se, apesar de terem conversado, aquilo não resolvesse nada? Deixassem de se falar? E se ele só concordou em ser amigo dela por que talvez tenha pensado que o clima ficaria muito esquisito se dissesse que não, mas realmente não tivesse a intenção da amizade? E se...? Já estava ficando paranoica quando o celular apitou na sua bolsa com uma nova mensagem. Era dele.
“Quer sair de novo amanhã? Pra conversar, sabe. Haha. Prometo que pode ser um lugar sem tanto barro dessa vez ;) ”
Ana sorriu e então fechou os olhos quando finalmente respirou tranquila outra vez.
Notas finais
Pra quem não me conhece, eu tenho uma outra fic. É de comédia e a temática é beeeem diferente dessa aqui. Mas pra quem se interessar, está aí o link:
https://fanfiction.com.br/historia/476910/Wish_List/
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