Disperdiçando minha juventude
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Jackline está no ônibus, com a cabeça encostada, seu corpo tentando descansar após um dia duro de trabalho. O veículo está bem vazio, devido ao horário. A paisagem escura passa rapidamente enquanto os olhos da moça fitam algo muito além do que a janela lhe mostra. Ela respira fundo e bebe um gole da água em sua garrafinha, a guardando em sua mala desbotada que está logo ao seu lado, no banco junto dela. Ela avista alguns mercados e um condomínio que sinalizam que está próxima de sua casa e ela começa a se levantar, se segurando na barra para se manter equilibrada e caminha até a porta do ônibus, apertando o botão para sinalizar que deseja descer no próximo ponto. O ônibus para e ela desce, se espreguiçando e ajeitando a alça de sua mochila. Ela caminha pela rua escura em passos rápidos.
“Droga” ela pensa “o cachorro quente já está fechado”, ela faz uma careta vendo a esquina vazia, já sem o carrinho de cachorro quente que costumeiramente fica ali pela noite. Jackline entra no condomínio, após liberar o portão da portaria com sua chave. Ela caminha calmamente, suas costas e pés estão cansados. Ela abre a do seu apartamento, após destrancar a porta, e encontra Will, seu namorado, no sofá, mexendo no seu notebook, que está no colo do mesmo.
— Jack! Que bom que chegou!
— Oi nenê — ela suspira cansada — como foi seu dia?
— Ah foi o mesmo de sempre, cansativo. Fiquei fazendo as coisas aqui em casa, daí fui pra facul e voltei agora há pouco.
— Chegou a comer a janta que eu fiz? — Jack tira os tênis e solta um resmungo de alívio, abrindo o botão da calça.
— Ah sim, sim — Will diz, com uma voz sem muita emoção, focado em seu notebook. — ‘Tava muito gostoso.
Jackline vai para o quarto e troca de roupa, se espreguiçando assim que termina de colocar o pijama se abraçando. Ela solta seu cabelo cacheado e o sacode, sorrindo. O bar em que ela trabalha de noite “pede” gentilmente para que ela manter o cabelo dela preso, e bem preso. Jackline se recusava a alisar ela, fazia isso quando criança e não quer voltar a deixá-lo liso. Prefere assim, cachos. Ela retorna para a sala, indo para a cozinha. Ela coloca a comida para esquentar e fica na porta da cozinha, se encostando na parede, atenta com a comida.
— Então, como foi lá com seus pais? — Jack pergunta, brincando com o cabelo.
— Ah, eles tão numa situação tensa, briga chata, relacionamento esfriando — William diz, parando brevemente de mexer no notebook para olhar para Jackline. — Mas eles me trataram bem, tentaram se manter na deles, cada um no seu canto.
— Seu pai tentou, sabe, se desculpar?
Will suspira, passando a mão pelo cabelo, castanho claro.
— Ah, ele diz que tentou mas não sei, sabe. Mas eles ainda vão me ajudar com as contas e tals, mas é tenso de lidar com isso, talvez eles se separem — Will volta a mexer no notebook. — E como foi lá no trabalho?
— Qual dos dois? — Jack ri, indo para a cozinha de volta.
— Ah, você entendeu, perguntei como foi seu dia — ele ri.
Jackline pega um pouco de cada coisa, fazendo um prato leve pelo horário. Ela anda até o sofá e se senta ao lado de Will, ele está jogando um jogo em seu computador.
— É novo esse aí? — Ela pergunta, a boca cheia de comida.
— Ah, fala de boca vazia! — Ele pede — e sim, é novo. Comprei hoje de tarde.
— Uh, senhor cheio da grana — ela ri, voltando a comer.
— Tava na promoção — ele responde, voltando a ficar focado no jogo.
— Ai, o dia lá no café foi de boa, não teve tanto cliente e lá pelo menos o pessoal é animado. Mas no bar é sempre um estresse, tem cara escroto e o chefe é um idiota. Todo dia vindo falar que eu deveria alisar o cabelo.
Will fica quieto, resmungando um som de concordância. Jack suspira.
