Distress And Coma
1 Capítulo Único
Outubro, 1996. Inglaterra.
Ah, foi um período difícil. Naquela época, eu era um tipo de delinquente juvenil. Estava no que chamam de puberdade. Tinha acabado de fazer 14 anos. Mas eu era diferente dos outros. Todo jovem de 14 anos está vivendo sua fase de animações, hormônios, etc. Mas eu era diferente. Eu frequentava o psicólogo duas vezes por semana, era muito traumatizado pelas brigas dos meus pais durante toda a minha infância. Em 1992, eles pediram divórcio. Mas continuaram a se ver, pra tratar de pensão, etc. E, consequentemente, as brigas continuavam. Até que, em 20 de outubro de 1996... Minha mãe morreu de ataque cardíaco. Aos 38 anos. De fato, eu nunca gostei muito dela. Mas ela era a única pessoa pra mim. Sempre odiei meu pai, por que ele causava todas as brigas. Mas tive que ir morar com ele se não quisesse ir pro conselho juvenil ou alguma coisa assim.
Por causa das brigas entre meus pais, eu me acostumei a ficar trancado em meu quarto chorando, sozinho. Acho que esse foi um dos grandes motivos da minha timidez. Nunca namorei garota alguma, nem tinha coragem de falar com elas. Isso não é exclusivo com garotas, pois também nunca consegui fazer amigos homens.
Eu não tinha nenhum gosto em comum com aqueles garotos. Só sabiam falar de futebol, videogame, e sobre as vadias da sala. Era assim que eu as chamava, meninas fúteis que não tinham nada na cabeça. A minha aparência não ajudava. Ninguém queria falar comigo, me consideravam estranho. Eu tinha um cabelo negro e sem corte, embora fosse liso eu sequer penteava pra ir pra escola. Usava um uniforme velho e abarrotado da escola, e meus tênis eram rasgados e velhos também. Não é que eu não podia comprar roupas novas, é que eu simplesmente não ligava pra isso. Não ligava pra nada, nem roupas, nem videogames, nem futebol, muito menos garotas.
Eu odiava o mundo. Eu amaldiçoava Deus, por ter me condenado a uma vida tão sem sentido. E então eu me perguntei: "O que estou amaldiçoando? Será mesmo que esse Deus é tão maldoso assim?". E eu parei de acreditar em um tipo de "ser divino". Era besteira pra mim.
Embora eu não conversasse com ninguém na sala, não tirava notas boas. Passava a maior parte do tempo dormindo. E os garotos da sala, todos idiotas, ficavam botando apelidos em mim e me xingando. Nada importava pra mim, de qualquer jeito.
Novembro, 1996.
O ano já estava acabando. Eu tinha notas boas o suficiente pra passar de ano. No dia 1º de novembro, uma garota entrou na minha sala. Achei estranho, logo no fim do ano alguém entrar lá. O professor a apresentou. Ela se chamava Annie. Sua pele era branquíssima, assim como seu cabelo. Tinha o cabelo com o tom de loiro mais claro que eu já vi, e tinha lindas ondas, indo até seus ombros.. Era, provavelmente, uns 5 centímetros mais baixa do que eu, que media 1,66. Também era magra, mas não tanto a ponto de parecer anormal. Era perfeita. Mas eu não ligava muito pra isso no momento. Estava mais preocupado com o meu cochilo que fora interrompido.
A nova aluna, para minha surpresa, se sentou no lugar vago que havia ao meu lado. Ninguém sentava lá a meses. Mas, ela não iria falar comigo mesmo... Quem iria falar com um garoto problemático como eu? Bem, para minha surpresa, esse alguém era ela. Disse com sua voz doce e suave:
- Oi, eu sou Annie, muito prazer. Como você se chama?
Ninguém falou comigo com essa animação em toda a minha vida. A feição do meu rosto, que estava sempre de mau humor, tentou sorrir. Apenas tentou, por que eu jamais havia sorrido em minha vida. Não havia motivo. E eu disse:
- Ah, eu me chamo Ciel. Você... Vem de onde?
Eu não conseguia imaginar o que perguntar. Estava nervoso, suando. Em poucos segundos, eu pude perceber que ela era a pessoa mais dócil que já falou comigo.
- Eu venho de uma escola um pouco longe... É fora de Londres. Eu odiava lá, tinham pessoas realmente horríveis.
- Bem, não pode ser pior que aqui.
E não podia mesmo. Sério, tem algum lugar pior que aquela droga de escola?
- Ah, acredito que seja sim... Só tinham pessoas ricas e metidas lá... Odeio quando dinheiro sobe à cabeça das pessoas.
- Ahn, aqui é outro tipo de pessoa horrível. Mas, não ligue pra elas. Caso precisar, e-... Eu estarei aqui.
- Awn, que amor. Sabe, Ciel... Eu acho que seremos ótimos amigos. — E sorriu para mim.
Aquele sorriso... Naquele dia, eu dormi pensando nele. Pelo resto do dia, nós ficamos conversando. Eu nem percebi, mas, de uma hora pra outra, já sabíamos tudo um sobre o outro. Ela, apesar de odiar ricos metidos, era de uma família nobre da Europa. Já éramos amigos íntimos, e eu já havia contado sobre minha infância problemática. Quando contei, ela não disse nada. Ficou calada, por alguns segundos, olhando pra mim. E me abraçou. Depois, disse no meu ouvido que ela me apoiaria sempre, e me ajudaria a esquecer isso. Eu me dei conta que a amava.
