Disenchanted
2 II O Velocino entregue
Notas iniciais
II
O velocino entregue
"Há muito tempo, eu perdi o medo de todos os meus rivais!
Eu não tenho medo de brigar!
Assim cheguei aqui"
( Vida, biografia em Ré menor – Fresno)
Diversas vezes o taxista olhou para o banco de trás, onde Annabeth e eu estávamos. Ela continuava com uma cara de pouquíssimos amigos. Tinha os braços cruzados e olhava fixamente a janela.
Por incrível que pareça, eu a entendia. Ela estava frustrada pelo comportamento que lhe dirigimos após o incidente na ilha de Polifemo. Eu mesma não iria querer ser tratada como uma “princesa em perigo”. Mesmo que ela fosse bonita como as filhas de Afrodite, Annabeth era uma filha de Atena. Uma orgulhosa e inteligente filha de Atena. Jamais iria querer ser tratada como um bebê.
Continuamos a viagem até o aeroporto em pleno silêncio. Sinceramente, não queria quebrá-lo. Poderíamos discutir mais ainda e eu não queria isso. Annabeth desceu do carro enquanto eu acertava com o taxista. O homem ainda piscou para mim e depois indicou Annabeth com o olhar.
– A raiva dela vai passar, mocinha. Nada como uma boa briga para esquentar os ânimos da relação. — Ele disse e eu não entendi nada. Do que ele estava falando, afinal?
– Ahn.. Obrigada, eu acho. – Eu disse e peguei minha mochila. Não estava muito para briga hoje, o que é algo muito, muito, raro.
Assim que desci do carro, não encontrei Annabeth na entrada do aeroporto. Entrei no saguão principal tentando achá-la. Vasculhei o lugar com os olhos. Nada. Comecei a me preocupar. Não seria difícil toparmos com monstros logo agora.
Senti alguém tocar meu ombro e me virei, prestes a atacar. Por sorte era Annabeth. Senti um alívio ao vê-la e ao ver que ainda tinha o velocino. Não que eu não me preocupasse com ela, mas era minha missão. E o Acampamento dependia disso. E, bem.. Meu pai também esperava muito de mim. Não tinha o direito de desapontá-lo.
– Onde você estava? – Perguntei.
– Tome, fui comprar as passagens. – Ela me entregou uma passagem
– Como? – Olhei-a um pouco incrédula. Quer dizer, o dinheiro estava comigo. Estava, porque quando fui checar os bolsos da mochila já não tinha mais nada lá.
– Sou uma filha de Atena. Peguei enquanto você ‘conversava’ com o taxista.
– Está mais para filha de Hermes. – Resmunguei, acompanhando-a para o salão de embarque e recebi um soco de leve no braço por conta do comentário. Annabeth tinha muito orgulho de ser filha de Atena. Quer dizer, todos nós, semideuses, temos orgulho de nossos pais e odiamos sermos confundidos com crias de outros.
Mas, bem, insultar a queridinha de Atena (algo me dizia que a ‘certinha’ tinha um carinho a mais com Annabeth do que com suas outras crias) de filha do senhor dos ladrões não é algo lá muito bom de ser feito.
– Ei, Clarisse. – Ela disse finalmente, após quase uma hora dentro do avião sem falar nada. – Sinto muito por ter gritado com você lá no cais.
– Tudo bem. – Eu disse, meio que dando de ombros. Odeio pedir desculpas e receber desculpas. Não é o jeito que estou acostumada a resolver as coisas.
– Não, quer dizer, é sua missão. E não é lá muito simples.Têm muitas coisas pesando em seus ombros e, de repente, aparecem mais dois heróis, um ciclope e um sátiro se metendo. – Ela falava, fitando as nuvens pela janela. Percebi que ela estava sem jeito com aquele pedido de desculpas. E, bem, eu também estava.
– Tudo bem. Eu também não gostaria de ser tratada como uma filha de Afrodite. – Eu disse sem jeito, torcendo para ela continuar a encarar a janela, enquanto eu encarava o chão. Lá estávamos nós: Uma filha de Atena e uma filha de Ares... Só conversando, sem querer pular na garganta da outra.
Mas, novamente, o silêncio voltou a reinar sobre nós. Annabeth se recostou no banco e fechou os olhos. Eu queria fazer o mesmo, mas meu instinto de guerreira não me permitia. Eu tinha que ficar alerta. Estávamos tão perto de concluir nossa missão. E essa é a hora mais perigosa.
Entretanto, não consegui me manter alerta por muito tempo. Senti minhas pálpebras pesarem e um perfume suave me envolver. Ainda tínhamos duas horas de viagem. Se tudo corresse bem, e eu rezava aos deuses para que assim fosse, chegaríamos ao Acampamento ao entardecer. Fechei os olhos, esperando descansar um pouco.
Acordei assustada sentindo um aperto na minha mão. Virei-me para o lado e vi que era a mão de Annabeth que prendia a minha. Ela apertava com uma força que não imaginava que ela tinha. Fui tentar tirar sua mão da minha e percebi que ela estava meio que se contorcendo. Pesadelo.
