Dividida
2 Quase Beijo
Notas iniciais
De repente sou tirada de meus pensamentos e a campainha toca, desço rapidamente as escadas. Era o Do Contra, estava ensopado e usava as mesmas roupas de sempre: a calça jeans um pouco justa, a camisa preta que como estava molhada desenhava muito bem o seu corpo e o seus tênis sujos e velhos. Ele era um garoto muito atraente e bonito, fazia muito sucesso com as meninas do colégio. Confesso que se ele não fosse meu melhor amigo eu também teria vontade de ficar com ele.
– MÔNICA, MÔNICA?
– DC que susto!
– Eu to a um tempão em pé na chuva. Você não vai me convidar para entrar?
– Até parece que você precisa de toda esse cerimônia. Claro que você pode entrar, idiota.
– Eu venho aqui te ajudar com o trabalho de literatura e é assim que você me trata? Muito obrigado — ele falou ironicamente — E ai? Você já adiantou alguma coisa?
– Não, nada consegue entrar na minha cabeça, realismo é um saco. Você já acabou seu trabalho?
– Sim, meu tema foi Simbolismo, muito bom por sinal
– Queria ter pegado Romancismo, mas como sou azarada.
– Você queria era ter pegado um romance no qual o Cebola fosse o herói romântico isso sim
– Cala a boca e vai tirar essas roupas ensopadas
– Se isso é um convite para eu ficar nu, você podia ter pedido antes
– Engraçadinho!! Minha avó tem algumas roupas do meu avô guardadas, não vão ficar tão boas quanto as suas, mas vão servir. Vamo subir que lá eu te dou e você já vai direto pro banheiro se trocar.
– Seus convites estão ficando cada vez mais ousados — mas que merda é essa que o DC tá fazendo?
– É sério DC, vamos antes que você pegue um resfriado — falei puxando-o
– Se você está com tanta pressa...
Eu não sabia o que tinha dado no DC hoje, mas resolvi ignorar, afinal ele nunca tinha dado em cima de menina nenhuma no colégio e mesmo quando eram elas que davam ele tinha o prazer de ignorá-las.
– Toma! — joguei as roupas pra ele
– Você tem certeza que me quer vestido?
– Absoluta e anda logo, porque eu quero acabar esse trabalho ainda hoje. To te esperando na sala
– Tudo bem, você quem manda.
Desci as escadas depois que dei as roupas a ele, o DC andava meio estranho ultimamente, mas nada que não fosse possível ignorar, ele era um bom amigo e eu não queria perder a amizade dele, assim como havia perdido a do Cascão e do Cebola.
– Pronto querida — assim que ele falou isso eu olhei pra ele, estava apenas com a calça beje e sem camisa, eu não estaria nem ai se o corpo dele não fosse simplesmente... Incrível! Ele tinha tudo no lugar, a barriga definida na medida certa, os braços fortes, mas nada exagerado — O que você tanto olha?
– Você podia colocar uma camisa não é? Afinal, eu te dei uma — falei escapando de sua pergunta.
– É, mas não ficou muito boa, então resolvi ficar sem. Algum problema?
– Muitos problemas, minha avó não vai gostar nada de chegar aqui e te ver assim!
– Assim como? Eu não to pelado e ela não ia gostar de chegar e me ver fazendo outra coisa... — ele foi se aproximando de mim
– Outra coisa tipo o que? — me fiz de inocente, eu podia só gostar do DC como amigo, mas era impossível não me sentir atraída por ele nessas condições.
– Não sei falar, acho que é melhor mostrar — ele foi chegando cada vez mais perto de modo que eu conseguia sentir sua respiração e nossas bocas estavam quase coladas
– MÔNICA QUERIDA!! ABRA A PORTA, ESQUECI MINHAS CHAVES! — era minha avó, me salvando, ou pelo menos eu acho que sim.
– Ótima brincadeira DC, mas acho bom você subir e colocar uma camisa, tem uma vermelha que eu uso para dormir que era do meu pai, acho que vai caber em você
– Ok — ele disse isso sem esboçar alguma reação, que idiota
Eu fui abrir a porta para minha avó, ela já tinha idade e desde que meu avô morreu, ela resolveu se mudar para uma casa menor e dispensar a maioria dos empregados, a única que ficou foi a Rosa, mas ela não estava na casa, hoje era domingo e ela estava de folga.
– Vovó, você e essa sua mania de querer trazer todas essas sacolas sozinha e ainda mais chovendo! Você tem tanto dinheiro, podia contratar um empregado para trazer cada sacola.