— Se pudesse eu fazia trancinha de volta só pra ver a cara dele, cara babaca — ela suspira voltando a comer.
— Ah não, faz isso não — Will responde quase que de imediato.
— Por que não? Você sabe que eu adoro como fica?
— Ah mas é meio zoado, cê não acha, Jack? — Ele dá um riso sem graça. — Minha mãe quase pirou quando você fez.
— Will, com todo respeito mas que que eu tenho com tua mãe não gostar? Cabelo é meu, respeita minha história — ela ri, sem graça, tentando simular um humor por cima da irritação.
— Ah sei lá, parece coisa de marginal, sabe? Não fica legal — ele explica, tentando soar calmo e razoável.
— Ai, William, tá bom, tá bom — Jackline bufa e volta a comer, irritada.
William nota isso e começa a fazer carinho no braço dela, indo para a nuca e acariciando ela onde o cabelo começava. Passam alguns minutos, com Jack comendo e depois ficando no celular. William, notando que pisou na bola, pega o prato vazio e lava a louça, retornando para a sala depois de acabar. Ele boceja e fala:
— Vamos dormir, nenê?
Jackline suspira, ajeitando o cabelo e levantando, se espreguiçando.
— Cê sabe que não posso dormir tão cedo, preciso ir dar uma estudada e uma produzida. Fazer o dia valer de verdade.
— Ai, ai, todo dia isso Jack? Poxa, sinto falta de dormir contigo — ele fala, cruzando os braços.
— Mas eu vou ir, só que mais tarde — ela ri e bagunça o cabelo curto do rapaz.
— Ainda assim, pô, eu sinto falta do chamego antes de dormir, você passa quase o dia todo fora trabalhando — ele resmunga, abraçando ela pela cintura.
— Mas pra você é fácil, né, Will. Já tá na faculdade, particular ainda, os pais pagando ela e ajudando ele com uma mesada. Eu preciso correr atrás do meu quinhão, fora estudar pra tentar entrar numa faculdade, se possível com bolsa ainda — ela explica.
— Ah qual é, Jack. Nada a ver essas coisas, bem tosco tu falar disso ainda por cima. Tu é preta, pega cotas e tá tudo show — ele fala, rindo no fim.
Ele até iria rir mais, mas vê no olhar da namorada o olhar irritado e engole em seco.
— Tu fala umas merdas as vezes que eu fico bem de cara — ela bufa e sai do abraço.
Ela caminha para o corredor.
— Onde tu vai, Jack? Ei Jack, amor, desculpa.
— Vou cagar, pô — ela fala, entrando no banheiro.
— Ah, eca, não precisava falar.
Passam alguns minutos, e William está deitado na cama e Jackline se deita ao lado dele, fazendo carinho no seu rosto, a pele clara dele com pouca barba, que ele se vangloriava pela barbicha que começou a crescer. Ela sente o sono tomando conta de seu corpo, queria tanto poder deitar com ele ali e dormir. Relaxar. A cama está gostosa, geladinha, confortável, a coberta macia e quentinha. Seus ombros estão cansados, as costas também. Os pés exaustos e a cabeça esgotada do dia. Ela levanta, devagar, seu corpo querendo gritar e chorar como criança fazendo birra e ela se dirige até a cozinha. Ela coloca seus fones e começa a ouvir algo agitado e animado. Ela passa um café, o cheiro dele já acordando um pouco ela. Ela deixa seu corpo se movimentar junto com a música e faz uma xícara de café para si, colocando um pouco de caramelo e essência de baunilha. Ela sorri e pega duas barras de cereais e vai para seu quartinho de estúdio.
O apartamento deles tinha três quartos. Um para dormir e um para cada um usar de “escritório”. William usava o dele para estudar, fazer calls com os amigos e essas coisas. Jackline usava como estúdio para pintar, estudar e ler. Ela passa um bom tempo ali, estudando sobre escolas de arte. Ela se espreguiça indo buscar mais café. Ela vê uma chamada perdida de sua irmã em seu celular e suspira. Matilde. Ela sente um gosto amargo na boca que não é do café, mas da irmã vindo atrás dela. A relação delas era complicada e ainda havia um pouco de remorso. Ela pega mais café e retorna ao quarto, se espreguiçando e se sentando na cadeira, girando, ficando tonta e se arrependendo de ter girado a cadeira. Seu celular começa a vibrar, e Jack engole em seco ao ver. Ela pega o celular receosa. Era a Matilde, lógico. Matilde trabalhava como cantora em bares. Sempre teve uma voz linda.