– Annabeth.. – Reclinei-me no banco dela, sacudindo-a pelos ombros. É, não sou muito gentil, ainda mais quando tem uma garota quase quebrando minha mão. – Annabeth! – Disse um pouco mais alto, conseguindo acordá-la.
– O quê? – Ela pulou do banco e seus olhos cinzentos ainda assustados se esbarraram nos meus ficando lá por um tempo, começando a me deixar desconfortável.
– Pesadelo. – Eu a respondi e ela simplesmente voltou a se reclinar no banco.
– Onde estamos?
– Quase lá. Mais uns quinze minutos, eu acredito. – Eu disse, observado a janela. O Sol estava baixo já e o horizonte começava a se pintar de laranja e vermelho.
– Er.. Annabeth? – Eu a chamei novamente e ela se virou pra mim. – Eu acho que você pode soltar minha mão agora.
– Desculpe. – Ela disse e, um pouco constrangida, soltou minha mão rapidamente.
Mais silêncio nos aguardava. Dessa vez foi desde o desembarque em Long Island até a Colina Meio-Sangue. Faltava pouco para chegarmos ao Acampamento agora, mas tinha uma sensação de perigo que não me deixava. E eu nunca, nunca, deixo de dar ouvidos para meus instintos. No final das contas, é tudo o que um herói tem.
Pus a mão nas minhas costas, tirando minha lança que estava atada à mochila que carregava. Annabeth olhou assustada para mim.
– Monstros? – Ela perguntou.
– Espero que não. – Respondi carrancuda, torcendo para que meus instintos estivessem errados. Após meu aviso, Annabeth se pôs em alerta também e retirou sua faca do bolso e um boné dos Yankees. Confesso que não entendi a do boné.
Bom, caminhamos meio metro antes de darmos de cara com confusão. É, meus instintos não estavam errados no final. Não sei dizer se senti alívio ou desconforto por isso. Só sei que praticamente à porta do Acampamento, onde a árvore de Thalia agora quase sem folhas e praticamente morta descansava, havia duas draecanae nos esperando.
Uma delas atacou Annabeth e a outra veio de encontro a mim. Sorri. Queria mesmo esquentar o sangue. Dei uma estocada com a lança e rolei para o lado e estoquei novamente, dessa vez acertando o flanco esquerdo do monstro. Ela pulverizou, como era esperado que monstros fizessem. Estranhei. Aquilo foi fácil até demais.
Virei-me para Annabeth no mesmo instante em que ela acertara a outra draecanae com a faca e o monstro também virava cinzas. Ela se levantou e tirou uma mecha do cabelo do rosto antes de se virar pra mim e sinalizar que estava tudo bem. Fiquei um pouco boba ao observá-la. Mas minha distração durou poucos segundos, pois assim que ela me olhou novamente, seus olhos cinzentos se arregalaram, tentando me avisar algo. Tentando me avisar que havia algo atrás de mim.
Agi por impulso e me virei, tentando acertar o que quer que estivesse atrás de mim com a lança. Péssima ideia. Era um ciclope. Ele apartou o golpe e me levantou pelo braço. Estava a uma boa distância do chão e não conseguia localizar Annabeth. De repente, o ciclope me largou e levou um dos pés às mãos, gritando como uma menininha.
Por incrível que pareça tive sorte ao cair, pois as folhas amorteceram minha queda. Quer dizer, achei que tive sorte, pois ao tentar me levantar senti uma dor aguda no braço. Provavelmente tinha fraturado-o na queda.
Tentei pegar minha lança, ela estava fora de alcance. O ciclope já vinha em minha direção quando algo invisível o cortou novamente, me dando tempo de ignorar a dor e ir em direção à minha lança, mancando.
–Ei, seu idiota! – Gritei, fazendo-o prestar atenção em mim, o que funcionou. – Segura essa! – Então juntei toda força que me restava e arremessei a lança que meu pai me dera e rezei, realmente rezei aos deuses, para que ela atingisse seu destino.
Sorri quando o vento a levou direto para o olho do ciclope e o bronze celestial o fez virar pó, assim como as draculae minutos antes. Pus-me de pé novamente com alguma dificuldade e procurei por Annabeth. Dei um passo pra frente, cambaleando e só não encontrei o chão, pois algo me segurou. Era Annabeth. Ela tinha o boné dos Yankees nas mãos novamente e daquela vez entendi. Aquele treco tinha o poder de deixá-la invisível.
– Então, quem é a princesa agora? – Ela me perguntou debochada e eu bufei enquanto ela colocava meu braço bom em torno dos ombros e me ajudava a caminhar.
Chegamos ao Acampamento o mais rápido que pudemos. Fomos recepcionadas por uns garotos do chalé de Apolo que faziam a ronda àquela hora. Eles pareciam apreensivos ao nos verem. Quer dizer, nenhum deles sabia que o Velocino era a jaqueta que Annabeth usava. Eles nos escoltaram até a Casa Grande e voltaram para a patrulha.
O Sr. D. nos aguardava com um olhar divertido. Ele estava bebendo Diet Coke e comendo uns pedaços de queijo tão tranquilamente que não era como se o Acampamento estivesse em perigo. Típico.
