Distance
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Aproveitem para ler nesse tempo complicado de quarentena que estamos passando e para todos os que puderem FIQUEM EM CASA!
Espero que gostem :)
“I wish we would just give up,
'Cause the best part is falling.
Calling anything but love.
And I will make sure to keep my distance,
Say I love you when you're not listening,
How long, can we keep this up?”
Estranho como histórias nem sempre tomam o caminho mais previsível. Para quem assistiu de longe todos os anos de brigas e implicâncias entre mim e o Ron, não era difícil apostar que houvesse algo a mais por baixo disso. Sentimentos que falassem de proximidade ao invés da distância que nossas picuinhas impunham. Poderia até ter sido que em alguma parte do caminho, eu mesma tenha começado a acreditar nessa hipótese… meu coração batia num compasso diferente quando ele estava por perto, meus sorrisos eram sempre mais alegres e até implicar com ele era algo que acabava por me divertir. Porém, a vida aconteceu, uma guerra começou, uma guerra terminou e nada saiu dessa história. Minhas divagações adolescentes foram empurradas com firmeza para fora da minha mente.
Eu e o Ron éramos amigos e isso era tudo o que sempre seríamos.
Houve momentos ao longo dos anos em que eu pensei enxergar alguma coisa diferente quando ele me olhava, daquele jeito de canto de olho que ele jurava enganar a todos, mas era apenas algum tipo de esperança inútil. O melhor que fiz foi tirá-lo da cabeça.
Entre as alegrias e tristezas do fim da guerra, nossas vidas tomaram um rumo diferente, separando o trio que, até então, andava junto o tempo todo. Claro que não deixamos de ser amigos próximos, mas com o meu trabalho no Ministério e os meninos ocupados nas missões como aurores, não tínhamos mais tempo para relatar cada acontecimento de nossas rotinas.
E assim o tempo seguiu. Já eram mais de 10 anos passados desde que saímos da escola. Harry e Ginny haviam se casado no ano anterior, eu quase cheguei lá uma vez, porém meu ex-noivo não conseguiu entender que ele não estava numa disputa com o meu trabalho para ter minha atenção e as coisas não deram certo. Melhor assim, pois meus planos de carreira exigiam muito de mim. E quanto ao Ron… ele se saiu muito bem como auror e a fila de namoradas já era grande demais para que eu fizesse qualquer tipo de esforço em lembrar de algum nome ou rosto. Não valia a pena me dar ao trabalho. Eu ainda me lembrava claramente da conversa animadíssima que tive com a última namorada do mês que conheci em um dos almoços de domingo da família Weasley.
A loira impecável não parou de me encarar desde o momento que cheguei. Se dependesse de mim, não trocaríamos uma palavra, mas de um jeito ou de outro, a mulher acabou posicionada em minha frente e o contato foi impossível de impedir.
—Ah, você é a Hermione, eu presumo — o olhar de cima a baixo já me deixou mais satisfeita ainda de estar falando com aquela pessoa que não tinha nada a ver comigo, mas eu era educada o suficiente para ser civilizada.
—Sim, muito prazer — eu estendi a mão para cumprimentá-la, mas fui ignorada completamente.
—Hum — esse resmungo foi literalmente tudo o que ela respondeu, porém, mesmo assim, não saiu da minha frente. Aquela mulher estava brincando comigo?
—Tem alguma coisa errada com a minha cara? — dessa vez o tom foi muito menos amigável, aquela interação já tinha passado do tempo limite.
—Nada, só estava aqui pensando…
—Claramente não é a sua especialidade.
—As pessoas sabem como você é simpática, querida? — eu não sabia se havia sido a voz afetada ou o fato de me chamar de “querida”, mas minha paciência sumiu por completo.
—Claro, sou um amor com quem merece, agora se me dá licença — eu fiz menção de sair dali, mas a tal loira era mais teimosa do que a média.
—Talvez eu devesse dizer pro Ron… — o olhar que ela me lançou era tão triunfante que eu quase ri na cara dela.
Ela achava que aquilo era uma ameaça de que? Eu e o Ron éramos amigos e mais nada, nunca fomos nada além disso. Claro que durante os anos, alguns rumores andaram sendo espalhados por aí, mas eu sabia em primeira mão que nenhum tinha fundamento. Eu já havia lidado com uma boa cota de namoradas que me olhavam de canto de olho, mas tinha que premiar aquela por ser a primeira a se atrever a ser tão desagradável por algo que não fazia o menor sentido.