Eu era uma nova pessoa. Depois que a conheci, passei a cuidar da minha aparência. Penteei os cabelos, e fui em um cabeleireiro fazer um corte decente. Comprei roupas novas, e me perfumava todo dia pra vê-la. Me sentia muito bem assim. Quando ela me viu mudado completamente, disse que eu estava lindo. Foi a primeira vez que alguém me elogiou.
Dezembro, 1996.
O ano estava acabando. Eu sabia onde ela morava, então iria visitá-la toda semana nas férias, se não todo dia.
...
Não, eu não podia. Era impossível. Ela... Iria se distanciar.
No dia 12 de Dezembro, ela me encontrou depois do colégio. Era um dia de chuva forte, mas ela não ligava. Muito menos eu. Se fosse pra vê-la, enfrentaria não só uma chuva. Enfrentaria um maremoto.
- Ciel, eu... Preciso te contar uma coisa... Eu já devia ter contado antes, mas não tive coragem. — Eu estava preocupado, torcendo para que não fosse uma coisa grave. Torci em vão. — Você sabe por que eu mudei pra sua escola praticamente no fim do ano? Bem... Eu tenho tonturas de vez em quando, tonturas que nenhum médico local conseguiu diagnosticar. Às vezes, são seguidas de vômitos, ou até desmaios. E... Com a esperança de que em Londres tivessem médicos suficientemente capazes de diagnosticar essa doença, minha família se mudou para cá... E não obtivemos sucesso. Nenhum médico daqui conseguiu diagnosticar. Nessas férias, eu vou viajar pro exterior, passarei as férias procurando algum médico que me diga que doença é essa... Logo... Isso é um adeus.
Eu não podia visitá-la todo dia durante as férias. Nem toda semana. Nem todo mês. Nunca mais. Nesses segundos em que ela me disse isso, ela escapou dos meus braços. Eu nunca mais iria vê-la. E além disso, descobri que ela tem uma doença que não é sequer detectável. Em um mês, obtive a minha melhor amiga pelo resto da minha vida. Em um minuto, a perdi. A vida realmente é tão cruel assim?
- Ciel... Fale alguma coisa, por favor!
Eu estava chorando. Uma dor insuportável invadira meu coração. E ela, me vendo chorar, começou a chorar também.
- Não! — Eu gritei, ainda chorando. — Eu não posso te ver chorar... Seria desesperador para mim. Eu não quero que você chore, entendeu?
Nossos guarda-chuvas foram levados pelo vento. molhados pela chuva sem fim, nós nos beijavamos. Foi um beijo tão intenso, tão... Perfeito. Em seguida, eu a olhei nos olhos, e disse, ainda chorando:
- Você... É a pessoa que eu mais amo nesse mundo, então... Por favor, um dia, volte pros meus braços. Está bem?
- Tudo bem... Eu... Eu prometo. — Ela me abraçou e começou a chorar. Eu não queria parar de abraçá-la, pois se não iria ver o rosto triste dela. Então, eu me despedi com um beijo, fechando os olhos pra não vê-la. Pior que não vê-la, era vê-la chorando... E isso eu não queria.
Fevereiro, 1997.
Eu ainda lembro do que ela me disse. Como poderia esquecer? Ela disse que pelas férias, ia procurar um médico no exterior. E eu tinha fé que ela estivesse hoje, na escola. Dia 17, as aulas estavam voltando. Todo dia, eu passava na frente da casa dela. Não por que era algum caminho para outro destino, mas sim por que eu queria ver alguma janela aberta naquela casa. Algum sinal de vida. Mais uma esperança em vão.
Ela não estava lá. Não estava na minha sala. No intervalo, eu procurei por toda a escola; ela poderia ter mudado de sala, não? Não. Não estava em lugar algum. Não estava na sala; não estava na escola; não estava em Londres; mas continuava no meu coração.
A minha última esperança foi a última frase que ouvi dela: "Eu prometo". Ela disse que voltaria, ela prometeu! E eu continuava passando na frente da casa dela, todo dia. Em um dia que tinha a mesma chuva intensa que nos banhou enquanto nos abraçávamos na nossa despedida, eu caí na frente de sua casa. Caí de joelhos em cima de uma poça d'água. E voltei a chorar.
- POR QUÊ?! POR QUE VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI?! — Eu gritei na frente da casa dela por horas, até que os vizinhos chamaram a polícia. Eles não me prenderam, apenas me levaram pra casa. Aquele dia que eu caí em frente à casa dela... 28 de Fevereiro... Era o aniversário dela. Eu sabia que ainda iria encontrá-la... Eu tinha que encontrá-la...
Dezembro, 1997.
Hoje faz um ano que não nos vemos. Nenhum sinal de vida ou de onde quer que ela esteja nesses 365 dias. Eu já havia parado de passar na frente da casa dela, mas hoje... Eu tinha que passar em um lugar.
Rua Bordeaux, a 2 quadras da escola. Eu não ia naquele lugar a 365 dias. Era uma rua que sempre estava deserta. Essa rua... Foi onde eu a vi pela última vez. Nesse dia, eu percebi que eu estava esperando alguém que provavelmente tinha me esquecido completamente. Eu me recusava a acreditar nisso, mas... Não havia escolha. Eu já havia perdido a timidez, então decidi que tentaria esquecê-la.
