Notas iniciais
SURPRISE, BITCH! Bet you thought you'd seen the last of us! Senhorita Nada aqui, pra avisar que nããão galera, DLS não foi abandonada, não flopou e com certeza está bem longe de acabar! Sabemos que demoramos bastante ("bastante" é até eufemismo, foi mais de um ano), mas saibam que nenhuma de nós duas desistiu da fic em momento algum. Aconteceu do último semestre de 2014 e o começo de 2015 serem muito difíceis pra nós por questões pessoais, familiares e de saúde, incluindo cirurgias bem sérias, então realmente, galera, assim não dá pra produzir um capítulo do ~tamanho~ ou da qualidade que vocês merecem. A gente optou por demorar mais ao invés de postar capítulos meia-boca que não fossem bons os suficientes pros nosso queridos leitores! Nenhuma de nós imaginava que fosse demorar tanto assim, mas bem, melhor atrasado do que nunca, certo? Se você nos acompanhou até agora e não desistiu da gente e dessa história, não temos nem palavras pra te agradecer. É sério, cada mensagem, cada pergunta, cada comentário educado apenas nos dava MAIS vontade de escrever, mesmo nos momentos difíceis. Muito obrigada mesmo, gente. Saber que vocês estão gostando dessa história tanto quanto nós gostamos de escrevê-la é o que nos mantém seguindo! Fiquem com todo o nosso amor e todas as nossas palavras! Sabiam que a fic já passou de 260 páginas? Temos o contador do Google pra provar, hahaha. Pra você que chegou agora, seja bem-vindx! Relaxe, pegue uma cadeira e um biscoito da Carla Jaeger e se junte a nós. Esperamos que se sinta tão a vontade quanto os membros do Clube de Segredos. Agora, sem mais delongas, vamos ao capítulo. Vejo vocês lá embaixo!

A escova penteava o seu cabelo com facilidade. Na verdade, Historia tinha um cabelo muito macio, e Frieda fazia questão de escová-lo todas as manhãs antes da garota ir para a escola. Por um lado, era até bom, pois ela fazia um trabalho melhor que a loira seria capaz logo após acordar, ainda sonolenta.

A moça observava-se no espelho, os olhos azuis fixos em seu próprio reflexo. Logo atrás dela estava Frieda, uma mulher mais alta e mais velha — madura -, com cabelos escuros e olhos gentis. Suas mãos trabalhavam com suavidade, e Historia se perguntava de onde vinha tamanho talento para pentear os cabelos dos outros — devia ser porque ela fora literalmente criada para isso e outros trabalhos domésticos.

Ela reprimiu um bocejo, para não atrapalhar o trabalho de Frieda. Esta cantarolava baixinho logo atrás dela, e Historia bem que gostaria de saber o segredo dela para ser tão produtiva e feliz tão cedo. É claro, ela mesma tinha que fazer a mesma coisa — que era fingir estar feliz mesmo acordando estupidamente cedo para se arrumar e ser um tanto paparicada pela sua família -, mas Frieda… Ela era natural nisso.

Tanto que até chegava a assustar.

“Você está tão quietinha hoje, Historia. Está pensando em alguma coisa?” A mulher perguntou, sem parar com o seu trabalho. Nem mesmo a loira havia percebido isso, na verdade, e ela piscou algumas vezes antes de responder.

“Ah, não… Não é nada. Nada preocupante, pelo menos.” Historia respondeu com um sorriso que, no reflexo do espelho, parecia gentil. Ela esperava que essa fosse a impressão que as pessoas fossem ter dele também, quando o usasse na escola e fora de casa.

“Então o que é? É por causa daquela sua amiga, a… Qual o nome mesmo? Ymir?” Frieda acertou em um ponto fraco da garota, e esta teve que lutar contra seu próprio corpo para não corar muito. Ainda assim, ela escutou um risinho vindo de trás dela, e ela sabia que a outra mulher estava se divertindo com a situação.

“Você sabe que pode me falar sobre essas coisas, querida. Eu sou bem mais aberta que seu pai… Ou a sua mãe.” Ela se corrigiu logo depois, voltando a usar seu tom de voz comum, quase maternal. De fato, Frieda era muito mais uma mãe para Historia do que sua “verdadeira” mãe, de longe. Ela era gentil, doce e atenciosa, e não a julgava nem mesmo por sua sexualidade, por mais que ela tentasse esconder.

Era meio estranho, até. Frieda parecia ser capaz de entendê-la perfeitamente, por mais que Historia medisse suas palavras e ações perto dela. Se havia uma pessoa que, talvez, seria capaz de um dia ler a garota como se ela fosse um livro aberto, então essa pessoa seria Frieda. Aquilo por um lado era reconfortante, mas por outro… Era um tanto assustador, por mais que a garota soubesse que ela não fazia aquilo de propósito.

“Eu sei. Mas eu não gosto da Ymir desse jeito.” Mentiu, rezando para que a morena engolisse tal desculpa. Por mais que ela soubesse que Frieda era uma pessoa aberta a todo e qualquer tipo de discussão sem nenhum medo, Historia achava melhor deixar tais assuntos pessoais como coisas exclusivas dela.

Frieda não precisava saber, por mais que ela provavelmente já tivesse adivinhado.

“Certo, certo. Não vou mais comentar sobre isso… É só que você parecia muito perdida em seus pensamentos, e nessa idade é normal gostar de alguém. Como você fala bastante dessa Ymir, eu apenas suspeitei que fosse por causa dela. Não quis te ofender.” Ela explicou, e se não fosse pelo fato da mulher estar mexendo em seu cabelo, Historia teria assentido levemente, para demonstrar que entendeu o que ela havia dito.

“Tudo bem, não ofendeu.” Respondeu, sem deixar de notar o leve sorriso no rosto da morena.

“Eu sei que não. Você raramente se ofende, Historia. Eu te conheço bem.” Era verdade — Frieda a conhecia muito bem. Bem até demais. A mulher prendeu o cabelo loiro da mesma maneira de sempre, e então tudo estava pronto. Historia se levantou, fazendo questão de não bagunçar seu uniforme, e então olhou para a outra, que ainda se encontrava sentada.

“Eu sei, Frieda.” Ela falou, com uma voz até mesmo fria, mas isso ainda assim não desfez o sorriso simples no rosto da morena — e isso, de certa forma, deixava Historia levemente angustiada. Aquela mulher era muito boa com sorrisos, praticamente uma Mona Lisa.

“Divirta-se na escola.” Ela a escutou dizer ao sair do quarto, mas não respondeu — ela não era capaz de se virar para encará-la e arriscar deixá-la ler ainda mais os seus sentimentos e pensamentos. Ainda assim, ela agradeceu mentalmente o desejo de Frieda.

Bem que ela gostaria de se divertir na escola.

Os espelhos não mentem, é o que dizem.

O espelho que refletia Elizabeth Annabelle era prova desse ditado. Mostrava todas as imperfeições que ela queria esconder — as físicas, as psicológicas, as emocionais. Mostrava marcas de noites mal dormidas causadas por decisões mal pensadas e sentimentos mal contidos. Mostrava ansiedade e medo e culpa, muita culpa, mas também resignação. A loira sabia que se colocara naquela posição por sua própria culpa, e agora lhe restava aceitar seu erro e lidar com ele como pudesse. Se pudesse.

Ela devia ter pensado direito antes de se meter naquilo tudo. Devia ter pensado antes de se envolver com ele — mas ela estava tão cega, seduzida por promessas doces e elogios e presentes. Ela tinha um fraco por ser adulada. Elizabeth gostava de se sentir bonita, gostava de ser admirada, gostava de se sentir querida e importante — quem não gosta? — mas agora via que tinha sido exatamente seu ego e sua vontade que a tinham arrastado para aquela situação. E poderia ser aquilo que a mataria.

Respirou fundo, tentando ignorar a forma com que sua garganta se retesava de ansiedade, e começou a se arrumar, escondendo olheiras com corretivo, separando os cílios com rímel, iludindo com delineador para dar a impressão de que tudo estava bem. Estava até acostumada com isso, agora que tinha que fazê-lo toda manhã. Colocar suas máscaras, visíveis ou não, antes de enfrentar o dia e as pessoas lá fora. E quando saiu do quarto, usava a perfeita máscara; o sorriso calmo e confiante, os olhos sedutores, o bom dia animado aos pais adotivos, a risada doce quando eles começaram a discutir sobre o jogo do dia anterior. Tudo estava bem com Elizabeth Annabelle. Mas ela não olhou mais no espelho durante o caminho para a escola.

O caminho até o colégio era solitário, visto que ninguém conhecido parecia fazer o mesmo trajeto. A loira teve sorte de conseguir um lugar parar sentar naquela manhã, já que o ônibus enchia pela manhã de pessoas a caminho do trabalho ou outras obrigações matinais. Isolada do mundo com os headphones e o celular tocando suas músicas favoritas, ela quase se sentia calma, quase se sentia normal de novo. Antes aqueles pequenos momentos de tranquilidade a aborreciam; agora, eles pareciam uma dádiva, uma sorte.

“I’mma tell you everything…” Ela entoou junto de Maddi Jane, tão perdida em seus próprios pensamentos que mal percebeu que já estava na parada perto da escola. Apenas a movimentação de estudantes a seu redor a fez levantar e descer do ônibus, quase que tangida pela manada. Ela precisava admitir que gostava da sensação, de não pensar sobre tudo aquilo, pelo menos não por aquele instante…

"Ei, ei, Elizabeth!” A voz abafada de alguém subitamente a tirou de seus pensamentos. A garota finalmente tirou os headphones, ainda não reconhecendo a pessoa que a chamara, até que alguém gesticulou na sua frente: Era o segurança do colégio, o velho Hannes.

"Ah, bom dia, Hannes. Desculpe, eu não te vi." A resposta lhe veio quase automática, ainda que ela sentisse um pouco de culpa nisso. Hannes a conhecia há anos; se duvidasse, ele tinha sido segurança da pré-escola quando ela usava fraldas. Mais do que só um funcionário, ele era amigo dos alunos: dava conselhos, puxões de orelha, contava piadas quando um deles estava triste, e dizia-se até que tinha perseguido o assaltante que… A linha de pensamento da jovem foi cortada novamente.

"Perdida nas nuvens, hein moça? É algum rapaz que eu conheço?" O vigilante provocou, de brincadeira, mas logo percebeu como o comentário fez o sorriso da estudante tremer por um instante, antes que ela aparentemente retomasse o controle. Isso o fez franzir o cenho, preocupado. "Ou é algum problema? Algo errado, Elizabeth?"

"De forma alguma. Só estava ouvindo música. Fico desligada quando isso acontece..." A loira sorriu de forma apologética, procurando acalmar ao funcionário e a si mesma — seu próprio coração parecia ter dobrado o ritmo de trabalho com aquele comentário. Era assim tão claro que ela estava escondendo alguma coisa? Será mesmo que todo mundo sabia? Seria por isso que… Não. Não, estou perdendo a calma. Está tudo bem, ele só deve achar que estou nervosa por algum problema tolo. Não tem como ninguém saber… E mesmo assim, eu posso mentir. Por mais que não gostasse de mentir para uma pessoa que a conhecia bem — e tão perceptiva ainda por cima — nunca ela poderia revelar o que realmente a estava deixando nervosa para Hannes. Ninguém pode saber. Se impedindo de engolir em seco, ela resolveu usar a cartada de uma justificativa legítima. "Eu adoraria conversar mais, mas tenho que encontrar uns colegas. Trabalho, cê sabe como é… Essa escola cansa mesmo a minha beleza. Bem, tchauzinho Hannes! Te vejo na saída!"

Antes mesmo que o confuso segurança pudesse responder, Elizabeth já se afastava a passos rápidos, meio correndo, meio andando apressada pela trilha que cortava um dos muitos jardins da instituição. Passou por várias pessoas, cumprimentando as que falavam com ela com um aceno rápido, mas sem parar para falar com ninguém. Parte dela temia que outras pessoas pudessem ver através de sua máscara tão bem quanto Hannes vira, enquanto outra só queria fugir daquilo tudo — fugir do colégio, fugir de Rose Fields, fugir do estado se fosse preciso, apenas correr até deixar todos os problemas pra trás, até seus pés estarem em carne viva e ninguém soubesse quem era. Mas aquela não era uma opção no momento. Ela não podia nem fugir nem se esconder — apenas enfrentar.

Parecia que o caminho até seu armário fora uma penitência, mas por fim a loira atingiu seu objetivo. Começou a organizar a bagunça habitual e a separar os livros que teria que usar naquele dia, segundo o horário colado na porta. A tarefa repetitiva ajudou a deixá-la mais calma e a refletir sobre o que fazer em seguida. Claramente estava se precipitando ao ficar tão nervosa sobre um simples comentário, e isso sim que poderia colocar sua situação em risco ainda maior. Era impossível que alguém descobrisse seu segredo a não ser que ela mesma contasse, coisa que não faria. Eu devia deixar de ser tão neurótica, sinceramente. Desse jeito vou ter um ataque de coração antes mesmo que algo tenha a chance de acontecer. Frustrada consigo mesma, ela suspirou, balançando a cabeça. Como ia ajudar os meninos com o trabalho daquela forma?

"Ei, Eliza! Bom dia!" A sombra de alguém se debruçara sobre ela, mas dessa vez, a garota reconheceu facilmente a voz gentil do famoso Anjinho de Sardas, que aparentemente tinha um timing admirável. Não apenas isso, mas, ao contrário do que imaginara, a própria presença de Marco parecia deixá-la mais tranquila, como se ele exalasse mesmo uma aura de confiança e gentileza. A forma com que ele sorria pra ela a fez sorrir em resposta, daquela forma natural que ela já sentia falta.

"Ah, bom dia, Marco. Vai me dar sua benção?"