— Oi Matilde — ela atende, sua voz buscando ser o mais sem emoção possível.
— Oie Jack, maninha, fico tão feliz que tenha me atendido. Desculpa ligar tão tarde, mas vi que você tava online e queria falar contigo e tal — sua irmã fala, sua voz era alegre.
Jack sente um misto de alegria e amargor ao ouvir a voz da irmã, que saiu da casa primeiro, antes dela. Deixou ela sozinha para aturar sua mãe. Pelo menos no começo ela tinha seu irmão, Jacó, com ela.
— Faz tempo hein, Ma? Por que me ligou? — ela fala, a voz sobrecarregada de amargor.
Matilde fica em silêncio por um momento, suspirando e falando:
— Ei, maninha, eu sei que você deve ainda estar brava comigo por ter saído de casa, e tipo, eu não culpo você. Eu queria poder ter levado você e o Jacó comigo, mas você sabe que não dava.
— Ma, eu não tô chateada com isso, isso é passado, eu...
— Sim, você está Jack, eu tô conseguindo sentir isso na sua voz.
— Você sabe como a mãe ficou dias e dias um inferno depois que você saiu? Falando todo o tipo de coisa sobre você e a pressão dela agora embarreirando a gente? E depois o Jacó foi preso…
— Eu sei o que houve, Jackline, eu visitei nosso irmão diversas vezes na prisão e ele me contou tudo. Eu sei sobre tudo.
— Mas você sabe o inferno que virou só comigo em casa? Sem mal poder sair e viver direito porque eu era a única filha que não tinha feito alguma merda nos olhos da nossa mãe? Eu não acho que você fez, fico feliz por você ter saído e conseguido ser quem você queria, mas eu fiquei presa por anos lá.
Um momento de silêncio surge entre as duas. Jackline confere a porta atrás de si, temerosa que pode ter erguido a voz, podendo ter acordado.
— Depois que você saiu, a mãe ficou superprotetora. Não deixava o Jacó sair muito sozinho e nossa, fazia eu quase seguir um modelo de comportamento ideal para ela, era bem sufocante.
— Desculpa, mas eu… — Matilde tenta falar, com a voz cheia de culpa.
— Matilde, relaxa, você não tava errada por sair, eu só me senti abandonada. Mas você estava prezando por si mesma, e você era a que mais sofria. A mãe nunca aceitou você por ser mulher.
Matilde solta um longo suspiro.
— Ela sempre me humilhava por ser trans e me rebaixava, não ajudava nada não ser respeitada em casa. Ainda mais pela própria mãe — Matilde fala com alívio na voz, por finalmente estar acertando as coisas com a irmã.
— Eu sei, e, no fundo, acho que eu só fiquei tanto tempo brava por me sentir deixada para trás, abandonada, sabe? — Jack se espreguiça na cadeira e bebe um pouco de água.
— Mas eu tô aqui agora, maninha. Pra tudo, okay? — Matilde fala, gentilmente. — Eu também quis ligar porque, tipo, falta pouco tempo para o Jacó sair da prisão e queria que fossemos juntos para ir buscar ele.
— Mas e se a mamãe tiver lá? — Jack indaga. — Tudo bem você ver ela?
— Olha, maninha, eu vou lá para ver meu irmão ser solto, estar livre. De brinde, vou ver você e nós três vamos estar juntos depois de todo esse tempo. Isso é tudo que importa.
Jackline sorri, limpando uma lágrima que teimou em escorrer.
— Seria incrível, seria muito bom mesmo — ela respode, ajeitando uma mecha de cabelo.
— Vocês dois sempre foram meus nenéns e vão continuar sendo — Matilde ri.
Jackline olha as horas e suspira.
