Dinastia de Cinza
7 Diamantes são como abraços
Bella nunca foi do tipo que confidenciava fraquezas, mas naquela manhã em Washington, sentada no enorme sofá creme do quarto presidencial reservado à família Swan, ela encarava Alice como se estivesse prestes a cometer uma heresia. A luz suave atravessava as cortinas pesadas e desenhava linhas douradas no chão, enquanto o silêncio entre as duas era carregado de expectativa. Alice conhecia cada expressão da amiga, cada micro movimento dos lábios perfeitamente delineados, cada respiração que denunciava algo não dito. E quando Bella finalmente falou, não houve ironia imediata, não houve sarcasmo defensivo; houve apenas uma verdade crua que parecia custar mais do que qualquer diamante que seu pai já lhe dera.
— Eu dormi com ele — disse, encarando as próprias mãos como se elas pudessem julgá-la.
Alice não arregalou os olhos. Não gritou. Apenas sorriu devagar, como quem vê uma profecia se cumprir.
— Finalmente.
Bella levantou o rosto, irritada.
— Não faça isso parecer romântico.
— Foi? — Alice inclinou a cabeça, estudando-a. — Romântico?
Bella hesitou, e aquele segundo de silêncio respondeu mais do que qualquer frase elaborada. Ela lembrava da forma como Edward a tocara sem pressa, da maneira como sua arrogância dera lugar a algo quase vulnerável quando ele pensou que ela estava distraída demais para perceber. Lembrava da intensidade que não parecia apenas física, mas emocional, antiga, acumulada desde a adolescência.
— Foi… diferente — murmurou, contrariada consigo mesma. — Não foi guerra.
Alice se aproximou, sentando-se ao lado dela.
— Você sempre esteve em guerra com ele porque tinha medo de perder.
— Eu nunca perco.
Alice sorriu de leve.
— Você perdeu naquela limusine anos atrás. E nunca superou.
Bella respirou fundo, desviando o olhar.
— Eu pedi para ele me… — interrompeu-se, mas Alice já sabia.
— Você se entregou — completou a amiga, sem julgamento.
Bella fechou os olhos por um instante.
— E isso me assusta mais do que qualquer investigação federal.
No outro lado da ala oeste da Casa Branca, Edward estava de pé diante da janela do escritório improvisado, encarando o jardim como se pudesse encontrar respostas na geometria impecável do paisagismo. Jasper Whitlock, seu amigo de longa data e agora assessor político direto, observava-o com a calma estratégica que o definia. Jasper conhecia Edward o suficiente para perceber quando o controle estava escorregando.
— Você está distraído — Jasper comentou, cruzando os braços.
— Eu não me distraio — Edward respondeu automaticamente.
— Então está perturbado.
O silêncio que se seguiu confirmou.
Edward passou a mão pelos cabelos.
— Eu dormi com ela.
Jasper ergueu uma sobrancelha.
— Isso não é novidade histórica.
— Não foi como antes.
Jasper aguardou.
— Eu não estava competindo. Eu estava… — Edward travou, irritado com a própria dificuldade — envolvido.
Jasper respirou fundo.
— Isabella Swan não é uma adversária comum. Vocês dois cresceram sendo moldados para vencer. Talvez o problema seja que, quando estão juntos, nenhum quer perder o controle.
Edward soltou uma risada curta.
— Eu nunca perdi controle.
— Você está olhando para o nada há dez minutos — Jasper rebateu. — Isso para você é praticamente uma crise emocional.
Edward não respondeu, mas sabia que o amigo estava certo.
Talvez por isso, dias depois, tenha tomado uma decisão impulsiva e grandiosa demais até para seus próprios padrões. Paris surgiu como proposta de “reunião diplomática”, mas na prática foi outra coisa. Edward fechou o restaurante no alto da Torre Eiffel apenas para eles dois, eliminando turistas, jornalistas e curiosos, deixando o salão suspenso sobre a cidade luz entregue exclusivamente à futura senhora Cullen.
Bella fingiu indiferença quando chegaram, mas seus olhos traíram encanto ao ver as luzes de Paris cintilando sob seus pés.
— Você está tentando me comprar? — perguntou, passando os dedos pela taça de vinho.
— Você não tem preço — ele respondeu, sentando-se diante dela. — Mas aprecia gestos grandiosos.
— Eu aprecio poder.
— Eu sei.