O garoto sardento deu uma risada bem humorada, já acostumado com a brincadeira. "Deus lhe abençoe e te livre do mal caminho.” Havia um tom maroto em sua voz, ainda que parecesse muito sério ao tocar a testa da moça numa benção improvisada. Elizabeth notou que mesmo com aquele toque inocente, seus dedos pareciam leves e seguros, como o sorriso ainda no rosto do rapaz. “Que bom que chegou. Estávamos só esperando você."

"O resto do pessoal já está na sala, então?"

"Não, estamos no jardim. Todas as mesas da praça já estavam ocupadas e achamos melhor nos reunir num lugar mais calmo do que a sala.”

"Ah, bem, eu sempre preferi estar ao ar livre.” A loira fechou o armário com um estalido, trancando-o em seguida e guardando a chave num dos bolsos da mochila. Depois de jogar a bolsa de forma desleixada sobre os ombros novamente, ela deu um de seus melhores sorrisos ao colega, internamente decidida a não deixar nada mais atrapalhá-la naquele dia — exceto, talvez, alguma aula com Levi. “Vamos nessa, sr. Bodt?"

O moreno fez uma meia mesura antes de lhe oferecer o braço como um cavalheiro de antigamente, num gesto divertido que ela prontamente retribuiu. "Se me dá o ar da graça, Srta. Annabelle."

O lugar que Marco tinha escolhido para a reunião era a sombra de uma macieira antiga, que diziam ter sido plantada da época da construção do Freedom High. Era um lugar conhecido entre os estudantes para fazer piqueniques ou passar o tempo no intervalo — Armin, Eren e Mikasa costumavam vir ali com frequência, pelo que sabia. Os dois colegas subiram um leve declive até a árvore, ainda de braços dados, conversando amenidades. Marco era uma pessoa naturalmente extrovertida, e também Elizabeth o era, então não tinham demorado muito para estabelecerem uma conversa. Também não demoraram a encontrar o restante do grupo de trabalho — Jean, aparentemente entediado, foi o primeiro a notar a presença deles, e foi rápido em reclamar. "Ah, finalmente! Eu já estava sendo comido por urubus de tanto tédio!" O loiro comentou, aborrecido, e fazendo com que seu melhor amigo suspirasse alto.

"Não exagera, Jean..." Marco lançou um olhar claramente crítico ao amigo, ao mesmo tempo oferecendo a própria mochila para que Elizabeth se sentasse. A garota sorriu em agradecimento, mas decidiu sentar diretamente na grama, bem ao lado do quarto integrante da reunião.

"Bom dia, Elizabeth." Blake desejou com um sorriso sincero e perfeito, como tudo nele parecia ter a obrigação contratual de ser. Até mesmo a calça perfeitamente passada do uniforme não estava manchada pela grama no tempo em que ele estivera sentado lá. Como sempre, Blake Summerland era a perfeita imagem de compostura, beleza e plena confiança… Mas apesar disso e da sinceridade do gesto, no entanto, a moça notou algo distante, talvez até triste, na maneira com que o rapaz sorria. Vai ver tirou um 9,8 ao invés de um 10 na prova do Levi? De qualquer forma, ela retribuiu facilmente o cumprimento, não se esquecendo também de alfinetar Jean em resposta ao aborrecimento do mesmo. "Olá, sexy. Cavalinho, bom dia."

Antes que seu melhor amigo pudesse retribuir a agulhada, no entanto, o rapaz sardento foi rápido em tomar as rédeas da situação, puxando a manga da camisa de Jean discretamente com uma mão e chamando a atenção para si com um pigarro antes de prosseguir. "Podemos começar a reunião, então?" Apesar de gentil, seu tom insinuava que ele não estava disposto a perder tempo com pequenas discussões, o que fazia sentido levando em conta o tempo reduzido que tinham antes da aula começar. Os outros três estudantes então concordaram, Jean a contragosto, Blake educadamente, e Elizabeth com certo interesse.

Com a naturalidade de quem se prepara com antecedência para tudo, o líder do grêmio estudantil começou a explicar a pesquisa que fizera até agora enquanto abria a pasta em seu colo e tirava de dentro uma folha de papel. "Eu fiz um pequeno resumo de pontos importantes que acho que precisamos abordar na parte escrita e apresentação..."

"Espere aí, vai ter parte escrita??" Jean interrompeu o colega antes que esse continuasse seu raciocínio, parecendo realmente surpreso e bastante irritado. “Não acredito nisso! Como se a gente já não tivesse tanta coisa pra fazer nessa merda dessa escola!”

Blake franziu as sobrancelhas por um instante, deixando entrever leve aborrecimento antes de recuperar sua pose polida. Havia algo de estranhamente parecido com Levi naquela expressão de profundo julgamento que ele lançara, um pensamento que divertiu Elizabeth. A voz do garoto estava quase monocórdia quando ele perguntou, os olhos cinzentos focados nos do garoto francês: "Você ao menos ouviu a Petra explicando o trabalho?"

Por algum motivo, um dos cantos da boca do loiro pareceu tremer por um breve instante quando os olhos de Blake focaram nele. Poderia ter sido só impressão da garota, pois ele logo respondeu sem qualquer indício de embaraço na voz, conseguindo se manter sério apesar da forma com que o colega parecia examiná-lo por detrás dos longos cílios escuros. "Mais ou menos. Eu estava ocupado, sabe como é, além disso tava um barulho horrível no auditório..."

“Interessante, já que me recordo de Petra ter um microfone com ela. Exatamente pra que todo mundo pudesse ouvir. Será que não seria melhor se você fosse um pouquinho mais responsável?” Aquilo parecia ser a tentativa do aluno modelo de ser mordaz, mas o tom sempre formal de sua fala o fazia soar como um velho britânico irritado. Jean apenas o olhou de volta com uma sobrancelha erguida, aparentemente compartilhando da opinião de Elizabeth sobre o assunto, e a moça foi incapaz de segurar a risada com a cena. A forma sincronizada e confusa com que os dois garotos a encararam em seguida apenas a fez rir mais alto, e quando Marco a acompanhou, o moreno e o loiro se viraram um para o outro, claramente se perguntando o que tinha acontecido a seus colegas de trabalho.

“Vocês podem ser menos duas velhas casadas?” Elizabeth tinha finalmente se controlado o suficiente para comentar, limpando com um lencinho tirado da mochila algumas lágrimas que poderiam estragar sua maquiagem. Tinha sentido falta daquela sensação boa no peito que restava depois de uma risada, e parte dela queria abraçar os dois rapazes pela oportunidade de fazê-lo.

Jean estava francamente insultado pela sugestão. “Eu não sou velho e definitivamente não sou casado. Especialmente não com esse mauricinho.”

“Eu só não quero me prejudicar por falta de comprometimento dos outros. Foi pra isso que vim pra esse grupo. Mas talvez eu devesse ter escolhido fazer o trabalho com outra pessoa mais competente.” O presidente do grêmio continuou no mesmo tom de voz, ainda julgando o colega.

“Calma, calma pessoal! Não vamos nos exaltar, ok? Blake, pode deixar que eu repasso as informações da Petra com o Jean depois, isso não vai atrapalhar o trabalho.” Santo Marco interveio habilmente, dissipando a tensão anterior. “Podemos dar uma olhada no resumo que você fez? Estou surpreso que já tenha juntado essas informações tão rápido!”

O outro moreno apenas deu um aceno formal com a cabeça, afastando longos fios escuros de seus olhos ao responder, parecendo mais controlado dessa vez. "Eu só marquei o que achei que fosse importante, baseado nas aulas do Pixis e da Petra que tivemos. Acho que podemos usar como ponto de partida pra discussão. Vocês podem alterar o que quiserem, acrescentar, sugerir..." Ele entregou o resumo para que Marco lesse, com Jean e Elizabeth espiando por sobre seus ombros os pontos escritos numa caligrafia caprichada.

A garota foi a primeira a se manifestar, jogando de forma displicente uma mecha loira para trás da orelha enquanto falava. “A minha primeira pergunta é como vamos conseguir as roupas. Quer dizer, não é como se fosse fácil assim achar roupa de época ou mesmo similares, e olha que conheço bons brechós.”

“Isso é verdade. Será que vamos ter que encomendar?” O rapaz sardento se perguntou em voz alta. Seu melhor amigo soltou um som de desaprovação.

“Pra um trabalho escolar? Eles acham que a gente caga ouro, por acaso? Eu não sou um Lannister, cara.”

Elizabeth acompanhou a discussão com interesse genuíno, fazendo comentários e sugestões quando achava pertinente. O riso tinha ajudado muito a aliviar a tensão que sentira depois da conversa com Hannes, e agora a moça se sentia tranquila e focada, algo tão raro nesses últimos dias; a simples ausência do frequente nó de ansiedade em sua barriga já lhe parecia uma benção, assim como ser capaz de ser produtiva da forma certa. Os garotos ouviam e consideravam suas opiniões, debatiam, brigavam entre si, e ela se viu ficando mais e mais a vontade entre eles. De maneira estranha, sentia como se começasse a pertencer àquele grupinho estranho, unido pelas circunstâncias. Era uma sensação estranha, e talvez precipitada, mas ela não deixou que mais aquela preocupação viesse assombrá-la. Não agora, pelo menos. Por enquanto, ela iria apenas aproveitar o momento de paz que tivesse, mesmo que ele fosse por um trabalho chato de escola.

E é claro, ele não durou muito.

A súbita sensação do celular vibrando no bolso foi o suficiente para deixar a moça tensa imediatamente. Tinha sido apenas um toque sem som, o que indicava uma mensagem SMS ao invés de ligação ou notificação, e que por isso mesmo passou despercebido por seus colegas. Havia apenas uma pessoa que lhe mandava mensagens tão frequentes, e a realização se espalhou em seu peito, fria e viscosa, quando ela lembrou quem era. Estava hesitante, até com medo de pegar o aparelho, e ao mesmo tempo consumida pela curiosidade e receio, no que era sua reação normal a cada uma de suas mensagens — temia tanto ler o que era quanto temia irritá-lo com a demora. Por fim, a loira conseguiu reunir coragem o suficiente para disfarçadamente pegar o aparelho do bolso e ler o que ele lhe mandara.

"vc acha q ligo como vai conseguir? te vira, kkk. vc se meteu nessa pq quis, princesa. agora agüente. xx, K."

Elizabeth respirou profundamente, focando na cadência do ar que entrava e saía de seu peito. Não podia perder o controle agora. Não na frente de Jean, Blake e Marco. Ela precisava se manter calma e focada. Precisava manter o medo que crescia em sua mente sob controle, controlar os batimentos cardíacos acelerados, impedir a mão de tremer, mas era tão, tão difícil, e ela estava tão cansada. Parte dela queria chorar. Outra parte queria jogar o celular no chão e pisar em cima dele até que não fosse mais que pedaços desconexos de metal e plástico. Mas ela se manteve sob controle. Sabia que esse não era o caminho, e que não importava o que fizesse, ela não ia se livrar daquele homem nem do karma de suas ações. Por mais que odiasse K, ele estava certo numa coisa — ela tinha se metido naquilo por escolha. Apenas precisava suportar um pouco mais e…

Eu não consigo suportar mais. Se continuar assim, eu vou morrer. Ou morro do coração ou pulo da ponte do Rio Sina. Eu não aguento mais isso, sou muito fraca, não vou conseguir...

"Tá tudo bem, Eliza?" Uma voz distante chamou seu nome, e demorou alguns preciosos segundos para que a loira conseguisse focalizar o rosto sardento e preocupado de Marco Bodt. Jean e Blake também a observavam, um com aborrecimento e o outro com curiosidade.

"Claro. Tô ótima.” Ela mentiu, forçando um novo sorriso no rosto bonito. “Só me distraí um pouquinho. Namorado novo, sabem como é."

“Dá pra esquecer seu macho por um instante, ou isso é muito difícil pra você?” O rapaz francês falou num tom entediado, irritado por sua maravilhosa ideia para a apresentação do trabalho ter sido interrompida pelos devaneios da moça.

Jean.” Surpreendentemente foi Blake, não Marco, quem censurou o loiro, antes de se virar para a garota e começar a falar, no mesmo tom que usava em seus discursos para o grêmio estudantil. “Elizabeth, ele tem razão num ponto… Não é bom deixar problemas pessoais afetarem seu rendimento escolar. Tente manter seus problemas afetivos afastados, pelo menos por enquanto, ok?”

É muito fácil dizer isso quando você não sabe o que estou passando. O pensamento lhe veio imediatamente, e a loira teve que morder o lábio para se impedir de externá-lo. Não era culpa de Blake, a bem da verdade; o garoto não podia saber o que realmente se passava em sua vida. Era até melhor que não soubesse, indicava que sua atuação estava fazendo efeito. A moça inspirou uma, duas, três vezes antes de levantar as mãos num gesto de paz. “Tudo bem, erro meu. Eu não vou fazer de novo.”

Marco continuava lhe observando de forma indagativa, o que deixava Elizabeth inconfortável. Parecia que não estava convencido com aquelas desculpas. "Foi só seu namorado mesmo? Você parecia bastante preocupada."

"É um relacionamento complicado." Ela esperava que o tom displicente de sua resposta fosse suficiente para sanar a desconfiança do anjo de sardas.

“Eu vou respeitar se não quiser falar sobre isso.” O garoto disse suavemente, a preocupação ainda presente em seus olhos e na forma com que se dirigia a ela. “Mas se quiser, também, estou disposto a lhe ouvir.”

“Agradeço, Santo Anjo, mas acho que sou crescida o suficiente pra resolver meus problemas sozinha. Não preciso que fique segurando minha mão.” A frase acabou saindo mais agressiva do que pretendia, mas a loira se manteve firme. Precisava deixar claro que aquele era um assunto que só ela poderia resolver — até por que provavelmente K ficaria muito irritado se ela envolvesse terceiros. Era para a própria proteção de Marco que ele não soubesse. E se ela precisasse magoá-lo para que ele entendesse, então ela o faria.

