Dinastia de Cinza
11 O CASAMENTO DO SÉCULO
O mundo parou para assistir. Helicópteros sobrevoavam discretamente o céu de Washington enquanto transmissões internacionais exibiam cada centímetro da cerimônia mais aguardada da década. A fachada da Casa Branca fora transformada em um cenário quase irreal: corredores revestidos por milhares de orquídeas brancas importadas da Tailândia, arranjos de rosas raras cultivadas exclusivamente para a ocasião, cristais austríacos pendendo como constelações artificiais sobre um altar montado no jardim sul. Chefes de Estado, magnatas, celebridades e membros das famílias mais influentes do planeta ocupavam seus lugares como peças cuidadosamente posicionadas em um tabuleiro político. Não era apenas um casamento — era a consolidação de um império. E no centro dele, Isabella Swan caminhava lentamente em direção a Edward Cullen, vestindo um vestido feito sob medida em Paris, bordado à mão com fios de prata e pequenos diamantes quase invisíveis que capturavam a luz a cada passo. Ela parecia intocável. Fria. Perfeita.
Edward a observava como se o mundo ao redor tivesse sido silenciado. O terno sob medida, o porte impecável, o olhar decidido — tudo nele exalava controle. Mas havia algo quebrando sob a superfície. O desprezo silencioso que Bella vinha sustentando nos últimos dias o atingia mais profundamente do que qualquer investigação do FBI. Quando os olhos dela encontraram os dele no altar, não havia doçura. Havia desafio. O celebrante falava sobre união, legado, compromisso, mas Edward só conseguia pensar na distância invisível entre seus corpos, na muralha que ela erguera depois daquela noite no escritório. Quando ele segurou as mãos dela, sentiu os dedos frios como mármore. Ainda assim, ele apertou levemente, como quem tenta lembrar alguém de que está ali.
— Você está linda demais para alguém que claramente quer me matar com o olhar — ele murmurou, baixo o suficiente para que apenas ela ouvisse.
Bella ergueu um sorriso impecável para as câmeras.
— Relaxe, Edward. Eu jamais estragaria o casamento do século.
O beijo foi aplaudido pelo mundo inteiro. Fogos discretos explodiram ao fundo. Champagne francês começou a circular. E, por algumas horas, a perfeição foi absoluta.
A festa foi um espetáculo de exagero calculado. Um salão inteiro da Casa Branca foi transformado em um ambiente digno de um palácio europeu, com mesas folheadas a ouro, talheres personalizados e um cardápio assinado por três chefs com estrelas Michelin. Havia uma orquestra ao vivo alternando entre música clássica e versões sofisticadas de sucessos contemporâneos. Políticos brindavam ao futuro presidente. Empresários cochichavam acordos milionários entre uma dança e outra. Carlisle sorria como um rei orgulhoso observando o herdeiro consolidar sua dinastia. Charles fazia planos sobre netos antes mesmo da sobremesa ser servida. Era poder em sua forma mais luxuosa e perigosa.
Na lua de mel, em uma propriedade privada à beira-mar que parecia ter sido arrancada de um catálogo de fantasias impossíveis, o cenário era outro. O pôr do sol tingia o oceano de tons alaranjados enquanto Bella permanecia na varanda, envolta em um robe de seda branca, os cabelos soltos dançando com o vento. Edward a observava do interior da suíte, lutando contra a sensação de que aquela distância era mais cruel do que qualquer escândalo político. Ele aproximou-se devagar, parando atrás dela.
— Bella… nós precisamos falar.
Ela não se virou.
— Sobre qual parte? Sobre a amante grávida ou sobre o seu talento para omitir detalhes?
Ele fechou os olhos por um segundo, como se absorvesse o impacto.
— Depois da primeira vez que ficamos juntos… nunca mais houve nada entre mim e Rosalie. Nada.
Ela riu baixo.
— Engraçado. Porque eu vi vocês se beijando.
— Pressão. Chantagem. Desespero. Escolha o termo que preferir — ele respondeu, finalmente tocando o braço dela. — Mas não foi amor.
Bella virou-se, os olhos faiscando.
— E o que você sente por mim, Edward? Estratégia?
Ele segurou o rosto dela com firmeza inesperada.
— Eu amo você. Em alto e bom som, caso queira que o mundo inteiro ouça. Eu amo você como nunca amei ninguém. Você nunca foi um jogo político para mim. Nunca foi uma peça no tabuleiro do meu pai.
Ela tentou desviar o olhar, mas ele não permitiu.