—À vontade, “querida”, mas é melhor ser rápida porque, pelo histórico, você não tem muito mais tempo — eu rebati, sem me importar se estava descendo a algum nível inferior de condescendência.
—Mas sou eu aproveitando tudo o que você queria, não é? — dessa vez eu realmente ri com gosto.
—Tudo o que eu quero, eu consigo. Então não invente ideias na sua cabeça, foi um prazer.
Aquela foi a última vez que eu apareci na Toca para um almoço ou qualquer outra coisa, na verdade. Claro que não tinha absolutamente nada relacionado às escolhas ridículas de namoradas do Ron e sim ao fato de que nas semanas seguintes, eu finalmente recebi a notícia de que tinha conseguido o cargo de Ministra da Magia. Trabalhei duro durante anos para chegar a esse posto e estava mais do que contente com minha conquista. Entretanto, com esse sucesso veio também a carga insana de trabalho.
Meus amigos, que eu já nem via com toda a frequência que gostaria, passaram a ser ainda mais esporádicos nos meus dias. Sendo honesta, não ver o Ron foi bem proposital, desde meu encontro com a última namorada dele, eu não estava disposta a conhecer a próxima. Aquela intrometida me fez pensar em coisas com as quais eu não deveria perder o meu tempo e que me deixaram irritada comigo mesma. Principalmente por me deixar levar por palavras de alguém que nem me conhecia! Eu não queria nada com o Ron, porque se eu quisesse…. se eu quisesse, o que? Nada, porque eu não queria mesmo e pronto! Ilusões eram coisas para adolescentes perderem tempo, não Ministras.
Eu já estava há alguns meses no cargo e, embora tudo estivesse indo relativamente bem, ainda restava tanto trabalho acumulado que era difícil imaginar que meu antecessor fosse muito eficiente. Meu escritório era bem espaçoso, com uma mesa grande que, no momento, estava pequena para o número de documentos e relatórios que precisavam da minha atenção. A cadeira, que no início do dia eu sempre achava tão confortável, já começava a cobrar as horas sentada, porém era muito raro eu sair no horário normal do trabalho. Uma batida familiar na minha porta anunciou a entrada da minha secretária.
—Pois não, Leslie — transferi a minha atenção a ela assim que a garota entrou.
—Só vim avisar que os últimos relatórios das reuniões com os comitês internacionais chegaram — ela colocou mais uma pilha generosa na minha mesa — e que já estou indo embora, Sra Ministra.
—Tudo bem, muito obrigada, Leslie, até segunda — agradeci sorrindo, eu gostava da menina, mesmo tão nova, ela era muito boa em seu trabalho.
—A senhorita não vai para casa também? — ela pareceu se arrepender no mesmo instante que abriu a boca, pois vi seus olhos se arregalarem — ah, me desculpe a intromissão, Sra Ministra.
—Não precisa de desculpas Leslie, mas eu vou ficar mais um pouco, tem algumas coisas que precisam da minha atenção ainda essa semana e como é sexta feira…
A garota se despediu e pude voltar ao silêncio do meu escritório. Não era de todo mau trabalhar depois do expediente. O ambiente ficava tão quieto, sem pessoas correndo atrás de mim a todo minuto, eu conseguia render muito mais em qualquer coisa que fosse fazer. Os minutos foram passando sem que eu notasse, apenas o fato de que estava ficando com fome denunciava a provável necessidade de uma pausa na revisão, um tanto enfadonha, das novas leis para venda de artigos trouxas magicamente modificados.
Eu já estava fechando a pasta para ir buscar o lanche que tinha trazido especialmente para a ocasião, quando uma batida inesperada em minha porta me sobressaltou.
—Quem é? — respondi entre curiosa e apreensiva. Eu não estava mais acostumada a visitantes não anunciados e, com o avançado da hora, me parecia bem pouco provável que fosse um assunto oficial.
—Oi, Mione, posso entrar? — a cabeça que se esgueirou na abertura da porta era inconfundível, fosse pelos olhos azuis que me encaravam, ou pelo tom de ruivo que pintava cada um dos fios de cabelo dele.