“Ei! Ele só estava querendo te ajudar. Precisa ser grossa?” Jean feito compreensivelmente em defesa do melhor amigo, fuzilando Elizabeth com o olhar. Pelo menos com isso ela raciocinou que poderia lidar.

“Olha só quem fala, Jeanbo. Você não é a pessoa mais educada do mundo. Eu só acho que o que é problema meu é problema meu. Eu já disse que não vai mais atrapalhar o andamento do trabalho, então não se preocupem, não vou estragar a nota de ninguém.”

O garoto sardento balançou a cabeça, ao mesmo tempo contendo o melhor amigo com uma mão em seu ombro. Havia algo de determinado no olhar de Marco, tanto quando ele encarou Jean com uma clara expressão de Eu Resolvo Isso quando como se virou para a colega, a voz clara e séria. “Não é uma questão de estragar ou não nota, Elizabeth. É a questão de ver que alguma coisa está claramente te fazendo mal. Eu sei que não somos próximos, e como eu disse, entendo muito bem que não queira contar o que é. Mas eu não posso, como ser humano, simplesmente ver alguém sofrendo e não querer fazer algo a respeito.”

O sentimento genuíno naquelas palavras fez Elizabeth hesitar brevemente. Era raro que visse tanta dedicação em alguém, e, em respeito a isso, quando respondeu sua voz estava mais suave que antes. “Eu agradeço a boa intenção. Você realmente é uma boa pessoa, de verdade. Mas há coisas que não podemos mudar, Marco, e problemas que não podemos resolver, e coisas que não podemos falar. Há pessoas confiáveis como você, e há pessoas que não são confiáveis, como eu.” A voz da moça falhou, e ela hesitou por longos minutos antes de continuar. “Você não pode me salvar, Anjo. A verdade é essa.”

Marco a olhou de forma tão triste e dolorida que parecia que a moça tinha lhe dado um soco, não negado sua oferta de ajuda. Ouvir aquilo doía bem mais do que o rapaz tinha imaginado. Ele não podia evitar, simplesmente não podia — por mais que a lógica dissesse que Elizabeth estava certa, que ele deveria deixá-la em paz e parar de insistir, a ideia de deixá-la pra trás, de deixar qualquer pessoa sofrendo sempre fora demais para Marco Bodt. Ele não poderia salvar todo mundo, mas isso não significa que não iria tentar. "Eu… Eu fico muito triste de saber que você se considera não confiável. Mas a verdade é que você está certa…” O garoto de sardas respirou fundo, tentando limpar a voz subitamente embargada. “Nós não confiamos uns nos outros. Somos incapazes de enxergar o sofrimento dos outros, e vivemos com medo de que vejam o nosso próprio. Temos que lidar com tudo sozinhos, porque admitir o contrário seria admitir ser fraco. E ninguém quer ser fraco. É pra isso que existem segredos.”

"Eu sempre me considerei bom em perceber as pessoas. Em saber como elas agiam, como sorriam e quando precisavam de ajuda. E eu convivi com a maioria de vocês a minha vida toda, praticamente. Colegas desde o jardim de infância. Mas agora eu penso, o quanto eu conheço de verdade sobre vocês? Eu sei que Bert é tímido, que Eren é pavio-curto, que Armin é inteligente, que Blake e Mikasa são quase perfeitos... E eu sei que há sombras. Eu vejo as sombras, aquelas que estão por trás dos olhos de todos. As sombras de segredo. O reflexo de coisas escondidas no desviar do olhar, na mão que treme, no segundo em que se para pra pensar em como continuar escondendo aquilo tudo. Todos temos isso. Eles tem. Você tem. Jean tem. Eu tenho. Todos nós temos segredos, Elizabeth. Todos nós temos medo de confiar."

"Mas isso não significa que não nos importamos. Que eu não me importo. Porque eu me importo sim, Eliza. Você não precisa confiar em mim, mas eu ainda quero ajudar você. E vou ajudar, se você deixar."

A garota estava surpresa pelo arroubo de emoção vinda do garoto sardento, e podia ver que não era a única; até Jean parecia não estar esperando aquilo, mas ao mesmo tempo ter orgulho do melhor amigo. Estava claro que Marco já vinha pensando naquela questão há algum tempo, e que esse fora apenas o momento em que ele resolvera falar. Elizabeth se sentia bastante lisonjeada pela determinação do rapaz em ajudá-la, mas a lógica e o medo ainda eram mais fortes em sua mente. Ela sabia muito bem do que K era capaz, e não estava disposta a deixar outras pessoas se ferirem por seus erros; além disso, era uma situação que ela precisava lidar só. Escolheu cuidadosamente as palavras antes de responder. “É como eu disse, você tem boas intenções. Mas não tem como me ajudar. É impossível.”

"Mesmo que eu sozinho não possa fazer algo, ainda há um jeito…”

E ela sabia bem no que ele estava pensando. "O Clube de Voluntários, você quer dizer?” Ouvir aquele nome fez Jean levantar as sobrancelhas, surpreso, e Blake franzir a testa, confuso. A loira imaginava que eles iriam enveredar por aquele caminho. Era de fato uma opção que ela tinha considerado, pelo pouco que tinha obtido de Sasha, mas no fim tinha tomado sua decisão, e ela era de não envolver ninguém mais nas besteiras que tinha criado. “Ah, não se preocupem, eu não espiono vocês ou algo conspiratório do tipo. A Sasha me disse, não que seja culpa dela, tadinha. Estava bebadaça, devia estar vendo cinco Elizabeths."

"O que a Sasha estava fazendo bêbada?" Jean perguntou, com confusão genuína em seu rosto. Nem ele nem Marco parecia ter qualquer conhecimento sobre as desventuras de Sasha no bar da família Anabelle. “Como ela conseguiu ficar bêbada pra começar? Ela nunca ia passar com uma identidade falsa em algum lugar, com aquela cara de treze anos. E o que você estava fazendo com ela?”

Elizabeth deu de ombros, não sabendo ao certo o que responder. "Isso é algo que devia perguntar a ela, Garanhão. Acho que você tem mais obrigação de saber que eu, já que faz parte desse clube misterioso. E eu não sei o que vocês acham que podem fazer por mim, mas com certeza é muito além do que um bando de adolescentes pode-”

Não nos subestime. E não subestime a si mesma.” Num instante, Marco estava de joelhos na frente dela, e segurava as mãos de Elizabeth entre as suas, quase como se tentasse passar para ela sua confiança. “Eu posso não saber o seu segredo, e sinceramente, eu não acho que tenho direito de saber. Cada um tem a sua sombra e escolhe o que faz com ela. Mas isso não significa que não vou ao menos dividir o peso das consequências com você. Então, de verdade, eu não dou a mínima pro quão grande e perigoso seja o que você está escondendo. Mas eu não quero te ver assim sem esperança, resignada a qualquer que seja esse peso que você acha que precisa carregar. Você não tem que fazer isso, Eliza… Não sozinha. Nos deixe ser seus amigos, por favor.”

Os lábios do anjo de sardas se crisparam por um momento, uma última dúvida, antes que ele retomasse a determinação e perguntasse: "Elizabeth, quer fazer parte do nosso clube? Você quer a nossa ajuda?"

A mente da garota era um turbilhão. Ela queria acreditar. Queria mesmo acreditar no que Marco estava dizendo, como ela tinha acreditado em Sasha no sábado. Ela queria a chance de ser livre, de não ter culpa, de voltar a ser a mesma garota tranquila e brincalhona de antes, a mesma que ela fora mais cedo, quando eles discutiram o trabalho. Ela queria parar de arrastar seus fantasmas consigo para onde fosse, e ela queria se livrar de K… Mas ele era tão perigoso. Ele sabia de tantas coisas, e sabia tanto sobre ela, sobre seus pais, sobre seus amigos. Talvez até soubesse sobre essa conversa de agora, e o pensamento fez o um calafrio descer por sua coluna. Como ela poderia se livrar dele? Como Marco, ou Jean, ou Ymir ou qualquer outra pessoa poderia ajudá-la? Não havia salvação para Elizabeth Annabelle. Mas ela gostaria de acreditar que havia.

“...Eu preciso pensar.” Foi tudo o que ela conseguiu responder.

Em seu caminho de volta para a sala 104, Blake se perguntava o que pensar sobre o que acabara de acontecer. Ele não esperava uma reação daquelas nem de Marco nem de Elizabeth, e para ser sincero, não tinha sabido como reagir ele mesmo. Não tinha aprendido como lidar com aquele tipo de situação — de ver duas pessoas se abrindo daquela forma, e uma tentando ajudar a outra como pudesse... Era até um pouco assustador para o jovem. Se perguntava se talvez ter aceito fazer aquele trabalho com eles tinha sido um erro, agora que as palavras de Marco sobre segredos e desconfianças não queriam mais sair de sua mente. Podia ouvir a voz fria de Henry Summerland em seus pensamentos, lembrando-o de seu papel e do que tinha que fazer: “Todos que não são um de nós são inimigos.” O pai lhe dizia, arrumando as dobras imaginárias em seu jaleco impecável. “Ria com eles, sorria pra eles, minta pra eles, mas nunca, nunca deixe eles verem o que realmente sente.” Era algo que vinha sido repetido a ele desde que era criança, e o garoto aprendera a aceitar a filosofia sem pensar. Mas agora… Agora, não poder confiar nos outros parecia algo errado. O fazia sentir desconfortável.

O rapaz mordeu o lábio inferior, se sentindo culpado por ter dado ouvidos aos colegas de grupo, e, especialmente, por aquele pensamento no fundo de sua mente que se perguntava se, talvez, ele também não poderia pensar sobre o Clube de Voluntários. Um Summerland nunca deixa que vejam sua fraqueza. Era quase o lema de sua família, palavras para se viver e encarnar em todos os momentos da vida. Mesmo assim, Blake não conseguia extinguir aquela parte de si que se perguntava, que implorava, por uma chance de não ter que passar por aquilo tudo sozinho — ainda mais depois que ele tinha começado a lidar com aquele problema. Ele sabia que se continuasse como estava, não teria como terminar bem, mas também não conseguia parar. Os pensamentos se digladiavam em sua mente enquanto andava pelos corredores — ou ele mostrava fraqueza a alguém, ou morria. E ele francamente não conseguia ver tanta diferença entre as duas opções.

O presidente do grêmio inspirou fundo. Pensar sobre isso estava lhe dando dor de cabeça, e ele precisava de uma mente limpa para a aula de Levi. Teria que refletir sobre isso em algum momento… Mas não agora. Agora, ele precisava sorrir e pôr sua máscara, e foi isso que ele fez, parando por alguns instantes antes de entrar na sala para checar seu reflexo na janela da sala anterior.

Dizem que os espelhos não mentem. Para Blake Summerland, eles refletiam seus medos.



Assim que o sinal da última aula soou, Levi esperou pacientemente para que a manada de estudantes furiosos se retirasse, aproveitando o tempo para guardar suas coisas e tirar as dúvidas de dois ou três alunos que permaneceram em sala. Uma vez que todos tivessem ido embora, ele metodicamente checou as mesas por algum material esquecido, desligou o ar-condicionado e fechou as cortinas antes de sair, trancando a porta com cuidado atrás de si. Testou a maçaneta algumas vezes, para garantir que estava bem fechada. Alguns hábitos nunca abandonavam um homem, mesmo depois de anos, e aqueles hábitos específicos estavam entranhados até a alma do professor.

Então, foi atrás de Erwin.

A sala do coordenador era no final do corredor central do prédio, a primeira porta na mais recente ala de salas de aula. Os corredores estavam vazios, seus passos ecoando de maneira quase cavernosa no chão de lajotas. Ele preferia dessa forma; conseguia ouvir se alguém se aproximava. Daquela vez, ninguém além dele parecia estar por perto, então chegou sem distrações ao escritório de seu velho amigo. A porta era escura e elegante, com uma janela de vidro leitoso bloqueando a visão do interior — uma modernidade destoante do estilo mais antigo do resto da escola, mas que de alguma forma harmonizava a transição brusca para o corredor mais moderno do prédio. O nome e a função do Coordenador Smith estavam visíveis numa placa impessoal de aço.

Levi abriu a porta e entrou, sem o mínimo de cerimônia e sem se anunciar. O escritório, que o docente conhecia bem, era uma sala de tamanho mediano, arejada, com janelas amplas que davam para a vista do jardim principal e uma das praças internas da escola. A sala era toda decorada com quadros, alguns pinturas, outros diplomas e congratulações — os estúpidos prêmios de Erwin, ele pensava com certo sarcasmo. Os móveis eram de madeira escura e entalhada, com várias gavetas secretas na escrivaninha e cadeiras pesadas de espaldar alto. Em uma delas, atrás da mesa, o dono da sala tomava chá numa caneca do Capitão América; atrás dele, um bando de peixes coloridos nadavam calmamente num enorme aquário. Os malditos peixes idiotas de Erwin. Levi gostaria de dar todos para Isabel desde que tivera que cuidar deles durante as férias do chefe.

"Bom dia, Levi. Dormiu bem?" Erwin Smith replicou, acostumado com o jeito direto e sem enrolações do colega, mas decidido a provocá-lo um pouco. Os dois tinham sido melhores amigos na escola e ainda o eram hoje, então o loiro sabia muito bem como pressionar todos os botões de Levi para ter a resposta desejada. Portanto, sorriu por trás de sua caneca quando o moreno franziu as sobrancelhas, irritado.

"Corte a conversa mole. O negócio é sério."

