Dirty Little Secret
6 Responsabilidade
Notas iniciais
A turma estava mais tensa do que o normal naquela segunda, mas isso era por causa de um motivo mais do que justo. Levi entregaria as provas de matemática que ele aplicara logo antes das férias de meio do ano para os alunos, e praticamente ninguém queria pensar nesse momento e muito menos nas notas que deviam ter tirado — e que já deviam estar no sistema da escola.
Ymir, no entanto, estava tranquila. Não havia pai ou mãe em sua casa para ela dar satisfação, então para ela tanto fazia qual número estivesse no papel. Se a nota fosse boa, ótimo. Se não fosse, paciência, recuperação existe pra isso. Não era como se fosse de fato um problema para ela, mas era para os outros.
Nesse momento, ela pensou nos seus colegas bolsistas, Connie e Sasha. Esses sim tinham mesmo a obrigação de tirar notas boas, e a morena sabia das dificuldades que estavam passando por causa disso, sem falar dos motivos que justificavam aquilo bem demais. Por um momento, viu-se preocupada com seus colegas de clube. Sasha tinha um peso enorme que destroçava o seu coração, e que a atormentava sempre, diariamente, com todas as suas dúvidas, toda a culpa e principalmente, toda a dor e as lembranças. Já Connie era um garoto forçado a carregar um fardo grande demais para qualquer jovem da sua idade, mas ele fazia isso com toda a coragem e responsabilidade que tinha, simplesmente porque era o que precisava fazer não por ele, mas por sua mãe.
Talvez, no fundo, a garota realmente se importasse. Mas por enquanto, ela deixou tais pensamentos de lado, porque Levi tinha acabado de entrar em sala, e aquela turma nunca esteve tão silenciosa, tensa, e principalmente, acordada. Até mesmo os alunos que tinham olheiras por terem passado a noite anterior em claro estavam atentos, e mesmo Ymir se via um pouco mais alerta também, como que absorvendo o clima ao seu redor por osmose.
Levi foi rápido ao dar seu "bom dia" para a turma e tirar as provas da pasta, ato este que fez alguns alunos engolirem em seco, outros tremerem de nervoso e a morena podia jurar que algumas garotas ali estavam à beira das lágrimas.
“Bem, acredito que cada um aqui já sabe o que faz. Não tenho razão para fazer discurso aqui, então… Apenas vejam cada um suas notas e reflitam se precisam trabalhar mais ou não. E como sempre, as provas estão organizadas em ordem alfabética.” O professor falou, antes de começar a entregar as provas. A primeira aluna da chamada era Annie Leonhardt, que pelo jeito que sorrira de leve ao receber a prova, tinha se dado bem. Pelo menos ela iria escapar do estresse em casa, ao contrário de alguns de seus colegas.
Nos minutos seguintes, Ymir apenas assistiu enquanto alguns dos alunos como Bertholdt e Marco davam suspiros aliviados, enquanto outras pessoas, como Hitch, choravam pelas notas baixas. Connie resmungou por ter tirado exatamente 6,9 e não ter ficado na média por um mísero décimo que ele sabia que Levi não iria arredondar — porém, não podia-se negar que ele estava sendo o mais responsável possível com os estudos, e considerando o seu “trabalho”, aquela nota até que fora alta. Sasha tinha se saído pior, já que suspirou derrotada e foi até sua carteira guardar a prova calmamente, mas com certeza bem chateada. Dessa jovem, Ymir sentiu pena, ao contrário de Hitch que tentava chamar a atenção de Levi chorando de forma estupidamente dramática por ter tirado um 5.
Aparentemente os alunos que se sentavam na frente se saíram bem de forma geral, junto com alguns gênios como Mikasa e Blake, o que não era novidade. Jean parecia um tanto desconsolado, mas Marco o ajudava dando um pouco de apoio moral e comparando as duas provas para tentar mostrar a ele onde errara. Eren estava claramente irritado pela diferença entre sua nota e a da irmã, Liesel e Joanna aceitaram as provas de bom grado e ficaram cada uma em seu lugar, e Elizabeth fez uma expressão de desapontamento, mas voltou quieta para sua carteira, onde voltou a pegar o celular para trocar mensagens.
Quando finalmente chegou a vez de Ymir, que era a última pessoa da chamada, a morena levantou-se com um suspiro de tédio. Já tivera que esperar e aguentar todo o resto da sua turma, e agora ela finalmente iria se livrar daquele fardo. Caminhou despreocupadamente até o professor baixinho, que tinha apenas a sua prova em mãos — ninguém tinha faltado naquele dia, por mais que muitos desejassem terem o feito. Estendeu a mão, esperando que ele desse logo o maldito papel, e os dois se encararam por alguns segundos, em silêncio.
Levi não mudou de expressão após enfim entregar a prova para a estudante, mas fizera questão de dar a ela um único recado.
“Não se esqueça do que eu te disse semana passada.” Aquela foi a única frase que ele proferira antes de ir para sua mesa. Foi dita de forma baixa, sussurrada apenas entre eles dois, como se fosse — ironicamente — um segredo.
Mas Ymir sabia o que era. Levi a tinha dado um aviso junto com o 2,8 de sua nota. E ela sabia o que ele significava. Na próxima prova, possivelmente a de recuperação, ele não seria gentil com ela. Mas tudo bem.
A garota estava preparada para aquele desafio. E se fosse necessário, usaria de truques desonestos para vencê-lo. Que o professor fizesse, então, a pior prova da sua vida, porque ela, Ymir Adler, não tinha medo disso.
Historia, por outro lado, aparentemente tinha. A loira baixinha passou todo o intervalo buzinando no ouvido de sua amiga sardenta sobre como Levi na verdade estava certo e ela deveria começar a levar a vida escolar a sério. Ofereceu-se ainda para dar algumas aulas de reforço afim de ajudar a colega a recuperar a nota — uma possibilidade que Ymir até cogitou, levando em conta que envolvia as duas sozinhas em uma sala vazia, mas acabou desistindo por não querer ocupar ainda mais o horário superlotado de Christa. No fim, a moça acabou desistindo de seu sermão com um suspiro cansado, no entanto fazendo um último aviso:
“Você poderia falar com alguém do clube, sabe Ym… Muitos deles tiraram notas muito boas. Alguém poderia te ajudar a estudar.” Disse a moça mais baixa com um tom de voz um pouco melancólico. Não era realmente uma má ideia, a outra garota refletiu. Infelizmente, a ajuda que ela estava pensando em pedir não era bem para estudos.
“Hm, eu agradeço a intenção, Jesus Christa, mas sério, acredite em mim quando eu digo que não estou assustada. Aquele toco de amarrar jumento vai precisar de mais que ameaças veladas pra me fazer mudar.” Declarou, afastando dos olhos um fio teimoso de seus cabelos.
Historia revirou os olhos, claramente aborrecida, e fez um bico adorável para demonstrar sua frustração. “Você é tão teimosa, Ymir! Sério, é frustrante!”
“Fazer o quê? Você gosta de mim do jeito que eu sou.” A morena não pode resistir a uma brincadeira, mostrando para a outra o que considerava seu sorriso sedutor.
“Isso é verdade.” A loira deu um sorriso gentil e uma risadinha baixa que fizeram arrepios descer pela espinha da morena de rabo de cavalo. Esta decidiu engolir em seco e não se perder nas implicações daquelas palavras.
O intervalo pareceu ter passado tão rápido. Ymir sentia que não tinha passado mais de cinco minutos no lado de fora antes de precisar ser arrastada de volta para aquela sala de aula chata — especialmente fria naquela manhã — para mais uma aula chata. Ao menos agora era literatura com Petra, a professora que mais parecia uma aluna, e não mais fórmulas cansativas com o baixote obsessivo. No entanto, aquela aula seria bem mais interessante do que a sardenta inicialmente previra, pois quando abriu a porta para entrar na sala, descobriu que estava vazia.
“Ué… Cadê o povo?” Perguntou, curiosa. Por um instante pensou que a professora tinha adoecido e o coordenador Erwin decidira liberá-los de sua prisão mais cedo, mas desistiu quando notou que as bolsas e mochilas da maioria de seus colegas ainda se encontravam sobre ou ao lado de suas carteiras. “Foram abduzidos por ETs com sonda anal?”
“Acho que não. Tem uma mensagem no quadro.” Historia notou, apontando para a caligrafia fina e delicada de Petra Ral no quadro branco. “Diz para irmos para o auditório, que a aula vai ser lá.”
A moça de sardas levantou a sobrancelha e bufou, irritada. Normalmente achava as horas que passava no Free entediantemente chatas — eram poucas as aulas que conseguiam despertar seu interesse — mas aulas no auditório tendiam a ser ainda mais cansativas e inúteis do que a norma. Por mais que não gostasse das aulas de Levi, preferiria ter que ficar resolvendo um daqueles problemas complicados sob o olhar metódico do Hobbit professor a ter que assistir a mais uma das palestras ou pronunciamentos do diretor. E pior, ela não conseguia dormir direito naquelas cadeiras de madeira desconfortáveis. “Auditório significa mais uma daquelas palestras chatas sobre assuntos que todo mundo sabe e que me fazem dormir?”
“Algo me diz que é algo sobre um trabalho que vamos ter que fazer.” Uma terceira voz se fez ouvir, e foi só então que Ymir percebeu que Sasha e Connie também tinham entrado na sala vazia atrás dela. A moça bolsista ainda terminava de mastigar uma enorme barra de chocolate que deveria ter sido a sobremesa de seu lanche — pois a interiorana sempre defendera que qualquer refeição deve ter ao menos três componentes diferentes. “Só intuição, sabe?”
“Credo, Sasha, espero que esteja errada. Mais um trabalho chato é justamente o que não estou precisando.” Connie comentou, coçando os olhos e reprimindo um bocejo. Parecia ter ficado até muito tarde acordado na noite anterior, e a líder do clube tinha uma boa ideia do motivo.
Dando de ombros, Ymir abriu novamente a porta da sala. Não tinha a mínima vontade de ir embora, mas estava ciente dos olhos claros de Historia sobre si e não estava com disposição para levar outro sermão de sua amiga bem-intencionada e responsável. “Bom, não sei quanto a vocês dois, mas não vou ficar aqui congelando. Eu seria um picolé muito atraente, sem dúvidas, mas acho melhor ir atrás da Petra.”
Os quatro estudantes se dirigiram ao auditório do Free, que se encontrava num prédio da escola diferente do que estudavam. O complexo escolar tinha três grandes setores de aula diferentes, cada um com no mínimo três andares, todos diferentes entre si. A sala da turma 104 se encontrava no setor mais novo, um prédio moderno cheio de azulejos brancos, aço e vidro. O auditório se encontrava no mais antigo, uma pérola de arquitetura Art Noveau que era tombada pela prefeitura de Rose Fields. Entre os três prédios se encontravam os ginásios, piscinas, pátios, jardins e outras estruturas que ninguém sabia bem para que serviam além de serem pichadas pelo vândalo misterioso — ou Bertholdt, como Ymir sabia — durante a noite.
Atravessaram o jardim da entrada e passaram em frente à grande estátua de Santa Rosa no jardim menor — por que diabos aquele colégio tinha que ter tantos jardins, se os alunos não podiam entrar na maioria deles, era algo que Ymir desconfiava que nunca saberia — em frente ao outro prédio. O chão de mármore da entrada e das escadarias que levavam até o interior do auditório estava impecavelmente limpo, e seus passos ecoavam pelo corredor quase vazio quando encontraram Pixis esperando pelos retardatários.
“Se atrasando de novo no recreio, Dálmata? Devia comprar um relógio novo, ou um aparelho auditivo, eu posso te indicar algumas lojas.” Dot Pixis, o professor de história, era um senhor careca com um senso de humor afiado e um sorriso sempre presente sob o bigode farto. Gostava de apelidar os alunos e fazer brincadeiras durante a aula, o que incomodava algumas pessoas — como Ymir. “E ainda arrastou minha matéria, a bolinha rosa e o monge budista com você. Que coisa feia.”
A morena de sardas não estava com paciência para aquelas brincadeiras, mas não podia resistir a alfinetar de volta. “Dispenso, Ramsés. Cadê a Petra? Sacrificou ela pra recobrar sua juventude? Olha que não funcionou não.”
“Bem que eu gostaria, mas se fosse assim, devia sacrificar o Levi. Não, não, a Petra está lá dentro, esperando vocês. Se apressem, ela já deve ter começado a explicação.”
“Então não é uma palestra qualquer da polícia sobre uso de drogas?” Connie se mexeu desconfortavelmente ao lado da morena, provavelmente pela menção a polícia.
“Por que não entram pra ver, Dalmatinha? Acho que dessa vez você vai gostar. Ou não.” O professor apontou para a entrada sem se preocupar com a clara irritação de Ymir ao ouvir o apelido que não gostava. Sem dar mais um segundo de atenção ao professor, a garota pegou a mão de Historia e subiu a escadaria com passos duros.
O auditório do Freedom High era amplo, podendo abrigar boa parte dos alunos confortavelmente sentados — ou não, na opinião da maioria deles -, mas construído de tal forma que a acústica ainda possibilitava que alguém no palco fosse ouvido com clareza caso o som ambiente estivesse baixo, o que nunca estava. O som de conversas ecoava quando a garota de rabo de cavalo entrou, ainda acompanhada pela amiga e os dois colegas de clube, e descobriu as cadeiras da primeira fila ocupadas pelo que parecia ser as turmas da sala 104 e 42 matando tempo enquanto a explicação não começava. Descobriu também que, para sua sorte, não eram os únicos que tinham se atrasado. Um garoto loiro do Clube de Coral, usando óculos, correu, quase escorregando no carpete, para se sentar ao lado de uma garota loira bonita da outra da sala, e dois gêmeos ruivos chegaram rindo atrás deles. O grupinho se apressou em se sentar sem ser notado.
Petra já estava no palco, o volume da conversa tendo feito com que se munisse de um microfone para ser ouvida por todos os presentes. Testou o aparelho algumas vezes para garantir que funcionava bem, e então viu os estudantes que desciam apressadamente o corredor, fazendo sinal para que seguissem e se acomodassem na última fileira. “Por favor, vocês! Sentem-se logo, já vamos começar!”
“Ela diz isso há dez minutos. Quando efetivamente começar, teremos a idade do Pixis.” Resmungou Jean, perto de onde Ymir se sentara, e ela ouviu Marco tentando conter inutilmente uma risada.
Felizmente, Jean errou sua previsão. Uma vez estando todos efetivamente acomodados, a responsável deu um pequeno pigarro antes de continuar. “Bom, todos estão aqui? Está faltando alguém?”
“Violet e Klaus não chegaram ainda.” Declarou uma garota de cabelos castanhos e olhos escuros grandes, sentada entre dois garotos que pareciam iguaizinhos a ela.