— Bem, eu meio que preciso ir agora. Tenho que voltar a estudar, sabe? Tô tentando entrar numa faculdade de artes, e é foda.
— Ah, desliga não! Meio que também vim falar contigo sobre isso. Eu tenho um amigo que tem um espaço artístico e eu vejo o que você posta no insta, suas pinturas e tudo mais. E eu falei com ele e você teria uns dez dias para conseguir expor algo para ele avaliar.
— Deus, é sério isso? — Jackline se endireita na cadeira, seus olhos se arregalando e seu coração quase parando.
— Sim! Você acha que consegue? — Matilde fala cheia de animação. — Bem, eu vou te passar o numero dele e amanhã daí vocês conversam certinho, okay?
— Okay, e obrigada, Matilde, obrigada mesmo — Jack comemora.
— Me agradeça com uma exposição incrível, Jackzinha. Preciso ir dormir também, boa noite, maninha.
Matilde desliga e Jack se engole na cadeira, rindo e então ri, pulando da sua cadeira, comemorando e dançando. Uma simples notícia, e ainda assim, uma tão boa. Ela sentia que tudo daria certo, mas houve um barulho vindo do quarto e presume que sua alegria deveria estar alta demais para as três horas da manhã, e escuta seu namorado resmungando algo. Ela continua dançando e sorrindo, mas em silêncio, não querendo acordar ninguém. Ela começa a separar algumas pinturas que já cogita em enviar para o amigo de Matilde, um tal de Joseph.
Ela se espreguiça, e quando dá por si, está acordando após dormir sentada, o sol iluminando seu ateliê.
— Deus, eu tô — ela se espreguiça, sentindo suas costas e todo seu corpo gritar, — quebrada! Deveria ter ido deitar. Eu deveria muito ter ido deitar.
Ela se alonga e vai para seu quarto, com William ainda dormindo. Ela pega uma muda de roupas e segue para o banheiro, sua toalha já estando lá. Ela fecha a porta e liga a música em seu celular, colocando na caixinha de som. Ela toma uma ducha fria, que desperta ela totalmente. Ela logo se acostuma com a bater da água gelada em seu corpo e fecha os olhos. Pensa no que precisa fazer, nos quadros que precisa pensar, elaborar e produzir. Ela termina essa ducha rápida, terminando de se lavar. Ela se seca e coloca a roupa que separou. Ela segue para a cozinha, ainda sem camisa, apenas de sutiã, e começa a preparar o café, colocando a água para ferver enquanto prepara seu pão. Ela vai terminar de se vestir e trazer sua mochila e seus sapatos para a sala. Ela pega seu celular e começa a anotar sua lista de coisas para fazer hoje. Tinha que passar no mercado, comprar algumas coisinhas que estavam faltando. Queria ter ido ontem, mas o dia ontem foi corrido. Também precisa comprar materiais e itens de pintura que quer para produzir os quartos para o amigo da Matilde, também tinha que passar para pagar algumas contas.
Matilde senta em um banquinho na cozinha e começa a comer seu pão na chapa, com manteiga, enquanto bebe seu café, sem leite e com duas colheres pequenas de açúcar, do jeito que ela gosta. O cheiro do café recém passado lhe acalma. Ela coloca na sua lista que precisa falar com o amigo de sua irmã. Ela fica receosa de mandar mensagem às nove da manhã, ainda mais para algo pretensioso. Ela pensa em diversos jeitos de mandar a primeira mensagem. Se apresentar como irmã da Matilde, dar um bom dia, se apresentar como Jackline e depois dizer que a Matilde é irmã dela.
— Ai, ai, muita dor de cabeça para pouco dia — ela resmunga e termina seu pão.
Ela se levanta e vai até o quarto com a xícara em mãos. William dorme esparramado na cama, quando não tem ninguém com ele. Seus braços e pernas se esticam e ele fica de boca aberta, babando um pouco. Ela abre um pouco a cortina, para deixar a luz entrar suavemente. Ela se senta ao lado dela, passando a mão pelo rosto dele.
— Will, acorda, já tá na hora.
Ele começa a resmungar, tentando puxar a coberta pra cabeça.