"Muito bem." O coordenador baixou a caneca e apoiou os cotovelos na mesa, espiando o amigo por cima de seus dedos cruzados. Por mais problemático e até ranzinza que o moreno fosse, seu comportamento indicava que o que quer que quisesse falar era realmente um assunto importante; os anos tinham ensinado o loiro a não ignorar esse tipo de intuição, especialmente relativa a Levi. "Então diga."

"Acho que alguém invadiu o sistema." O homem mais baixo afirmou, sem rodeios. Mesmo que tentasse soar o mais profissional possível, Levi não conseguia deixar de sentir a raiva que se acumulara em sua barriga, o instinto e o orgulho ferido. Como de costume, manteve-os sob controle, esperando a reação de Erwin. O coordenador levantou uma sobrancelha por um instante, mas logo recuperou uma expressão de neutro interesse.

"O sistema de notas? É improvável. Acabamos de ter uma atualização."

"Foda-se a atualização. As notas dos meus alunos estão mudadas, e não só da minha matéria. Eu falei com Mike, Nanaba e Quatro Olhos nos intervalos. Eles também olharam o sistema a pedido meu, e adivinha? As notas das disciplinas deles também mudaram. Maiores, menores, invertidas, sempre com alunos aleatórios. Eu não sei dessas coisas de computador, mas tenho uma boa memória, e da última vez que essa merda deu problema não foi assim. Isso não é coincidência, Erwin. Algum daqueles guenzos entrou no sistema e está brincando conosco." A voz de Levi continuou no mesmo tom de sempre, mas a rapidez mordaz de suas palavras e a irritação clara em seus olhos deixavam óbvio como se sentia em relação àquela situação. Se tinha algo que realmente irritava o professor era ser enganado, ser deixado para trás, e ele não iria perdoar o moleque que fizesse isso e achasse que iria escapar impune.

"Você está ciente de que se estiver certo eu vou precisar falar com os outros docentes e levantar dados sobre todas as notas de todos os alunos do segundo ano, pelo menos. Vai levar certo tempo." O loiro ponderou após alguns minutos de reflexão. O departamento de informática poderia dizer o que fosse sobre as medidas de segurança e linhas de código: ele confiava mais na intuição de Levi. Sabia bem que, caso fosse mesmo confirmado como um dos alunos, especialmente dependendo de qual aluno fosse, o diretor tentaria abafar a situação como um bug do sistema.

Levi soltou um bufado irritado. "É por isso que você senta essa bunda enorme nessa cadeira de couro. Te vira."

"Infelizmente, essa não teria como ser minha prioridade. Eu também ando muito ocupado em reuniões com o diretor." O tom do coordenador era cordial, mas o aço em sua voz deixava claro o que realmente queria dizer. Os dois homens se conheciam por tempo suficiente para se comunicar até mesmo por palavras não ditas; a própria ausência já significava algo na linguagem particular entre eles. E o que o loiro dizia agora parecia claro a Levi — Eu estou de mãos atadas. Se tiver que fazer algo, terá que agir sozinho ou com outros professores, mas não posso oficialmente agir sem justificativa.

Isso fez o moreno soltar um som claro de desprezo, um tch sufocado na garganta. Erwin podia ter paciência para as sutilezas e politicagens do conselho de pais e mestres e das maquinações do diretor, mas Levi não tinha. "O que aquele velho decrépito quer agora?"

"Como você disse, é meu trabalho." Erwin respondeu com suavidade, devolvendo a alfinetada de forma elegante.Não disse nada, além disso, apenas sustentou o olhar irritado de seu amigo com a mesma educação de sempre — mas havia algo mais além de uma simples troca de indiretas. Havia preocupação no olhar de Erwin. Há muito que ela se manifestava, as vezes clara, as vezes escondida por véus de obrigação e amizade, mas ele não conseguia não temer pelo homem à sua frente, que parecia as vezes prestes a se quebrar em pedaços na frente de seus olhos. Sabia bem que tinha já feito muito por Levi, mas ainda assim, lhe parecia que nunca era o suficiente.

"Tch. Eu te odeio." O moreno apertou os olhos, um sinal claro de frustração, quebrando contato visual logo em seguida ao baixar o olhar para os nós dos próprios dedos, brancos ao segurar o espaldar da cadeira com força em demasia. Suas ações demonstravam moderada irritação, mas ele na verdade se sentia apático, vazio — isso se tornara muito comum, desde aquele incidente. Havia momentos em que explosões de emoção lhe vinham, arroubos fortes de sentimentos que ele mal podia controlar, e logo depois a sensação de nada, de vazio interno, como se alguma coisa tão importante tivesse sumido de dentro dele; a parte de si que ele havia perdido naquele dia fatídico continuava a assombrá-lo até na sua vida nova. Tinha ciência do olhar crítico de Erwin sobre si, mas o que o loiro lhe direcionava era respeito, não pena, e por isso Levi lhe era agradecido. Não achava que conseguiria suportar ser olhado com pena sem quebrar a cara do infeliz.

"Eu também aprecio muito nossa amizade." O coordenador replicou num tom muito mais calmo, e dessa vez, não havia não-dizeres a se ler nas entrelinhas.

"Eu vou te dar o que você precisa. Vou provar pro maldito conselho e praquele velho babão que se considera diretor dessa escola que eu estou certo. Mas eu tenho um preço. Não vou sair por aí fazendo trabalho extra de graça.” A voz do professor saiu num sibilar entredentes, cortante como as garras de Isabel podiam ser. Erwin sabia bem disso, pois ainda tinha cicatrizes de seu último encontro com a gata ruiva. “Quando isso tudo acabar, você vai fazer alguma coisa concreta sobre esse Hacker. Concreta, Erwin. Eu quero esse bostinha expulso, não importa quem tenha sido o infeliz que o pôs no mundo, e não importa o quanto o diretor for pago pra mantê-lo aqui. Se necessário, até um processo judicial. Mas precisa haver consequências. Não podemos continuar criando um bando de bestas sociopatas que se acham capazes de tudo sem pagar por nada."

"Quanto ódio no coração, Levi. Pense que estamos falando sobre um adolescente."

"Eu odeio quem pensa que pode me fazer de idiota. Pode ser até a vovó da esquina. Eu não vou ser enganado de novo, Erwin." O moreno percebeu que tinha trincado os dentes de forma involuntária com o retorno da raiva quente e doce a seu peito. Ele preferia assim. Era melhor sentir o sangue pulsando com o ódio do que o vazio que parecia ameaçar consumí-lo em nada. Mesmo que Erwin estivesse certo, que fosse apenas provavelmente mais um adolescente inconsequente se achando oh tão esperto por ser capaz de invadir o sistema do colégio e brincar com as notas dos coleguinhas… Ele não conseguia admitir nem mesmo isso. A sensação era a mesma daquela vez, ainda que a situação fosse completamente diferente. Quatro Olhos tem razão. Eu preciso voltar pro idiota daquele terapeuta.

Para sua sorte, o loiro apenas deu um grave aceno de concordância, sem mais perguntas ou julgamentos do porquê do professor levar a questão tão a sério. Esses pequenos detalhes apenas aumentavam a grande gratidão e respeito que Levi sentia por seu amigo e chefe. Em seu lugar, alguns daqueles idiotas que pavoneavam ao redor do diretor iriam recusar seu pedido, exigir que ele esquecesse o assunto, ou, ainda pior, afastá-lo de seu cargo por questões psicológicas. Erwin não fazia isso. Erwin entedia, e respeitava. Ele era uma das poucas pessoas no mundo que o fazia, e por isso, Levi tinha certeza que daria por ele sua vida. Não é como se ela valesse muito, pra começar.

"Bom. Parece que você tem muito trabalho extra pela frente.” Erwin voltou a erguer a caneca que tinha deixado esquecida no tampo da mesa, bebericando o chá frio com naturalidade. “Seria melhor se pedisse ajuda ao contatar os outros professores. Que tal falar com Hanji? Tenho certeza que ela vai saber analisar os dados melhor que você.”

“Obrigado pela confiança nas minhas capacidades.” O docente respondeu secamente, endireitando-se e fazendo o caminho até a porta. Só hesitou quando a mão já estava na maçaneta, o aço frio entre seus dedos. Sua voz estava mais calma e menos sarcástica quando falou, num tom raro de quase-gentileza: “E obrigado por me levar a sério, Erwin.”

Quase podia ver o sorriso dele quando saiu da sala, mas não se virou para ter certeza. Não precisava.

Reiner estava cansado. Tivera uma manhã bem dura de aulas, e depois delas o garoto ainda teve que lidar com suas responsabilidades do Clube de Voluntários — sendo que desta vez ele ajudara Connie a estudar, aproveitando para pesquisar um pouco com ele para o trabalho de literatura. Além disso, ele tivera que voltar para casa a pé, o que não era um problema quando se era rotineiro, mas céus, estava muito quente naquele dia, e enquanto caminhava no meio daquele sol, ele se sentira quase como se fosse Berthold.

Felizmente, ele não tivera nenhum contratempo antes de chegar em casa, o que só provava que aquele dia não estava sendo ruim — apenas exaustivo. Agora que havia chegado, o loiro poderia tomar banho, comer alguma coisa e tirar um breve cochilo, o que com certeza ajudaria a recarregar suas energias para estudar por si mesmo mais tarde.

Pensar nisso fez com que o rapaz sorrisse de canto, aliviado por ter voltado ao lar, e a considerar o carro estranho — e bem caro — estacionado na porta de casa, ele percebeu que seus pais deveriam estar recebendo visitas em casa. Não que Reiner não estivesse acostumado com isso, já que ele sabia que seus pais tinham uma boa influência no trabalho e alguns bons amigos, mas era um sinal para ele se comportar e ser um bom moço ao entrar, e também que ele deveria ficar quietinho no seu quarto — por alguma razão, seus pais sempre diziam para ele fazer aquilo desde criança, o que era algo compreensível quando ele era mais novo, mas que soava um tanto estúpido agora que ele já era quase um adulto. No entanto, como ele tinha distrações o bastante no quarto, não era como se fosse bem algo tão importante assim para se preocupar — se bem que ele gostaria que seus pais confiassem mais nele nesse ponto agora que estava mais velho, mas aquilo deveria ser provavelmente por ele ser ainda o filho mais novo e o caçula da família.

Após dar uma rápida ajeitada nos cabelos loiros e na sua postura, Reiner entrou em casa, e não demorou muito para constatar que de fato ele não conhecia o visitante da vez. Seu pai, Eldritch Braun, era um homem loiro forte e alto, como o filho, e estava sentado elegante numa das poltronas da sala, usando um terno preto de trabalho. Ao ver o filho, o homem deu um sorriso charmoso, olhando para ele com os seus olhos azuis, e Reiner correspondeu ao gesto, mas sem deixar de ficar curioso sobre quem era a figura no mínimo diferente que estava sentada na outra poltrona.

O garoto nunca tinha visto alguém tão… Peculiar em sua vida. O visitante era um homem feito, e aparentava estar na faixa dos quarenta anos. No entanto, não tinha aquele porte físico tão forte quanto os do Braun, mas ele parecia ser bem treinado e trabalhado, já que estava com os braços à mostra — e estes tinham músculos bem delineados. Seu cabelo era de um tom loiro sujo, meio acastanhado, curto e bem repicado, porém com uma franja que cobria boa parte do lado esquerdo do rosto, escondendo o que Reiner logo identificou como sendo um tapa-olho. O outro olho era de cor azul-gelo, e ele tinha a pele pálida, uma barba por fazer, lábios finos e, principalmente, muitas tatuagens.

Só nos braços, Reiner já pode ver diversas imagens coloridas e muito bem feitas na pele do homem. Ele também podia ver pela camisa meio aberta que ele estava usando que seu peito também era tatuado, e ao que parecia, não deveria ser diferente do resto de seu corpo. Porém, pela distância, não dava para ver muito bem, se bem que o garoto teria que se aproximar dele para cumprimentá-lo, de qualquer forma.

“Boa tarde, Reiner!” Felizmente, seu pai fez o favor de ter a iniciativa em fazer aquilo, de modo que o garoto se aproximou para retribuir o gesto e apertar a mão dele, com um sorriso simpático no rosto.

“Boa tarde, pai, senhor…” Reiner respondeu, aproximando-se e apertando a mão do pai, para então passar a fazer o mesmo com o outro homem. Ele corara um pouco por não saber o seu nome, mas aproveitara a oportunidade para dar uma olhada melhor nas tatuagens. Nos nós dos dedos, haviam pequenas tatuagens, possivelmente de códigos, mas nos braços as figuras se tornavam bem diferentes. No esquerdo, ele tinha um grande dragão lich, esquelético, azul e preto, enrolado, e um médico da peste em escala cinza. No direito, havia o que parecia uma série de veias verdes, mas numa inspenção mais aprofundada, dava para ver que eram na verdade uma horda de pequenos coelhos flutuando num mar de ectoplasma. Além disso, no peito ele podia ver o que pareciam ser pedaços de cartas de tarô, e no pescoço um corvo negro de olhos vermelhos, voando e soltando penas que formavam um círculo ao redor da pele. Eram tatuagens muito bonitas, e Reiner estava mesmo admirado com o quão bem feitas elas eram, além de um tanto mórbidas.

“Nikita. Muito prazer em conhecê-lo, Reiner! Você é mesmo bem parecido com o seu pai, e é bem bonito. Tenho certeza de que deve fazer bastante sucesso com as garotas.” O comentário de Nikita foram bem humorado, e até mesmo fizera com que Reiner ficasse bastante lisonjeado, ainda mais porque ele não tinha falado nenhuma mentira — de fato, o rapaz tinha uma boa quantidade de admiradores, homens e mulheres, mas ele não se importava com isso, já que não tinha interesse em se jogar tão rapidamente numa relação que saberia ser superficial. Além disso, o garoto percebeu que ele falava com um certo sotaque, o que provava que ele deveria ser estrangeiro — pela aparência, possivelmente russo.