“Aqueles dois, sempre se metendo em confusão… Eu não posso mais esperar… Bem, vocês depois passem as informações para os colegas que faltaram, Isadora. Vou começar!” A ruiva limpou mais uma vez a garganta antes de prosseguir, com uma voz calma e forte. “Em primeiro lugar, espero que estejam bem descansados depois das férias de verão, pois temos um trabalho muito importante para vocês fazerem! O professor Pixis e eu estamos planejando isso desde o começo do ano, e agora está finalmente pronto para repassarmos a vocês. Digam… Vocês se lembram do Barroco?”
Um coro de gemidos de dor e más lembranças foi a resposta.
A moça assentiu, como se esperasse uma reação desse tipo — e provavelmente esperava, levando em conta que era uma ex-aluna do Free e tinha feito os mesmíssimos trabalhos em sua época de estudante. “Que bom que sim, pois saibam que o pior ficou pra trás. Agora vocês terão as Décadas!”
As reações dos estudantes foram mistas. Alguns, como Armin, pareceram bastante animados com a perspectiva, como se esperassem há algum tempo para ouvir aquilo. Outros, como Ymir, estavam aborrecidos pela existência de mais um trabalho complicado para fazer. Alguns, como Sasha e Connie, estavam perdidos, sem entender direito a comoção de seus colegas. Outros, como Marco, apenas encaravam aquilo como algo normal e até esperado. Poucos, como Elizabeth, estavam muito distraídos para se importar.
“Para os alunos novos, as Décadas são um dos dois trabalhos tradicionalmente feitos no Freedom High. O primeiro é o Barroco, no primeiro ano, coordenado pela professora Dolores e do qual vocês escaparam com sorte, e o segundo são as Décadas, agora no segundo ano. O trabalho se foca na apresentação em forma de performance de duas décadas sorteadas, um resumo daquele período e por que ele é memorável para o mundo, para nosso país e para Rose Fields. É um trabalho bem mais livre que o Barroco, já que quem julga o que deve ou não entrar e o que será apresentado são vocês… Só lembrem-se de manter certo critério e que cada período tem uma multitude de características históricas, culturais, sociais, políticas ou econômicas diferentes! E eu espero conseguir ver a maioria delas quando eu e o professor Pixis fomos avaliar vocês!”
“Os grupos serão de quatro pessoas, cada um responsável por duas décadas diferentes. Sintam-se livres para encenar, mostrar vídeos, músicas, trazer objetos e o que mais desejarem! Estão tão livres quanto o código da escola permitir! Ah, sim, e vocês tem um mês e meio para planejarem e ensaiarem tudo antes das apresentações começarem. Sortearei as ordens e os temas depois que todos me entregarem um papel com seus grupos. E sim, serão apenas quatro membros por grupo, sem exceções — estou olhando para você, Hitch!” A professora deu um olhar severo na direção da moça de cabelos claros, que apenas deu sua risadinha assinatura e voltou as atenções para a amiga que sentava a seu lado.
“Quatro pessoas, hm.” Jean cochichou para Marco, sem sequer esperar a professora terminar sua fala. “Precisamos de mais dois.”
“Talvez a gente possa chamar o Connie e a Sasha.” O garoto de sardas cochichou de volta, ainda mantendo o olhar fixo na professora e os ouvidos atentos para pescar qualquer outra informação importante. “Aí poderíamos aproveitar as reuniões pra discutir o trabalho.”
“Hm, sei não. Nada contra eles, mas a minha nota em Pixis tá meio ruim depois que faltei aquela prova em Abril. Acho que posso compensar tirando uma boa nota nesse trabalho.”
“Então você quer convidar alguém que tire notas melhores?”
“É, sim. Alguém que ponha ordem no grupo, por assim dizer.”
O anjinho de sardas refletiu por um momento. “Bertholdt? Ele adora história.”
“Não, ele vai fazer com Annie e Reiner. Certeza absoluta.” Respondeu o loiro, apontando para os três amigos que, estando lado a lado, pareciam já discutir possíveis estratégias de trabalho.
“Então… Historia? Sem querer fazer um trocadilho sem graça, mas ela é muito boa nessa matéria.” O garoto de sardas comentou, com um meio sorriso de quem pede desculpas.
“Mas isso implicaria em convidar a Ymir.” O outro rapaz fez uma careta e pôs a mão no peito, como se a própria ideia de convidar a líder do clube lhe ferisse fisicamente.
“E qual é o problema?”
Jean cruzou os braços e encarou o melhor amigo de forma aborrecida. “Que eu detesto aquela vaca, esse é o problema.”
Marco deu uma risada baixa em resposta, não resistindo em cutucar o amigo em seguida. “Eu ainda acho que vocês vão acabar se dando bem. Quem sabe algo… Não, esquece. É a Ymir.”
O loiro revirou os olhos, irritado com a brincadeira sem graça, e com isso seu olhar recaiu na fileira do outro lado do corredor. Pode ver seu colega de classe perfeitinho, Blake Summerland, já assediado por algumas garotas bonitas buscando fazer trabalho com ele. Não que culpasse aquelas meninas, levando em conta o histórico escolar perfeito do rapaz em questão.
“Mais fácil rolar alguma coisa entre eu e o sr. Perfeição ali que entre eu e a Ymir.” Ironizou, sem ser capaz de sentir uma ponta de inveja ao ver a atenção que o outro garoto recebia. Tá certo que Blake era bonito, bastante bonito para falar a verdade, mas aquela quantidade de atenção feminina era injusta para com todos os outros homens da escola.
O comentário sarcástico de Jean fez uma ideia súbita surgir na mente de Marco, e ele refletiu sobre ela com os olhos escuros voltados para o teto. “Falando nisso, por que não chamamos o Blake? Ele tira notas ótimas, as melhores da classe, e não tem grupo fixo.”
“Fala sério! Olha o bando de guria ao redor do cara. Sem chance, ele vai se cercar de meninas.”
“Podemos tentar, ainda. Vai ver ele está cansado de só fazer trabalho com essas baba-ovos.”
“É, claro.” O tom de voz do outro deixava claro o que ele pensava sobre a possibilidade.
“Eu posso pedir a ele, se vocês quiserem.” Uma terceira pessoa tinha se apoiado de forma casual na fileira onde os rapazes se sentavam, um braço apoiado no encosto da cadeira de Marco e o outro pendendo preguiçosamente no pequeno espaço entre ele e Jean. Ambos pertenciam a uma garota loira, o cabelo de cachos perfeitos preso num rabo de cavalo alto e um sorriso simpático no rosto. Era muito bonita.
“Huh?” Perguntou Jean, se sentindo um idiota, mas não sendo capaz de pensamentos muito complexos no momento.
“Elizabeth, não é certo ouvir a conversa dos outros dessa forma.” O moreno lembrou de forma educada, com um quê de divertimento na voz. Ver o melhor amigo embaraçado daquele jeito era divertido.
“Desculpe. É que eu estava sentada aqui atrás, e também preciso de um grupo. Se eu chamar o Blake, vocês me deixam ocupar a última vaga no estábulo? Por favorzinho.” Elizabeth pediu, finalizando a frase com um pequeno bico que Jean considerava estranhamente fascinante, e que fez Marco sufocar uma risadinha.
Como a loira ainda esperava pacientemente uma resposta, foi o rapaz de sardas quem assentiu com um sorriso simpático. “Sem problemas. Não temos mais ninguém em mente mesmo.” A moça, satisfeita, se levantou da cadeira onde sentara e saiu com um rebolado discreto em direção ao outro lado do corredor, buscando falar com o garoto do grêmio.
“Jean.” Marco cutucou o melhor amigo num ponto pouco abaixo das costelas.
“Ai! O que foi?” Perguntou o outro, irritado, levando a mão até a parte dolorida no abdômen.
“Você tá babando.”
“Cala a boca, Marco.”
Blake não gostava muito de trabalhos em grupo, para falar a verdade. O rapaz sempre se sentia um pouco desconfortável quando estava na presença de muitas pessoas — algo irônico para um aluno tão sociável e politicamente ativo quanto ele. Nenhum de seus colegas tinha ideia de como ele realmente se sentia quando lhes dava conselhos ou fazia os pronunciamentos do grêmio. Por mais que conseguisse falar de forma coerente e carismática aos outros, o garoto nunca se sentia realmente ele mesmo naqueles momentos, quando sua respiração e batimentos cardíacos se aceleravam, e o frio em seu estômago sempre ameaçava subir até sua garganta e sufocá-lo. Um trabalho que requeria apresentação num palco não estava em sua lista de atividades favoritas, definitivamente. Ele gostava muito de ir ao teatro e ver as peças sendo encenadas, até mesmo ajudar nos bastidores, mas fazer parte de algo do tipo? Definitivamente não. Blake Summerland não tinha matéria para ser um ator.
E não é como se ele fosse mesmo ser um. É claro que Blake seria um médico, assim como seu pai e seu avô antes dele. Iria herdar a rede de hospitais Summerland, tratar das pessoas e salvar vidas. Dançar nas cordas que seus pais haviam preparado antes que nascesse, e que ele tinha sorte, tanta sorte, de ter um destino como esse pela frente.
Respirando fundo, o moreno procurou relaxar as mãos, os nós dos dedos brancos pela força com que tinha cerrado os punhos. Sentia-se cansado, tão cansado. Daria tudo por uma noite de sonhos felizes e coloridos. Talvez mais tarde, depois do hospital, ele pudesse...
“Ei, Blake!” Alguém o chamou, uma garota, pela voz aguda, e o sorriso de sempre brotou em seus lábios com a prática de anos em frente a um espelho.
“Ah, Elizabeth. Tudo bem?” Perguntou curiosidade na voz, ao mesmo tempo que rezava que a loira não tivesse percebido seu quase descontrole. Precisava sempre tomar cuidado com como agia em público, seu pai sempre dizia.
“Melhor impossível. Diz aí, você tem grupo, amorzinho?” A moça foi direta, ainda que educada, aproveitando para sentar na cadeira vaga ao lado do rapaz sem qualquer tipo de cerimônia. Blake engoliu em seco e se controlou para não se encolher na cadeira, procurando ser simpático ao responder a pergunta.
“Hm, as meninas estavam falando comigo…”
“Elas colocaram o seu nome nesse papelzinho rosa da Moranguinho?” A loira inquiriu, com uma sobrancelha levantada, e apontou para a folha de papel sobre o caderno do rapaz. Realmente, as garotas que vieram falar com ele mal Petra terminara de explicar o trabalho tinham deixado uma folha do caderno de uma delas para que ele colocasse seu nome, caso desejasse fazer parte do grupo delas. Como sempre, o moreno assentira educadamente e não dera uma resposta concreta — seja político, o pai dizia; diga às pessoas o que querem ouvir, faça todos felizes e eles farão o que você quer. Uma estratégia patenteada do clã Summerland — por estar hesitante. Já tinha feito trabalho com aquele grupo específico uma vez, e as garotas pareciam mais interessadas em esbarrar a mão “sem querer” na dele ou em conseguir seu número de telefone do que em aprender. Tinha admitir que aquele tipo de atenção o deixava ainda mais desconfortável do que o normal.
“Não. Não ainda.” Respondeu calmamente, ao mesmo tempo refletindo como poderia evitar aquele compromisso.
“Então você ainda não tem grupo.” A moça anunciou como se fosse um ponto final do assunto, e então tirou a folha rosa com delicadeza de cima do caderno do garoto do grêmio, colocando-a no próprio colo por ter deixado a bolsa do outro lado do corredor. “Vem pro meu?”
“Elizabeth… Eu… Não sei ao certo se…”
“Vamos, eu sei que você tá cansado dos mesmos trabalhos cheios de garotas querendo aproveitar qualquer oportunidade pra esbarrar em você. Eu não vou fazer isso, juro. Se quiser pegar em você, será legitimamente e com permissão.” A moça falou de uma forma solene, com uma mão fechada sobre o peito e a outra nas costas, com toda a solenidade que um juramento real requiriria. Estava claro que aquilo deveria ser apenas uma brincadeira para quebrar o gelo entre eles, mas, de alguma forma, Blake acreditou seriamente no que ela dizia, contra todo o seu bom senso.
“Que… Bom.”
A loira olhou discretamente ao redor para garantir se alguém ao redor os escutava, e então se aproximou, apoiando uma mão no ombro do rapaz afim de conseguir apoio para sussurrar em seu ouvido. “Fora que não tem só eu não. Também tem o cavalinho e o anjo, a dupla sertaneja do presépio. Mas não diga a eles que eu te disse isso, por favor.” Logo ela tinha se afastado novamente, como que temesse ofendê-lo por invadir seu espaço pessoal, mas Blake descobriu que não se importara com aquilo tanto quanto achava que se importaria.
“Certo, certo, seu segredo está guardado. Está falando de Jean e Marco?”
“Não dá pra esconder as coisas do estudante nota A, né? Sim, eles sim. Eu só não quero que fiquem chateados por eu ter usado os apelidos, sabe como é. Não gosto de ofender as pessoas.” Elizabeth deu um sorriso que mais parecia um pedido de desculpas, mas o rapaz não estava prestando muita atenção naquele momento.
Os olhos cinzentos de Blake focaram no outro lado do corredor, onde ele podia ver os dois conversando animadamente entre si. Sempre achara interessante como duas pessoas tão diferentes podiam ser próximas daquela forma — Jean era desbocado e confiante, se metia em problemas e saía de alguns deles graças a sua língua afiada. Marco era gentil e altruísta, alguém com quem se podia contar para tudo e que parecia até bom demais para aquela terra pecadora. Blake se encontrava com o rapaz de sardas de vez em quando por este ser um dos voluntários mais frequentes quando o grêmio estudantil precisava de ajuda para algum evento, mas as únicas vezes que via Jean eram durante as aulas de educação física. A lembrança fez com que o garoto engolisse em seco novamente, subitamente muito nervoso.
Sem notar que estava sendo observado, Marco pareceu ter dito alguma coisa que deixou Jean irritado, pois o loiro agarrou o nariz do garoto sardento com dois dedos e o apertou, como uma criança birrenta. Parecia um gesto de amigos próximos que gostavam de irritar um ao outro, e pensar daquela forma deixou Blake triste. Ele não tinha um amigo como aquele.
“E aí, topa?” A voz de Elizabeth o fez lembrar novamente da garota ao seu lado. Ela não parecia irritada pela demora, nem ansiosa, nem nada do tipo. Apenas o esperara educamente, de vez em quando olhando para a tela do celular como se esperasse alguma mensagem nova.