Março, 1999.
Já se passou mais de um ano desde que eu fui naquela rua pela última vez na minha vida. A relação entre meu pai e eu ficava cada vez mais precária. Eu estava na minha fase rebelde. Tinha 16 anos, fazia 17 em Outubro. No final daquele ano... Que eu decidi esquecê-la, pedi pra mudar de escola. Aquela escola me trazia lembranças dela. E assim foi. Desde que eu mudei de escola, passei a tratar as garotas como objetos. Não ligava pra personalidade delas, sabia que nenhuma ia me agradar mesmo. Então, só ficava com elas pelo seu corpo. Eu fiquei com muitas garotas, comecei a fumar, beber... Não ligava mais pra nada. Agora, eu vestia jaquetas de couro e umas roupas com metal, era um tipo de bad boy. Eu era uma versão mais deplorável daquele Ciel que não falava com ninguém. Naquele ano, eu retribuí todo o bullying que fizeram comigo quando eu era mais novo; participava de um tipo de gangue, e adorava bater nos outros e pegar o dinheiro deles como mero passatempo. Até que...
Agosto, 1999.
As férias de verão acabaram, e eu encarava meu último semestre de escola. Inacreditavelmente, eu não repeti nenhuma série, e estava agora no 3º ano. No dia 1º de agosto, uma garota nova entrou na sala. Era oriental. Se chamava Miyu. Seu tipo físico era muito parecido com o de Annie. Mas dessa vez, não tinha lugar vago algum perto de mim. De um lado, meus colegas de gangue. Do outro, as garotas fúteis. Já havia ficado com todas. Ela se sentou bem longe de mim, perto dos "nerds" da sala. Eu me aproximei dela no intervalo.
- Oi, como vai? "Miyu", não é?
- Sim... E você, como se chama?
- Ciel, mas pode me chamar como quiser.
- Ahn, ok. Que tal, idiota?
- O quê?!
- Sim, é isso mesmo. Eu vi você e sua "gangue" batendo em garotos da oitava série. Você não tem vergonha?
- Pff, essa é boa. Ninguém me dá sermão, ouviu?
- Se não quer ouvir sermão, não venha falar comigo. Gente metida como você não me interessa.
Ela era dócil. Mas eu não conseguia enxergar isso. Meu coração agora era uma pedra.
No fim do mês, eu saí com o que eu chamava de "amigos". Estávamos bebendo e xingando as pessoas da rua. Pessoas que sequer conhecíamos. Eu não reconhecia bem o caminho que estávamos indo, mas passamos por um lugar tão familiar que eu não pude simplesmente ignorar. Era a antiga casa dela. Tinha uma família ali. Eu tinha certeza.
- Vão na frente, eu encontro vocês depois. — Eu disse pros que estavam andando comigo. Precisava entrar naquela casa. Por impulso e falta de raciocínio, eu pulei o muro. Fui correndo até a porta de entrada daquela mansão. Abri a porta, e entrei correndo na casa. Andei pelos cômodos, e não achei ninguém. Subi as escadas. Depois disso, não lembro de mais nada. Sinto como se tivesse tomado um murro muito forte, que me fez cair das escadas e desmaiar.
Setembro, 1999.
Eu acordei. Acordei em um hospital, depois de dormir por dois dias. Acordei com flores à minha esquerda e um copo de água à minha direita. Minha vista estava embaçada, mas logo melhorou. Eu estava com soro em um braço, o mesmo braço com o qual peguei as flores. Um cartão caiu delas. Estava escrito "Estimo melhoras". Ainda não fazia ideia do que tinha acontecido naquele dia. Bebi o copo de água, e percebi que estava com um enorme curativo na minha barriga. Em seguida, a porta foi aberta.
- Oh, acordou? Ainda bem, estava começando a ficar preocupado! Você dormiu bastante, não? — Era um médico. Estava segurando uma prancheta, e anotava as coisas nela desde que entrou.
- Por que... Eu estou aqui? — Perguntei.
- Bom, você invadiu a casa de uma família. O senhor Shiroyama, pensando que era um assassino ou ladrão, pegou uma arma e atirou em você pra se defender. Você tem sorte, o tiro não pegou em nenhum órgão vital. Ah, mais tarde o senhor Shiroyama virá aqui com sua filha, e logo em seguida... A polícia. Invasão a domicílio é crime, sabia?
Quem diabos era esse Shiroyama? Nunca tinha ouvido falar desse nome. Bom, só me restava esperar. E eu esperei, por horas. O tempo não passava, eu estava muito confuso ainda. Até que a porta novamente abriu. Desta vez, o médico não estava só. Estava com um senhor de meia idade, oriental, com cabelo curto e liso. E...
- Boa tarde, Ciel. Esse é o Senhor Shiroyama, e essa, sua filha, Miyu.
Miyu?! Aquela mesma Miyu que entrara na minha escola?! Não, impossível!
... Impossível, não. Realmente, era ela.
- Você?! — Me espantei ao vê-la adentrar no quarto. E perguntei: — O que está fazendo aqui?
- O médico já não me apresentou? — Ela disse, friamente. — Eu sou Miyu Shiroyama, e você invadiu minha casa.