“Com certeza faz! Você devia vê-lo jogando, Nikita, esse garoto é muito bom no futebol, a estrela do time! Como é que o treinador te chama mesmo, filho?” Eldritch interveio por ele, com um outro comentário que deixou o rapaz ainda mais envergonhado, mas ele logo respondeu.

“Titã encouraçado.” Disse, de uma forma que fez com que os outros dois homens sorrissem. Reiner devia admitir que aquele não era bem um apelido comum, mas ele entendia a razão do seu treinador chamá-lo assim — por mais que isso muitas vezes o fizesse pensar se ele poderia ser mesmo tão forte e talvez até cruel como um titã, mas ele não gostava de ficar se ponderando muito sobre essas coisas, ainda mais na presença de outras pessoas.

“Ah, é mesmo! Bem, acho que você está cansado, Reiner. Pode ir pro seu quarto tomar banho, não vou te deixar preso aqui.” O seu pai falou todo compreensivo, e Reiner sabia que aquele era o sinal para subir as escadas e ir direto para o seu quarto sem questionar.

“Certo, pai. E foi um prazer te conhecer, Nikita. Eu gostei muito das suas tatuagens.” Reiner afirmou, completamente sincero — ele achara as tatuagens no corpo daquele homem muito bonitas e intrigantes, além de bem feitas, e elas ficavam muito bem nele.

“Que bom que gostou! E bom banho, Reiner.” Nikita falou, e o garoto agradeceu, para então subir as escadas e seguir até o seu quarto, onde trancou a porta e colocou a mochila na cama, antes de pegar uma toalha e roupas limpas, seguindo direto para o banheiro de sua suíte — uma das vantagens de se morar numa casa grande estava no fato de que cada um tinha seu banheiro, e Reiner gostava de manter sua privacidade.

O jovem fechou a porta do banheiro, tirando as roupas suadas e sujas e colocando-as para lavar, passando a entrar no chuveiro quando ficou completamente despido. Abriu a água, dando um suspiro aliviado ao sentir as gotas batendo e descendo pela sua pele, já começando a relaxar. Reiner precisava mesmo daquele banho, tanto para se refrescar naquele calor e para se limpar como também para relaxar de verdade, porque mesmo que aquelas últimas horas tivessem sido cansativas, o rapaz ainda sentia que havia uma certa energia acumulada e da qual precisava se livrar — e ele sabia que era culpa de seus hormônios e da idade em que estava.

O loiro respirou fundo, ponderando-se se ele precisava mesmo fazer isso, ainda mais durante o banho. Não que ele não sentisse prazer ao se tocar ou que achasse que fosse algo errado ou pecaminoso, mas… Algumas vezes, quando ele fazia isso, ele não conseguia controlar seus pensamentos, especialmente quando não havia alguma espécie de pornografia para distraí-lo. O problema não eram sequer suas fantasias — elas eram normais, até onde ele achava — mas sim do fato de que elas eram sobre uma pessoa que ele não gostaria de pensar num contexto sexual.

Berrick Marcel.

Berrick era seu amigo, mas ele era uma pessoa incrível, e estupidamente atraente. Sua voz era linda, seus olhos, daquele lindo tom azul-acizentado o cativavam e o faziam se sentir como se olhasse para o mais belo lago congelado, seus lábios eram rosados e pareciam tão beijáveis — ainda mais quando ele sorria aquele sorriso perfeito, e seu cabelo negro, penteado sempre para trás, era tão macio de tocar. E para piorar a situação de Reiner, o outro garoto jogava futebol com ele, e não era como se o loiro, no meio de sua curiosidade juvenil guiada pela puberdade, pudesse resistir a olhar discretamente para o seu corpo quando eles iam tomar banho juntos nos chuveiros coletivos da escola.

O corpo de Berrick era perfeito. Como ele fazia logo dois esportes, futebol e patinação, o garoto tinha o corpo musculoso, de porte atlético, mas ainda assim com alguns traços mais delicados, como a curva de sua cintura, os dedos da mão que começavam grossos e se afinavam nas pontas e o nariz arrebitado. Ele era um pouco mais alto que Reiner — apenas uns dois ou três centímetros -, e era todo bem trabalhado, com uma pele morena que parecia ser deliciosa, músculos bem definidos nas pernas, braços e por todo o peito e abdômem, sem falar das costas, num sinal de que os esportes realmente faziam um belo efeito.

O loiro se lembrava dos traços de cada músculo, de como ele gostaria de tocá-los mais diretamente, e de como passaria as mãos por Berrick inteiro, da cabeça aos pés. Se apenas ele pudesse tocar naquelas coxas, apertar o seu traseiro firme, traçar com os dedos os músculos de seu peito, seus mamilos pequenos, as curvas de seus lábios, Reiner ficaria feliz, especialmente se pudesse beijá-lo — ele nunca vira o amigo beijando ninguém, mas imaginava que ele deveria fazê-lo muito bem e de uma maneira bastante sensual -, e a partir daí ir mais além.

O garoto respirou fundo debaixo do chuveiro, sentindo o próprio corpo ficar quente. Estava acontecendo de novo, e quando começava ele sabia que não seria capaz de parar. Ele olhou para baixo, vendo o seu membro já semiereto apenas com aqueles pensamentos, e Reiner sabia que a partir dali não havia mesmo como voltar atrás.

Sua mão, que antes estava em sua coxa, meio que a arranhando para que ele parasse de pensar naquilo, viajou até entre suas pernas, segurando o sexo e começando a se movimentar, ao mesmo tempo em que ele fechava os olhos dourados e passava a imaginar que Berrick estava ali com ele.

Reiner conseguia imaginar perfeitamente o corpo do moreno, com cada detalhe, desde os músculos de seu peito, as mechas de seu cabelo e o sorriso maroto, incluindo até mesmo as curvas de suas nádegas, os mamilos escuros, e a trilha de pelos pubianos que começava fina um pouco abaixo de seu umbigo e descia, alargando-se, até chegar em sua intimidade — e toda vez que o garoto pensava naquele lugar em especial, ele soltava um suspiro em pura necessidade.

Seu membro pulsou em sua mão quando ele se imaginou tocando o corpo de Berrick, descendo aos poucos. Reiner queria tanto tocá-lo, e mais ainda, queria ser tocado de volta. Ele queria ver o moreno sorrindo enquanto passava as mãos em seus braços largos, no peito, até mesmo em seu traseiro que ele sabia ser avantajado — e céus, ele com certeza deixaria aquelas mãos maravilhosas apertarem suas nádegas. O garoto passou a própria mão na região, apertando a carne e mordendo o lábio inferior, sentindo-se um tanto ridículo ao fazer aquilo, mas imaginar que a mão que estava ali não era a sua era incrivelmente bom.

Naquela altura, ele já estava totalmente ereto, e também suspirando e gemendo baixinho. Berrick era tão lindo, e quanto mais Reiner pensava nele, com mais intensidade ele se masturbava. Sua mão se movia com vontade em seu membro rijo, capturando as gotas grossas de pré-gozo para lubrificá-la mesmo que temporariamente, já que a água corrente o levava para longe. Ele não apenas achava o garoto atraente, ele o queria para si. Queria as suas mãos em seu corpo, seus lábios em sua pele, seus carinhos nos lugares mais íntimos possíveis.

Reiner ansiava por Berrick, não apenas pelo seu corpo, mas também por sua alma. Ele queria vê-lo sorrindo enquanto tirava suas roupas, desejava ouvir seus elogios e seus gemidos de prazer que deveriam ser tão belos e roucos, queria ser marcado pelo moreno de todas as maneiras que ele poderia marcá-lo, com beijos, mordidas, arranhões, carícias. O loiro desejava conhecer o sabor dos lábios e da pele de Berrick, sentir o seu cheiro, molhá-lo com sua saliva, suor e até mesmo mais que isso. Ele queria que o moreno lhe despisse, lhe tocasse e principalmente que o amasse.

Ele queria ser amado por Berrick. Reiner precisava do amor daquele outro garoto, que era tão próximo dele mas que agora estava tão distante, praticamente inalcançável, e por isso a única coisa que restava para o jovem era fantasiar sobre como seriam os beijos e carinhos do outro em seu corpo, como seria bom escutar suas declarações e seus suspiros, como ele gostaria de segurar a mão do outro e não largar mais, como ele gostaria de ter a sua primeira vez com ele. Só de imaginar como seria isso, o loiro estremecia num prazer imaginário, e na sua imaginação Berrick era tão perfeito.

O garoto conseguia visualizar perfeitamente como eles iriam começar se beijando, possivelmente no quarto de um deles, ou quem sabe no vestiário vazio da escola, no chuveiro coletivo — aquela era uma fantasia antiga de Reiner -, onde suas mãos passariam pelos seus corpos ainda vestidos, explorando-os, e logo isso não seria o bastante e os forçaria a tirar as roupas. Então ambos despiriam um ao outro, e passariam a explorar e descobrir seu corpos, sem pressa e cheios de curiosidade, aprendendo onde e como preferiam ser tocados, quais locais os faziam estremecer, quais faziam cócegas, tudo em meio a sorrisos abobalhados, risadas e muitos beijos, num clima apaixonado e jovialmente atrapalhado que o loiro tanto gostava de pensar que os envolveria.

Eles iriam para a cama, ou então para o chuveiro — nesse momento, Reiner optou pela segunda opção, já que pelo menos podia sentir a água em seu corpo -, e céus, como seria bom sentir as mãos de Berrick correndo pelo seu corpo molhado. Por aquele garoto, o loiro faria tudo: ficaria de joelhos, deixaria-se ser prensado contra a parede, gemeria seu nome, o daria permissão para tocá-lo por inteiro e como bem quisesse, até mesmo por entre suas pernas, por entre suas nádegas. Sim, Reiner se entregaria por completo, de corpo e alma para Berrick, e ele não teria medo disso.

Um gemido exasperado saiu da boca do rapaz quando ele imaginou tudo aquilo acontecendo. E depois desse, muitos outros seguiram, e ele tentava se segurar ao máximo para que ninguém no corredor pudesse ser capaz de escutá-lo. O loiro conseguia imaginar perfeitamente tudo o que Berrick faria com ele, desde os toques de suas mãos a, inclusive, o que ele diria.

Reiner mordeu o lábio ao pensar em como seria tocar o outro garoto, em como seria bom sentir seus músculos, sua pele molhada e como ele adoraria segurar sua ereção. Ele nunca vira o amigo excitado, mas isso não era o bastante para impedir a sua imaginação de fazê-lo fantasiá-lo sobre como seria perfeito poder sentir a excitação do outro na sua mão, acariciar cada veia, passar o polegar pela glande e escutá-lo gemer baixinho.

Ele podia imaginar como Berrick iria deixá-lo tocá-lo, para então, gentilmente, afastar suas mãos de seu corpo para que ele pudesse beijá-lo novamente. E não seria apenas na boca — o moreno iria descer, gradativamente, passando pelo resto de seu rosto, pelo pescoço, pelo peito, até chegar em sua intimidade. Reiner olharia para baixo, e veria o moreno de joelhos, na sua frente, e ele saberia muito bem quais seriam suas intenções.

O patinador começaria devagar, apenas deixando os lábios encostarem na sua glande, os olhos azuis enevoados pelo desejo olhando para cima, esperando a aprovação de Reiner, que viria na forma de um suspiro. Ele iria continuar, então, deixando-se explorar cada centímetro de seu membro apenas com os lábios e a língua antes de finalmente colocá-lo dentro da boca, indo o mais fundo possível, fazendo com que o loiro gemesse mais alto. Ele podia imaginar perfeitamente como deveria ser quente, molhado e delicioso ali dentro, assim como como deveria ser delicioso sentir a língua do moreno acariciando-lhe daquela forma.

Reiner sentiu o membro pulsar com tal pensamento, e na sua imaginação Berrick logo começaria a se mover, sugando-o e dando gemidos abafados. Suas mãos estariam segurando o seu sexo pela base, os dedos acariciando gentilmente tudo o que ele não conseguia colocar na boca. Ele conseguia visualizar perfeitamente aquela cena, com o moreno ajoelhado à sua frente, com o rosto vermelho, o cabelo e o corpo molhados, fazendo tudo aquilo com ele e ainda olhando para cima de vez em quando, encarando Reiner com aqueles olhos azuis tão belos e cheios de malícia.

Ele não sabia por quanto tempo poderia se segurar, mas Berrick não iria parar quando soubesse que o loiro estaria próximo do orgasmo. Na verdade, ele iria continuar com ainda mais intensidade do que antes, fazendo questão de dar o máximo de prazer para o loiro antes dele enfim gozar.

Nesse momento, Berrick o tiraria da boca, apenas para deixá-lo gozar em seu rosto. Ele não iria se importar, e Reiner sabia disso. O loiro não seria capaz de manter os olhos abertos durante aqueles segundos, mas com certeza olharia para baixo logo depois, para então se deparar com o moreno. Reiner veria o quanto tinha gozado, como ele havia sujado o rosto de Berrick, e principalmente como o moreno estaria sorrindo pra ele, talvez até mesmo rindo baixinho, encarando-o sem nenhuma vergonha, lambendo os lábios e querendo mais.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Foi com essa imagem mental que Reiner enfim gozou, depois do que pareceram ser longos minutos. No entanto, quando ele abriu os olhos, ele não encontrou Berrick — na verdade, ele estava sozinho debaixo do chuveiro, com a mão melada de seu próprio esperma. O loiro ficou ali parado, olhando para ela, observando enquanto a água quente do chuveiro levava tudo embora.