“...Topo.” Decidiu, com uma coragem que não sabia direito de onde tinha vindo. A moça deu um sorriso largo em resposta, e o rapaz se viu correspondendo com mais sentimento do que o normal. Por motivos que ele mesmo não descobrira, Blake não se sentia ameaçado por Elizabeth como pelas outras garotas. De alguma forma, parecia que ela o via de uma forma diferente, e ele gostava disso. Sentia que podia ter ali uma amizade em potencial.
“É assim que se fala, garanhão. Esse grupo vai ser o primeiro na linha de chegada de uma boa nota.” A garota lhe deu uma tapinha amigável no ombro e se levantou, arrumando rapidamente algumas rugas no tecido da calça jeans antes de se afastar em direção aos outros membros do grupo. Foi apenas quando ela pegou uma caneta emprestada com Marco e começou a anotar os nomes de seus colegas que Blake percebeu que ela tinha levado o papel rosa.
Reiner foi um dos primeiros alunos a se levantar após o termino da explicação de Petra, e logo ao seu lado também se ergueram os amigos, Bertholdt e Annie. Não era novidade que os três se sentavam juntos desde sempre, e também que sempre faziam trabalhos juntos — o que não seria diferente desta vez.
"Então, a formação de sempre? Annie questionou, fria e prática. Seus olhos azuis pareciam fixados nos colegas à sua frente, mas na verdade ela dirigia o seu olhar para as pessoas atrás deles — Armin, em específico. Bem que ela gostaria de fazer o trabalho com ele, mas aquilo não podia acontecer. Annie Leonhardt e Armin Arlert eram colegas de classe e só isso, mesmo para seus amigos. Por mais que ela soubesse que Reiner e Bertholdt não a fossem julgá-la de nenhuma maneira caso acabassem sabendo de seu relacionamento — pelo contrário, eles iriam ajudá-la a mantê-lo -, outras pessoas podiam e provavelmente iriam. E era por causa delas que Annie e Armin não faziam nada além de se encararem e trocarem olhares discretos de longe quando estavam em locais como a escola.
"Acho que sim. Só que desta vez temos que fazer um grupo de quatro pessoas..." Bertholdt se pronunciou, lembrando que eles eram um trio e, portanto, precisavam de um último membro para completarem o grupo.
"É só chamar o Berrick! Não é o que sempre fazemos? Eu vou procurar ele, aposto que ele resolveu se sentar lá atrás..." O jogador de futebol foi logo falando, animado e já dizendo a solução para o problema antes de se virar para olhar para trás, procurando aquele que viria a ser o último componente do grupo com os olhos dourados, até ser interrompido por Bertholdt, que segurou e puxou-lhe o pulso delicadamente para chamar sua atenção.
"Reiner, nós não podemos chamar o Berrick. Temos que fazer com outra pessoa no lugar dele." As palavras do mais alto fizeram Reiner se lembrar daquela verdade amarga. Berrick não estudava mais no Freedom High por causa de um triste evento que acontecera no ano anterior, e por isso ele não podia ser o quarto membro daquele trabalho. Bertholdt estava certo, eles precisavam de outra pessoa para preencher sua vaga.
No entanto, Reiner sabia que a pessoa que preencheria o vazio do grupo não seria capaz de preencher o vazio de seu coração. O loiro sentia falta de ter a companhia de Berrick todos os dias, de jogar futebol com ele e rir das suas piadas, de colocar a mão por brincadeira em seus cabelos escuros e sempre tão bem penteados para trás e bagunçá-los, de olhar para seus olhos azul-acizentados — e que eram mais cinzas do que azuis, na verdade — e sentir a alegria deles, de vê-lo sorrindo mostrando os caninos brancos e sorrir também, de apertar o seu nariz arrebitado e fazê-lo rir com aquele gesto infantil.
Berrick fazia falta. E Reiner sabia que não teria mais contato com ele tão cedo e que ele não voltaria a estudar junto com o loiro magicamente nem nesse momento e nem em nenhum outro até que ele se formasse.
Os adultos sempre lhe diziam que amizades de escola eram assim, iam e vinham, raramente duravam, mas para o loiro, Berrick era alguém querido e especial, e ele tinha certeza de que, se não fosse por aquele dia, eles ainda seriam muito amigos, juntos com Bertholdt e Annie num quarteto. Mas infelizmente, eles se formariam como um trio.
"É verdade. Obrigado por me lembrar, Bert... Alguma sugestão de quem podemos chamar?" O loiro falou, por fim, voltando a olhar para os olhos esverdeados do melhor amigo. Bertholdt não desviou o olhar, até mesmo porque sabia que Reiner estava até aquele momento hesitante em suas lembranças. Não que ele o condenasse por isso — afinal, o moreno também era amigo de Berrick e sentia a falta dele, mas ainda assim, sabia que para Reiner, aquilo era algo que o deixava profundamente chateado, e que aos poucos ele estava aprendendo a superar, por mais que ainda tivesse pequenos lapsos, como o que tivera nesse exato momento.
“Que tal aquela garota ali? Acho que ela se chama Liesel, e ela parece estar sozinha e ser bem responsável.” Annie sugeriu, apontando com a cabeça para o lado, de forma que os dois garotos olharam para o final da fila de cadeiras, onde Liesel se encontrava sentada e sozinha, arrumando-se para se levantar. Alguns estudantes estavam perto dela, mas nenhum falava com a garota ruiva, e esta olhava timidamente para os lados, possivelmente em busca de algum grupo que ela poderia acabar entrando.
“Querem que eu fale com ela?” Reiner perguntou, já sabendo que tanto Annie quanto Bertholdt não eram as pessoas mais extrovertidas e sociáveis do mundo.
“Bem, você é quem tem mais pontos de carisma no grupo…” Bertholdt disse, com um sorriso tímido no rosto, e ele riu um pouco em razão do próprio comentário onde ele não conseguira segurar a pequena referência aos jogos que tanto gostava — não que Reiner se importasse, já que o loiro já chegara a jogar alguns RPGs com o amigo e gostara bastante da experiência. O rapaz se afastou do grupo, então, para poder ir falar com Liesel, que naquele momento havia acabado de se levantar, olhando timidamente para os lados em busca de um grupo, e que fixou o olhar em Reiner ao perceber que este estava caminhando em sua direção e fazendo contato visual com ela, com um sorriso amigável no rosto.
"Ei, Liesel, você está sem grupo?" O jovem questionou, simpático. A ruiva acenou positivamente com a cabeça, murmurando um "sim" em voz baixa em resposta.
"Quer entrar no meu? Tem eu, o Bertholdt e a Annie, e só falta uma pessoa. A Annie pode ser meio assustadora, mas eu garanto que ela é legal quando você a conhece, e o Bert é bem tímido, mas é gente boa também. E bem, eu... Acho que não preciso me explicar." Reiner riu um pouco depois de falar, e aquele ato também serviu para fazer a garota sorrir.
Liesel arrumou os óculos que estavam descendo pelo seu nariz, analisando a proposta. Reiner era um garoto forte e gentil, e ela se lembrava de ter presenciado diversas vezes atitudes altruístas do mesmo com seus colegas de sala — e ele já trocara palavras com ela algumas vezes, e sempre fora muito educado. Dos três membro do grupo, ele era quem a garota conhecia melhor. A ruiva se lembrava de ter visto Bertholdt algumas vezes na biblioteca, sempre com um livro na mão, e apesar de nunca ter falado diretamente com o garoto, simpatizava com ele só por notar o seu gosto pela leitura — e para ser sincera, achava ele até bonitinho. Já em relação a Annie, Liesel não tinha uma opinião formada, mas admitia que a moça era mesmo bonita e tinha um olhar que podia ser considerado intimidador. Porém, se ela andava com dois garotos como Bertholdt e Reiner, ela não devia ser uma pessoa tão fria assim.
No geral, os três pareciam ser bons candidatos como colegas de trabalho, e não pareciam ter problemas com notas ou com outras pessoas. Nesse caso, a garota decidiu que podia dar uma chance a eles, até mesmo porque era melhor que ela pegasse a chance de entrar num grupo com pessoas confiáveis do que tentar procurar por outro que pudesse acabar sendo problemático.
"Quero entrar sim. Obrigada pelo convite, Reiner." Ela disse, por fim, e o loiro pôs a mão em seu ombro num gesto carinhoso, olhando para o lado e encarando seus colegas de grupo.
"Muito bem! Vamos nos reunir e escrever nossos nomes no papel, então." O rapaz afirmou, caminhando junto com ela até onde os outros dois estavam.
Bertholdt sorriu ao ver a garota tinha resolvido aceitar o pedido de Reiner. O loiro sabia lidar muito bem com as pessoas e era ótimo com as palavras, e o mais alto devia admitir que sentia um pouco de inveja dele por isso algumas vezes. Quando os dois retornaram para onde ele e Annie estavam, o jovem se viu forçado a olhar para baixo para poder olhar melhor para Liesel.
Ela era mais alta que Annie, mas apenas por alguns poucos centímetros. A pele era clara, seus olhos castanhos estavam atrás das lentes dos óculos de aro preto e fino que ela usava, mas o que mais chamava a atenção de Bertholdt era seu cabelo ruivo curto e ondulado, onde suas mechas se espalhavam numa bagunça organizada para todos os lados, fazendo a garota parecer uma espécie de ovelhinha. Liesel sorriu timidamente para ele e para Annie, o que fez o moreno gostar um pouco mais dela, pois podia sentir que não era o único tímido ali.
"Então somos quatro?" Annie perguntou, quebrando o silêncio momentâneo que se fez quando Reiner e Liesel chegaram, para então pegar de sua bolsa uma cardeneta e uma caneta, já anotando seu nome numa folha em branco.
"Sim, Liesel aceitou trabalhar com a gente." Reiner respondeu, dando um tapinha amigável nas costas da garota, que concordou com a cabeça logo em seguida, sorrindo de forma meio embaraçada. Bertholdt passou a mão na calça, tirando o suor da mesma antes de estendê-la para a ruiva, que a apertou levemente — e a diferença de tamanho das mãos de ambos era visível, sendo a do garoto grande, de dedos finos e longos, e a de Liesel menor, bem balanceada, com dedos que não eram nem longos ou curtos demais, e eram um pouco mais grossos que os de Bertholdt.
"Bem-vinda ao grupo, Liesel. Eu sou Bertholdt, essa é a Annie e eu acho que você já conhece Reiner. E oh, eu sei que isso não tem nada com o trabalho, mas é que, bem, o seu nome me lembra a Liesel de A Menina Que Roubava Livros, não sei se você já leu..." O moreno se apresentou, e sua voz foi ficando mais baixa enquanto fazia aquele pequeno comentário sobre o nome da jovem, até desaparecer. Bertholdt não fazia a menor ideia de onde saiu aquilo, e agora suas bochechas estavam coradas, mas Liesel pareceu não se importar muito com isso, felizmente.
"Na verdade, esse é um dos meus livros favoritos! É bom saber que você gosta dele também." A ruiva falou, com um sorriso animado no rosto. Referências literárias eram uma das coisas que Liesel mais gostava — junto com livros, é claro — e ver que pelo menos um dos seus colegas compartilhava da mesma paixão que ela tornava as coisas melhores para a garota.
Ela tinha feito a decisão certa, afinal. Trabalhar com aqueles três não seria uma coisa ruim. Na verdade, seria bem prazeroso e produtivo.
Aquele trabalho ia dar certo, Liesel tinha certeza.
“Então. Precisamos de mais uma pessoa.” Armin se dirigiu aos dois melhores amigos, sentados ao seu lado. Ainda que o loiro estivesse com um tom de voz normal e agindo como sempre ao tentar resolver rapidamente o impasse, seus pensamentos voavam por dentro. Ele podia ver Annie na fileira da frente, tão próxima e ao mesmo tempo tão distante. Sabia que não tinha chance alguma dos dois ficarem no mesmo grupo, e que ali eles não eram mais do que colegas de sala, mas não conseguia deixar de olhar na direção dela de vez em quando, fosse para vê-la pondo uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha ou espiar um pouco o brilho daqueles olhos azuis. Estava fazendo justamente isso quando a moça se virou e seus olhos quase se encontraram, caso ele não tivesse se voltado imediatamente para Eren, tentando esconder o embaraço com uma expressão neutra.
“É… De preferência alguém que trabalhe. Não quero ter que ficar sustentando vagabundo como no Barroco.” O moreno de olhos verdes comentou, cruzando os braços e franzindo as sobrancelhas para demonstrar o desgosto com as lembranças do trabalho anterior. Não apenas tinha sido tudo incrivelmente estressante com as fontes difíceis de pesquisar, materiais para arranjar e ensaios das apresentações para fazer, como um dos membros de seu grupo havia sumido depois da primeira semana e só aparecera — reclamando muito — na semana anterior a da apresentação. O resultado foi uma nota menor do que a que eles mereciam, uma discussão nos bastidores, um nariz quebrado e uma suspensão de três dias que Eren não se arrependia nem um pouco de ter tido que pagar.
“Isso foi porque o Dennis conseguiu entrar no nosso grupo por ter sobrado.” O garoto mais baixo lembrou, lançando um olhar rápido para o outro lado do corredor, onde o dito rapaz conversava com Hitch, aparentemente tão interessado em arrumar um grupo para aquele trabalho como tinha sido com o outro.
“Então precisamos de alguém pra cobrir essa vaga. Que tal o Milyus ou a Mina? Eles são legais. Ou Nack, Thomas…” Eren começou a enumerar possíveis colegas para ocupar a última vaga, sendo subitamente interrompido por Mikasa, até agora silenciosa.
“Já tem um grupo.” A moça de traços orientais apontou para Mina, que acabara de entregar o papel com seu grupo à Petra e agora descia as escadas, acenando para os três rapazes, sentados um ao lado do outro.
“Oh… Bem... Alguma ideia, Armin?” Como sempre, o loiro baixinho era invocado quando seus dois amigos estavam com um problema difícil ou absolutamente sem ideia para resolvê-lo. E, como era de costume, ele tinha uma solução na ponta da língua.
“Eu pensei na Joanna.”
“A filha do pastor?” Eren não disfarçou a surpresa em sua voz ao responder o melhor amigo, enquanto a irmã olhou de esguelha para a última cadeira da fila onde se encontravam. Meio encolhida no assento desconfortável, Joanna Hawthorne era uma garota tímida com cachos castanhos de comprimento médio e olhos escuros, óculos um pouco grandes para seu rosto cheio de vários sinais e sardinhas. Parecia a típica garota certinha, com uma saia abaixo dos joelhos, meias longas, um casaco com capuz e um pingente com um grande crucifixo de ouro pendurado no pescoço, visível por cima da roupa. Nenhum dos três amigos tinha muito contato com ela, nem sabiam se alguém da sala o tinha — ela era raramente vista na companhia de outra pessoa. Sabiam que era filha do pastor luterano da cidade, Kevin Hawthorne — Carla Jäger tinha sido parte da congregação anos antes, até sair por motivos desconhecidos. Sabiam que era uma pessoa reservada, não tinha problemas de disciplina e que ia embora assim que o sinal tocava. Além disso, não havia muito que se soubesse sobre Joanna.