—Ron? — eu preferia não ter soado tão surpresa, mas quem poderia me culpar com uma aparição tão inesperada. Fazia meses que eu não o via, o recorde desde que nos conhecemos e eu não gostei nada das borboletas que eu senti no estômago, ignorei-as com sucesso — claro, venha, mas não tenho muito tempo, essa pilha de relatórios me espera — fiz questão de aproximar um amontoado de pastas para que o trabalho parecesse mais urgente.
—Você ainda deveria estar trabalhando? — ele passou a mão pelos cabelos como fazia sempre que estava confuso, ou nervoso e eu não prestei nem um pouco de atenção ao fato de que os fios estavam mais compridos do que de costume.
—Você parece ainda estar aqui também — dei de ombros apontando para a realidade de que o turno dele no departamento dos aurores também já havia acabado.
—Vai ser rápido — Ron assegurou parando em frente à minha mesa.
—Senta — concordei, pois era só o que me restava a fazer, não tinha justificativa sã para eu mandá-lo embora, o jeito foi apontar para a cadeira na qual ele se acomodou, me deixando um pouco mais confortável por poder encará-lo quase na altura dos olhos. Quem mandou ele ser tão irritantemente alto?
—Você não aparece mais, Mione… — de tudo que eu achei que ele pudesse falar, minha recente ausência não era o que eu esperava, na realidade eu ainda debatia se ele sequer havia notado, não que me importasse — estamos todos com saudade, a minha mãe já está quase fazendo greve.
—É uma fase de transição, Ron, tenho muito o que fazer — me justifiquei, de repente achando difícil sustentar o olhar azul.
Não era exatamente mentira o que eu estava dizendo a ele, a carga de trabalho estava acima de tudo o que eu podia imaginar, porém fora uma decisão consciente que eu havia feito, ele só não precisava saber, podia dar a impressão errada. Uma noção de que eu dava mais importância à proximidade dele do que era verdade, e eu não queria isso.
—Não tem tempo nem para os amigos?
—Claro que tenho! Falei com o Harry várias vezes na semana passada e...
—Ah, então o problema sou eu? — ele me interrompeu, elevando ligeiramente a voz o que, junto com a cor vermelha que começava a tomar conta de suas orelhas, me dizia que ele não estava confortável — porque nenhuma carta chegou com o seu nome e aquele troço trouxa que você me ensinou a usar também não tem mensagens suas.
Ele tinha realmente vindo até o meu escritório reclamar a minha falta de correspondência? Respirei fundo, decidida a levar aquilo sem perder a paciência de vez, mesmo com o ser humano mais sem noção do planeta na minha frente.
—Você está precisando de alguém para encher seu tempo, Ron? Isso é com, como é o nome dela mesmo? — fingi tentar lembrar do nome da última sei lá quem que andava junto com ele — Ah sim, com a Jenny.
—O que ela tem a ver com isso? — ele torceu o nariz o que só me fez ter vontade de socá-lo, mas claro que não fiz isso.
—É sua namorada, não é? Pede pra ela te mandar mensagens e cartas — dei um sorrisinho irônico que vi, muito satisfeita, que ele não gostou.
—Primeiro, ela não é mais minha namorada.
—Essa foi rápida mesmo — rebati entredentes, fazendo-o fechar ainda mais a cara, mas secretamente me dando o prazer de estar certa, aconteceu exatamente como eu tinha falado pra loira abelhuda.
—E segundo, eu quero saber de você — ele continuou como se eu não tivesse comentado nada.
—Porque eu sou sua amiga tão querida — revirei os olhos, sem economizar na ironia. Eu não saberia colocar em palavras o que estava me fazendo agir de forma tão contrária, ou me irritando tão rápido e preferia não descobrir, provavelmente não me faria nenhum bem.
—Sim! E… — ele foi incisivo, porém eu já não queria escutar mais.
—Ron, eu não tenho tempo para isso — eu o interrompi, levantando a mão e fazendo-o parar de falar — Antes eu podia me dar ao luxo de ligar e aparecer para ficar batendo papo, mas agora eu tenho um ministério inteiro para comandar e, acredite, dá muito trabalho.
Indiquei tudo que abarrotava a minha mesa com os olhos, eliminando qualquer dúvida de que eu poderia estar mentindo sobre o assunto. Eu estava pronta para o fim daquela visita e já me preparava para me despedir dele, porém o ruivo ainda era tão teimoso quanto eu me lembrava.