Ele era vergonhoso. Não por se sentir atraído por um homem, mas porque ele gostava de Berrick Marcel, uma pessoa que ele nunca iria alcançar ou ter para si. De todas as pessoas por quem Reiner podia se apaixonar tinha que ser logo ele, tão perfeito e inalcançável — e, ainda assim, o loiro não podia deixar de nutrir todas aquelas fantasias com ele.

Tudo que Reiner queria era tê-lo para sempre. Estar ao seu lado, viver sua vida com ele. Concluir seus estudos com Berrick, morar junto, talvez até casar com o moreno, caso o tempo permitisse.

Mas isso nunca iria acontecer.

Berrick não iria voltar para sua vida apenas porque ele queria. Ele não iria aparecer na escola magicamente para salvá-lo em um cavalo branco como se fosse um príncipe encantado. Mesmo assim, Reiner gostava de acreditar que, um dia, isso poderia acontecer — nos seus sonhos, talvez.

Ele era ridículo por chorar debaixo do chuveiro por causa daquele garoto, ainda mais depois do que ele fez. No entanto, não havia ninguém lá para julgá-lo, e talvez por isso mesmo o chuveiro era o local ideal para Reiner expressar tudo o que sentia mas que outras pessoas não podiam saber.

Por isso, ele deixou-se soluçar e chorar ali mesmo. Não era como se ele tivesse que esconder o que sentia até mesmo dele próprio. Reiner precisava daquilo, até porque nunca parecia que ele chorava o suficiente.

Berrick estava tão longe agora. O loiro conseguia se lembrar de quando assistia o outro garoto patinar no gelo, e ele era sempre incrível. Havia vezes em que ele saltava e Reiner podia jurar que o outro rapaz seria capaz de sair voando e fugir para muito longe, para um lugar inalcançável.

E de fato, ele não podia mais correr atrás dele. Ainda assim, isso doía. O moreno não era só um jovem bonito e talentoso — ele era o melhor amigo de Reiner, a pessoa que antes sabia de todos os seus segredos, aquele em quem o loiro mais amava, confiava e tinha orgulho.

E ele foi embora antes mesmo dele falar metade do que gostaria de ter dito, ou então ter passado metade do tempo que gostaria com ele. Mas agora era muito tarde para ele ir atrás de quem o tinha deixado só, não era?

O loiro ficou ali parado por uns bons minutos, deixando as lágrimas descerem pelo seu rosto. Com o tempo, os soluços pararam, e ele apenas chorava em silêncio. Não que ainda não doesse, mas aos poucos Reiner estava conseguindo retomar pelo menos um pouco do controle de si mesmo ou de sua vida, pelo menos até onde ele conseguia.

Quando as lágrimas se acabaram, ele saiu do chuveiro. Ele precisava estudar e estava com fome, mas não sabia se o tal do Nikita ainda estava conversando com o seu pai lá embaixo. De qualquer forma, ele também estava muito cansado, e provavelmente com cara de choro — não era o melhor momento para se apresentar para as outras pessoas.

Por isso mesmo, ele apenas se secou, colocou uma cueca e se jogou na cama. Talvez tirar um cochilo fosse fazer bem. Talvez ele não iria sonhar com Berrick e iria acordar se sentindo melhor, caso tivesse sorte.

Se bem que ele não podia contar muito com sua sorte ultimamente.

Aquela tinha sido uma longa tarde para Connie Springer, e estava longe de terminar. As aulas pela manhã tinham sido um tormento todo especial — por mais que ele tivesse finalmente conseguido ter uma noite de sono decente, por algum motivo Levi estivera especialmente encapetado naquele dia, e a aula de matemática parecera a Connie ter sido ministrada numa língua que não a sua. Nanaba, por sua vez, tinha passado uma tonelada de questões sobre a atual situação geopolítica do Oriente Médio para a semana seguinte — e ele não sabia como iria conciliar isso com o trabalho de Petra ou as redações de Erd. Aliás, tinham recebido hoje a da semana anterior, e o garoto duvidava que aquele três fosse ajudar seu rendimento escolar. Se continuasse assim, iria reprovar em português e geografia. Nem mesmo o reforço dado por Reiner parecia ajudá-lo agora… O garoto careca deu um suspiro cansado, se preparando para enfrentar as escadas de seu prédio. O que diria a Primrose Springer sobre o boletim quando ela eventualmente perguntasse? Será que teria que mentir de novo? A perspectiva fazia sua garganta de contrair em remorso.

Seus pés ainda estavam com os tênis de correr do treino de atletismo, que também fora muito puxado hoje. O Treinador Alexander lembrava a seus pupilos com certa frequência de que era o treino frequente que os levaria a vitória, mas parecia a Connie que as vezes ele esquecia que nem todo mundo era ruivo, enorme e aparentemente incansável como o próprio treinador. O jovem ainda estava coberto de suor, tanto do treino quanto do ônibus lotado de meio dia, e esperava ter tempo quando chegasse em casa para ao menos tomar um banho antes de ir visitar a mãe no hospital. Checou rapidamente enquanto passava pelo primeiro andar. O horário de visitação começava de três horas da tarde, e, segundo seu celular, eram duas horas agora. Teria que tomar banho e correr pro ônibus se quisesse chegar ao hospital bem no começo do horário e não perder um minuto sequer com a mãe.

Ainda estava na escada quando ouviu uma voz desconhecida no corredor, fazendo-o franzir as sobrancelhas. Tinha se mudado para aquele prédio, cujo aluguel era bem mais barato que a casa onde moravam antes, depois que sua mãe ficara doente e seu pai os deixara para se virarem sozinhos. Conhecia cada pessoa que morava naquele bloco, no condomínio inteiro até; desde as famílias de imigrantes coreanos do quinto andar até o garoto idiota do andar de baixo que pintara uma mecha rosa no cabelo por perder uma aposta. Mas ainda assim, ele não reconhecia a voz daquela pessoa falando, e visitantes não eram muito comuns.

A pessoa — era homem, pelo tom mais grave — parecia estar falando com outra no telefone, numa voz impassível. Não era rude ou agressivo, mas algo naquele tom deixava Connie em alerta… Talvez o fato de que ele não parecia se alterar por nada, nem quando lhe eram feitas perguntas. Havia algo de perturbador naquilo, e, inconscientemente, Connie diminuiu o passo, antes apressado para chegar logo em casa. Pelo que podia ouvir, o homem estava em seu corredor. “Não, parece que não tem ninguém em casa. Vai ter que mandar o Kallin vir aqui outra hora… Tá, eu me informo. Você demora muito ainda nessa visita? Então dá pra vir me pegar quando eu sair?” Houve uma breve interrupção na fala enquanto quem quer que fosse esperasse uma resposta. “Tá, então combinado. Até daqui a pouco, pai.”

Finalmente chegara a seu andar, e não pode evitar espiar para o corredor com certa apreensão e curiosidade. Havia um garoto parado bem em frente a seu apartamento, o que fez um arrepio descer a coluna de Connie, e ele reduziu ainda mais o passo, para um andar que — esperava com toda força — não chamasse tanta atenção. Enquanto isso, continuou observando o estranho com cuidado, no que julgava ser uma maneira discreta. Não parecia ser tão mais velho que ele mesmo — era mais alto e mais forte, pelo que podia ver, ainda que boa parte de sua figura estivesse escondida por uma jaqueta grossa com capuz, calças escuras e coturnos. Seu cabelo era ainda mais escuro que suas roupas, com algumas mechas loiras aqui e ali; estava de cabeça baixa, olhando para a tela de um smartphone, o que não deixava entrever seu rosto. Subitamente, como se percebesse estar sendo observado, o garoto levantou o olhar diretamente para Connie, e este parou tão rápido em seu curso que quase caiu para trás. Sua expressão era neutra, como mal percebesse o estudante como uma pessoa, mas não foi isso que ele notara de imediato. Não, o que ele percebera fora outra coisa: Uma feia cicatriz descia pelo rosto do desconhecido, da pálpebra inferior do olho direito até o queixo. E era claramente uma cicatriz de faca.

É isso. Connie Springer refletiu consigo mesmo. É hoje que algum cara de gangue vai me jogar no Rio Sina e nunca mais alguém vai me ver.

“Hey. Você conhece o cara que mora aqui?” O possível assassino apontou para uma das portas mais próximas de si, e depois de cinco segundos de absoluto pânico, Connie percebeu que ele se referia ao apartamento do outro lado do corredor — não ao seu. Uma onda de alívio tomou conta de seu corpo, mas ele conseguiu manter a compostura o suficiente para não cair de joelhos em frente ao estranho e começar a agradecer aos deuses por terem poupado sua vida.

De alguma forma, o estudante achou forças para responder. “Huh? Ah, sim. É o Ryuunosuke. Somos amigos.”

“Você sabe me dizer se ele tá em casa agora? Ninguém atendeu.”

“Olha, cara, não sei. Ele tem uns horários meio esquisitos. De vez em quando ele tá sim, outras vezes ele sai, e também tem vezes em que ele tá trancado no ateliê e não dá sinal de vida por horas. Desculpe, mas não sei te informar.”

“Tudo bem. Eu agradeço.” O garoto continuava a olhá-lo de forma fixa, quase sem piscar, e isso deixava Connie se sentindo muito desconfortável. Havia algo de esquisito naquele cara, algo de mortiço em seus olhos, como se o estivesse vendo até a alma e ao mesmo tempo não o visse de verdade. A cicatriz não o deixara notá-los inicialmente. Eram azuis, num tom muito profundo, azul-céu-de-fim-de-tarde, mas enevoados, olhos mortos, e ele não sabia ao certo o que pensar disso; a incerteza apenas o deixava se sentindo mais ameaçado, e o rapaz careca engoliu em seco quando o outro voltou a se dirigir a ele, no mesmo tom educado e distante de antes.

“Você sabe alguma hora em que eu posso falar com ele, então?”

O garoto mais baixo mexeu na gola do uniforme, tentando não demonstrar tão claramente seu desconforto com aquela conversa. “Hm, normalmente no começo da noite ele tá aqui com a irmã. Você deve conseguir achar ele aí.”Voltou a engolir em seco, hesitando sobre continuar com as indagações que surgiam em sua mente. O que quer que Ryuunosuke tivesse de problema com aquele garoto esquisito não era problema dele, afinal, não tinha pelo quê se meter… Mas ele não conseguia deixar de pensar em todas as vezes que Ryuunosuke lhe ajudara no trabalho, se oferecendo a cobrir seus turnos de serviço quando ligavam do hospital sobre sua mãe, ajudando-o a se acalmar depois de encontros traumáticos com a polícia ou gangues, e até o levara para um médico clandestino quando Connie fora agredido por Titãs. Sua mãe sempre lhe ensinara que deveria agradecer e retribuir gentilezas, e, a bem da verdade, por mais estranho que Ryuu, o fã de Leopardos fosse, ele fora muito gentil com Connie e Primrose Springer. Se Ryuu está com problemas, talvez eu devesse avisá-lo... O lado lógico de sua mente gritava histérico, mas logo o estudante careca se ouviu dizendo: “Desculpa se eu tô me metendo, mas… Vocês são amigos? É que eu nunca te vi por aqui antes… É uma vizinhança unida, sabe, todo mundo se conhece.”

O outro rapaz lhe lançou um olhar especialmente penetrante, como se julgasse se deveria tê-lo esfolado por ter ousado questioná-lo… Ou era isso que Connie pensava, sentindo gotas frias de suor escorrendo por sua coluna. Não demorou muito para que seu interlocutor respondesse, sem parecer notar a forma com que o bolsista do Freedom High tentava não tremer. “Pode-se dizer que sim. Mas normalmente eu não venho aqui. Quem vem é o meu irmão. Por isso não deve ter me visto.”

Era uma resposta lógica e simples. Connie sentia que devia deixar as coisas se encerrarem por ali, entrar em seu apartamento, tomar o banho que tanto queria e esquecer daquele momento desconfortável. Mas mais uma vez, os princípios que sua mãe lhe ensinara voltaram a aparecer, fazendo-o dizer coisas que com certeza iriam terminar com seu cadáver alimentando os peixes do Rio Sina. “Ahhh, certo. Legal, eu não sabia que um dos amigos do Ryuu tem irmãos. Quem que é?”

“Um cara loiro, mais velho que eu. Ele tem uma tatuagem como essa aqui, só que o dragão dele é preto.” O rapaz não pareceu se importar muito com a pergunta, mas puxou a manga da jaqueta para cima — esta era de couro, Connie podia ver, e couro legítimo. Tinha aprendido a ver a diferença entre courino barato e couro de verdade ao vender carros com bancos estofados, e os legítimos tinham uma qualidade muito superior e sempre saíam muito mais do que os bancos comuns. Uma jaqueta daquelas devia pagar quase um mês dos remédios de sua mãe, o bolsista não pôde deixar de notar que certa frieza. O desconhecido expôs a ele o antebraço do braço esquerdo, e o que havia nele fez o careca soltar uma exclamação de surpresa. Um dragão oriental incrivelmente detalhado serpenteava no braço do rapaz, as escamas prateadas brilhando ao sol da tarde, cada uma tão realista que ele tinha certeza que as sentiria lisas como escamas de cobra se as tocasse. Era uma tatuagem já antiga, de linhas precisas e estilo mais moderno, sem as linhas pretas de contorno de tatuagens de estilo mais retrô — quase parecia ter surgido naturalmente, se uma pessoa pudesse fazer arte surgir espontaneamente em seu corpo. O que reforçava essa ideia eram os olhos do réptil — ele tinha os mesmos olhos azuis de seu dono, profundos e sombrios, mas a Connie eles pareciam um pouco tristes. De qualquer forma, era um trabalho artístico fenomenal, e ele tinha profunda admiração pelo tatuador que a fizera.