“Sim. Ela é quieta e esforçada na sala, tira notas boas, não tem grupo e parece ser uma pessoa legal.” Armin afirmou aos amigos, que pareceram pesar as informações por um instante. Realmente, a moça não parecia o tipo de gente que deixa o trabalho inteiro para os colegas de grupo.
“Eu não sei. Ela não parece gostar de interagir.” Mikasa deu sua opinião, a testa levemente franzida. Alguma coisa em Joanna a deixava desconfiada. A garota asiática tinha uma boa intuição — não tão boa quanto a de Sasha, a bem verdade — e sabia que, por algum motivo, ela não se daria nada bem com aquela garota aparentemente inofensiva.
“Você também não gosta, Mikasa!” Eren cutucou a irmã adotiva, lembrando que a própria Mikasa não era a mais sociável das pessoas. “Acho que Armin tem razão. Eu vou lá falar com ela.”
“Espere, Eren…” A garota com o cachecol começou a falar, mas foi a vez dela ser interrompida quando o irmão se levantou impulsivamente e a deixou falando sozinha.
“Joanna?” O rapaz de olhos verdes chamou ao se aproximar, fazendo com que a menina desse um pulo visível na cadeira e se virasse para encará-lo com uma expressão assustada. “Desculpe, eu te assustei?”
“F-Foi minha culpa. Eu estava distraída. Desculpe.” Joanna conseguiu gaguejar em resposta, a voz pouco acima de um sussurro. Estava ocupada com seus pensamentos sobre algumas coisas ruins e não tinha visto o garoto se aproximando. Conhecia-o de vista — quem não conhecia Eren Jäger no Freedom High? — mas nunca tinham se falado antes. Por isso mesmo, as perguntas não paravam de surgir em sua mente quando o moreno se sentou na cadeira vazia a seu lado. O que uma pessoa como Eren poderia querer com ela? Será que queria dinheiro ou algo assim? Ou só persegui-la, como Hitch tinha o costume de fazer? Ou então tinha algum outro motivo que ela não sabia? As pessoas não se aproximavam de uma garota fraca como ela sem motivo. Uma parte dela, lá no fundo, se perguntava se ele só estava sendo amigável, mas a parte maior e cínica de si mesma recusou imediatamente aquela proposta. Ninguém gostava de Joanna Hawthorne.
Sem perceber a maneira apreensiva com que a garota de sardas o olhava, Eren sorriu da forma mais simpática que podia. Aquela menina parecia um animalzinho assustado, na opinião dele. “Não precisa se desculpar, não foi sua culpa.”
“Certo. Desculpe.”
“Ei, eu já disse que tá tudo bem, né? E de qualquer forma, não é isso que eu queria falar. Você tem grupo do trabalho?”
“Não.” As respostas dela era tão baixas que o garoto estava tendo dificuldade em ouvir.
“Quer fazer parte do meu grupo? Nós dois, Armin e Mikasa?”
Então era esse o motivo, pensou Joanna consigo mesma. Parecia bastante óbvio levando em conta a aula em que estavam, mas ela nunca imaginaria que uma pessoa como Eren fosse querer uma fracote como ela em seu grupo de trabalho. Ou será que aquilo era algum tipo de peça que estavam pregando nela, como quando Hitch plantara aqueles bilhetes de admirador secreto em seu armário? Será que ele estava pagando algum tipo de aposta? Deveria correr o risco de passar por uma decepção daquelas de novo?
Eren esperava por sua resposta, com a testa levemente franzida ao estranhar a demora. Após aqueles primeiros minutos de convivência, ele já podia atestar que aquela garota era tão tímida que devia pedir desculpas ao próprio reflexo no espelho por olhar demais. Era de certa forma adorável, mas também preocupante; com certeza havia algo errado na forma com que ela evitava de olhar em seus olhos e apertava o crucifixo entre as mãos como se fosse uma corda de salvamento.
“...Sim. Se não for incômodo.” Joanna respondeu, o melhor que podia.
“Claro que não é incômodo, ou a gente não teria te chamado, né?” O rapaz de olhos verdes disse, brincando, procurando quebrar um pouco o gelo que havia entre eles. No entanto, viu que sua tentativa tinha dado errado quando a moça se encolheu ainda mais na cadeira, os nós dos dedos brancos com a força com que agarrava o pingente em seu pescoço.
“Desculpe.” Murmurou a morena num tom quase de súplica.
“N-Não precisa! Eu só estava fazendo uma brincadeira idiota. Nós estamos muito felizes de você estar no nosso grupo, não é incômodo nenhum!” Eren foi rápido em dizer, tentando consertar a besteira que havia feito. Por algum motivo, ele não queria magoar os sentimentos dela.
A garota assentiu lentamente, parecendo incapaz de desviar os olhos do chão. “Certo.” Falou, por fim, e sua voz parecia estar um pouco mais forte.
“Ufa… Então… Vamos encontrar o resto do grupo?”
Houve mais uma hesitação momentânea antes que Joanna respondesse: “...Sim.”
O garoto estendeu a mão para ajudá-la a se levantar — parecia a ele a coisa educada a se fazer — mas a menina se levantou sozinha, como se não tivesse percebido, os olhos ainda fixos no chão.
“Então… Você gosta de jogos?” O rapaz perguntou, xingando a própria estupidez mentalmente, enquanto tentava puxar algum assunto com a garota calada a seu lado. Eren nunca tinha sido realmente uma pessoa amigável — tanto que seus únicos amigos eram Armin e Mikasa — então não sabia direito o que dizer para que a colega se sentisse mais confortável. No entanto, aquele silêncio desagradável o estava deixando mal, e não gostaria nada de fazer aquele trabalho com um clima de enterro como o que havia agora.
“...Gosto.” Afirmou Joanna, apenas para se arrepender logo depois de ter dito. Agora Eren, que já devia estar arrependido do convite que fizera, provavelmente achava que ela era ainda mais esquisita agora. Há pouco mais de um ano, quando jogava Castlevania com Gary quando os pais deles estavam na Igreja, a garota de óculos não teria se arrependido em dizer que gostava de videogames. Mas agora as coisas eram diferentes.
A resposta dela, no entanto, fez Eren se surpreender de forma positiva, algo que ficou claro em sua animação nas perguntas a seguir. “É mesmo?? Que legal, eu adoro!! Que console você tem, Nintendo, Sony ou Microsoft?? Ou joga PC mesmo?? Qual seu nick?? Que jogos você gosta???”
A garota de sardas resolveu pensar melhor nas respostas para aquelas perguntas, não sabendo ao certo o que dizer. Não queria acabar dizendo algo que desagradasse o garoto que a acompanhava, apesar de saber que era quase certo que faria isso. Resolveu fazer uma brincadeira, na esperança de que fosse aquilo que ele queria.
“...Biding of Isaac.” Sussurrou, quase inaudível. No entanto, ele a ouviu.
“...Sério?”
“Não. Eu só estava… Brincando. Desculpe.” E novamente ela tinha feito besteira. A garota engoliu em seco, pensando que talvez fosse melhor ficar calada pelo resto do trabalho em grupo, ou então desistir e ir fazer com outra pessoa… Se bem que provavelmente Hitch iria convidá-la da forma amigável de sempre para participar do mesmo grupo que a loira e suas amigas, e isso seria demais para ela aguentar.
“N-Não, é que eu na verdade adoro esse jogo!” O garoto de olhos verdes exclamou, soando realmente sincero. E estava sendo. Eren tinha um lugar reservado em seu coração para jogos indie com temas polêmicos ou de terror, muitos deles aparecendo em seu canal no YouTube. “E seria curioso se você também gostasse, dado os temas e a sua família…”
“Eren.” Novamente, o garoto foi cortado por sua irmã mais velha, para seu desagrado. Tinham finalmente alcançado Mikasa e Armin — a volta tinha parecido durar muito mais tempo que a ida, talvez pelo silêncio desconfortável.
“Oi Joanna! Então você vai fazer trabalho com a gente?” Armin foi rápido em perceber a timidez da colega, e tinha que admitir que se identificava. Ele também era quieto na aula e tinha dificuldade em se relacionar com os outros — o que talvez o fazia bom em lidar com pessoas difíceis, levando em conta quem eram seus melhores amigos e sua namorada secreta. O loiro procurou sorrir de forma simpática quando a garota ergueu rapidamente os olhos castanhos e o encarou, antes de baixar os olhos novamente.
Mantendo a cabeça baixa, Joanna assentiu. “Vou. O Eren me perguntou se eu queria. Desculpe se…”
“Não precisa se desculpar o tempo todo, Joanna.” Eren interveio de forma gentil, pondo a mão no ombro da garota, que se sobressaltou visivelmente. Por um instante, a morena de óculos tinha achado que ele iria machucá-la, mas parecia que não ia acontecer. O garoto de olhos verdes, por sua vez, só estava tentando reconfortá-la, e soltou o ar que não sabia que estava prendendo quando sentiu os músculos do ombro da moça relaxarem um pouco.
“Descul… Certo. Eren.” A voz dela estava um pouco mais alta dessa vez, o que era bom.
“Só relaxe um pouco, tá bem? Mesmo que você seja fofa assim, não vamos te morder. Certo, Armin? Mikasa?”
“Claro!” Armin foi rápido em concordar, erguendo levemente a sobrancelha quanto a escolha de palavras de seu melhor amigo. A última coisa que o loiro baixinho lembrava de ter ouvido Eren chamar de “fofa” tinha sido um dragão de invocação em um RPG, que o moreno jurara ser fêmea e se chamar Daenerys.
Mikasa, por sua vez, respondeu de uma forma muito mais seca, primeiro se dirigindo aos dois amigos e depois à nova colega de grupo. “Acho que devíamos nos focar no trabalho. A Petra vai querer os nomes do nosso grupo. Sente aí no lugar vazio, eu vou entregar a ela e volto já.”
“...Certo. Mikasa. Desculpe.” A garota de óculos encolheu os ombros, como se a outra a tivesse ameaçado de alguma forma. Sem dizer mais nenhuma palavra, ela se soltou de Eren e, procurando não esbarrar na moça mais alta quando esta passou por ela em direção ao palco onde estava a professora, foi até a cadeira indicada e se sentou, sem desviar os olhos do chão em momento algum e sem responder às outras tentativas de comunicação dos rapazes.
“Nossa… Que bicho mordeu a Mikasa? Seria a TPM?” O irmão da asiática perguntou, irritado, quando ela estava suficientemente longe para não ouvir seu comentário.
Armin tinha a impressão de que sabia o tinha de errado com a melhor amiga, mas resolveu evitar de comentar naquele momento. “Acho que ela só está ansiosa pra apresentação. Daqui a pouco ela volta ao normal.” Justificou para o amigo, ao mesmo tempo em que desviava o olhar para a garota a poucos passos deles.
Joanna não sabia ao certo se tinha tomado a decisão correta ao aceitar aquele convite. As reações tanto de Eren quanto de Mikasa tinham deixado tudo confuso. Ainda existia a possibilidade de tudo aquilo ser uma brincadeira elaborada a suas custas, mas… Não era isso que sentia. Já tinha sido enganada antes, é claro, mas as coisas pareciam diferentes agora. Alguma coisa dizia a ela que Eren e Armin eram diferentes de Hitch e Dennis e sua turminha, e que talvez, só talvez, ela devesse deixar que uma pessoa se aproximasse dela sem ter medo de se machucar, exatamente como Gary tinha dito. Quando ele dissera aquilo antes de ir embora, Joanna tivera vontade de rir; meses depois, em seu quarto, lembrando, tivera vontade de chorar. Agora, sentada no auditório junto dos dois meninos, tinha vontade de por o conselho em prática. E ela sinceramente não sabia qual das três reações a assustara mais.
Não era de se surpreender que Ymir estava sozinha quando se tratava de formação de grupos. Ela não era de fato antipática, mas os seus colegas de classe no geral já tinham grupos fixos de amizade e preferiam não mexer com ela — e a moça no fundo agradecia por isso, já que também não era muito de socializar com outras pessoas sem motivo. Todavia, ela não era completamente só, e ao seu lado se encontrava a única pessoa que tinha a cara e a coragem de querer fazer trabalhos em grupo com ela, e este alguém era Historia Reiss.
“Ymir, nós não podemos fazer o trabalho sozinhas… Você sabe que é impossível, e a Petra nunca vai deixar.” A loira falou, com a voz doce como sempre, tão fofa que, se fosse algo palpável, Ymir apertaria bastante.
“Eu sei. Por isso estou analisando quem poderia entrar para completar nosso grupo.” A mais alta respondeu, escaneando todo o auditório com os olhos claros e brilhantes, percebendo que a grande maioria dos alunos já estavam ocupados com seus respectivos grupos, e os que sobravam se juntavam em grupos remanescentes ou entravam para outros em que só se faltavam uma ou duas pessoas para ficarem completos. Ela buscou em especial os outros membros do clube, e notou que a maioria deles já tinha se enturmado e formado grupos, o que por um lado era bom — afinal, entre eles Ymir reconheceu algumas pessoas que podiam ser membros potenciais — e por outro era ruim, pois limitavam as suas opções de pessoas confiáveis.
“Não seria mais fácil perguntar a quem está sobrando? Normalmente são pessoas tímidas e responsáveis…” Historia interrompeu os seus pensamentos, mas isso não deixou a garota sardenta irritada — até mesmo porque era impossível ficar com raiva de uma garota tão gentil e adorável como a loira, ainda mais com a cara adorável que ela tinha.
“Eu estava pensando em chamar outras pessoas.” Ela disse, e então a mais baixa pareceu entender do que ela estava falando.
“Oh, pessoas do clube?” Questionou, recebendo como resposta um aceno positivo de cabeça da morena, junto com um "sim" em voz baixa vindo da mesma.
“Bem, parece que a maioria deles já tem grupos. Eles tem amigos fora do clube, Ymir. Não é de surpreender que eles estejam fazendo esse trabalho juntos.” Historia sabia que estava atestando o óbvio, mas não era como se a amiga se incomodasse com seus comentários, e na verdade parecia até mesmo levá-los em consideração, assentindo levemente com a cabeça enquanto coçava o queixo.
“Eu não me importo com isso, na verdade. Ficarei satisfeita se eles conseguirem convencê-los a fazer parte do clube, ou se não for esse o caso, que eles não revelem o… Preço da entrada.” A voz de Ymir diminuiu no final da frase, e Historia sabia muito bem o motivo disso. Era no mínimo irônico o modo como ela falava, mas a loira devia admitir que o pagamento com um segredo como forma de jurar fidelidade era algo criativo e até mesmo interessante. Nesse ponto, ela devia dar créditos para a moça.