— Will, já é quase dez horas, não vai te fazer bem dormir tanto. Vamos, levanta. Te fiz café.
— Me deixa dormir mais um pouco, por favor — ele resmunga com uma voz embriagada de sono.
— Eu preciso que você vá pagar as contas, Will, tô com umas coisas para resolver e queria sua ajuda.
— Ah, Jack, qual é — ele reclama, se virando e dando as costas para ela.
Jackline suspira e se levanta. William fica confuso mas presume que ela desistiu e começa a voltar a dormir quando a luz invade bruscamente o quarto, com ele tentando se proteger com a coberta.
— Acorda, menino — Jack fala, com uma bandeja com o café dele. — Te trouxe o café, olha que mordomia.
William ainda fica alguns breves minutos fazendo birra, até que se senta e começa a tomar café. Jack se senta ao seu lado e fica olhando ele comer.
— Você dormiu bem, amor? — A garota pergunta.
— Ah, dormi que nem pedra. Você nem veio para cama, né? — Ele responde e pergunta com a boca cheio de pão, com Jack limpando a boca suja de farelo de pão.
— Acabei apagando no ateliê — ela fala, risonha — acordei toda quebrada.
— Poxa, não é a primeira vez que tu faz isso. Você promete que vai vir dormir comigo e no fim fica lá no seu quartinho…
— Sério que sua reclamação é que você ficou sozinho? Ai, ai, Will, você é um branquinho mimado, hein?
William fecha a cara, odeia quando Jack fica brincando com isso.
— Ah Jack, nem começa com essa brincadeira idiota.
— Ui, o branco hétero de classe média ficou irritadinho — ela ri, gargalhando.
William fecha a cara ainda mais, ficando visivelmente irritado. Jackline suspira e alisa o cabelo dele, dando um beijo no pescoço dele.
— Tenho uma boa notícia aliás! — Jack comenta.
— Uh, qual? — William fala, sem muita emoção na voz.
Jackline conta tudo que houve durante a noite. Sobre sua irmã, sobre a chance de ter uma exposição sua, de crescer. Ela descreve tudo com empolgação, seus olhos se iluminando como raramente se iluminam. Ela gesticulava bastante, sorrindo. Contudo, William esboçava poucos sorrisos. Fracos. Seu reflexo na xícara de café parecia lhe chamar mais atenção do que a voz e o que sua namorada lhe contava.
— Bem, — ele diz — eu hoje preciso ir na casa dos meus pais. Eles estão pensando em se separar e acho que ir lá pode ser bom, ver eles, conversar com cada um.
Jack fica desconfortável com ele não dizer nada sobre a oportunidade dela, desviando o olhar para o lençol da cama.
— Vai dar tudo certo, Will, vai dar tudo certo — Jack dá dois tapinhas nas costas dele. — E obrigado pela animação por mim.
— Ah Jack, é que eu acabei de acordar, desculpa, pô — ele tenta se desculpar, gaguejando um pouco.
— Relaxa, relaxa — ela faz um gesto com a mão, como se espantasse uma mosca. — Mas você pode passar na lotérica pra pagar as contas antes?
O celular dela começa a tocar em seu bolso, ela pega e desliga o alarme.
— Eu preciso ir, Will.
— Mas já? A gente nem conseguiu passar tanto tempo junto, que saco.
Jackline puxa ele pelo pescoço e lhe dá um beijo na boca, intenso mas rápido.
— Bem isso é porque eu preciso trabalhar em dois empregos para ajudar a pagar minha parte das contas.
— Mas você não precisa, eu posso pedir um pouco mais de dinheiro pros meus pais e...
— William, seus pais estão se separando e eu não quero ser sustentada por ninguém — ela explica, indo em direção a porta — e meu resto de tempo eu gasto tentando ser o que eu quero, e uau, agora eu tenho essa chance, e seria incrível da sua parte me dar suporte nisso, e um dos jeitos de me dar suporte é, adivinha? Pagar os boletos das contas, é simples e você já é bem grandinho.