- Ah... Acho que sou eu que devo explicações a vocês, não?
- Com certeza. — Disse o pai dela, sentando em uma das 3 cadeiras do quarto.
Como eu explicaria isso? "Eu invadi a casa de vocês por que pensei que outra pessoa estivesse lá", é isso que eu diria? Ridículo. Fiquei calado por alguns segundos, então comecei a falar.
- Bem... Eu estava bêbado, e... Naquela casa, morava alguém muito importante pra mim... Eu pensei que esse alguém estivesse naquela casa que por anos ficou sem sinal algum de vida. É uma... Longa história.
- Hm. Eu entendo que você deve ter agido por impulso por que estava bêbado, mas, mesmo assim. Invadir a casa dos outros é errado. Mas eu posso falar com a polícia para não te prenderem, garoto. Eu tenho que ir agora. Minha filha me falou que te conhece, então os deixarei a sós.
Ele saiu do quarto, provavelmente tinha algum compromisso de trabalho ou coisa parecida. Miyu aproximou-se de mim e tomou o assento antes ocupado por seu pai.
- Vamos lá, eu tenho tempo. Conte-me sua "longa" história.
Sim, ela estava realmente interessada nisso. E eu, mesmo não gostando muito de falar disso... Me abri pra ela.
- Certo... Vou começar do início de tudo... Sabe, eu tive uma infância meio perturbada... Era uma criança muito anti-social e problemática, até que uma garota...
Eu continuei a contar. Contei tudo. Sobre minhas risadas com ela, sobre seu sorriso... Sobre nossas lágrimas. Contei tudo de forma muito detalhada, devo ter levado quase meia hora pra terminar... Demorei principalmente por minhas oscilações em certas partes da história. Minha vontade de destruir aquele protótipo de bad boy e cair em lágrimas. Mas consegui terminar a história sem derramar uma lágrima sequer.
- Ahn, é uma história muito triste. Mas, você não fez a coisa certa ao tentar esquecê-la. Eu tenho certeza que você ainda a ama, não? Pude perceber sua vontade de chorar. E, quanto a essas meninas com as quais você ficou... Se deu todo para elas? Não poupou nada de você mesmo?
- Bem... Embora muitas quisessem, eu nunca fui pra cama com nenhuma delas... Não sentia atração o suficiente para isso. Na verdade, não sentia nenhuma atração por nenhuma delas.
- Então ainda tem um pouco de esperança, não? Por que você não deixa de ser esse lixo de pessoa e volta a ser como era antes? Tenho certeza que era uma boa pessoa. E, não se preocupe se ninguém falar com você. Eu vou.
Primeiro, Annie iluminou meu coração. Agora, ela. As duas eram minha salvação. Sem elas... Eu seria o pior tipo de pessoa existente. Decidi mudar novamente. Voltar a ser aquela pessoa tímida. Voltar a ignorar pessoas fúteis. Esse é meu eu verdadeiro.
Eu voltei a sentir falta dela. Eu voltei a amá-la. Mas também voltei a sentir inseguranças. E se ela estiver me esquecido? E se ela estiver em coma? E se ela estiver... Morta? Não, eu não podia pensar nisso. Iria apenas... Voltar a pensar nela. Pensar que iria encontrá-la um dia. E eu iria atrás dela, onde quer que ela estivesse.
Outubro, 1999.
Eu passei a ser odiado na escola, simplesmente pelo fato de não querer falar com aquelas pessoas fúteis e idiotas. Agora, eu só andava com Miyu. Ela era como uma irmã para mim. Eu ficava mais na casa dela do que na minha, a família dela gostava de mim, apesar de eu ter invadido a casa deles. Eu não me sentia muito bem lá, pois a casa me lembrava Annie. Mas, enquanto eu estava em companhia da Miyu, eu não sentia tristeza. E, ficar lá era melhor do que ficar no que eu chamava de casa. Meu pai já estava velho, e eu não iria sentir falta dele se ele se fosse. Ninguém iria.
Em 12 de Outubro, eu fui pra casa da Miyu depois da escola, como de costume. Eu ia lá almoçar, e só voltava pra casa na hora de jantar. Mas, nesse dia, tinha uma coisa diferente. Fui recebido lá com abraços de todos. Estavam comemorando meu aniversário. Minha primeira festa de aniversário. Não tinham muitas pessoas, por que eu não era muito sociável. Mas, as poucas pessoas que tinham... Eram as melhores que poderiam existir. Com exceção de uma, que não estava lá. A pessoa que eu mais amo nesse mundo.
Dezembro, 1999.
O ano estava acabando. Em novembro, o meu pai morreu. Não derramei uma só lágrima em seu funeral. Depois que ele morreu, os pais da Miyu ficaram com minha guarda. Eu não tinha nenhum outro parente, e eles resolveram me "adotar". Por um lado, era bom. Eu estava finalmente com uma família de verdade. Pelo outro, eu sempre chorava de noite. O quarto que antes era da Annie... Eu dormia nele.