“Não muda que você devia fazer mais amigos.” Ela comentou, e mesmo uma frase como essa não foi capaz de fazer Ymir deixar de sorrir, virando-se para ela e olhando-a fundo em seus olhos azuis antes de passar o braço em seu ombro, aproximando-a de si em um abraço amigável e que fez o coração da loira acelerar pelo contato repentino.
“Eu não preciso de mais amigos. Eu já tenho você.” Aquela resposta inesperada fez com que a jovem corasse bastante e passasse a olhar para os lados, sem saber bem como revidar aquilo de uma forma que parecesse amigável, e não como se ela fosse uma garota totalmente apaixonada pela melhor amiga, e felizmente ela encontrou a solução poucos metros adiante.
“Y-Ymir… Olha, Sasha e Connie estão sozinhos.” Ela disse, apontando para a dupla que estava ali, conversando, e a morena foi rápida em notar e também em puxar a garota junto com ela até onde ambos se encontravam.
“Achava que com toda essa simpatia vocês já tinham colegas de grupo.” A mais alta falou, já largando rapidamente da mão de Historia quando elas chegaram perto de Sasha e Connie, falando daquele jeito descabido e meio grosso de sempre, tão perfeitamente natural dela.
“Falou a Miss Simpatia. Não, não temos. Quero dizer, temos um ao outro…” Connie respondeu, olhando primeiro para Ymir e depois para Sasha, e a garota concordou brevemente com a cabeça quando este fez contato visual com ela, passando a olhar para a mais alta dali diretamente nos olhos, num sinal de confiança e respeito que apenas a morena sabia a razão — e que por isso ela também respeitava tanto a menina do interior quanto o rapaz careca ali, apesar de agir publicamente como se não fizesse isso.
“Sabe, acho que podemos fazer o trabalho juntos. Já que somos duas duplas sem par e tudo o mais. Nossas notas podem não ser das melhores, mas vamos nos esforçar, certo, Connie?” Sasha sugeriu, num plano que todos os quatro ali poderiam seguir, e que nenhum dos presentes resolveu discordar.
“Ah, com certeza! Com um trabalho importante desse não tem como deixar de lado.” O único garoto ali falou, concordando com o que a amiga tinha dito e estando de fato disposto a se esforçar no trabalho, pois precisava de uma nota boa — não apenas por ele, mas também por Prim. Sim, se ele conseguisse uma boa nota, ele tinha certeza que Prim ficaria muito orgulhosa dele, e Connie queria deixá-la feliz assim…
“Então está decidido. Na verdade eu acho que a única aqui com notas que podem ser consideradas decentes é a Christa linda, mas acho que isso não é problema… Né?” A fala de Ymir acabou interrompendo os pensamentos do rapaz careca, e fez com que Historia acabasse corando mais um pouco novamente — afinal, Ymir Adler, de todas as pessoas, a estava elogiando na cara dura e publicamente -, rindo meio tímida antes de respondê-la.
“Não, claro que não. Já que vocês estão tão dispostos a trabalhar, eu não vejo problema em ficar com vocês, até porque vocês são meus amigos independente das notas…” O que ela disse fez com que a sardenta apenas sorrisse mais, agarrando-a num abraço amigável — mas que durou mais tempo do que o que poderia ser considerado amigável de fato, bagunçando um pouco o seu cabelo enquanto Sasha e Connie riam da situação, aparentemente sem se darem conta do que estava acontecendo ali.
Enquanto que o que ela tinha dito era mesmo verdade — Historia não se importava em trabalhar com outros três colegas com desempenho escolar mais baixo do que ela, pois sabia que eles não iriam jogar todas as responsabilidades em cima dela -, ela não pode deixar de ficar um pouquinho ansiosa, e não era por causa da nota.
Era por causa de Ymir. Ela passaria as próximas semanas trabalhando com a amiga e precisaria se controlar bastante para poder suportar isso sem acabar deixando claro que gostava dela… Talvez até demais.
Connie deu um bocejo, sentindo as pálpebras pesarem ao piscar. Esse era o efeito que duas aulas de Erd no primeiro horário e uma noite não dormida no trabalho causavam em uma pessoa, efeito que duas aulas de Levi e o trabalho em grupo de Petra não conseguiram dissipar. Normalmente, no horário atual ele estaria chegando em casa para hibernar até o período de visitação no hospital começar; no entanto, tinha combinado com Reiner para cumprir a ajuda deles hoje mesmo, e portanto tentava não dormir naquele banco ao esperar o loiro voltar do almoço.
A quadra era uma das várias que se encontravam à disposição dos estudantes do Freedom High. As de nível profissional eram compreensivelmente ocupadas pelos times de competição do colégio, restando aos alunos comuns as de cimento ou lajotas para passar o tempo no intervalo ou depois das aulas. Connie tinha optado pela última das três quadras livres; a primeira estava muito lotada de crianças esperando pelos pais, e a segunda havia sido ocupada por um grupo de veteranos.
Estava descansando os olhos — por alguns poucos minutos, garantiu a si mesmo. Só uns minutinhos — quando sentiu alguém chamá-lo e uma mão pesada em seu ombro. "Ei Connie! Desculpe a demora." Reiner tinha chegado, finalmente. O rapaz mais alto parecia afobado, com o rosto vermelho pela corrida, mas não estava ofegante. O condicionamento físico do futebol garantia isso.
"Tudo bem, cara. Eu nem vi o tempo passar." ...Porque estava quase dormindo, mas você não precisa saber disso, completou Connie em pensamento. Esforçou-se para suprimir um bocejo.
Reiner continuou a falar, e o rapaz mais baixo fez certo esforço para se manter atento ao que seu colega dizia. "Eu pensei em te esperar no refeitório, mas você foi embora tão depressa depois do almoço."
"Ah, eu só queria garantir o lugar. E foi bom ter feito isso, as outras duas quadras já foram ocupadas."
Dando uma olhada ao redor e confirmando o que o colega dizia, o loiro assentiu rapidamente. Costumava sair do almoço direto para o treino do futebol ou para a musculação, raramente vindo para aquela parte do colégio. Por isso mesmo, se perguntava o que estariam fazendo ali. "Falando nisso, o que planejou? Confesso que a escolha de lugar me deixou curioso."
Connie se ergueu do banco, aproveitando para se espreguiçar enquanto explicava seu plano. "Bom, a Ymir me deu uma breve explicação do que você precisa, e eu também mandei umas mensagens pro Armin ontem. Ele me disse que vocês da última vez jogaram xadrez."
"Sim, é verdade.” O mais alto confirmou, para então perguntar, com uma leve hesitação que o outro julgou ter imaginado: “Ele falou alguma coisa dos jogos?"
"O quê? Ah. Não."
Reiner agradeceu mentalmente a Armin Arlert por essa gentileza, visto que seu desempenho no xadrez tinha sido pouco menos que desastroso e ele não gostaria que essa informação se tornasse pública. Fez um lembrete mental de pagar esse favor algum dia, enquanto mantinha sua atenção nas palavras de Connie e observava o garoto procurar na mochila por alguma coisa.
"Eu achei legal a ideia dele. Realmente ajuda na concentração e coisa e tal. O único problema é que não sei jogar xadrez." O careca admitiu, dando de ombros. Nunca fora muito fã de jogos de estratégia para começar, preferindo jogos de tiro ou em equipe para desestressar das aflições do dia a dia. "Então escolhi outra coisa que você talvez esteja mais acostumado."
Os instintos de futebol do loiro o fizeram reagir rapidamente, e ele conseguiu interceptar a bola lançada em sua direção. Era maior e mais pesada do que a que estava acostumado, o couro rugoso e áspero cheio de imperfeições sob seus dedos. Reconheceu imediatamente o que era e para que servia. "Basquete?"
"Sim.” O outro garoto assentiu, os braços cruzados na frente do peito e um sorriso confiante no rosto. “Tem a mesma coisa de foco e decisão do xadrez, mas é mais físico e rápido. E tem uma bola, como no futebol. Não é uma ideia legal?"
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!“Com certeza.” O mais alto concordou, aprovando aquela sugestão. Em sua última sessão com Armin, ele se focara puramente no foco intelectual, na capacidade de raciocínio. Aqui, ele iria treinar seus reflexos e capacidade de improvisação e análise, que poderiam lhe ser muito úteis nos campos, quando estivesse suficientemente recuperado para voltar aos treinos. O treinador Alexander tinha sido bastante compreensivo sobre seu pedido de licença, e dissera para tomar o tempo que precisasse. E era esse tempo que ele queria fazer valer a pena.
“Eu sei que sou um gênio, obrigado. Sabe jogar?” Connie inquiriu, seguindo a bola com o olhar enquanto Reiner dava algumas quicadas desajeitadas de teste.
"Hmm, faz um bom tempo desde a última vez que joguei basquete.” Reiner rememorou, mais para si mesmo do que para o colega. “Acho que foi com o..."
A voz do loiro foi subitamente interrompida quando um bolo se formou em sua garganta, um bolo de frases não ditas, memórias corrompidas e sentimentos guardados. Era o que normalmente acontecia quando se lembrava de Berrick. Fosse nos campos onde jogavam juntos, fosse ao ver sua carteira vazia na sala – o amigo costumava sentar ao lado de Ymir, ironicamente. Dizia, com um sorriso malicioso no rosto moreno, que conseguia ver melhor o que queria daquela posição. Ele era alto o suficiente para conseguir copiar a matéria sem ter que se levantar da cadeira, mas isso não o impedira de pular nas costas de Reiner para tirar a bola de suas mãos, e ele ainda se lembrava de como tinha acabado embolados no chão e da expressão em seus rostos quando a bola escapulira por entre seus dedos e fora parar aos pés de Annie...
A súbita ausência não tinha sido somente em suas memórias, mas também na realidade. Precisou piscar algumas vezes para perceber que a bola de basquete que segurava tinha sumido. Alguns passos a distância, Connie a quicava distraidamente, mas eu olhar estava alerta quando encontrou o de Reiner e sorriu.
"Ei!! Já começou??" O loiro inquiriu, sentindo que também estava sorrindo ao se aproximar, calculando uma forma de recuperar a bola roubada.
"Fica esperto, Reiner! Na rua não tem apito de home run!"
"...Home run é no beisebol, Connie."
"Eu queria saber se você tava prestando atenção. Agora... Venha pegar, se puder!"
Connie era rápido, não apenas pelas lições de atletismo como também por ter jogado muito basquete daquele jeito, numa quadra perto de sua casa. Conseguiu manter a vantagem no começo, usando sua agilidade para se esquivar das tentativas de Reiner de roubá-lo, focando na confusão do adversário e em sua rapidez para marcar a primeira cesta do jogo, enterrando a bola com um salto perfeito. Isso o deixou mais confiante – queria que Ryuunosuke e aquele garoto loiro das tatuagens pudessem ver aquela enterrada! – mas, quando o jogo recomeçou, pôde ver que não seria tão fácil assim dali em diante. Reiner parecia ter se acostumado com sua estratégia, acompanhando seus movimentos, não se deixando enganar por suas fintas e por fim interceptando um arremesso de três pontos direto na área.
"Não tão rápido, Connie. Você me pegou desprevenido uma vez, mas um golpe não funciona duas vezes contra um Cavaleiro." Declarou o garoto mais alto, os olhos na bola que quicava metodicamente em suas mãos. Tinha visto o suficiente para perceber o estilo de jogo de Connie, e agora já tinha em sua mente algumas ideias de como enfrenta-lo. Também notou que estava se divertindo muito – a endorfina do exercício e seu desempenho, melhor do que no xadrez com Armin, com certeza tendo papel nisso. Podia sentir a adrenalina pulsando em suas veias e a sensação de desafio que tanto sentira falta durante aqueles meses, e as recebeu de volta como velhas amigas que eram.
"Hehe... Você até que é veloz pra um cara tão parrudo." O rapaz careca estava surpreso como ele mesmo suava e ofegava como se tivesse corrido uma pista inteira dezenas de vezes, e seu colega loiro não parecia ter sido nem um pouco afetado pelo jogo até agora.
"No futebol, é preciso ser rápido."
"E atento." E então subitamente Connie estava do seu lado, a mão estendida para a bola que agora quicava em sua mão direita, não na esquerda, quando o loiro girou o corpo para disparar em direção ao garrafão, a mira livre para o primeiro arremesso. Perdeu alguns segundos preciosos parando e mirando para então lançar a bola... Que foi interceptada pelo garoto careca num salto. Em instantes, estavam lutando pela posse do objeto, e após alguns minutos de disputa Reiner o tinha novamente em mãos. Dessa vez não parou para olhar antes de confiar em seu instinto para lançar o projétil na direção do garrafão, levantando o olhar a tempo de vê-lo entrar na cesta.
"Isso aí!!! Três pontos!!" Comemorou o rapaz mais alto, socando o ar enquanto o outro o observava com um sorriso cansado, aproveitando a pausa pelo ponto para recuperar o fôlego. Correr daquela forma por muito tempo era realmente cansativo – o garoto do atletismo era velocista, não maratonista. Sua resistência era muito menor do que a do loiro, como podia ver agora.
"Vamos usar o sistema de contagem normal mesmo?" Perguntou Connie, assim que se viu capaz de fala novamente.
"Por que não usar?"
"Sei lá, pro jogo andar mais rápido e ninguém perder a conta?"
"Certo. Um ponto por cesta então. O placar está um a um." Reiner assentiu. Parecia justo e mais simples daquela forma.
"Com desempate agora!"
O rapaz baixinho se pôs em movimento novamente, alcançando a bola caída no chão antes do colega. Estava perto o suficiente da cesta para arriscar mais um ponto, mas o loiro percebeu a estratégia com facilidade, postando-se entre o estudante careca e seu objetivo. Por um instante, Connie se deixou ficar impressionado pela diferença de altura entre eles. Era quase intimidador, se visto de fora, mas ele mesmo não se sentia nem um pouco assustado com aquela situação. Reiner parecia um daqueles ursos grandes e fortes que não conseguem machucar nem uma mosca. Apesar do contato limitado que tinham tido até agora – a maior parte graças aos horários diferentes, mas já tinham conversado algumas vezes antes – o rapaz careca conseguia perceber similaridades entre os dois. O jeito protetor do loiro para com seus melhores amigos não era diferente de como ele próprio se esforçava pela mãe. O jeito brincalhão e simpático que ambos usavam para mascarar seus problemas também estava ali. E havia aquele indício nos olhos de Reiner, uma sombra de certa forma, que o outro garoto já reconhecia bem; tinha visto tantas vezes no espelho.