Jackline sai, irritada. Queria ter pais que pagassem sua faculdade, mas sua mãe só mandava mensagem exigindo atenção e nunca conheceu seu pai. Mas não tinha tempo para imaginar uma vida melhor numa realidade imaginável. Essa realidade exigia dela agora, e ela tinha muito o que fazer hoje.
Jack passa a primeira parte do dia no café onde trabalha, saindo dele e indo no mercado próximo de sua casa. Enquanto ela passeia pelos corredores do mercado, vendo a lista de compras, ela decide mandar algumas mensagens para Joseph, o amigo de sua irmã. Ela não pode negar certo nervosismo que sente ao mandar um “olá” enquanto passa pela seção de pães. Eles conversam sobre a chance dela ter uma exposição dentro do espaço dele enquanto Jackline, de modo mundano, pega um miojo para emergência, retornando e pegando mais cinco. Joseph era um sujeito gentil, calmo e engraçado, amigo de Matilde através de shows e eventos que ambos frequentavam, e conforme Jackline pega verduras e frutas, eles combinam o envio dos quadros e um uptade, além de uma preferência por um tema atual e forte, algo vivo. Algo digno da estréia de Jackline no mundo das artes. Jack paga as compras e segue para uma loja próxima dali, que vende materiais artísticos.
Ela retorna para casa carregada, cansada, mas unicamente feliz. Ela não sabia muito o que faria, se forçando a pensar fora da caixinha, enquanto descansa sentada no sofá, os músculos do seu braço e da sua mão exaustos por carregar as sacolas, as costas cansadas pela mochila e os pés cansados por trabalhar de pé e andar tanto. Ela tira o celular e manda mensagem para Will, perguntando como ele está, e ele diz que pagou as contas e que ele está bem. Ele pergunta como ela está e ela diz que acabou de voltou do mercado e que está exausta e diz que pode deixar as compras na cozinha que ele guarda para ela. Ela pergunta onde ele está e ele fala que já está na faculdade, pois queria revisar com alguns colegas os assuntos da prova de hoje. Ela avisa que vai preparar um jantar para ele pronto, para ele poder chegar, comer e descansar. William agradece e diz que vai voltar aos estudos. Emoji de beijo e emoji de coração.
Ela se levanta e prepara um macarrão com molho vermelho e atum, aproveitando que havia comprado queijo ralado. Ela prepara uma marmitinha para ela e coloca em sua mochila, indo para o banheiro para prender seu cabelo com um coque e presilhas. Respirando fundo e indo para seu segundo trabalho. No ônibus, após milagrosamente conseguir um lugar para se sentar, ela vai pensando na sua infância. Ela lembra de como alguns vizinhos tentavam soar Matilde antes da transição dela por ele ser um garoto mais afeminado. Por motivos bobos no começo, como jeito de andar, jeito de falar e o cuidado que ele tinha com todos.
Sua mãe brigava com ele por isso, por sujar o jeito que viam a família como um todo e brigas eram comum entre os dois. Brigava com Jacó por ele ter problemas na escola, sem saber de seu TDAH, constantemente o chamando de burro, preguiçoso e desatento. E usava Jackline como exemplo, como “a filha que deu certo”. Quando Matilde se assumiu como trans, as brigas pioraram. Ficaram mais constantes. Jacó nunca lidou bem com isso, ficando muito transtornados com os gritos, com Matilde sabendo disso e tentando evitar. Até que claro, ela não aguentou mais e saiu de casa.
Jacó ficou bastante triste, pois sempre foi muito próximo de Matilde, e, dois anos depois, ele foi preso, suspeito de ter participado de um arrastão que acabou deixando uma mulher gravemente ferida após bater contra o chão, com suspeita de assédio, além de diversos outros feridos e roubados. Jacó estava em um lugar próximo pois seu amigo o chamou para o ver participar de um duelo de rap. Preso injustamente, Jack ia ver ele pelo menos uma vez a cada duas semanas, no máximo. William às vezes reclamava, pois achava sempre estranho ela ir lá, até pedia para não falar sobre isso perto de seus pais.