No dia que eu me mudei, o carteiro passou lá. Eu peguei as cartas que ele deixou. Contas e mais contas, com exceção de uma. Era uma carta com envelope rosa e vários adornos dourados. Eu abri. Tinha apenas um envelope em branco, com 4 palavras escritas à letra de mão: "Eu não te esqueci." Era a letra dela. Minha esperança finalmente fora recompensada. A carta vinha da Rua Lareine, nº 303. Paris, França. Eu tinha que ir pra lá. Mas com que dinheiro? Eu não trabalhava, não fazia nada. E uma passagem para a França é cara. Eu não teria coragem de pedir para os pais da Miyu. Mas não podia ficar sem vê-la, então...
- Senhor e senhora Shiroyama... Eu peço um emprego para vocês. — Eles eram ricos, tinham uma indústria de flores. As mais belas de Londres. Eram a maior floricultura da cidade, se não do país. Eles aceitaram minha proposta, e eu passei a trabalhar lá, junto com Miyu.
- Ciel, por que isso de repente? Por que essa vontade de trabalhar de repente?
- Bem, vou te dizer o por que. — Tirei a carta do bolso. A guardava com carinho perto de mim, e não me cansava de ler a carta, por mais curta que fosse. E a mostrei pra Miyu. — Agora, entende?
- Oh, por que não me contou antes?! Que maravilhoso! E, você sabe que eu posso te dar dinheiro pra passagem.
- Não, as coisas nunca foram fáceis na minha vida. Posso ficar mal acostumado, hahaha.
Continuei trabalhando, o máximo que eu pudesse. Todo dia eu acordava pensando que se eu não desse o melhor de mim no trabalho, não seria capaz de comprar a viagem pra França. De dia, eu trabalhava. De noite, estudava francês com os livros que Miyu tinha me dado. E de madrugada, sonhava com o dia em que eu iria encontrá-la.
Março, 2000.
O novo milênio começou. Diziam que todos os computadores do mundo iriam travar quando o segundo milênio se completasse. Eu não sei se aconteceu ou não, não tinha tempo pra mexer no computador. Já estava falando francês muito bem pra alguém que começou a estudar a poucos meses. E, só precisava trabalhar mais um mês para juntar dinheiro o suficiente pra passagem.
- Ciel, quando você for pra França... Não vamos mais nos ver, certo?
- Ahn? Do que está falando? Quando eu for pra França, tentarei trazê-la pra cá! Nenhum lugar se compara à Londres, não é mesmo?
- Sim, é verdade. Então, não demore muito tempo lá, por que sentirei saudades.
- Eu também sentirei... Mas ir pra lá é necessário.
- Eu sei disso. Espero que tenha sucesso em sua viagem.
O dia em que eu me despediria de minha nova família estava chegando. Aquilo me emocionava. Ficava triste, e ao mesmo tempo, feliz. A pessoa que eu perdi à 3 anos atrás... Ia voltar pros meus braços.
Abril, 2000.
O dia chegou. Eu estava no aeroporto, junto com Miyu e seus pais. Meu avião chegaria em breve. 6 de abril de 2000, o dia em que meu sonho se realizaria. Me despedi e embarquei no avião. A viagem durava apenas algumas horas, mas pareciam uma eternidade para mim. Eu ainda tinha dinheiro, o suficiente pra me alimentar e me hospedar em algum lugar lá. Não sabia quanto tempo ficaria, logo trabalhei por bastante tempo pra juntar dinheiro. O avião pousou, mas a viagem não havia terminado. Eu ainda tinha que pegar um ônibus, e procurar pela casa. Na verdade, demorou menos do que pensei. Eu estava com fome, mas não queria parar pra comer. Não queria parar pra nada. Estava cada vez mais perto dela e não poderia esperar sequer um segundo.
Toquei a campainha. Não estava bêbado para pular o muro, e não queria levar outro tiro. Contei os segundos para a porta abrir. Foram 40. Os 40 segundos mais longos da minha vida. Até que...
Aquela pessoa que eu tanto amei... Aquela pessoa que eu procurei por anos... Ela estava correndo aos meus braços. Estava vestindo um vestido azul, que caía perfeitamente bem em sua pele branca. Abriu o portão com pressa, e me abraçou. Sussurrou em meu ouvido, com a voz falhando:
- É... É você mesmo? — Disse, quase chorando.
- Sim, sou eu. Eu mudei um pouco nesses anos, mas, ainda pode me reconhecer, né?
Ela não tinha mudado nada. Continuava linda, perfeita. Aquele era o momento mais feliz da minha vida.
- Eu tive tantos medos... Medo de vir aqui e não encontrar ninguém... Medo de que você não lembrasse mais de mim... Medo de que tivesse acontecido algo ruim a você...
- Não precisa se preocupar mais com isso... Eu também tive minhas inseguranças. Não sabia se você viria ou não... Esperei por tanto tempo, na frente de casa... Eu... Senti tanto a sua falta...
Eu não precisava de mais nada, agora que estava em seus braços quentes. Nada mais importava. Os 40 segundos a esperando abrir a porta... Pareciam minutos. E os 40 minutos que ficamos abraçados, se passaram tão rápido... O tempo é tão cruel, fazendo os momentos bons passarem rápido assim. Em compensação, os momentos de sofrimento nunca passam... As feridas não saram.