"Olho no jogo, Reiner, olho no jogo. Getcha head in the game." Disse, tanto para trazer a si mesmo de volta para a realidade quanto para dissuadir qualquer tentativa ofensiva do adversário.
"O quê?" Retrucou o loiro, confuso, mas sem tirar os olhos da bola que quicava lentamente a sua frente. Fazia certo tempo desde que se dedicara daquela forma. Passara a maior parte da sessão de xadrez com Armin tentando aprender as regras do jogo, e depois assistindo seu rei ser capturado nas estratégias intricadas do garoto loiro. Imaginava que as dicas do loiro baixinho, a endorfina do exercício e o esforço de Connie para deixar o jogo competitivo se combinassem para dar a Reiner um raro momento de paz, que só costumava ter na companhia de Bertholdt ou Annie. Se sentia bem. E oh, como ele sentia falta de se sentir bem.
“Coach said to fake right and break left… Watch out for the pick. And keep an eye on defense...” Cantou o garoto careca, da melhor forma que podia, se sentindo um pouco ridículo por ainda lembrar da letra daquela música mesmo depois de anos de ter visto o filme. Tinha sido sua favorita quando criança, e, mesmo agora tendo vergonha daquela época, gostava dela. Ficou realmente surpreso, no entanto, quando Reiner respondeu, numa voz alta, clara e incrível.
“…Gotta run the give and go and take the ball to the hole. But don't be afraid to shoot the outside J." O rapaz mais alto quase sorriu internamente ao lembrar de como ainda sabia as músicas daquele filme todas de cor. Costumava gravar músicas ruins como aquelas e enviar por mensagem de voz para os amigos, por brincadeira, até eles começarem a lhe fazer pedidos e elogiar seu talento para o canto. Mesmo vindo de pessoas próximas e que sabia serem sinceras, como Bertholdt e Annie, aquele tipo de comentário ainda o deixava encabulado. A música também o lembrava de outra pessoa, o tipo de pessoa que aparecia de nove da noite em sua casa com dois sacos de pipoca amanteigada, um sorriso animador e um filme ruim depois de terem perdido a final do campeonato do ano anterior.
“Just keep ya head in the game.” Tentou Connie, agora com vergonha de como sua própria voz soava esquisita e desafinada em seus ouvidos. Aquele Clube realmente estava revelando coisas que ele não imaginara. Primeiro Jean sabia truques de sombras, Historia era uma criatura das trevas, Marco era um fã de zumbis e agora Reiner Braun, estrela do time de futebol, parecia poder cantar no maldito American Idol. E onde diabos Reiner tinha aprendido a cantar daquele jeito? E quanto eles cobravam?
“Just keep ya head in the game!” Continuou o outro rapaz, quase como se incentivasse o colega a acompanhá-lo.
“U gotta! Get'cha get'cha head in the game! We gotta get our, get our, get our, get our head in the game!”
A voz de Berrick era suave e rouca. Ele não se importava que outros o ouvissem, nem mesmo quando errava a letra ou saía do tom. Era tão confiante, sempre, em qualquer situação. Nunca deixava de dar o melhor de si, mesmo e detestava perder. Mesmo que fosse para Reiner no basquete ou no treinamento, o moreno sempre reclamava de algum lance polêmico, alguma regra quebrada, ainda que normalmente o fizesse por brincadeira. No fim, era tudo esquecido com um sorriso, uma piada e alguns tapinhas nas costas. Berrick não conseguia ficar com raiva do melhor amigo por muito tempo, e o mesmo também acontecia com Reiner.
Apesar de ser mais alto que o loiro, ele também era mais veloz, e muito mais gracioso em seus movimentos. Não era por nada que além do futebol também fizesse patinação – aliás, fora assim que lhes apresentara Annie. Ele parecia quase voar em seus patins, como se não pesasse nada, como se fosse feito para deslizar e não para andar como mortais comuns. Mesmo dentro do campo, ele sempre parecia se esquivar por entre a defesa inimiga e atravessar até o lado do adversário como um míssil teleguiado. Um raio. Um Titã dos campos, como dizia o treinador Alexander com orgulho. A facilidade com que se equilibrava, com que trocava o peso do corpo de um pé para o outro era algo que Reiner invejava profundamente. Sempre se achara um pouco desajeitado em seus movimentos, muito bruto, muito agressivo, e isso antes de começar a ter os problemas que tinha agora com sua força. A capacidade que Berrick tinha de misturar agilidade, precisão e também força era quase mágica aos olhos do loiro. Quanto a isso, Berrick apenas respondia com uma risada, e dizia querer ser forte o suficiente pra carregar todas aquelas caixas sem bater a cabeça no teto, como Reiner conseguia.
A bola corria, e os tênis escorregavam no chão fazendo um barulho alto e rasgado. Eles arrancavam, desviavam, fintavam, jogavam, xingavam, riam, provocavam. Arremessavam. Dois a um. Três a um. Três a dois. Acirrado, mas divertido. Respeitoso. Era como antes, igualzinho a antes. Bert não era bom em esportes, então apenas torcia; e Annie apenas levantava os olhos gelados do livro e os julgava antes de fazer uma cesta do lugar onde estava sentada e voltar a ler. Mas Berrick… Berrick gostava da sensação quase tanto quanto ele. Era como ele. Era alguém que o entendia.
Era quase como se conseguisse vê-lo de novo.
Tudo aconteceu rápido, e Reiner só ouviu o grito e alguma coisa resistente se chocando com seu cotovelo quando girou o corpo – seus instintos de jogador de futebol logo identificaram ser osso. Quando se virou viu um garoto careca que segurava o peito, o ar subitamente expulso de seus pulmões pela trombada que o levara ao chão. Demorou alguns segundos para que o rapaz mais alto entendesse direito o que acontecera, o medo se abatendo sobre ele aos poucos, como um líquido viscoso que se espalhava frio por dentro, congelando-o no lugar. E não era apenas medo normal, era seu maior medo. O medo que tanto o perseguira em seus pesadelos nos últimos meses.
Acontecera de novo. Ele se desconcentrara, e acontecera de novo. Desconcentrara por estar de novo perdido naqueles malditos pensamentos. Berrick conseguiria mudar o movimento em alta velocidade, mas Connie não. Connie não sabia. Connie não era Berrick. E Reiner, como sempre, acabava machucando as pessoas.
“Você não consegue se controlar, seu monstro?” Eram as palavras que aquela parte cruel de sua mente sussurrou em seus ouvidos, e ele trincou os dentes antes de afastar os pensamentos. Havia algo mais importante para lidar agora do que seu senso de autoflagelação.
"Connie!! Você está bem?? Me desculpe, por favor, não foi minha intenção..." O loiro se atrapalhou com as palavras ao correr para acudir o colega, sentindo as mãos tremerem quando estendeu uma delas para ajudá-lo a se levantar. Fez uma careta ao sentir o peso de Connie no cotovelo machucado quando o puxou – o braço ainda doía. Externamente, o outro estudante parecia estar bem, se movimentava direito quando tirou a sujeira das roupas, mas não era isso que o preocupava. Reiner lembrava bem de uma vez, nos treinos antes do campeonato do ano anterior, em que um colega havia levado uma trombada daquelas, se levantado, ido pra casa, e à noite terminara no hospital, lutando pela vida graças a uma ruptura de uma artéria que não deixara sinais visíveis. E se o mesmo acabasse acontecendo agora? E se Connie morresse por sua culpa?
"Ai, tá tudo bem, bro. Eu só pisei virado." Connie respondeu com um sorriso fraco, ainda com a mão no peito. Tinha tomado súbita noção da existência de uma de suas costelas, como se esta tivesse sido tatuada em cima de seu coração. Tossiu um pouco e aceitou a mão que o colega lhe oferecia como apoio, tomando consciência de que sua bunda também doía horrivelmente quando se levantou, uma consequência compreensível mas nada agradável de ter caído bem em cima dela. Espanou a areia que se pregara em suas roupas, vinda de um parque próximo, e ia fazer uma piada a esse respeito quando levantou o olhar e viu que Reiner estava cabisbaixo, o lábio tremendo e a voz hesitante quando finalmente falou:
"Desculpe, a culpa é minha. Eu posso pagar o hospital se você precisar. Posso até lhe dar uma carona até lá, se quiser. É só dizer, eu ajudo. ”
"Hospital? Que é isso, cara, não me mata com antecedência assim não. Tá tudo bem, Reiner, é sério. Nem tá doendo muito. Foi um acidente." O rapaz mais baixo explicou, não sem gentileza. Ainda estava um pouco sem ar pelo esforço e pela pancada, e o lugar atingido doía feito o diabo, mas não queria colocar ainda mais culpa no que parecia ser um fardo considerável que o colega carregava. Não sabia ao certo de onde o loiro tirava tanta culpa, e imaginava ser algo muito pessoal para comentar, então apenas preferia não piorar a situação. Ao menos tinha sido sincero ao dizer que realmente era só um acidente. O tipo de coisa que acontece entre amigos durante disputas, e, jogando na rua já há alguns anos, o tipo de coisa que Connie já estava acostumado.
“Esse tipo de coisa é séria, Connie. Pode até parecer que tá tudo bem agora, mas você ficou sabendo do caso daquele garoto ano passado que quase morreu por uma pancada dessas? E se você ficar com um problema cardíaco por isso, eu...”
"Pare com isso."
"O quê?"
"Essa preocupação excessiva. Esse olhar de peixe morto e culpado. Pare. Ponha na sua cabeça que a culpa. Não. É. Sua! Foi um acidente! Podia acontecer com qualquer pessoa! E eu, eu não! Morri! Estou aqui vivinho, tá vendo? "
"Mas eu..."
"Mas nada. É só isso e pronto."
Ambos ficaram em silêncio, sentados lado a lado, cada um com seus pensamentos. Era uma situação bastante desconfortável para os dois jovens, ainda que tentassem entender os motivos um do outro. Connie não compreendia o que poderia pesar tanto nos ombros de Reiner para que o rapaz seguro de sempre fosse reduzido a uma casca quebrada daquela forma, e tão rápido. Reiner se perguntava quanto de sua sanidade ainda lhe restava, com os dois pesos que precisava carregar – o do passado, e o de sempre, de si mesmo. Comparado a esses pesos, os que ensinara Armin a levantar eram leves como plumas.
Connie hesitou por alguns instantes, abrindo e fechando a boca algumas vezes antes de reunir coragem suficiente começar. "Olha, Reiner. Tem uma coisa que minha mãe me disse algumas vezes. Ela disse que as pessoas fazem coisas por vários motivos. Coisas boas por motivos ruins, coisas ruins por motivos bons. E por isso mesmo, eu faria um dia coisas que eu iria me arrepender de ter feito. Quando isso acontecesse, ela disse, eu deveria enfrentar as consequências do que eu fiz de frente. Fugir de um problema não faz com que ele suma, ela disse."
"A sua mãe é uma senhora muito sábia. Esse é um ótimo conselho." Reiner não entendia bem o que seu colega queria dizer com aquele conselho de vida, mas o apreciou de qualquer forma. Além do mais, o carinho que Connie tinha pela mãe estava claro naquela fala.
"Eu também acho. E estou falando com você por achar que também precisa dele. Isso não é só por acidentes ou distrações, não é Reiner? Tem algo te prendendo. Algo te fazendo culpado." O rapaz careca prosseguiu, pegando o outro de surpresa. O loiro baixou o olhar, se sentindo desconfortável, e não ousou negar ou confirmar o palpite do garoto mais baixo. Por dentro, no entanto, conseguia sentir seu coração palpitar dolorosamente com a insegurança, as dúvidas que enchiam sua cabeça. Estava tão claro assim? Sua culpa era assim tão visível? Se fosse assim, até quando descobrirem a verdade sobre aquilo? Ou sobre seu segredo?
Connie percebeu quando Reiner se afastou inconscientemente dele, e pôs a mão de forma desajeitada no ombro do colega para tranquiliza-lo. "Não se preocupe, eu não vou te pressionar sobre o que é, seja lá o que for. É só que... Você não pode deixar isso controlar a sua vida, cara. Tem que lutar de volta. O Clube, Armin ou mesmo eu, ninguém pode tirar sua culpa, ou fazer você esquecer do que quer que seja..."
"Eu não quero me esquecer. Longe disso." O rapaz loiro sussurrou, sua voz tão baixa que quase não foi ouvido.
"Você não precisa esquecer se não quiser. Só precisa continuar vivendo, tá? Não deixar esse tipo de coisa te abater. Se ficar pensando em todos os e ses, você não vai conseguir viver o presente nunca. ” O garoto mais baixo continuou,
"Acho que você tem razão...” O rapaz alto suspirou, com cansaço claro em sua voz. “Eu sei que isso vai acabar me matando. É por isso que vim pra cá. Não aguento mais viver dessa forma. ” Acabou confessando ao colega, coisa que não gostava de fazer nem mesmo a Annie ou Bertholdt. Sentiu a mão de Connie apertar seu ombro com um pouco mais de força, num gesto de compreensão. Realmente, o garoto compreendia bem como seu colega se sentia. Compreendia bem até demais.
“E creio que você também não, não é? Sem ofensas, mas você parece entender bem demais a situação. ”
"Eu..." Connie hesitou, visivelmente constrangido. Não imaginava que estivesse sendo tão óbvio. Mas o fato é que, sim, ele conhecia bem a culpa que Reiner carregava. Também tinha seus próprios demônios em cima de seu ombro, o próprio peso de suas mentiras e de uma vida da qual queria sair, e que ameaçava devorá-lo a qualquer passo em falso que desse.
Reiner deu uma tapinha amigável nas costas do outro, tomando cuidado com a força dessa vez. "Relaxe. Também não vou te pressionar. Estamos num Clube de Segredos por um motivo, e por isso mesmo você sabe que não posso falar nada e que não posso perguntar nada a você. Mas eu agradeço o apoio e a confiança. É muito importante."
"Qué isso. Pode contar comigo e com os outros. Pelo menos eu acredito que sim. ” O estudante careca ergueu o punho numa saudação, que foi correspondida pelo loiro.
"Com certeza. Você pode contar comigo também. É até triste pensar que precisamos do Clube pra perceber que os outros precisavam da nossa ajuda... Me faz pensar no que os nossos outros colegas podem estar escondendo."
"Tipo uma voz como a sua?"
"Eu nem canto tão bem assim..."
"E eu sou a Carmen Miranda! Você canta bem pra caralho, Reiner! E sem aulas??"
"Sem aulas."
"...Me ensina?"