“Cara, que tatuagem incrível! Isso é uma obra de arte! Até parece que ele respira quando seu braço se mexe!” O estudante comentou de forma animada, surpreso o suficiente para momentaneamente esquecer o medo. Connie gostava bastante de tatuagens — até pretendia fazer algumas, quanto tivesse idade suficiente. Não sabia exatamente o que faria ainda, já que tinha no mínimo três anos até lá, mas isso não o impedia de pesquisar e se entusiasmar com o assunto. Sasha costumava dizer que esse era um sintoma de uma possível fase gótica, o que fazia o garoto revirar os olhos.

A sombra de um sorriso pareceu vir ao rosto sempre impassível de seu interlocutor, uma rara amostra de emoção e a primeira que se percebia em seu rosto desde que começaram a conversar. “Obrigado. Eu que fiz.”

Isso foi outra surpresa para Connie, e ele foi incapaz de conter a curiosidade — mesmo que parte de si ainda temesse que aquele cara fosse matá-lo por continuar a fazer perguntas. “Você? Mas… Você não é meio novo pra ser tatuador? Sem ofensa, claro, você parece super talentoso, é só que… Não parece ser velho o suficiente… Entende? Desculpe.”

Para sua sorte, o outro não parecia nada ofendido com as sugestões. Connie estava começando a ficar ainda mais assustado com aquilo — ele estava acostumado a lidar com bandidos esquentados, não com pessoas de olhos mortos que não reagiam a nada. “Eu tenho dezoito anos. É a idade pra se ter a licença. Mas meu pai é dono de uma loja de tatuagens, então ajuda que eu comecei bem novo.” Ele puxou a manga da jaqueta para baixo de forma displicente, cobrindo o dragão por completo. Antes que um silêncio ainda mais desconfortável se estabelecesse, o estranho sentiu a necessidade de agradecer, no que julgava ser a forma mais apropriada. Era claro que aquele garoto careca estava morrendo de medo dele, e não podia admitir que não estava se divertindo um pouquinho com isso. Estava começando a entender porque seu irmão mais velho gostava tanto de trazer as mensagens que o pai mandava — era mesmo divertido brincar com as reações das pessoas desse jeito. Mas ele já estava perdendo tempo o suficiente, e precisava falar com outra pessoa antes de voltar pra casa.

“Obrigado pelos elogios. Você é um cara legal, Springer.” O rapaz deve ter notado o pulo de surpresa que Connie deu no lugar, pois acrescentou em seguida: “Tá escrito na porta. Esse é seu apartamento, não é? É o único em que ninguém apareceu até agora.”

“S-sim. É sim o meu. Você já está aqui há algum tempo, né? Se todo mundo já passou por aqui…”

“Yusei.” O garoto o interrompeu, observando com certo divertimento a forma com que os olhos de Connie seguiam suas mãos com apreensão quando ele as pôs nos bolsos da jaqueta. “É o meu nome. Achei que estivesse se perguntando.”

“Ah, sim… É um nome meio diferente. Japonês também?”

“Descendente, sim.”

Connie coçou a cabeça, uma tentativa falha de mascarar o nervosismo. Parte de si dizia para ter calma e parar de julgar pelas aparências — afinal, o tal de Yusei não fora até agora nada mais que educado e inofensivo, ainda que um pouco esquisito. Talvez ele só não se desse muito bem com pessoas, ou fosse naturalmente reservado. Ainda assim, havia um nó doloroso na boca do estômago de Connie, que só crescia mais e mais a cada segundo de conversa. O Treinador Alexander já falara sobre a reação de luta e fuga a eles muitas vezes, e Connie a sentira bem demais ao longo de seus meses de trabalho, mas nunca pela simples presença de uma pessoa, e nunca tão perto de casa. Seu coração trabalhava dobrado, reclamando de sua falta de ação. “Parece ter muitos descendentes de japoneses em Rose Fields, ao menos aqui no bairro. Mas bem que dizem que a cidade é uma mistura de culturas, né?”

“É, é assim mesmo.” O rapaz de olhos azuis se mexeu subitamente, ainda com as mãos nos bolsos da jaqueta, fazendo menção de ir embora. Ele tinha ainda obrigações a fazer, e sentia que o careca também tinha. Continuar a segurar os dois ali apenas para se divertir às custas de um pobre coitado assustado não era de seu feitio. “Mas obrigado pela ajuda, Springer. Você parecia estar com pressa, então eu não vou mais te segurar.”

Alguma parte da mente do estudante bolsista estava dançando a Macarena em comemoração àquela frase, mas ele apenas deu um sorriso sem graça, tentando desfazer a tensão em seu peito com uma despedida bem humorada. Ele pegou as chaves do apartamento no bolso, sentindo pela primeira vez quanto suas mãos estavam geladas de suor, como o chaveiro deslizava molhado por entre seus dedos. Ainda assim, achou uma vitória conseguir manter o sorriso no rosto. “Springer não… Só Connie tá ótimo. E… Ah, é. Vou visitar a minha mãe agora… Boa sorte aí em achar o Ryuu, Yusei.”

“Valeu. Até a próxima.” Com essas palavras, e um leve aceno de cabeça em agradecimento, o moreno finalmente desviou os olhos do estudante à sua frente se virou, fazendo o caminho de volta para as escadas sem olhar para trás uma única vez. O garoto careca ficou olhando-o se afastar pelo tempo que julgava aceitável, reunindo força para sussurrar uma resposta que não teve certeza que ele tinha ouvido.

“Até mais, então.”

Connie ainda tremia enquanto tentava enfiar a chave na fechadura da porta, espiando Yusei se afastar com o rabo do olho. Demorou quase dois minutos para que conseguisse abrir a porta, entrar no apartamento e trancá-la atrás de si. Só então se deixou dar um longo suspiro de alívio, sentindo seus joelhos fracos finalmente cederem, e escorregou contra a porta até estar sentado no chão. O que fora aquela conversa, além do momento mais difícil de um dia muito difícil? O que será que aquele cara queria? Será que ele ainda deveria avisar Ryuunosuke?

E a pior pergunta, a que continuou no fundo da mente de Connie enquanto ele tomava banho, quando trancava a porta do apartamento mais uma vez ao sair, e quando corria para pegar o ônibus a tempo para chegar ao hospital:

O que ele quis dizer com até a próxima?

Em um pequeno café, dois estudantes aproveitavam para conversar e comer bolo, o que já havia virado rotina para eles. Na verdade, eles mal pareciam estudantes, de tão altos e mal encarados que pareciam, mas quem duvidasse de tal coisa podia muito bem dar uma boa olhada em seus documentos.

“Então, Kyros, me conte mais sobre os boatos que você ouviu. Sobre um tal de clube secreto que a Ymir criou…” Um deles, com cabelos brancos e olhos vermelhos, falou, cortando o próprio bolo. Em seu rosto estava um sorriso curioso, denunciado pelos riscos vermelhos tatuados em seu rosto, um no queixo e um em cada bochecha, que de longe mais pareciam cicatrizes. Além disso, ele falava com um sotaque distintamente japonês, o que denunciava que ele não era de Rose Fields — e ele mais parecia um membro da Yakuza do que um adolescente.

“Ah, se não me engano o nome é clube de ajuda ou algo assim. Parece que é pra auxiliar quem tá fodido nos estudos. Inútil, no nosso caso. Eu não tenho paciência pra ser babá de todos aqueles losers.” O outro falou, dando um risinho sarcástico. Ao contrário de seu companheiro, este tinha os cabelos negros curtos e ondulados, olhos azuis claros e em seu rosto podia-se ver três pintinhas: uma no canto da boca, outra debaixo do olho esquerdo e a última se encontrava em sua bochecha direita. Apesar de não ter nenhuma tatuagem visível, sua altura e porte físico com certeza não deixavam a desejar, e ele podia facilmente se passar por adulto se quisesse.

O albino engoliu seu pedaço de bolo, mas não pode deixar de achar aquilo tudo um tanto engraçado.

“Falou o loserd.” Provocou, sabendo que o outro com certeza ficaria um pouco irritado com aquilo — por mais que essa pequena troca de provocações já tivesse se provado como sendo parte da rotina de ambos os rapazes.

“Cala a boca, sereio.” O moreno retrucou de imediato, mesmo sabendo que aquele apelido não costumava deixar o outro garoto irritado — na verdade, ele até gostava de ser chamado assim.

“Tô calado, Kyros. Tão calado que posso acabar comendo seu bolo também.” Kyros acabou por deixar o seu prato mais perto do corpo defensivamente, mesmo sabendo que o albino dificilmente cumpriria tal ameaça. Eles podiam até brigar por outras coisas, mas o bolo era sagrado para eles, e uma das coisas que mais os unia.

“Vai nessa, Tobirama.” O moreno falou, fazendo com que Tobirama desse um risinho sacana. Ele realmente parecia bem devoto a proteger seu pedaço de bolo, mesmo sabendo que tinha dinheiro para mais.

“De qualquer forma, eu ouvi falar que o preço pra esse clube da Ymir é interessante… E diferente. E que tem gente que está lá porque precisa de ajuda em outras coisas fora dos estudos.” Tobirama disse, completando a informação já trazida por Kyros, que comia concentrado enquanto ele falava.

“Então são um bando de malucos pagando de professores e psicólogos. Aposto que vai dar merda.” O moreno afirmou, por fim, dando de ombros. Não que ele não gostasse de uma certa confusão — na verdade, podia-se dizer que ele era mais do que atraído por esse tipo de coisa.

“Tenho certeza que sim. E a gente vai estar lá pra ver o circo pegar fogo.” Tobirama comentou, fazendo com que Kyros apenas assentisse em aprovação. Era óbvio que eles dois iriam estar lá pra presenciar todo e qualquer tipo de confusão que aquele clube poderia oferecer, mesmo que não fossem ser parte dele.

“Vamos esperar que eles se fodem sozinhos. Você vai ver.” Kyros respondeu, mas não sem antes observar uma figura familiar passando por trás do amigo japonês. Demorou um pouco, mas logo ele percebeu que a pessoa que havia acabado de entrar no café era a dona do tal clube secreto de ajuda (que, obviamente, ia acabar numa confusão segundo as apostas dele e de Tobirama, que normalmente estavam corretas). Tal pensamento fez com que ele desse um risinho.

“Falando no diabo… Olha quem está aqui.” Ele disse com um risinho, e Tobirama virou-se rapidamente para ver o que estava acontecendo atrás dele, para então olhar para Kyros novamente.

“Vai encher o saco dela?” Questionou, mesmo que a expressão sacana no rosto do moreno já fosse mais que o suficiente para confirmar que ele iria, sim, falar com a garota de sardas, justamente para tentar extrair mais informações da mesma sobre seu sagrado clube.

“Claro que vou. Eu não seria Kyros Riven se não fizesse essas coisas.” Kyros disse, terminando de comer seu pedaço de bolo — Tobirama poderia aproveitar para roubá-lo e ele jamais aceitaria tamanha sacanagem vinda de seu amigo — para então se levantar, os olhos fixos na sardenta.

“Vai nessa, loserd.” O albino riu, e Kyros deu-lhe um tapinha amigável no ombro antes de seguir até a moça.

Ymir se jogou de forma desleixada na cadeira, sentindo os nós dos músculos de suas costas incomodando sua postura ruim, um suspiro cansado escapando de sua garganta. Estava realmente exausta — aquela tinha sido uma semana muito difícil. Desde a última reunião do clube, ela tinha se enrolado com um trabalho especialmente espinhoso, que tinha tomado a maior parte de suas noites e prejudicado seus já não tão brilhantes deveres de casa. Receber esporro de Erd de todas as pessoas realmente tinha sido um ponto negativo daqueles sete dias, ainda que até ela admitisse que sua redação tinha sido mesmo sofrível. Ela também tinha que conciliar o trabalho de Petra, lidar com Levi a vigiando com aqueles olhos desconfiados em toda santa aula, e o dia seguinte seria a nova reunião do Clube de Ajuda. Aparentemente Armin e Marco tinha contatado possíveis novos membros, e ela precisava estar preparada psicologicamente para a iniciação da sexta-feira. Desmaiar de sono enquanto alguém lhe confessava seu segredo mais profundo com certeza não seria um bom começo, nem respeitoso da parte dela.

Tinha escolhido uma das mesinhas do canto da confeitaria, com o objetivo de ser incomodada o mínimo possível, e para optimizar a escolha decidira se sentar de costas para o resto dos clientes, jogando a mochila de qualquer jeito na cadeira à frente da sua. Quando queria relaxar um pouco, Ymir gostava de vir para pequenos cafés e lojinhas como aquela e ficar assistindo o ir e vir das pessoas, imaginando o que fariam, para onde estavam indo, o que as trouxera ali. A semana exaustiva, no entanto, tinha destruído qualquer tipo de paciência ou imaginação que a morena achava que tinha, e o que ela realmente queria agora era comer e ir embora para sua cama quentinha o mais rápido possível. Por isso mesmo, fez um sinal impaciente para a garçonete, e não perdeu tempo em fazer seu pedido.

“Uma coxinha e um café puro grande, por favor.” Disse assim que a outra moça se aproximou, e aproveitou para fisgar o celular do bolso enquanto a atendente anotava os códigos do cardápio no PDA. A primeira coisa que a sardenta checou foi o WhatsApp, e constatou com um olhar desapontado que Historia não tinha lhe mandado nenhuma mensagem. Com a semana turbulenta, nem ela nem a loira tinham se falado muito, e ela precisava admitir que estava com saudades da amiga em mais de um sentido. Talvez devesse mandar alguma mensagem despretensiosa apenas para se distrair? Ou será que aquilo seria dar muita bandeira? Bom, pelo menos Bertholdt respondera sua mensagem sobre aquele assunto particular, e...