Depois do abraço que reviveu aquele Ciel de Dezembro de 1996, nós entramos em sua casa. Estava vazia. Mesmo não querendo desgrudar dela, minha barriga implorava por comida. Comer rápido não faz bem, isso é o que todos dizem. Mas, quanto mais rápido eu comesse... mais rápido poderia voltar a beijá-la, a ficar abraçado com ela sem soltar nunca mais. Mas não ficamos apenas fazendo isso. Eu queria saber o que aconteceu com ela nesses anos, e contar o que aconteceu comigo. As mudanças que eu sofri. Eu ia falar tudo. Ela me levou pro seu quarto, e sentamos em sua cama, de mãos dadas.
- Tanto tempo se passou, não é? Eu sofri tantas mudanças nesse tempo... E queria te falar.
- Você sofreu tantas, enquanto eu não sofri quase nenhuma... Que estranho, não? Não pense que todos esses anos sem me comunicar com você... Não pense que eu te esqueci. É que eu... Estava em coma.
Meu coração disparou, e minha preocupação com ela se elevou ao máximo. Como assim, coma? Não consigo entender isso...
- Isso foi por... quanto tempo?
- Foi de fevereiro de 1997 até... o mês em que eu te mandei a carta. Eu nunca esqueci de você.
- Eu não acredito...
- O que?
- Enquanto você estava em uma cama de hospital... Eu fiquei um ano... Lembrando aquele mês maravilhoso que passei com você... Mas então, a minha esperança começou a se esvair. Eu fiquei igual a todas as pessoas que eu sempre odiei. Fiquei com tantas garotas fúteis, chamei tantos garotos ignorantes de "amigos"... Eu fui uma péssima pessoa. Mas então, uma garota chamada Miyu me mostrou o quanto eu estava sendo idiota. A partir daí, eu voltei a acreditar no amor que sentia por você. E as minhas esperanças retornaram completamente a partir do dia que eu recebi aquela carta... Mas, por todo esse tempo... Eu sempre tive inseguranças. E quero saber por que ficou em coma agora.
- Eu estava em coma induzido... Você se lembra daquela doença que não era diagnosticada por nenhum médico? Então, diagnosticaram... E eu tenho uma doença incurável. É um tipo de câncer cerebral... Os médicos pararam de me medicar, perderam a esperança... E eu quis passar os meus últimos dias sendo feliz com você... Então escrevi a carta.
- Não diga isso! Eu não quero te perder de novo! Estes não são os seus últimos dias... Não podem ser...
As lágrimas escorreram do meu rosto novamente. Mas ela não chorou. Apenas me abraçou, e disse:
- Não se preocupe se esses serão meus últimos dias ou não. O que importa agora... É que estou com você. — E deitou na cama, puxando-me levemente. Nós nos beijamos. Foi um beijo tão quente, tão... forte. O que eu não tive coragem de fazer com nenhuma outra garota com a qual fiquei... Eu precisava fazer com ela. Sabia que ela era única na minha vida.
Maio, 2000.
Já passei dias maravilhosos com ela. No dia que eu cheguei, em abril, nós fomos para o seu quarto, e... Fizemos. Eu descobri que sou meio tímido com isso, e ela também. Eu descobri que ela não morava mais com seus pais. O pai dela desertou ela junto com sua mãe. A mãe, não aguentou o abandono e se suicidou. Ela mora sozinha, já que é maior de idade. Agora eu faço companhia pra ela. Todo dia, eu quero fazer algo novo pra ela. Algo que faça a vida dela valer a pena, já que eu não sei quando ela vai acabar. Toda pessoa devia fazer isso com a pessoa amada. Nunca se sabe... Por mais sadia que a pessoa existe, a morte pode ser cruel... E em uma fração de segundos, a pessoa amada pode escapar de seus braços.
Hoje é dia 13 de Maio. Fomos pro parque. A pele dela fica tão linda quando está sendo iluminada pelo sol... Seus olhos verdes ficavam ainda mais radiantes. Nós estávamos juntos a um mês. Um mês perfeito. Era ainda mais perfeito que o primeiro mês que passei com ela.
- Amor, o que acha desse parque? É tão bonito, não é? Tem tantas flores... — Ela disse, enquanto estávamos andando de mãos dadas pelo parque.
- Sim, mas nenhuma se compara à sua beleza.
- Ahn, vou ficar mal acostumada com tantos elogios... Você vem me elogiando desde que chegou! É tão fofo e atensio...
A palavra não se completou. Ela tossiu, e cospiu sangue. em seguida, pôs a mão na testa, e começou a cambalear, até cair. Eu a segurei antes que ela caísse no chão. Meu coração... Estava acelerando incontrolávelmente. Eu não queria perdê-la novamente... Eu sabia que o dia de sua morte chegaria, mas... Foi tão inesperado... Eu não podia suportar isso... Não, ela não podia morrer ali.
- Annie! Fale comigo, por favor! Resista... Por mim...
Ela estava com a boca suja de sangue. Estava suando muito, e estava muito quente.
- Eu... Eu não posso mais aguentar, Ciel... Estou com uma dor de cabeça muito forte. Mas... Foi tão bom passar meus últimos dias com você... Você conseguiu me fazer feliz. Você conseguiu fazer com que eu me sentisse... A mulher mais feliz do mundo. Por isso, eu digo... Eu te amo.
- Annie... An... Annie! Annie! ANNIEEEEEE!!! O que estão esperando?! — Eu disse para as pessoas à minha volta! — Chamem uma ambulância, rápido!