— As provocações entre nós… eram excitantes, sim. Me deixavam louco. Você me deixa louco. Mas quando você pediu para eu te foder… eu não fiz isso. Eu te amei. Eu faço amor com você, Bella. Sempre fiz.
O silêncio que se seguiu era denso, carregado de meses de tensão e desejo contido. Bella respirava com dificuldade. Havia raiva, havia orgulho, mas havia também verdade nas palavras dele — e ela sabia. Quando ele a beijou, não foi um gesto apressado ou agressivo. Foi profundo. Intenso. Desarmador.
Aquela noite não teve ironias. Não teve veneno. Teve entrega. Edward percorreu cada centímetro dela como se estivesse memorizando um território sagrado. Bella, por sua vez, abandonou o controle pela primeira vez em dias, permitindo-se sentir em vez de calcular. Entre sussurros e promessas murmuradas contra a pele, eles se encontraram de uma forma que ultrapassava o desejo físico. Era como se cada toque fosse uma tentativa de reconstruir algo que quase haviam perdido. Quando o cansaço finalmente os venceu, Bella adormeceu nos braços dele, respirando de maneira tranquila.
Foi então que o telefone vibrou.
Edward deslizou cuidadosamente para fora da cama, atendendo em voz baixa.
— O bebê nasceu — a voz de Rosalie soava trêmula, mas calculada. — É um menino. O nome é Edward.
O mundo pareceu inclinar.
— O quê?
— Nosso filho, Edward.
Ele ficou em silêncio por tempo demais.
— Eu… preciso desligar.
Na manhã seguinte, devastado, ele encontrou Jasper na varanda externa da propriedade. O sol nascente iluminava o mar, contrastando com o peso no olhar de Edward.
— Ela disse que o bebê nasceu. Um menino. Com o meu nome.
Jasper permaneceu sério.
— Você acredita nisso?
— Eu não sei mais no que acreditar.
Atrás da porta parcialmente aberta, Alice ouviu cada palavra. Quando Edward terminou, ela saiu de seu esconderijo e o abraçou sem dizer nada. Ele tentou manter a postura, mas a tensão nos ombros denunciava o caos interno.
— Você não está sozinho — Alice murmurou.
Jasper aproximou-se, pousando a mão no ombro do amigo. Entre eles havia lealdade silenciosa. Alice e Jasper trocaram um olhar cúmplice, sólido, feito de algo mais estável do que paixões tempestuosas. Eles se amavam sem jogos, sem manipulações. E isso, naquele ambiente, era quase revolucionário.
Horas depois, Bella despertou sozinha na cama. Edward havia ido tomar banho e deixara o celular na cabeceira. O som de uma notificação quebrou o silêncio. Ela tentou ignorar. Tentou. Mas algo dentro dela queimava. Pegou o aparelho. A tela iluminou seu rosto. Uma foto de Rosalie segurando um recém-nascido. A legenda: “Te amamos, papai.”
O ar faltou. O mundo pareceu estreitar. Mas Bella não gritou. Não chorou. Respirou fundo. Colocou o telefone exatamente onde estava. E saiu.
Ela caminhou pela propriedade até o jardim dos fundos, onde um balanço de madeira pendia sob uma árvore antiga. Sentou-se ali e ficou olhando para o céu por horas, os pensamentos em espiral.
— Eu sempre odiei homens que subestimam minha inteligência — disse, sem perceber que Emmett havia se aproximado.
Ele sentou-se ao lado dela, o peso dele fazendo o balanço ranger levemente.
— Quer me contar o que aconteceu?
Bella hesitou. Mas algo na presença dele era diferente. Não havia cálculo. Não havia ambição. Apenas honestidade.
— Rosalie teve um filho. Diz que é dele. Mandou uma foto.
Emmett fechou os olhos por um segundo.
— Eu não confio nela.
— Eu também não. Mas dói do mesmo jeito.
Ele a puxou para perto, num gesto protetor, não possessivo.
— Você merece alguém que lute por você, não que a coloque em dúvidas constantes.
Bella apoiou a cabeça no ombro dele. Pela primeira vez em dias, sentiu paz.
— Às vezes eu me pergunto se escolhi o homem errado.
Emmett não respondeu de imediato. Apenas segurou a mão dela com firmeza.
E naquele balanço simples, sob um céu claro demais para combinar com o caos que os cercava, nasceu algo perigoso: a possibilidade de um sentimento que não precisava de coroas, nem de escândalos, nem de jogos políticos para existir.
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