“Adicione um chocolate quente, gracinha.” Uma voz de homem soou, vinda de detrás dela, assim como o súbito peso de alguém se apoiando em seus ombros. Ymir levantou lentamente o olhar da tela do celular, se virando com uma expressão calculada de desprazer, desconhecimento e julgamento para quem quer que fosse a criatura que ousava ser folgada daquele jeito para cima dela. O garoto pareceu não perceber sua reação, ocupado como estava em dar um sorriso sedutor para a atendente, o que fez com que a estudante franzisse as sobrancelhas em aborrecimento tanto pela situação quanto pelos súbitos risinhos que a moça deu ao se afastar. A mesma expressão dessatisfeita se manteve em seu rosto enquanto o ser do sexo masculino afastava sua mochila e se sentava na cadeira agora vazia, ainda sorrindo com aparente satisfação consigo mesmo. “Ymir Adler! Que surpresa te encontrar aqui.”

“Que caceta você tá fazendo aqui, Riven?” A garota de sardas foi curta e grossa em sua resposta. Kyros Riven estava longe do topo de sua lista de pessoas favoritas, e na verdade caíra aproximadamente dez posições no instante em que encostara nela. Se ele continuasse sentado ali por mais tempo, ela previa que fosse acabar num ranking negativo.

O rapaz não se abalou nem um pouco com a rudeza, observando Ymir com curiosidade enquanto se curvava para frente, os cotovelos na mesa e o rosto apoiado nas mãos. “É assim que você trata seus colegas de escola?”

“É assim que eu trato qualquer infeliz que eu não conheço.”

“Você diz que não me conhece, no entanto, sabe meu nome.” Aquela frase era totalmente ridícula, na opinião dela. Como poderia não conhecer o idiota à sua frente? Primeiro, Ymir tomara como cruzada pessoal obter informações sobre todos os alunos do Free, e dedicava muito mais tempo a espionar seus colegas do que à própria situação acadêmica. Segundo, não tinha como ela não saber quem Kyros ou Tobirama Senju eram. Os dois alunos intercambistas tinham entrado no começo daquele mesmo ano e já obtido uma reputação como chantagistas e espiões. De alguma forma, os gringos ficavam sabendo de informações que os envolvidos preferiam manter fora de circulação, algumas que nem mesmo Ymir em pessoa tinha conseguido desencavar. Ao contrário da moça de sardas, que fazia aquilo para seu próprio divertimento, os dois estudantes tinham transformado o processo em um negócio quase profissional, se dispondo a se calar em troca de favores, dinheiro ou o que lhes desse na telha. Quem recusava normalmente acabava bastante arrependido, para dizer o mínimo, e Ymir tinha provas razoáveis de que eles estivessem por trás de pelo menos três expulsões e duas mudanças de escola em menos de seis meses.

A mulher de rabo de cavalo resistiu fortemente à vontade de revirar os olhos, preferindo cruzar os braços e se recostar na cadeira. Aquele seria um longo combate verbal, podia sentir. “Sei que você e seu namoradinho são dois capetas que por um acaso fazem intercâmbio na minha escola. Aliás, cadê seu boy?”

“Ele não é meu namorado.” Não havia nenhum traço de hesitação ou raiva na voz do rapaz; era uma simples constatação, até mesmo divertida. Em contrapartida, Ymir levantou uma sobrancelha, a perfeita imagem da descrença. “Estou falando sério. Não tenho problemas com quem tende para esse lado, mas eu prefiro bolo a pessoas. Muito mais doce, bem mais obediente, te cobra menos... Aliás, como você vem pra uma doceria e pede um salgado? É quase heresia.”

A sardenta olhou distraidamente para as unhas. “Você já devia saber que não dou a mínima pra esse tipo de coisa. E olha, pra alguém que não gosta de pessoas, sinto em informar, mas você passa bastante tempo com uma…”

“Posso dizer o mesmo de você.” Um sorriso enigmático veio ao rosto do moreno, que de alguma forma lembrava a Ymir de Chesire, o gato de Alice. “Pode fingir ser a demônia sardenta misantropa o quanto for, é só olhar pra Historia Reiss que a farsa se derrete rapidinho, não é? Ah sim, é bem visível. O jeito que você olha quando pensa que ela não está percebendo…”

“O que diabos você queria mesmo, Riven?” A moça interrompeu num tom decididamente mordaz, lançando a seu interlocutor um olhar irritado. Parte dela se perguntava se estava realmente tão óbvio assim seu interesse na loira baixinha, mas a estudante tinha autocontrole o suficiente para não demonstrar aquelas dúvidas abertamente. Mais que isso, ouvir o nome de Historia na voz desdenhosa de Kyros já fora suficiente para que ela quisesse tirar aquele sorrisinho presunçoso do rosto dele com um belo soco.

Por sua vez, o menino fez o que julgava ser sua expressão mais inocente, notando que por melhor que seu autocontrole fosse, a morena estava bastante irritada. Por mais que esse não fosse exatamente seu objetivo, ele tinha que admitir que irritar Ymir estava sendo bastante divertido. “Eu ouvi falar que você começou um clube novo. Ele está aberto pra alunos de outras turmas?”

“Absolutamente não.” A sardenta foi forçada a ajeitar a postura para deixar que a garçonete depositasse seu prato e a xícara na mesa, murmurando um agradecimento em seguida. O garoto de olhos azuis levantou a sobrancelha, consequentemente ignorando quase que completamente a pobre funcionária que lhe deixara uma xícara e seu número de celular. A moça parecia estar ansiando um pouco mais da atenção que tivera na hora do pedido, mas agora o rapaz estava muito mais interessado na conversa do que em brincar com as expectativas da garçonete tolinha, seja lá quem ela fosse. Ele agradeceu distraidamente antes de tomar um grande gole do chocolate quente, esperando calmamente para que a atendente frustrada se afastasse antes de continuar o assunto.

“Que tipo de preconceito é esse, Adler? Eu não esperava uma coisa dessas vinda de alguém como você.”

“Não tenho nada contra pessoas das outras salas. Tenho contra você, Riven. Não sou burra, não quero nem você nem seu suposto não-namorado na minha presença.” Dessa vez Ymir conseguiu deixar a voz menos abertamente agressiva, mas isso era amplamente demonstrado por suas palavras. O que ela não queria agora era chamar a atenção das pessoas ao redor; sabia que muitos alunos do Free frequentavam aquela confeitaria depois da aula, e não queria arriscar que um deles ouvisse a conversa que aparentava se tornar mais e mais comprometedora. “Você pode sorrir pras pessoas, piscar esses olhos azuis e tentar ser charmoso o quanto quiser, querido, mas isso não funciona comigo. A única coisa que percebo quando olho pra sua cara é encrenca. E acredite em mim, eu já lido com muita treta pra querer me meter nos seus joguinhos mentais.”

“Acha mesmo que por ouvir falar da vida de todo mundo, você tem a menor ideia de como eles realmente são, Ymir? Porque você não tem não.” A voz do rapaz continuava suave, mas ela não podia dizer o mesmo do jeito raivoso em seus olhos pálidos ou do tom acusatório de suas palavras. “Você nem imagina o motivo pelo qual te fiz uma simples pergunta, e já tá jogando sete pedras em mim como se eu fosse um criminoso. Fora que desde o começo você ficou julgando minha vida como bem quis, e aí você ficou com raiva e arisca comigo quando eu fiz a mesma coisa com você. Double standard, much?

“Você sentou na minha mesa e começou a conversa, Riven. Se não aguentasse, não fizesse isso. E não tinha pra quê trazer a minha amiga pra conversa.” Ela se inclinou para frente, quase como um animal preparando o bote, mas não ousou falar o nome de Christa naquele contexto. Sabia que qualquer palavra dita de forma errada podia implicá-la de vez, e levando em conta com quem estava lidando, ser chantageada não estava em seus planos.

Havia mais aborrecimento que raiva no rosto de Kyros, e ele voltou as atenções para o chocolate mais uma vez antes de responder. “Então pra quê você trouxe o Tobirama? Ele também é meu amigo. Antes que você comece, tanto eu quanto ele somos assexuais, e eu sou aromântico ainda por cima. Então a única coisa que estou vendo aqui é você… Projetando coisas na gente.” O sorriso que lhe era comum voltou a seu rosto naquele momento, brincalhão e cruel ao mesmo tempo. “Eu não te culpo, no entanto. Ela é realmente adorável, não é? A perfeita princesinha para se corromper...”

“Pra um aromântico, você presta demasiada atenção em como fazer os outros se encaixarem nos seus clichês de romance.” A estudante sardenta teve que notar com dose saudável de sarcasmo. “Por acaso você é shipper, seu nerd?”

O rapaz não pode conter uma pequena risada com aquilo, logo em seguida dando de ombros por um momento antes de voltar a uma seriedade não característica. “Tem diferença entre observar e forçar. Não é culpa minha se as pessoas tendem a ser clichês de verdade… Mas bem, podemos conversar sobre isso uma outra hora. Eu realmente queria que você respondesse a minha pergunta sobre o clube de ajuda.”

“Por que você quer se juntar ao clube?” Ymir inquiriu, limpando um resto de coxinha de sua bochecha com as costas da mão. “Apenas para destruir minha sanidade para seu divertimento?”

Pela primeira vez desde que o conhecera, o rapaz parecia desconfortável. Levando em conta a alta qualidade de cara de pau que ele possuía, era impressionante e até meio desconcertante. Ele hesitou por longos minutos, terminando seu chocolate quente no processo, antes de dizer, numa voz muito mais baixa do que antes: “Eu tenho um problema, e preciso de ajuda para resolvê-lo. E eu acho que você pode ser a pessoa que pode me ajudar… Se estiver disposta.”

“Você tem uma forma interessante de pedir ajuda, com essa coisa de ficar enchendo o saco das pessoas até elas quererem quebrar sua cara.”

“Ora, eu também adoro conversar com você.” O rapaz continuou forçando um sorriso amigável, ainda que seus olhos não fizessem o mesmo. Pelo contrário, se olhares matassem, Ymir estava ciente que estaria morrendo em agonia naquele exato momento. “Mas confesso que já estou começando a ficar frustrado. Não sei o que preciso fazer pra que você acredite em mim por um instante. Não é por eu lucrar em cima da estupidez alheia que eu vou propositalmente atacar todo mundo ao meu redor. Como você mesma disse mais cedo, eu também não sou idiota. Você não tem ideia do quão ruim já é admitir que preciso de ajuda, imagine ainda por cima para você. Então pense sobre isso por um instante: Eu não estaria te pedindo nada se não tivesse um motivo muito bom.”

A morena cruzou os braços, pensativa. Todos os seus instintos argumentavam contra a decisão de deixar alguém como Kyros entrar num clube de segredos, mas não podia negar que a argumentação dele tinha lógica. Era plausível que ele tivesse descoberto a verdadeira natureza do clube, mas improvável que descobrisse o lugar onde escondia o caderno — a estudante fazia questão de esconder o objeto com todo cuidado do mundo, e ninguém além dela seria capaz de encontrá-lo naquela casa vazia. Além disso, mesmo que ele tentasse descobrir os segredos dos outros membros, ela teria o segredo dele em sua memória, como garantia. Ainda assim, ela não estava tão segura em relação àquela decisão. Afinal, nada impedia o garoto de lhe dar um segredo falso. Realmente, era uma situação complicada. Eu nunca devia ter deixado esse filho da puta falar comigo pra começar.

“Eu vou pensar no seu caso e discutir amanhã na reunião com os outros membros do clube.” A líder do clube se decidiu, por fim. Estava muito cansada para ter que lidar com possíveis insistências agora, e, mais do que nunca, só queria dormir antes que aquela dor de cabeça que parecia se avizinhar chegasse de vez. “Aí te dou uma resposta. Prepare-se pra esperar bastante. Você não é minha prioridade.”

Por algum motivo, aquela parecia ser exatamente a resposta que o rapaz esperava. Kyros parecia prestes a ronronar como um felino satisfeito quando sorriu para ela, de forma sincera dessa vez. “Ótimo. Sabia que íamos chegar a um consenso, Ymirzinha.

“Eu não te prometi nada. E me chame de Ymirzinha de novo e vou quebrar de verdade essa tua cara. Agora pague esse seu chocolate e vá embora. Eu já lidei com você o suficiente por hoje.”

Kyros jogou uma nota de cinco na direção de Ymir e se levantou, bastante satisfeito consigo mesmo. Tinha conseguido ao menos descobrir o horário do clube de ajuda… Agora só teria que descobrir o onde, mas ele sabia muito bem quem poderia lhe fornecer essa informação. Antes de tudo, tinha muito o que conversar com Tobirama, que esperara até agora de forma discreta do outro lado da confeitaria. Estava consciente que o amigo não ia ficar nada feliz com os rumos daquela conversa, no entanto. Tivera que falar a verdade uma vez na vida para convencer Ymir e aquele terrível faro de cadela sardenta para mentiras. Provavelmente teria que fazer o mesmo na reunião, e era isso que o deixava um pouco ansioso — seria a primeira vez que iria apostar um segredo seu no jogo. Era curioso, e o pensamento quase lhe fez rir. Para alguém que dissera não ter paciência para seus jogos mentais, até que Ymir Adler sabia jogar muito bem.

Mas ninguém jogava com segredos melhor que ele, e Kyros Riven estava disposto a deixar aquilo bem claro.

Notas finais
E esse foi um capítulo cheio de mistérios, tretas, personagens novos e amores não-correspondidos... Ou não? Nos mandem suas teorias nas reviews, leitores! Quem é o hacker? Quando a Ymir se declara pra Historia? O que aconteceu com o Berrick? O que Kyros, Yusei e Nikita vão fazer? Quando Isabel vai comer os peixinhos do Erwin? E fiquem ligados para o capítulo oito, meus amores, pois ele é a fatídica segunda reunião! Segredos, confissões e medos estão vindo! Rezem pra que saia antes de 2016, hahaha.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.