Eu estava me acabando em lágrimas. Meu maior amor... Acabar assim? Não, isso não podia acontecer. Ela já havia me dito... Que esse dia chegaria. Mas, tão cedo assim? Não, eu tinha que manter minhas esperanças... Ela tinha que sobreviver...
Ela ficou internada. Eu fiquei lá com ela, a noite inteira. Ela não acordava. E eu não aguentava ver seu rosto tão lindo sendo tampado por uma máscara de oxigênio. Eu ainda precisava saber quanto tempo ela ficaria lá. O tempo passava, mas ninguém entrava na sala... Ninguém. Eu sentia uma enorme escuridão no meu coração... Como aquilo fosse um leve e terrível sonho... Que já deveria ter terminado.
E eu pensei: Um dia, eu vou tirá-la desse hospital... Ela mesma disse... Que não queria acabar assim. E eu vou realizar seu desejo.
Junho, 2000.
Já faz um tempo que ela está internada. Todos os dias, eu fui lá visitá-la. E ela continuava dormindo... Será que sonhava? Com o que sonhava? Eu imagino se ela não quer se libertar do sonho... Por que, por mais belo que um sonho seja... Sempre será apenas uma ilusão. E é isso que faz deles imperfeitos. Eu tenho lembranças desse último mês com ela... Será que essas lembranças também estão nos sonhos dela? Eu lembro... Nós dissemos um pro outro... Que iríamos nos casar.
Na minha angústia por vê-la dormindo por dias, os médicos me falaram... Que ela não iria mais acordar. O câncer havia se alastrado, e medicamentos não eram mais eficazes. No último dia que eu fui no hospital para vê-la... Ela abriu os olhos. Olhou para mim, e em seguida, os fechou enquanto sorria. O monitor que mostrava sua frequência cardíaca... parou. Seu sorriso estava se desmanchando... Era como se seus lábios caíssem. Eu não podia mais ver seus olhos verdes olhando pra mim... Não podia mais ver seu sorriso... Nunca mais... Nunca mais.
O dinheiro que eu tinha juntado pra pagar a passagem dela caso ela quisesse voltar comigo pra Inglaterra... Foi usado pra fazer seu funeral. Estava chovendo muito no dia. A mesma chuva de Dezembro de 1996. Aquilo trazia uma grande nostalgia... Eu podia sentir o corpo dela me abraçando. Como se eu tivesse voltado no tempo. Mesmo vendo seu corpo indo para o subsolo, eu podia sentí-la... Ela não tinha morrido. Suas lembranças estariam sempre comigo. Ela estava apenas... Dormindo... Para sempre.
Enquanto todos os parentes distantes que provavelmente não iriam sentir a mínima falta dela já tinham ido embora, eu continuava lá. Olhando para sua lápide, ajoelhado na grama molhada. Os pingos de chuva se misturavam com as lágrimas sem fim que escorriam do meu rosto. Encostei a mão na sua lápide, pra ver se conseguia sentí-la... Ela estava lá. Estava me vendo... Embora eu não pudesse vê-la.
Until your distress sleeps.
(Até que a sua angústia durma)
Fill me up with your grief
(Encha-me com sua tristeza)
Until your distress sleeps.
(Até que a sua angústia durma)
Eu sempre estava tão triste... Enquanto ela não conseguia dormir para sempre... Isso, de algum modo, foi bom pra ela? Foi o fim de sua tristeza, de sua angústia?
Hello dear, my bride
(Olá, minha querida noiva)
Nani wo miteiru no?
(O que você está olhando?)
Yuka ni chitta
(Com esses olhos que vêem...)
Chou mo hiroeru sono made
(Borboletas espalhadas pelo chão)
Todos os planos que fizemos... Tudo isso foi em vão? Não, não foi... Ela já sabia que esse dia chegaria, por isso seu olhar se distanciava tanto às vezes. Ela apenas queria... Fechar os olhos enquanto me abraçava... Para não olhar para o futuro negro que a aguardava.
Wasuretai no wa
(Gostaria de esquecer...)
Shiro sugita kutsuu
(A dor branca que passa)
Shinjiteru to Ikikaesu
(Mas acredito e aviso)
Kizu wa kienai
(As feridas não vão sumir)
Se eu esquecesse tudo isso... Eu seria mais feliz? Não, eu apenas iria tentar me confortar com uma realidade imaginária. Ela já tinha me avisado... Que seu fim estava próximo. Agora, esse momento de sofrimento nunca mais vai passar pra mim. As feridas não vão sarar.
Odoru, odoru... nemurasete to odoru
(Dance, dance... Dance até quando dormir)
Yamanu namida
(Lágrimas que não param)
Koe wo koroshi yowaku furueru te ni
(Eu calo a voz com as mãos que tremem fracamente)
Kuchibiru wo otosu...
(Deixo os lábios caírem)
Mesmo dormindo, ela continuava lembrando de mim... Até o dia de sua morte. A chuva que acompanhava nossas lágrimas sem fim não a molhava mais. Eu estava fraco, e trêmulo... Minha voz falhava... Mas eu não precisava falar nada agora. Nossos sorrisos desabaram e agora, tudo o que resta é desespero para mim.
Hello dear, my bride
(Olá, minha querida noiva)
Ashimoto wo yaku
(Com os pés queimando)
Mimi nari ni mou
(Precisa se aproximar)
Chikazuku hitsuyou nado
(Daquele tinido nos ouvidos)
Você... ainda pode me ouvir? Eu acho que não... Você encarou a vida com tanta coragem... Se machucou fazendo isso... Mesmo não podendo ouvir nada agora... Eu continuo falando com você... Continuo te amando. Mesmo que minha voz falha não consiga mais te alcançar.