Jackline finalmente sai do bar, de noite, cansada mas satisfeita que acabou e que agora poderia ir para casa fazer suas coisas. Ela sai do lugar e se espreguiça, dando tchau para duas colegas. Ela caminha e encontra sua irmã, Matilde, alta e de pele escura tal qual ela, com o cabelo alisado preso num rabo de cavalo. Ela usa uma calça jeans e tênis pretos, com uma blusa preta muito bonita e um casaco com uma gola felpuda.
— E aí, caçulinha — Matilde diz, com um sorriso amplo iluminando seu rosto.
Jack corre e abraça sua irmã, após tanto tempo sem se verem.
— Matilde! Tão bom ver você! O que veio fazer aqui?
— Ah, eu sei que tu trabalha aqui pelo insta e os teus stories e queria te fazer uma visita depois de ontem, falar cara a cara — ela explica — te mandei mensagem mas tu não chegou a ver, avisando que eu vinha para cá e tal.
— Ah, eu não posso mexer no celular aqui e tal, meu chefe já implica comigo por qualquer coisinha, se eu tiro celular para olhar ele surta. Mas de boa, fico feliz de você vir me ver, foi uma boa mesmo.
— Quer ir para aquele McDonalds aqui perto? Pra gente poder conversar de boa, comer besteira — Matilde vê que sua irmã ia contestar e a interromper. — E pode deixar que eu pago.
Jackline suspira, passando a mão pelo cabelo, soltando ele.
— Já que insiste, vamos nessa então.
As duas seguem andando até o fastfood próximo do bar. Jackline lhe conta sobre seu dia e de como não gostava de trabalhar do bar e que está atrás de um trabalho de noite em outro lugar.
— Bem, eu posso ver algo para você em alguns dos bares que eu canto. São com toda certeza muito melhores que esse aí em relação a chefe e tals — Matilde fala.
— Nossa, isso seria incrível, e eu gostaria muito. Muito mesmo.
As duas chegam no restaurante e após pedirem um lanche aleatório começam a falar sobre a infância, sobre as partes boas, os momentos brincando, e da vida atual das duas e sobre planos para o futuro. Matilde queria se tornar uma cantora saindo de nicho e conseguindo mais sucesso, apesar da dificuldade de conseguir isso. Jackline deixa claro seus planos caso a exposição der certo, continuando a produzir, estudar e tentar entrar em uma escola de artes. Elas comem, rindo bastante enquanto conversam, mas logo notam o quão tarde é.
— Bem, acho melhor eu ir pegar um ônibus — Jack resmunga. — Você vai como, Matilde?
— Jack, mas nem ferrando você vai de ônibus, já está muito tarde. Você mora longe daqui — Matilde fala e pega seu celular. — Vou te chamar um uber.
— Mas, Matilde, não tem porque…
[…]
Matilde chama um uber para a irmã poder voltar tranquila e diz que a casa dela é perto dali e que vai caminhando. Jack fica preocupada mas a irmã a acalma, com ela dizendo que sabe se defender.
Jack chega em casa e Will já foi dormir. Mal tocou na comida. Ela suspira e vai tomar uma ducha e então ir estudar, começando a olhar os quadros vazios e fazendo duas pinturas, enquanto ouvia música: uma dela e seus irmão quando crianças correndo em um plano de fuga e outro sendo sua mãe, pintada de maneira severa e séria.
Ela vai dormir satisfeita, começando uma pintura de sua irmã.
Ela acorda de manhã e nota que Will está meio emburrado, e surpresa dele ter acordado cedo, já estando arrumado e comendo café da manhã. Ele diz que achava que ela ia voltar no horário comum e ela diz que avisou ele, com Will suspirando. Uma pequena discussão começa e logo acaba, com Jack dizendo que tem mais o que fazer. Will fica chateado, dizendo que ela nunca tem tempo e Jackline fala que precisa se arrumar e comer pra chegar logo no trabalho e ele nãos sabe isso porque ainda é financiado pelos pais, Will fica irritado com isso e vai jogar videogame. Jackline fica triste com o jeito que Will as vezes arrasta tudo para si mesmo e não consegue entender os outros nessas horas.