—Você está fugindo de mim e eu quero saber o porquê — eu conhecia aquela expressão, era o Ron decidido que estava na minha frente, nada parecido com o menino indeciso e inseguro que duvidava de sua capacidade.
Eu não estava com humor para entrar numa briga com ele, até porque eu teria que admitir a verdade em suas palavras, então a saída era negar as ideias dele, descartar tudo como uma grande besteira.
—Não sei que minhocas você colocou na cabeça, mas você está enganado.
—Eu sei que você visita o Harry, a Ginny e ele me contaram. Se não tem tempo, então da onde você tira para essas visitas? — a acusação estava clara em cada nota de sua voz e, de repente, senti vontade de contra-atacar.
—Passou pela sua cabeça que talvez eu só não queira ver você?
—Passou, e eu não gosto disso — a sinceridade me desarmou, porém a minha irritação foi substituída parcialmente pela confusão de não saber o que fazer com aquela informação.
Eu não esperava que o Ron viesse me dizer que não gostaria de perder minha presença, porém logo me veio a cabeça de que o que ele queria era manter o senso de comodidade dele. A pessoa que sempre esteve ali do lado pra quando ele precisasse, não tinha nada a ver com o que ele pudesse sentir em relação à mim. Não era preciso de mais nada, a raiva já estava de volta.
—Ah! Então é claro que eu vou mudar de atitude, só porque agora eu sei que você não gosta — eu podia escutar a acidez escorrendo das minhas palavras, de maneira que não fazia já há anos, não existia outra pessoa que me fizesse chegar a esse ponto numa discussão.
—Quer parar com isso? — ele vociferou levantando a voz, ao mesmo tempo que espalmava as mãos nos braços da cadeira que sentava antes de se levantar.
—O que você quer de mim, Ron? — eu rebati imitando o gesto, não o deixaria me encarando com todos aqueles centímetros de altura nos separando.
—Que você me escute! — num tempo recorde, ele deu a volta na minha mesa e não havia mais a segurança de pilhas e pilhas de papéis nos separando, se eu esticasse o braço, meus dedos o tocariam sem nenhum esforço.
—E você quer fazer o favor de se afastar! — não foi minha intenção que a minha voz saísse tão esganiçada, porém eu não tinha me preparada para a proximidade.
Subitamente eu senti estar tendo problemas para respirar, uma revolução de medo e ansiedade dentro de mim, aterrorizando-me com a possibilidade que ele visse tudo o que eu escondia há tanto tempo. Até me mim mesma.
—Isso é uma ordem da toda poderosa ministra da magia? — ele provocou, dando mais um passo à frente.
—Não… é só… — eu me enrolei nas palavras, sem saber o que dizer agora que sentia, pinicando na minha pele, a evidência do que a presença dele depois de tanto tempo distante conseguia fazer comigo.
Eu não era nem um pouco imune como pensava.
—Provavelmente estou arriscando ir para cadeia agora — ele se aproximou mais ainda, se inclinando em minha direção, por um instante, eu achei que ele fosse encostar a testa na minha e só consegui permanecer paralisada onde estava, mas ele parou antes disso, mesmo que eu conseguisse sentir sua respiração em minha bochecha — por que eu não te vejo mais, Mione? Eu te procuro, você não está em casa, espero e você não vem…
Ele falou tão baixinho, quase um sussurro. Se não estivéssemos tão próximos, eu provavelmente não teria sido capaz de escutar e não me orgulhava em dizer que senti um arrepio percorrendo minhas costas com a intimidade do momento, mas era também chegada a hora da verdade, eu não sairia dali dando socos e chutes, apenas não daria.
—Cansei de ser sua amiga, Ron — endureci minha postura o máximo que pude, e fui o mais honesta possível. — cansei de você.
Porque era a verdade, não era? Eu tinha sim esperado, anos e anos e nada acontecera. Ele preferiu outros caminhos e eu não aguentava mais estar perto para assistir aquilo. Demorou muito, mas eu tinha que chegar àquela conclusão mais cedo ou mais tarde, ser honesta comigo mesma e perceber que estar por perto não me faria bem.
—Você não está falando sério — ele deu um passo para trás como se eu tive lhe dado um tapa. Senti meu estômago se contrair com a cara de desalento que ele fez, mas não era o momento para voltar atrás.
—Estou.
—Ninguém se cansa assim dos amigos, isso não está certo, Hermione! — agora ele estava visivelmente alterado.