Muishiki ni haita
(Vomitando inconscientemente)
Iki ga hada wo sou
(A respiração junto com a pele)
Kamoku yurasu yaibani
(A lâmina sacudida discretamente)
Warami wo
(Um sorriso)
Os dias em que você cospia sangue... Que sua respiração ficava falha... As feridas daqueles dias continuam na minha memória... A única coisa que as podia cicatrizar... Era seu sorriso.
Wasuretai no wa
(Gostaria de esquecer...)
Shiro sugita kutsuu
(A dor branca que passa)
Shinjiteru to Ikikaesu
(Mas acredito e aviso)
Kizu wa kienai
(As feridas não vão sumir)
Eu vou continuar repetindo isso pra você... Por todos os dias que passamos juntos... Sobre aqueles dias que você ficava pensativa... Como se temesse o dia em que se fosse e eu ficasse aqui, chorando sobre seu túmulo... Agora que eu não posso mais ver seu sorriso, como as feridas podem desaparecer?
Yaseta yume ni
(No leve sonho)
Samenu ima ga utsuru
(A verdade que não quer mostrar é refletida,)
Kanashimi sae
(Até mesmo a tristeza)
Sugao dayo to kotaete kureru nara
(Se responder que essa é sua verdadeira face...)
Kizutsuite mo ii
(Então poderá se magoar)
Os dias em que você estava dormindo... Para mim, tudo também parecia um sonho... Um sonho cruel. Os seus sentimentos, você não podia me mostrar... Nem alegria, nem raiva... Nem mesmo sua tristeza. Mas, se não estivesse dormindo... Você ficaria tão triste quanto eu fiquei sem você, não é?
Wasurenaide
(Não se esqueça)
Itami wo shiru anata ni
(As batidas daquele que é atraído por você)
Kikarete ku kodou
(Que conhece a dor)
Koko de matsu
(Esperam aqui)
Oyasumi.
(Boa noite)
Mesmo que seu coração estivesse prestes a parar... Você ainda lembrava de mim... Ainda se preocupava em tentar sorrir em seus últimos segundos de vida... Esse sofrimento é insuportável... Eu esperei tanto pelo dia que você voltaria para mim... Mas agora você voltou a dormir... E não vai mais acordar. A noite será eterna para você... E a escuridão dela será eterna para mim.
Odoru, odoru... Nemureru made odoru
(Dance, dance... Dance até dormir)
Yamanu namida
(Lágrimas que não param)
Nani mo naito
(Se não houver mais nada)
Kokoro wo fusagu tabi
(Tranque seu coração)
Karesou dato
(Quando parecer que morrerá)
Até o dia da sua morte, você queria se erguer daquela cama de hospital... Mas não conseguia. Essa chuva continuava, assim como minhas lágrimas. Você já havia se dado conta de que todos os sonhos eram falsos, não é? Já havia se dado conta de que eles iam acabar em pouco tempo...
Yaseta yume ni
(No leve sonho)
Mou ichido wo utau
(Cante mais uma vez)
Kanashimi sae
(Até mesmo a tristeza)
Jibun dayoto kotaete kureru nara
(Se disser que você é a mesma)
Kitzutsuitemo ii
(Então poderá se magoar)
Os sonhos acabaram pra você. Tanto os sonhos, quanto a realidade. Eu queria tanto, ouvir sua voz mais uma vez... Mas agora, eu não ouço mais nada. A escuridão me tomou completamente, não tem mais alegria aqui. Não tem mais raiva. Não tem mais nada. Tudo o que restou foi tristeza. Você não tinha mudado para mim... Mas agora, não existe mais você... Existe apenas angústia.
Until your distress sleeps.
(Até que a sua angústia durma)
Fill me up with your grief
(Encha-me com sua tristeza)
Until your distress sleeps.
(Até que a sua angústia durma)
Não adianta mais falar nada. Apenas deixe que sua tristeza tome conta de mim. Logo, eu me juntarei a você.
Owaru hazu no yume ni
(No sonho que deveria ter terminado)
Esse sonho cruel ainda não acabou para mim... Será que aí do outro lado, o seu sofrimento acabou? Será que agora só resta serenidade?
Sayonara ga saiteru.
(O adeus floresce.)
Não... Você não está mais comigo. Você se foi. E eu, falando tudo isso por horas aqui, em frente a sua lápide... Só preciso dizer mais uma palavra. Apenas... Mais uma.
Adeus.
A vida dela chegou ao fim. No mesmo mês, eu voltei para Londres. Não tem nada aqui. Miyu voltou para o Japão com a família, e deixaram a casa pra mim. Não, eu não posso viver ali. Uma parte dela está ali naquela casa. Na verdade, pra todo lugar que eu olho, só consigo me lembrar dela. O sofrimento nunca vai acabar. Talvez... Esteja na hora de dormir também. Quem sabe, eu encontre ela em algum sonho... É hora de deixar este mundo. Ela escapou dos meus braços de novo, e... Esse é o único jeito de eu encontrá-la novamente. Em um leve sonho, sem Angústia e Coma.
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