– Querida, eu posso ser rica, mas sempre gostei de fazer as coisas sozinha e de dar valor a simplicidade. Além do mais, esperei a chuva passar para voltar pra casa
– Você é quem sabe, mas vou ajudar você a traze-las pra dentro
– Não precisa, Mônica! As moças descansam enquanto eu faço o trabalho duro — era o DC, agora devidamente vestido com minha camisa vermelha.
– DC meu querido, sempre um menino tão bom! — a minha vó era fã dele, ela até dizia que se fosse mais nova não ia deixar ele escapar.
– E a senhora sempre muito elegante!
– Obrigada!
– Conquistador, acho bom você ir logo, porque já passou um bom tempo e você ainda não me ajudou!
– Tá bom, tá bom. Ei, quando você vai voltar pra casa?
– Daqui uma semana, no penúltimo dia de férias.
– Mal posso esperar pra ter você à duas ruas da minha casa de novo, eu adoro sua avó, mas aqui é um pouco longe.
– É, eu sei, mas eu odeio deixar ela sozinha, ela já tem idade e não sei se vou ter sua companhia por muito tempo.
– Sei como é isso, sinto o mesmo em relação aos meus avós — finalmente o DC estava voltando a ser o que era antes
– Acabei, vamos ao trabalho?
– Vamos sim!!
Subimos as escadas e fomos pro meu quarto
– E ai? O que você pretende fazer?
– O que ele mandou! Pesquisar sobre os principais escritores realistas e suas principais obras.
– Tem certeza que não quer inovar um pouco no trabalho, só com isso você vai conseguir tirar no máximo um 8
– Com 8 ou 7 eu passo, sem falar que eu odeio literatura, ou seja, quanto mais rápido me livrar desse trabalho, melhor
– Você que manda, patroa! Por que você não chamou a Maga?
– Eu chamei mas ela foi pro interior com os pais, então ela vai comigo comprar os matérias que a gente vai precisar na volta as aulas.
– Vai ser a primeira vez que ela vai sair pra um lugar público depois daquilo né?
– Vai ser sim... Você não que ir? Pra dar uma ajuda e tudo mais.
– Queria muito, mas não posso, minha família vai estar lá em casa toda essa semana. Vocês bem que podiam passar lá no sábado né? Vai ter uma festa de noite, o Nimbus vai voltar de viagem.
– Sério? Já faz uns cincos anos que ele foi embora né? Vocês devem tá morrendo de saudades. Acho que vou sim, vou voltar pra casa de manhã, de tarde já devo ter terminado de arrumar as coisas e posso me arrumar
– Ótim, não esquece de avisar a Maga. Lembro que ela tinha uma quedinha pelo Nimbus quando ela era mais nova.
– Ela gosta de caras mais velhos
– O professor Rubens que o diga — nós dois rimos — Vamos começar?
Passamos uma parte da tarde fazendo o trabalho, com a ajuda dele que era ótimo em Literatura foi super fácil. Com o tempo que sobrou ligamos pra Maga no skype, aproveitamos pra chamá-la pra festa e quando a gente falou no nome do Nimbus ela corou. Assistimos um filme de terror muito trash, a gente mais riu do que tomou susto, isso tudo até me fez esquecer um pouco o comportamento estranho dele mais cedo. Quando deu umas cinco e meia da tarde e já estava começando a escurecer, eu o levei até a porta para me despedir
– Obrigada, por tudo, não só pelo ajuda no trabalho, mas também pela ótima tarde
– De nada... Mô...
– O que foi?
– Você sabe que eu gosto muito de você, não é? — ele falou abaixando a cabeça, parecia envergonhado
– Claro que sim! Eu também gosto muito de você!
– Não, eu não só gosto de você... Eu te amo — agora ele tinha os olhos fixos no meu
– Deixa de ser bobo! Eu também te amo, você é meu melhor amigo — eu falei bagunçando seus cabelos
– Melhor amigo... — ele falou em um tom tão baixo que eu quase não escutei — Eu tenho que ir
– Tchau, amigão! — eu falei indo dar um beijo em sua bochecha, mas na hora ele se virou e acabou sendo um selinho
– Desculpe Mô! — eu estava vermelha e provavelmente ele tinha notado isso, por isso o desespero tão grande nas desculpas
– Eu sei que foi um acidente, relaxa. Tchau, até próximo sábado! — dessa vez dei apenas um tchau com a mão para evitar outros acidentes.
Pude vê-lo até ele dobrar a rua e fiquei pensando em tudo que tinha acontecido, nele sem camisa, no nosso quase beijo, nas nossas conversas, no nosso selinho acidental e decidi que era melhor esquecer tudo, eu ainda gostava do Cebola, O DC era só meu amigo e assim tinha que ser.
O DC nunca deu atenção a meninas muito mais bonitas que eu, ele não seria louco de se apaixonar por mim, logo por mim.
Fale com o autor