– Clarisse, minha querida, e Annie Bell. Fico contente pelo retorno de vocês.
– É Annabeth. – Annabeth o corrigiu.
– Tanto faz. – O Sr. D. deu de ombros e se voltou para mim. – O velocino?
– Aqui, senhor. – Eu disse apontando para a jaqueta de Annabeth. O Sr D. apenas ergueu as sombracelhas.
– Entendo. Nesse caso, recomendo que o leve o mais rápido possível para a árvore. Vamos. – Ele se levantou e foi até a saída, esperando que o acompanhássemos. Ele ignorou completamente nossos hematomas e meu braço quebrado.
Após algumas explicações aos campistas, uma multidão seguia Annabeth, Sr.D. e eu até a entrada do Acampamento. Postamos-nos em frente à árvore de Thalia quando vimos Percy, Grover e Tyson chegarem com uns centauros, juntamente com Quíron. Não me pergunte como eles encontraram os centauros. Eles sorriram para Annabeth que acenou para eles em resposta.
Aproximei-me da filha de Atena que entendeu a deixa. Ela retirou o velocino e o pôs em meu braço que não estava machucado e acho, apenas acho, que me deu um sorriso tímido de aprovação.
Pousei o velocino aos pés árvore. Durante um tempo nada aconteceu, mas depois começamos a sentir a magia do mesmo atuando. Curando a árvore, as flores e a mata ao seu redor. Era realmente assustador e magnífico que um pedaço de bode tivesse tamanho poder.
O jantar aquela noite foi animado. Meus irmãos do chalé de Ares estavam cantando e batendo copos na mesa como bárbaros enquanto me davam socos ‘carinhosos’ no braço e falavam coisas do tipo “ é isso aí!” ou “ Clarisse chutando traseiros!”
Recebi várias congratulações de campistas de todos o chalés. Até um ou outro do chalé de Atena vieram me parabenizar. É claro que meus irmãos não deixaram barato e acabavam fazendo chacota com os outros. Não me importava, mas também não entrava na brincadeira. Talvez estivesse muito cansada para isso.
Vez ou outra me arriscava a olhar para a mesa do chalé de Atena. Vez ou outra, meus olhos se esbarravam nos cinzentos de Annabeth e ela os desviava. Não conseguia entendê-la, mas algo me dizia que ela não era uma inimiga mais.
Quer dizer, não que eu a achasse uma inimiga, mas a galera do Olimpo realmente leva a sério esse negócio de tradições. E se tem dois deuses que se odeiam mais do que tudo, esses são Atena e Ares. É óbvio que suas crianças iriam meio que se desentenderem também. Por exemplo, no jogo de captura da bandeira são os nossos chalés, Atena e Ares, que comandam as equipes. Existe certa rivalidade bem acirrada entre nós.
Mas, depois dessa missão, não poderia considerá-la uma rival. Talvez seus outros irmãos metidos a gênios, mas ela não. Passamos por muita coisa, e ela quase se foi. E toda vez que me lembrava disso, meu coração se apertava. Normalmente não me importo com os outros, e que isso fique bem claro.
Minha cabeça já estava doendo de tanto pensar quando vi Annabeth sair da mesa de seu chalé e vir se sentar à minha. Não percebi, mas grande parte dos campistas já tinham se recolhido. Talvez eu tenha ficado tempo demais a observando e pensando.
– Oi. – Ela disse.
– Ei. – Respondi, sem muito entusiasmo.
– Como está o braço? – Ela me perguntou e eu estava prestes a responder quando Silena, filha de Afrodite , veio em nossa direção. Ela pediu com o olhar para que me levantasse. Se fosse outro ou outra, eu daria um soco, mas era Silena quem me pedia. E, sério, quase ninguém consegue resistir a ela. A contragosto me levantei e recebi o abraço mais apertado e caloroso do mundo.
Não entendi a de Silena. Sinceramente não entendi. Quer dizer, a gente conversava e tudo. Ela era uma garota simpática que tentava se dar bem com todos, mas, realmente não entendi aquela. Ela já havia me parabenizado com os outros do seu chalé.
Entretanto, lá estava ela. Jogada em meu corpo, enquanto eu tentava a todo custo segurá-la com o braço bom. Ficamos abraçadas um bom tempo até que ela se soltou, deu um sorriso – o sorriso mais belo que alguém poderia dar – e me deu um beijo na bochecha antes de sussurrar outro “Parabéns por sua missão” e sair.
Fiquei lá, parada, sentindo minhas bochechas arderem enquanto a parte do Acampamento que ainda estava jantando olhava atônita à cena. Voltei a me sentar, sentindo que estava perdendo algo. Annabeth! Ela estava à mesa antes de Silena aparecer e me perguntara alguma coisa. Vasculhei o salão com os olhos e me dei conta, com certa tristeza, que ela já havia se retirado.
Bom, dei de ombros e fiz o mesmo. Retirei-me para o chalé de Ares, certa das perguntas que meus irmãos malucos já estariam preparando para mim.
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