O jantar foi permeado por olhares demorados, conversas que flertavam entre política internacional e memórias adolescentes, risadas inesperadas e silêncios carregados de algo que nenhum dos dois ousava nomear. Quando a torre começou a brilhar em sua iluminação noturna, Bella sentiu uma pontada estranha no peito.
— Você não faz isso por ninguém — ela disse, quase como acusação.
— Eu não levo ninguém onde você esteve comigo hoje.
A frase pairou no ar como promessa não assumida.
Na volta para Washington, o jatinho particular tornou-se palco de uma provocação inevitável. O espaço fechado, o cansaço da viagem e a proximidade reacenderam a tensão acumulada durante o jantar. Edward a puxou pela cintura quando ela fingiu estar interessada demais na vista da janela.
— Isso está me lembrando algo — ele murmurou.
Bella arqueou uma sobrancelha.
— Não ouse.
— Limousine 2.0 — ele provocou, um sorriso perigoso nos lábios.
Ela riu, mas o riso dissolveu-se quando ele a beijou, intenso e urgente. O passado e o presente colidiram novamente, mas dessa vez não havia vergonha juvenil, apenas desejo adulto, consciente. O som dos motores abafava suspiros e palavras sussurradas, e por alguns minutos o mundo político desapareceu, restando apenas dois herdeiros que fingiam não estar se apaixonando.
Mas em Washington, outra guerra se formava.
Rosalie percebeu a mudança antes mesmo que Edward admitisse para si próprio. Ele estava distante, impaciente com suas ligações, frio com suas tentativas de proximidade. Quando ela mencionava a gravidez, ele respondia com formalidade, não com entusiasmo. A percepção foi lenta, dolorosa.
Um dia, Bella, Alice e Esme decidiram visitar Edward na empresa para discutir detalhes do casamento. Foram recebidas na sala de reuniões onde Charles Swan também estava presente. O ambiente exalava poder e tensão. Falavam sobre flores, imprensa, alianças estratégicas, quando a porta se abriu e Rosalie entrou com postura estudada, o vestido justo evidenciando o que parecia ser o início de uma barriga.
Esme foi a única que sorriu com ternura genuína.
— Rosalie, querida… parabéns.
Alice inclinou a cabeça.
— Eu não sabia que você estava namorando — disse, doce demais.
Bella soltou uma gargalhada curta, afiada.
— Agora até o proletariado faz produção independente.
O silêncio caiu pesado.
Rosalie ficou vermelha, os olhos marejados, e saiu batendo os pés.
Esme voltou-se para Bella, decepcionada.
— Isso foi cruel.
Bella cruzou as pernas, impassível.
— Ela tem perfil de amante. Isso é golpe da barriga, Esme. Nada além disso.
Edward enrijeceu.
— Você não sabe disso.
— Eu sei reconhecer estratégia quando vejo uma — Bella rebateu. — E ela está tentando jogar.
Dias depois, Rosalie sofreu um aborto silencioso, solitário. O médico foi discreto. A dor foi real. Mas o medo de perder completamente Edward foi maior. Então ela decidiu manter a farsa. Barrigas falsas, exames manipulados, justificativas médicas cuidadosamente ensaiadas.
Enquanto isso, na Casa Branca, um raro momento de leveza uniu os Cullen. Esme organizou um jantar íntimo apenas para os filhos, longe de assessores e protocolos. Emmett riu alto contando histórias do time, Alice discutiu ideias para eventos beneficentes, e Edward, pela primeira vez em semanas, relaxou os ombros. Esme observava cada um com amor quase palpável.
— Vocês são minha maior vitória — disse, segurando as mãos deles.
Edward apertou a da mãe, silenciosamente agradecido por aquele porto seguro que nunca exigia desempenho.
Mas do outro lado da cidade, Bella enfrentava uma realidade diferente. Renée examinava joias novas diante do espelho enquanto Charles entregava à filha um colar caríssimo como “prova de amor”.
— Você merece o melhor — Charles disse.
Bella aceitou a caixa, mas seus olhos estavam vazios.
Ela sempre recebera diamantes no lugar de abraços. Presentes no lugar de proteção. E aprendeu a aceitar isso como forma de afeto, mesmo sabendo que era transação.
Naquela noite, deitada sozinha, segurando o colar novo, Bella percebeu algo que a irritou profundamente: pela primeira vez, nenhum presente tinha o mesmo peso que os braços de Edward ao redor dela em Paris.
E essa constatação era mais perigosa do que qualquer escândalo político.
Porque impérios podem ser comprados.
Mas sentimentos não.
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