"Talvez... Na próxima sessão. ”
“Você é um cara cruel, Reiner Braun. “
“Pobre coração infeliz. ”
Enquanto Reiner e Connie jogavam basquete, Bertholdt e Marco saíram da escola, decididos a irem para a casa deste primeiro. Bertholdt não morava muito longe do Free, tanto é que voltar para casa a pé era algo diário para ele, e por isso o garoto alto sabia o caminho instintivamente. No caminho, eles apenas conversaram rapidamente sobre seus grupos para o trabalho da professora Petra — que, trocadilhos ruins à parte, seria mesmo trabalhoso -, trocando pequenas ideias para os seus temas, e em alguns minutos acabaram chegando na residência da família Hoover.
Marco teve que parar por um tempo para admirar a casa do colega. Não era uma mansão, mas com certeza era bem grande, com primeiro andar, um belo jardim — maior e mais decorado que o dele, até — e toda pintada de branco e azul, com varandas e tudo o que uma boa casa tinha direito. Parecia ser com certeza bastante aconchegante, e Bertholdt percebeu que o jovem de sardas parecia um tanto estupefato com a sua casa, o que o deixou um tanto envergonhado.
“Huh… Vamos entrar?” Bertholdt perguntou, com as maçãs do rosto já um tanto vermelhas, e Marco então notou que seu comportamento tinha deixado o outro encabulado, por mais que essa fosse uma ocorrência comum quando se tratava dele.
“Claro, claro! Me desculpe, é só que sua casa é muito bonita, Bertholdt, eu não conseguia parar de olhar. Deve ser muito bom morar aqui.” O anjinho de sardas respondeu educado e sincero, andando junto com o outro até a porta da frente, vendo Bertholdt abrí-la com a sua cópia da chave da casa e entrando junto com ele.
“Ah, é sim. Pode ficar à vontade aqui, aliás. Vamos ficar na sala hoje.” Bertholdt respondeu, fechando a porta e se virando para Marco depois, o vendo encantado e boquiaberto com a sala. A casa dos Hoover era bastante modesta, mas bem decorada, e na própria sala ele já podia ver um grande sofá e poltronas juntos na frente de uma lareira e um belo tapete, além de quadros de animais nas paredes, belas almofadas de veludo e até mesmo um castiçal no teto.
“Caramba, é ainda mais bonita por dentro! Seu quarto deve ser incrível também! Tudo parece tão grande aqui de dentro, eu aposto que você deve ter até mesmo uma banheira, não é?” O garoto afirmou, sentando-se no sofá grande com um sorriso largo no rosto. Bertholdt acabou dando um sorrisinho também, até mesmo numa espécie de reação instintiva, e coçou o nariz, envergonhado mas lisongeado ao mesmo tempo.
“Tenho mesmo, mas eu só tomo banho nela quando posso relaxar. Eu gosto de ler nela, então se eu fizer isso em dias normais acabo perdendo a hora. Mas bem, eu soube que da última vez a Sasha te ensinou alguns truques culinários, não foi?” Ele falou, mudando de assunto para o que interessava — no caso em questão, as ajudas para o clube da Ymir. Ele mesmo nem sabia aonde estava com a cabeça quando aceitou fazer parte dele, mas até agora ele não podia dizer que estava arrependido — e se com Jean ele tivera uma boa experiência, então com Marco isso também era possível, ainda mais por ele ser um garoto bem calmo e tranquilo. Este, aliás, apenas fez que sim com a cabeça quanto à sua indagação da última vez que fora ajudado, e Bertholdt achou aquilo até mesmo bem bonitinho.
“Eu gosto muito de fazer sobremesas, mas eu decidi que seria melhor a gente fazer algo diferente hoje. Me diz, você já jogou RPG de mesa?” Perguntou, e ele notou uma certa familiaridade na expressão de Marco, mas também um pouco de confusão.
“Já ouvi falar bastante, mas nunca joguei… Mas espera, não seria necessário um grupo? Só tem nós dois aqui.” Ele respondeu, e Bertholdt deu um risinho, porque ele já sabia muito bem como resolver aquele suposto problema apontado pelo garoto sardento.
“Eu decidi que você deveria viver uma aventura solo hoje, Marco. Não se preocupe, eu já mestrei outros jogos antes, e também já sei qual será o cenário. Será um apocalipse zumbi, porque eu me lembro da nossa conversa no clube na primeira reunião… E é simples, eu dou a situação, você responde com o que o seu personagem faz, e eu narro o que acontece. E quanto a ações baseadas em sorte… Eu espero que os dados estejam ao seu lado. Eu vou pegar as coisas que precisamos no meu quarto pra gente poder começar, tudo bem? Eu volto rapidinho.” O mais alto explicou resumidamente, antes de se dar licença para ir até o quarto, onde pegara tudo o que precisava — dados, papel para a ficha do personagem de Marco, caneta, lápis e borracha — e voltou para a sala, agora descalço e sem a mochila, que tinham sido deixadas no quarto. Em casa, Bertholdt ficava bem mais à vontade, especialmente sozinho, como todo bom adolescente, e ele queria que Marco ficasse assim também — o que logo aconteceu enquanto o anfitrião explicava mais um pouco e dava as primeiras instruções antes deles começarem a jogar.
Marco aprendeu que para se jogar RPG de mesa era necessário ser mesmo bem criativo e ter uma grande imaginação — coisas estas que o garoto de sardas descobriu que Bertholdt tinha de sobra. Seu personagem era um assassino de aluguel, com uma esposa e uma filha perdidas, e grande parte da aventura dele se tratava dessa busca pela família que literalmente morava do outro lado da cidade e que deveria estar lá, mas não sem situações perigosas e diversas escolhas que desafiavam as suas morais, que Bertholdt — ou melhor, o mestre do jogo — lançava pra ele, tão natural como se já tivesse tudo planejado.
Bertholdt era um bom mestre, mas também não pegava leve o tempo todo — muitas vezes Marco se vira em situações complicadas, e se não fossem por alguns lances de sorte nos dados ele tinha certeza de que acabaria bem pior no final daquela tarde, com mais ferimentos e menos suprimentos do que os que tinha, e ele ainda nem sequer tinha chegado na metade do caminho para a sua casa, se bem que ele sentia que Bertholdt não planejava que a mulher e filha do seu personagem estivessem lá. Em compensação, o garoto mais alto o ajudava de vez em quando usando de métodos de dentro do jogo, já que ele não queria que Marco perdesse tudo de imediato, e também porque aquele estava sendo o seu primeiro contato naquele mundo novo — então o moreno estava mantendo a dificuldade da aventura bastante balanceada, ao menos o máximo que ele conseguia.
“Nossa, eu não sabia que o tempo iria passar tão rápido assim! Mas eu ainda não entendi, Bertholdt, qual o motivo de você ter jogado isso comigo?” Marco teve que perguntar quando estavam chegando no final da tarde, curioso, pouco antes da hora de ir embora para que pudesse chegar em sua própria casa para jantar e pelo menos começar a fazer as pesquisas para o trabalho, levantando-se do chão da sala — eles tinham aproveitado para se sentarem no tapete naquele meio tempo — e se espreguiçando, pegando sua mochila.
“RPGs ajudam a desenvolver não apenas a sua criatividade, mas também a sua capacidade de raciocínio e tomada de decisões. A Ymir me disse que você não via nenhuma qualidade excepcional em si mesmo, então eu achei que seria bom te apresentar uma delas. No caso aqui, o seu espírito de liderança e como você tem um bom raciocínio lógico mesmo para as situações mais absurdas. Bom, pelo menos essa é uma das qualidades que eu vejo em você, mas eu também acho que você tem muitas outras! Tente não se esquecer disso mesmo nessas situações, certo? Eu sei que não somos amigos muito íntimos, mas estudamos juntos faz anos, e eu sempre admirei muito esse seu espírito de liderança e seu carisma, e eu espero que o jogo tenha te ajudado a perceber isso.” Bertholdt explicou, e ele mesmo corou um pouco porque achara que tinha falado demais, mas ele tentara resumir tudo o máximo possível. Ao menos Marco não se incomodou, e na verdade ele pareceu ter ficado até mesmo surpreso pelo outro garoto ter encontrado uma explicação tão impressionante para justificar algo que a princípio parecia ser tão simples.
“Realmente, eu nunca pensei por esse lado… Mas você também é incrível, Bertholdt! Você é muito criativo, e foi realmente um prazer jogar com você. E bem, você fala como se apenas eu tivesse qualidades, e você sabe narrar muito bem uma história e explicar coisas pras pessoas! Com certeza é um excelente mestre. Acho que se você perder mais essa sua timidez, você vai ser capaz de falar em público tão bem quanto hoje aqui comigo, e vai ser capaz de muitas outras coisas também." O anjinho de sardas respondeu, com um enorme sorriso no rosto, tanto que Bertholdt até mesmo ficou com as bochechas vermelhas e com o rosto já ficando um pouco suado, pois ele não era mesmo acostumado a receber elogios de outras pessoas daquela forma — e era curioso notar que o que Marco falou foi uma espécie de reforço sobre o que Jean lhe dissera no outro dia, o que o fazia pensar mais se aquilo tudo era mesmo verdade.
“O-obrigado, Marco..." Aquela foi a única coisa que o mais alto foi capaz de responder, e Marco deu-lhe um risinho simpático, como era digno de sua pessoa. Bertholdt estava mesmo surpreso com o modo que as coisas andavam naquele clube, e no bom sentido. Ser elogiado era algo novo, pelo menos quando os elogios vinham de outras pessoas que não os seus pais, Reiner, Annie e alguns professores, e enquanto que ele ficava bem envergonhado, não era como se ele também não ficasse feliz — mas um nó também se formava em sua garganta quando ele se ponderava se aquelas palavras ainda valeriam para ele caso o mundo descobrisse o seu segredo.
Bertholdt não era um bom garoto. Ao menos, não por completo. Ele não achava que merecia mesmo tanto apoio e tantas palavras boas de todas aquelas pessoas diferentes. E se um dia tudo acabasse vindo à tona… Ele não receberia mais nada bom. Bertholdt era um mentiroso, e mentirosos como ele não mereciam tanto afeto e compaixão como ele recebia.
Mas não era como se ele pudesse parar de mentir, como se fosse capaz de sair de casa escondido de noite para vandalizar a própria escola. Aquele era seu vício, e era o que ainda o mantinha com um mínimo de coragem e confiança. Mas ao mesmo tempo, também era o que mais o fazia correr o risco de se perder para sempre.
“Obrigado eu digo a você, Bertholdt. Quando vamos poder jogar de novo?” Marco tirou o maior de seus pensamentos com aquela pergunta, e Bertholdt apenas sorriu para ele.
“Podemos marcar qualquer dia que a gente puder.” Falou, escondendo os seus pensamentos com a carinha de inocente — coisa que Bertholdt Hoover definitivamente não era. Ah, se apenas ele soubesse…
Jean se espreguiçou na cadeira, sentindo os músculos das costas doendo por estar muito tempo sentado. Não foi capaz de conter um bocejo logo em seguida. Estudar cansava, ele pensou consigo mesmo, mas esperava que o reforço de hoje e o que Bertholdt lhe ajudara na sessão anterior fossem salvar suas notas daquele semestre.
"Está cansado, Jean?" A voz delicada de Historia Reiss o tirou de seus pensamentos, e ele ergueu os olhos para a garota que sorria gentilmente a seu lado. Era quase intimidador estar na presença da garota mais importante da cidade -quase. A gentileza parecia tão natural a ela. Até o deixava encabulado.
Coçando a cabeça, respondeu com sinceridade. "Um pouco, eu acho. Mesmo com as pausas, sinto que minha cabeça não aguenta mais química."
"Tudo bem. Eu posso separar alguns resumos a fazer e exercícios. Você faz em casa e então me mostra na próxima sessão, ok?" A moça respondeu num tom compreensivo. Como assistente da bibliotecária, não deveria estar batendo papo ali; no entanto, biblioteca estava vazia além deles — conversar não era problemático. Estavam lá há algumas horas já, revisando matéria para as futuras provas, e, sendo sincera, até ela mesma estava um pouco desgastada. Provavelmente por ter ficado trabalhando até tarde na noite anterior, em um projeto novo.
"É muita bondade sua, Historia, mas não posso aceitar isso. Trazer minhas coisas pra você corrigir, quero dizer. Eu que deveria te ajudar na próxima sessão. Se bem que... Posso ser sincero?" Jean acabou soando mais direto do que imaginara, mas deu de ombros. Não gostava de meias-verdades ou eufemismos; o rapaz sempre fora bastante direto sobre seus sentimentos.
A loira levantou as sobrancelhas, surpresa, mas logo recuperou a compostura e o sorriso. "Claro."
"Eu não sei ao certo o que fazer. Quer dizer, você é Historia Reiss. É perfeita, tem uma vida perfeita... O que dá pra fazer numa situação dessas?" O garoto desabafou, suspirando e se largando novamente na cadeira. Estava pensando no que fazer desde que Ymir lhe designara como dupla de sua amiguinha loira, na sexta anterior. No momento, a cara de claro desgosto da vaca sardenta tinha sido divertido; agora, no entanto, estava frustrado. Não achava certo simplesmente receber a ajuda dela, nos termos do clube, sem nada em troca.
Historia já imaginara que seria a isso que o colega se referiria. Jean conseguia ser bastante previsível em certos pontos; usava o coração na manga. A jovem manteve o sorriso, com o treinamento de anos, e respondeu suavemente: "Ninguém é perfeito, Jean. Definitivamente não eu."
"É mesmo?" Ele rebateu, cruzando os braços atrás da cabeça de forma desleixada. "O que você não sabe fazer? Assobiar e chupar cana ao mesmo tempo?"
"Por exemplo. Ou simplesmente ir ao cinema com os amigos, caminhar no parque, ficar sozinha no quarto... Você bem disse. Eu sou Historia Reiss, a princesa de Rose Fields. Preciso ser vigiada o tempo todo. Pela minha... Segurança." Os lábios da loira se comprimiram numa linha dolorosa.
"Isso realmente soa muito desconfortável. Acho que não tinha pensado por esse ângulo." O rapaz se mexeu desconfortavelmente na cadeira.
"Não foi sempre assim, sabe? Quando eu..." Ela hesitou momentaneamente, mas aparentemente o colega de clube não percebeu sua pequena mentira. "Estudava lá fora... Ninguém me conhecia, então eu tive o gostinho de uma vida normal. Solitária, mas normal. Continua solitário agora, mas sinto falta da pouca liberdade que tinha."
Jean assentiu lentamente, compreendendo tanto o que a moça insinuava quanto a ironia apresentada pelas vidas opostas de ambos. Um sorriso amargo surgiu em seu rosto. "Gostaria de dizer que entendo o que sente, mas seria mentira. Comigo é justamente o contrário, ninguém presta atenção em mim. Meus pais passam meses fora a trabalho, e mesmo quando estão em casa mal olham pra minha cara. Sou um aluno mediano e não tenho algum talento que me destaque, então é comum me ignorarem."