—Não estou pedindo seu julgamento no assunto — falei cruzando os braços, como se isso pudesse me ajudar a me defender do magnetismo que eu ainda sentia.
—Eu não vou deixar você se afastar assim!
—Eu, claramente, não estou pedindo sua permissão também. Você acha companhias tão fácil, vai procurar outra pra te distrair que eu tenho muito trabalho para fazer e acho melhor você ir — eu indiquei a porta a ele e fiz menção de voltar a minha cadeira, porém ele me impediu.
—Eu não vou a lugar nenhum — as mãos dele se prenderam aos meus braços, me impedindo de virar para longe dele — E dane-se o trabalho, isso é sobre você e eu!
—Não existe você e eu! — eu gritei e o empurrei com toda força para que ele me soltasse, conseguindo o resultado que eu queria, mesmo que eu ainda sentisse o calor do toque em meus braços.
—Não? — o desafio em sua voz estava claro, mas eu percebi tarde demais sua intenção.
Quando ele se aproximou novamente foi para me puxar num abraço, o mais perto do que jamais estivemos, meu corpo colado no dele. Antes que eu pudesse protestar, ele colou os lábios aos meus, completando o cenário que a Hermione de vários anos atrás torcia todos os dias para vivenciar, mas eu não era mais uma garotinha. Os lábios dele eram macios, como eu sempre imaginei que fossem e o calor que emanou para todos os pontos do meu corpo tornou muito difícil para minha mente continuar funcionando ao invés de simplesmente se entregar às sensações.
Mas aquilo estava errado, completamente errado.
—Você não pode fazer isso! — eu me afastei e dessa vez não fui tão gentil, eu queria gritar, queria machucá-lo, queria continuar beijando-o, mas o que fiz foi afastá-lo com tapas e socos em seu peito, que para ele devem ter parecido patéticos, dado a facilidade com a qual ele conseguiu conter as minhas mãos com as suas, várias vezes maiores.
—Mione, para! — ele vociferou, enquanto eu ainda insistia em tentar me soltar, sem sucesso.
—Você não pode fazer isso! — eu repeti, sem ter mais ideia do que dizer.
—Eu sei — ele concordou, o que me fez parar, mas mesmo assim ele não soltou minhas mãos.
O que ele queria dizer com aquilo? Ele por acaso estava brincando comigo? Eu não sabia se me sentia mais com raiva, com vergonha ou com vontade de matá-lo.
—Então o que foi isso? É a sua versão de brincadeira agora?
—Claro que não! — ele respondeu ofendido, mas eu não me importei.
—Você não pode passar anos sem nem olhar na minha direção e depois chegar aqui exigindo espaço na minha vida e me beijando! — ele finalmente afrouxou os dedos e eu desvencilhei minhas mãos de seu toque que ainda me queimavam.
—Não olhar na sua direção?
—E quando foi que você olhou, por acaso? — eu parecia ter deixado de lado o fato de que aquela conversa tinha começado a revelar muito mais sobre o que eu já havia desejado do que gostaria.
—Como se você fosse ter me dado atenção — ele revirou os olhos, mas eu notei o tom de tristeza que ele tentou esconder, ele achava mesmo aquilo?
—Você é idiota, Ronald Weasley? Quando tínhamos 13 anos eu até consigo desculpar, mas depois de tanto tempo? — eu nunca estivera errada ao pensar que o Ron entendida de sentimentos igual a um legume, mas isso não era desculpa para ser imbecil.
—Pelo jeito eu sou, mas você nunca falou nada! — ele tentou se defender e eu quase ri na cara dele.
—E você menos ainda! Eu estava debaixo do seu nariz todos esses anos. TODOS! E você preferiu cada uma das Jennys e Stephanies e sei lá mais quem — eu estava com tanta raiva. Foram anos tentando me convencer de que nada aconteceria, de que não havia nenhum sentimento, colocando tudo que eu sentia em uma caixinha escondida para que nem eu pudesse achar e agora ele vinha me dizer essas coisas?
—E você quase se casou com aquele idiota pomposo! Que chance sobrava pra mim? — lembrei dos anos em que eu estive junto do meu ex-noivo e da antipatia unilateral que o Ron sempre nutriu por ele, na época eu não achei que fosse nada de mais — Você sempre foi… você, Mione! Inteligente, boa em tudo, Ministra da Magia e eu sou só eu…
Eu queria chacoalhá-lo até que aquele cérebro idiota fizesse algum sentido, mas os sentimentos ainda se misturavam em um turbilhão dentro de mim.