Jack está no ponto de ônibus e estranha que sua irmã não está atendendo, ficando preocupada. Elas não se falaram de noite, depois que se despediram, pois a bateria do celular de Jack havia acabado. O amigo dela liga para ela e dá a notícia que Matilda foi encontrada morta próxima de sua casa.
Jackline acaba quebrando um copo que levava por não conseguir controlar a tremedeira das mãos, seus colegas perguntam se ela está bem e ela diz que sim, tentando disfarçar. Ela acaba quebrando um prato e ela pede desculpas ao chefe, dizendo que pode descontar do salário dela, com o chefe ficando sem jeito, dizendo para ela relaxar que não vai mas precisa entender o que ela tem. Jack conta e começa a chorar, com todos consolando ela. Ela consegue se acalmar e seu chefe lhe dá um dia de folga e ela agradece, indo para casa e indo para casa, chorando na cama, com William fora, dizendo que está muito ocupado passando o dia com o pai, e diz que tudo vai ficar bem.
Ela chora mais, lembrando do dia que ela saiu. Ela lembra do dia em que Jacó foi preso e em como o tribunal dele e as visitas dele.
Ela se lembra de como foi sair de casa.
Ela liga para seu trabalho no bar, dizendo que sua irmã morreu e que vai precisar ir na vigia dela. Lá tem pessoas amigas dela, mas nada da mãe delas, e Jack não está surpresa.
Will liga para ela, perguntando onde ela está e ela suspira dizendo que esqueceu de avisar que foi pro velório da irmã dela. Will fica irritado dizendo que ela ta sempre fora e que ele nunca pode ficar perto dela, e Jack diz que a irmã dela morreu e que ele ta sendo egoísta. Eles discutem e Will desliga, com Jack chorando e os amigos da irmã dela vindo consolar ela.
Jack retorna para casa de manhã, exausta, e respira fundo, olhando o quadro que tinha começado dela, terminando o quadro, sorrindo e avisando Will por mensagem que vai sair para resolver coisas da sua irmã. Jack se encontra com os amigos dela e vão para a delegacia, para relatar. E no meio disso tudo, ela precisa ir para o trabalho, mas o amigo dela diz que vai repassar tudo que conseguir para ela.
Jack, após sair do trabalho, passa no mercado, compra uma bebida e bebe um pouco antes de ir pro trabalho, não fazendo a janta, achando que Will, que não respondeu ela, poderia fazer algo, ela manda uma mensagem perguntando se estava tudo bem com ele. Ele não responde e Jack vai para o bar em que trabalha de noite, tendo um discussão com seu chefe por ela não ter prendido todo seu cabelo, fazendo apenas um coque e seu cabelo não ser liso como o das outras garçonetes para ela fazer isso. Ela pede demissão e vai para casa, esgotada.
Quando chega, William está a esperando, para uma discussão onde ele diz que ela já não o dá mais atenção e que ele está em um momento horrível e ela não consegue dar o mínimo de atenção para ele. Jackline fica perplexa e deixa ele falar enquanto está em choque. Ele diz que no meio de provas e dos pais se separando não consegue ganhar um pingo de amor da namorada e Jack começa a falar que a irmã dela morreu e ela precisa acabar 10 quadros para uma exposição que pode ser A chance dela de começar a vida de artista. Ela fala que enquanto ela passa tudo isso sem um apoio dele, e sem pedir ou ficar triste porque por algum motivo ela já nem espera isso, e enquanto isso, ele está chorando porque seus pais estão se separando enquanto ela precisa se preocupar com dois empregos, uma irmã recém falecida, dez quadros para ser produzidos e um irmão que vai logo sair da prisão.
William diz que ela passou dos limites e que ela nunca trata os problemas dele com respeito, dizendo que ela tem sido egoísta e não dando amor o bastante, o relacionamento está fraco e talvez no fim, com Jack finalmente batendo o pé no chão e dizendo que ela lutou muito mais do que Will poderia imaginar, e que ele estar fazendo essa briga só prova o quão eles são diferentes. Jackline diz o que precisa dizer e vai ver suas coisas, vendo uma foto sua com Matilde, liga para uma amiga e pega suas coisas, ligando para um uber e saindo dali.
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