Historia estava surpresa pela dor e seriedade da confissão do garoto. Raramente vira Jean tão sério, tão amargo, sem nem mesmo um comentário sarcástico para acompanhar as palavras tristes. Não podia negar que se identificava com a situação. Compreendia a dor dele.
"Sorte que nasci bonito e de personalidade forte pra compensar." Completou o rapaz, dando um de seus sorrisos convencidos para quebrar o silêncio súbito. A garota deu um risinho.
"Com certeza. Mas então, com o perdão da pergunta, suas brigas com o Eren são pra chamar atenção do seu jeito?"
"De forma alguma. Eu realmente detesto o desgraçado desde que ele quase arrancou minha orelha com uma mordida na quinta série." Replicou o rapaz, com irritação clara na voz. Não importava se o chamassem de rancoroso — ainda lembrava da dor e da marca que os dentes afiados de Eren Jäger deixaram. E o maldito ainda ria da sua cara por aquilo.
"Ele fez mesmo isso?? Nossa!"
"O filho da mãe era quase um tubarão quando era pivete. Deve ter ameaçado arrancar um pedaço de todo mundo da sala. Lembro até que mordeu a cara do Berrick..." Jean interrompeu a frase assim que percebeu o que dissera, a voz morrendo na garganta quando baixou os olhos para o tampo da mesa. Historia estendeu a mão, segurando os dedos do amigo entre os seus para reconfortá-lo.
"Tá tudo bem. Pode continuar falando, Jean, eu gosto de te ouvir contando essas histórias. Você é muito carismático e engraçado, e soa sempre tão natural. Em momentos assim percebo como você se dá bem com o Marco. Mesmo sendo tão diferentes, são tão... Amigáveis."
"Assim você me deixa encabulado, princesa. E o que a Ymir pensaria de você me elogiando?"
"Ela vai saber?" Respondeu Christa, o sorriso mais inocente do mundo em seu rosto, apoiando o queixo nas mãos. Não, não precisaria falar nada — Ymir provavelmente discutiria com Jean sem a necessidade de justificativa de sua parte. O garoto riu.
"Haha, espertinha! É assim que se faz!" Os dois bateram as mãos, o som das palmas ecoando por entre as prateleiras. "Aliás, isso me deu idéias. Acho que já sei o que fazer na próxima sessão."
"É? Que bom. O que seria?"
"Já foi a um show de stand-up?"
"Creio que não. Bem que eu gostaria."
"Então, fique feliz. Você terá um só pra você. Exclusivo, de um artista que vai estourar muito nos próximos anos." Jean piscou de forma brincalhona, passando a mão pelo cabelo e fazendo a garota rir novamente de seu jeito exagerado.
"Você faz stand-up? E também teatro de sombras? Está me saindo um perfeito entertainer, Jean. O que mais você está escondendo nas mangas?" A pergunta foi meio brincadeira meio séria. Com certeza que o segredo de Jean deveria ser algo bem pior que piadas improvisadas e talento com as mãos.
Como resposta, ele apenas sorriu.
"Um bom performer nunca revela seus segredos, princesa."
A biblioteca era um bom lugar para estudar, mas a considerar como Sasha gostava de fazer alguns lanchinhos, ela e Armin acabaram indo fazê-lo sentados debaixo de uma árvore grande, a mesma que o garoto dividia com Mikasa e Eren algumas vezes no intervalo. Os dois passaram as próximas duas horas revisando a prova de matemática de Sasha, e o garoto loiro devia admitir que sentia pena dela por ter tirado uma nota tão baixa — mais especificamente, um 4,3.
Normalmente, Armin dava aulas apenas a Eren, e talvez em circunstâncias que não tivessem o clube envolvido, ele não estaria ali ensinando Sasha. Porém, agora que estava nele, não era como se o rapaz fosse fugir de sua responsabilidade, e ele se lembrava bem da conversa que tivera em privado com Ymir sobre o problema de sua parceira em especial.
É claro, Sasha estava com problemas sérios, e emocionais. Armin não sabia dos detalhes, até porque estes eram pessoais demais e — pior — faziam parte do segredo que a garota pagou para poder fazer parte do clube, o que só faziam com que ele sentisse ainda mais pena dela, e também soubesse que a situação era mesmo séria.
Para ser sincero, ele mesmo não se achava alguém muito bom para dar conselhos e coisas assim — ele mesmo tinha seus problemas e inseguranças que já acabavam com sua vida, sem falar que ele servia meio que de voz da razão para Eren, e isso tudo sem falar do grande peso do seu segredo compartilhado com Annie. Porém, ao menos ele era capaz de ajudar a jovem a melhorar suas notas, e sabendo que esta era bolsista, ele não pode evitar de sentir que carregava um grande peso não apenas da responsabilidade que tinha com Sasha — não que ele fosse sempre dar aulas a ela, até mesmo porque o objetivo do clube era fazer com que os membros se revezassem em suas atividades e na formação das duplas -, mas também por causa do motivo de suas notas baixas: o seu segredo.
Ele não podia perguntar, e não podia saber. E talvez, considerando a natureza daquele clube, era até melhor que não soubesse. Mesmo assim, Armin podia sentir que, seja lá o que Sasha escondesse, não era algo do qual ela se orgulhava — pelo contrário, era uma coisa do qual se arrependia.
Armin conseguia sentir o arrependimento no olhar da garota batata, tanto que nem conseguia chamá-la assim. Não hoje. Não agora. E pensar que antes ele conseguia, talvez por ele nunca ter olhado tão fundo e por tanto tempo nos olhos da moça como fizera nessa tarde — e o que mais o assustava era não saber não apenas o motivo, mas também o tempo que Sasha passara escondendo aquilo tudo dentro dela. Por isso, não era de se admirar que ela não conseguia tirar boas notas — e mesmo nessas horas, desde que percebera isso, Armin não podia deixar de se perguntar por quanto tempo a moça escondera aquela dor por detrás de um sorriso.
“Caramba, Armin, eu não acredito que você é capaz de entender todas essas perguntas…” A garota começou a falar assim que eles terminaram de revisar a prova, tirando Armin de seus pensamentos. O garoto quase deu um pulo, mas se controlou, e olhou para a jovem com um sorriso tímido.
“Não é complicado quando você estuda um pouquinho todo dia… Na verdade, é melhor fazer isso do que ficar acumulando tudo para olhar a matéria só quando as provas chegarem. E esse é um método que eu uso pra tudo, não só pra matemática.” Ele explicou, e a outra concordou com um aceno de cabeça, para então olhar para a sua prova e depois para a de Armin, comparando as notas e soltando um suspiro.
“Armin, você… Acha que eu tenho chance de recuperar minhas notas? Já estamos praticamente na metade do ano, e é tanta coisa pra fazer, tanto assunto pra estudar… E eu não sei o que a Ymir falou do meu problema pra você, mas… Não é como se eu fosse forte como você é para estudar um pouco todos os dias. Tem vezes em que eu… Eu não consigo.” Sasha falou, engolindo muitas coisas que ela gostaria de dizer, mas que não podia. Ela não estudava todos os dias por preguiça, mas simplesmente porque ela se via como incapaz de fazer isso por circunstâncias que estavam além de seu controle — e isso não se tratava apenas de estudos, mas também de outras coisas como cozinhar, e haviam dias em que ela estava tão mal que sequer tinha forças para levantar da cama. E a pior parte era que aquele era um fardo que apenas ela podia carregar — e sozinha.
Armin sentiu, porém, que havia mais do que uma simples preguiça de estudar no tom de voz da moça, e pôs uma das mãos no ombro dela, como que a confortando.
“Você tem chances sim, Sasha. Todo mundo tem. Então não se preocupe, apenas faça a sua parte. Se você não consegue estudar todos os dias, compense pelos dias que você não estudou se esforçando um pouco mais nas vezes em que você estiver se sentindo bem o bastante para isso. Todos nós temos problemas e arrependimentos, e se não podemos vencê-los ou mudá-los, então precisamos aprender a conviver com eles. E você é uma garota inteligente, então eu sei que se você se esforçar, vai conseguir se adaptar e arranjar o seu jeito não apenas para estudar, mas também para viver. Mas para isso você precisa confiar no seu potencial primeiro.” Ele respondeu, mas honestamente, nem ele mesmo acreditava em seu potencial.
Aquilo era ridículo. Lá estava Armin Arlert, o garoto que dependia de Mikasa e Eren pra viver e que não aguentava puxar um pouco de peso sem acabar ficando dolorido dizendo para Sasha Blouse, a garota traumatizada, para que ela seguisse em frente e acreditasse em si mesma. E mesmo assim, ela ainda considerara cada uma de suas palavras — dava para ver em seu olhar, e aquilo doia.
Mas assim como ele não precisava saber do segredo dela, Sasha não precisava saber de seus problemas, certo?
“Obrigada, Armin.” A moça falou, com uma gratidão honesta que ela própria já não sentia havia muito. E Armin apenas sorriu culpado.
Finalmente, um pouco de paz.
Com um suspiro cansado, Levi tirou a bata, deslizando-a por sobre os ombros doloridos. Fechou a porta com cuidado, guardando as chaves no lugar de sempre, ao lado do vaso de centro. Checou meticulosamente todas as trancas, todas as janelas, cada vão. Todos os cômodos. Só então, depois de definir que estava tudo seguro, tirou os sapatos e os guardou no lugar determinado daquele par no sapateiro. No quarto, tirou a camisa, o cinto, a calça. Logo estava no banheiro, soltando um "Tsc" impaciente quando viu a bagunça em cima da pia. Maldita quatro olhos bagunceira. Ainda que detestasse que deixassem suas coisas fora do lugar, Levi relevou aquilo por um instante. Deus sabia que precisava de um bom banho, depois do dia estressante que tivera.
"Bando de moleques mimados." Cerrou os dentes. Como detestava situações como aquela. Não que odiasse seu trabalho — gostava dele. Não tinha problema algum com os alunos — desde que calassem a boca, se comportassem e estudassem para suas provas. O que nunca faziam. Não, preferiam vir mendigar pontos para ele quando a situação ficava vermelha. Pediam trabalhos extras e anulação de questões. Pediam revisão de provas. Pediam pediam e pediam.
"Vão se foder, seus guenzos." Murmurou sob o jato de água quente.
Arrumou a bagunça de Hanji ainda de toalha. De volta ao quarto, se limitou a pôr uma cueca e meias limpas. Casa é onde não há calças, Mike havia lhe dito algum dia. Foi para a cozinha, fazer o jantar. Apesar do trabalho que dava, gostava de cozinhar para si mesmo, quando não estava muito cansado. Aquele dia queria algo simples, então separou a massa de lasanha, queijo, presunto e os ingredientes para o molho. Checou também a comida da gata. Estava vazia.
"Sua gorda gulosa de merda." Murmurou de forma irritada quando uma coisinha ruiva ronronante roçou em suas pernas, pedindo mais comida. "Vai ficar com fome enquanto cozinho meu jantar."
A gata continuou reclamando enquanto fazia o molho e assava a lasanha. Chamava-se Isabel, em homenagem a uma garota que conhecera. Quase nunca respondia ao próprio nome, então o dono a chamava de Gata. E Gata reclamou ainda por um bom tempo enquanto seu dono jantava, sentado à mesa.
"Eu estou jantando. Você comeu toda a comida que te pus. Todo o maldito e caro Whiskas." Ele voltou os olhos para o prato. "Aprenda a ser paciente."
Isabel parecia hipnotizada pelo fluxo mágico de ração quando Levi finalmente pôs sua comida, e se lançou ao prato assim que ele se afastou, sendo a bolinha de pelo desesperada que era. Até mesmo seu dono não conseguiu evitar um pequeno sorriso com a cena. Observou a gata por alguns instantes, antes de se virar e ir lavar a louça.
Não era familiarizado com tecnologia — era pra isso que servia a Quatro Olhos e seu bichinho de estimação, Moblit. O computador de Levi era velho, porém usável; um notebook que Erwin lhe dera no Natal há alguns anos. Só o tinha pelo trabalho e para buscar receitas e dicas para a casa. Portanto, largou o pacote com as provas a serem reavaliadas ao lado do equipamento, e suspirou.
Entrou no sistema da escola. Era seu site mais visitado, além do de notícias e o blog de uma senhora, Delma, excelente cozinheira e dona de casa. Ia localizar os alunos que pediram a reavaliação antes de tocar nas provas, para poupar futuro trabalho. Correu os olhos cansados pela tela, tomando pequenos goles de chá sem tirar os olhos da listagem. Os nomes passavam. Annie Leonhardt. Azuma Tokaku. Alannys Dawnfort. Arsenii Viiks. Blake Summerland. Bertholdt Hoover. Bruno Antinomy. Carrie Fernandez. Cassandra Arcangelo. Castiel Arcangelo. Celia Castner. Connie Springer.
Foi então que notou algo estranho.
Clicou no nome de Connie. Uma caixa com informações se abriu, contendo o número de matrícula do garoto, uma foto, suas notas e outras informações relevantes. O que chamara sua atenção, no entanto, fora a nota da última prova. Sete cravado.
Ele tinha certeza de ter dado seis vírgula nove ao Springer. Não tinha a prova física ali, mas seria capaz de apostar Isabel nisso. Prestou ainda mais atenção nos próximos nomes, e notou ainda mais diferenças.
Connie Springer, Sasha Blouse, Jean Kirschtein. Todas notas diferentes das que lembrava. Alguns décimos apenas de diferença, mas isso não fazia sentido — não havia nenhum trabalho, ponto extra ou peso para justificar a diferença no sistema. Por impulso, checou o nome de Ymir Adler, mas não havia diferença: o 2,6 continuava lá.
Reviu a lista, com ainda mais cuidado. E foi aí que as coisas ficaram ainda mais estranhas. Algumas notas estavam maiores, era verdade. Algumas estavam invertidas. Outras estavam menores, muito menores. Hitch tinha 4.9 em sua prova física, que ela tinha pedido para ser reavaliada. Mas o sistema indicava quase dois pontos abaixo.
"Mas que porra é essa?" Pensou Levi, sem entender como aquilo era possível. Apenas duas possibilidades se formaram em sua mente. A primeira, de que havia um bug no sistema do colégio. Era possível. Já havia acontecido antes. Ele tivera que pedir as provas de volta dos alunos e inserir todas as malditas notas de novo. Mike dissera que os "Tch" de Levi foram tão freqüentes e estáveis nesse dia que podia usa-los para medir o tempo. Levi o mandara se foder, e o loiro gigante rira.
A intuição de Levi, no entanto, aquela que já salvara sua vida milhares de vezes, dizia outra coisa. Dizia que talvez fosse o caso da segunda possibilidade. A mais difícil. E criminosa.
A possibilidade de o sistema ter sido hackeado.
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