—Então, basicamente o que você está dizendo é que é minha culpa você ter sido um galinha todos esses anos e que eu deveria ter parado a minha vida e esperado você se dar conta de que queria vir me beijar?
—Não! Claro que não! — ele afirmou e eu percebi a menção de se aproximar de novo de mim, porém ele permaneceu no lugar.
—Então o que é?
—Eu estou dizendo que… — ele engoliu em seco, como se tomasse coragem para continuar — que faz muito tempo que você não sai da minha cabeça e que não é de hoje também a vontade de te beijar.
—Eu não vou ser a sua namorada do mês, Ron — declarei sem nem pensar porque era a mais pura verdade. Esse era um papel ao qual eu não me prestaria, não por achar algo de errado nisso, mas por não querer conhecer o que era estar com ele apenas para ter a sensação tirada de mim. Porque eu sabia, eu tinha plena consciência de que gostaria de cada minuto.
—Ótimo, porque eu não quero você para ser a minha namorada desse mês mesmo, quero para todos os meses.
—O que? — a declaração veio tão inesperada que eu não consegui conter a surpresa, eu tinha entendido direito?
—E se não ficou claro, são para todos os meses de todos os anos — a pose dele era segura, o olhar fixo no meu, me dando pistas do homem decidido que eu sabia que ele era.
Tudo que eu consegui responder foi silêncio.
Minha mente se afundou em mil pensamentos que eu não conseguia processar. O que tinha começado com uma briga agora tinha tomado um caminho muito mais diferente, no qual eu estava muito tentada a me perder de vez. Porém ainda era muito difícil acreditar tão fácil naquilo depois de uma espera tão longa, parecia uma afirmação muito frágil, mesmo que aqueles olhos azuis me encarassem com todo o brilho da ansiedade que eu podia ver. A Hermione de 10 anos atrás sonhou por tanto tempo escutar palavras carregadas de sentimentos vindas daquela boca, seria possível que fosse se realizar?
—Ron, depois de todo esse tempo? Por que você vem me dizer isso agora? — a insegurança me fez perguntar.
—Porque você sumiu e finalmente tomei a coragem que eu precisava para ir atrás do que eu sempre quis. A minha vida não é a mesma sem uma certa mandona no meio — ele nem titubeou ao me responder.
—Eu…
—Agora é com você, Mione — novamente ele estava próximo a mim, nossos corpos a centímetros de distâncias.
—Se eu disser… que eu gosto de você, que sempre gostei... — eu não sabia como expressar aquilo, o tempo que passei tentando reprimir o que sentia tornava difícil para que as palavras saíssem.
—Eu vou ficar muito feliz, mas a gente sabe que não é verdade — fiquei confusa, porém vi um sorriso travesso se insinuando em sua boca, um que eu conhecia de cor, mas que dessa vez conseguiu me arrepiar, ainda mais juntando ao fato de que ele passou os braços em torno de mim, nos juntando — você me ama, e eu amo você.
Não era exagero dizer que milhares de borboletas surgiram em meu estômago ao ouvir aquelas palavras e eu não contive o sorriso para se igualar ao que ele me dava. A dúvida ficaria de quem se aproximou primeiro, mas nossos lábios colidiram com uma força completamente diferente do nosso primeiro beijo, agora tudo era desejo. Parecia uma urgência de colocar em dia os anos perdidos, uma vontade louca de nos conhecermos das únicas formas que ainda não tínhamos feito. Dessa vez eu não hesitei em aprofundar o beijo sentir a língua dele se entrelaçando na minha, meus braços tinham ido parar em volta de seu pescoço, dando chance para meus dedos se afundarem nas mechas ruivas que, de fato, estavam mais compridas do que habitualmente.
Eu esqueci completamente de onde estávamos, focada apenas no corpo colado ao meu e em tudo o que eu sentia. Contive um gemido baixinho quando o Ron tirou a atenção da minha boca e trilhou um caminho de beijos até o meu pescoço. Eu tinha os cabelos presos, o que facilitou o acesso à a pele sensível do local, onde ele me provocou com a língua e uma mordida que me fez respirar com dificuldade. Ele se afastou por alguns segundos, me encarando com as pupilas dilatadas e um sorriso malicioso que eu via pela primeira vez, puxei-o para mim, doida para capturar aquele sorriso num beijo. Minhas mão não queriam mais ficar paradas, deslizei-as pelas costas dele e enfiei-as por debaixo da camiseta preta, sentindo a pele firme com os dedos. Eu sabia que ele tinha o corpo bem definido dos treinos com os aurores, mas eram mais músculos do que eu esperava. Não me demorei em me afastar a puxar a camiseta por sobre a cabeça dele, jogando-a para algum lugar aleatório.
—Ei, eu amo aquela camiseta! — ele falou brincando, porém sem prestar a menor atenção para onde ela ia também.
—Não se preocupe que se estragar, quem te deu essa, te dá outra — zombei e ambos rimos do fato de que eu tinha sido a pessoa a presenteá-lo com aquela camiseta há alguns aniversários.
—Você ainda se lembra quem te deu a sua, ou é melhor eu ser cuidadoso? — eu estava adorando esse tom malicioso que ele sabia usar, soava muito bem aos meus ouvidos.
—Quem disse que eu vou te deixar mexer nela? — tentei assumir um tom sério, porém falhei miseravelmente.
—Não vai? — ele fez uma cara de inocente decepcionado que eu achei uma gracinha, só conseguindo me fazer rir ainda mais — nem se eu prometer ir bem devagar?
O tom inocente deu espaço novamente para o olhar malicioso.
Eu não precisei responder para ele saber o que tinha que fazer ali, minha blusa sumiu em um piscar de olhos e senti suas mãos me guiando para longe da mesa em direção ao canto onde minha sala continha um sofá muito oportuno. Joguei para longe da cabeça o pensamento de que aquele era meu local de trabalho e que nada daquilo era responsável e me entreguei à minha parte inconsequente que estava aproveitando todas as sensações deliciosas do corpo dele colado no meu.
Foram mãos, beijos, abraços, pele com pele. Cada momento me fazendo enlouquecer um pouquinho mais. Finalmente eu sabia qual era o gosto de cada parte daquele ruivo que ocupou meus pensamentos por tanto tempo e sabia também a extensão de tudo que ele me podia me fazer sentir. Terminamos a noite embolados no tapete que ficava na frente da minha lareira, o calor do fogo nos mantendo confortáveis o suficiente para que o sono nos levasse em alguma hora da madrugada.
Acordei no dia seguinte aconchegada ao corpo dele, minha cabeça estava apoiada em seu peito e eu sentia o toque gentil de seus dedos que deslizavam pelas minhas costas.
—Bom dia — murmurei, ainda sem certeza se eu queria abrir os olhos, mesmo sabendo que ele já estava acordado.
Todas as memórias da noite anterior que começou com uma briga vieram a tona e eu ainda tinha dificuldade de acreditar que as coisas mudaram de forma tão radical num piscas de olhos.
—Bom dia — ele respondeu, dando um beijo em minha testa — quer dormir mais um pouco?
—Não — pisquei para abrir os olhos e encontrei os dele me encarando com todo o sentimento que eu agora sabia morar ali — o que fazemos agora?
Era uma pergunta justa, aquele era um terreno novo. Nos conhecíamos há tanto tempo em uma configuração diferente que, mesmo sendo algo que eu secretamente desejava, eu ainda não sabia como prosseguir nessa nova forma.
—Você pode começar o dia me dando um beijo, que tal, Sra Ministra? O resto a gente vai descobrindo — o sorriso atrevido me fez rir também.
—Você acha esse um tipo de favor apropriado para se pedir a uma representante do governo?
—Acho, eu sempre tive um queda pela Ministra da Magia…
—Sorte sua que eu sou a única! — dei um tapinha de leve em seu ombro e ele se inclinou para roubar um beijo delicado.
—Você devia tomar cuidado com o que diz e faz, Sr Weasley, posso te mandar para a prisão por bem menos do que esses atrevimentos — provoquei, gostando de ver o humor no rosto dele.
—Sabe… acho que se souberem o que fizemos aqui, nós dois podemos parar na prisão.
—Negativo, eu sou a Ministra, ninguém vai descobrir, a prisão é só para você mesmo.
—Se a prisão for aqui — ele passou o braço pela minha cintura, fechando-a com a outra que me circundava — então sem problemas, não quero sair nunca.
Notas finais
Bjus
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