Dinastia 3: A Rainha de Copas
37 Capítulo 37
O movimento circular que Renesme fazia em sua barriga era quase hipnotizante para Esme. Era um alívio saber que ela estava bem e que, dentro dela, ainda havia um bebê crescendo, respirando, mexendo-se, vivo...
Não fazia nem uma semana que um episódio deixara todos preocupados. Renesme estava em um evento, cumprindo sua agenda, como em todos os outros dias comuns, quando sentiu uma forte dor no baixo ventre. Ela aguentou o quanto pôde e retirou-se discretamente quando percebeu que algo escorria por suas pernas: era sangue. Não pensaram duas vezes antes de levá-la imediatamente para o hospital.
A rainha jamais iria esquecer-se do susto que levou quando a avisaram do que havia acontecido. Edward dirigia como um louco pela cidade, sem se preocupar com mais nada. Vinha "xingando" a todos e, principalmente, a teimosia da filha em continuar cumprindo sua agenda de trabalho faltando tão pouco para o parto. Esme tentava acalmá-lo, mas compreendia sua preocupação.
No final, não havia sido tão grave quanto imaginaram. O deslocamento havia sido leve. Medicaram-na e a colocaram em repouso absoluto. Agora, as duas estavam no grande quarto da neta, em Brocket Hall, jogando conversa fora e extremamente gratas por o mal ter sido menor.
Renesme insistiu em voltar para casa e passar o restante do repouso absoluto até o parto por lá. Ela havia ficado dois dias internada, mas fora liberada pelo médico para fazer a viagem, desde que permanecesse na cama, descansando por um tempo considerável até a próxima consulta.
É claro que Edward não gostara nada da ideia de a filha estar a quarenta minutos da capital, em uma casa afastada do centro urbano. Mas ninguém podia com as decisões de Renesme. William garantira que a esposa ficaria em contato direto com sua ginecologista de Genove e permaneceria atenta a qualquer sinal. Esme resolvera ficar com a neta também para lhe fazer companhia e poder acalmar Edward quando ele precisasse.
Na verdade, a rainha estava feliz por poder estar com Renesme naquele momento especial. Sabia como fazia falta a presença feminina em uma ocasião como aquela. Com certeza, Bella estaria ali orientando-a, cuidando dela e lhe fazendo companhia. Sabia o quanto a neta sentira a falta da mãe em sua primeira gravidez, e Esme estava disposta, não a substituí-la, mas a tentar ser um acalento para ela.
— É o papai de novo? — Renesme perguntou ao ouvir o telefone da avó tocar.
— É, sim. Só um instante. — Esme falou enquanto se levantava devagar e saía do quarto da neta. Atendeu ao celular e já ouviu a voz preocupada do filho. — Acalme-se, Edward. Renesme está na cama descansando e não voltou a sangrar. Está tudo bem.
— Graças a Deus! Estou pensando em deixar as coisas por aqui e ficar aí também por uns dias.
— Não precisa, querido. Garanto que está tudo bem por aqui. Nem William nem eu deixaremos que aconteça qualquer coisa com Renesme e o bebê. Pode ter certeza de que a sua preocupação também é a nossa.
— Sei lá... Eu estando perto dela seria melhor.
— Eu entendo sua preocupação, querido, mas realmente não precisa. Renesme ficaria mais nervosa com a sua presença aqui. Você sabe que pode ser bastante sufocante quando quer.
Edward riu do outro lado da linha, e a rainha o acompanhou.
— Ok. Não vou insistir mais. Só continue me mantendo atualizado, por favor.
— Sempre, meu amor. Te amo, meu filho.
— Também te amo, mãe.
Esme desligou e voltou para o quarto. Renesme olhava para o celular, mas o deixou de lado, como se também estivesse cansada daquilo. A rainha compreendia a neta. Lembrava-se de quando precisou ficar de repouso absoluto por causa de uma ameaça de aborto em sua primeira gravidez. É nessas horas que se descobre uma ansiedade que nem se sabia que existia. Além disso, a princesa sempre fora muito ativa, e Esme sabia que ela devia estar se mordendo por não poder seguir sua vida normalmente.
— Juro que esta será a minha última gravidez. Já disse ao William que vamos parar por aqui e que ele se conforme. Amo meus filhos, mas estar grávida é muito chato.
Anne gargalhou e pegou a mão da neta. Sabia que ela falava aquilo da boca para fora.
— Pois cuide-se, querida. Você herdou a sina da fertilidade da família. Do jeito que vocês dois são grudados um no outro, não duvido que venha mais um bisnetinho para mim.
— Só se for dos seus outros netos. Eu estou fechando a fábrica.
— O tempo passa tão rápido, querida. Daqui a alguns meses, você irá rir de tudo isso. Logo estará com o seu filho nos braços e grata por tudo ter ocorrido bem.
— Deus te ouça! Eu fiquei tão preocupada. Nossa! Não quero passar nunca mais por isso. Só a ideia de estar perdendo o meu filho me deixa apavorada.
— Eu sei bem como é esse sentimento. Mas acredite, tudo vai ficar bem.
Renesme olhou para o lado, e Esme viu os olhos da neta marejarem. Era um momento difícil, ela sabia. Os hormônios estavam descontrolados, a rotina dela estava alterada. Era um misto da vontade de fazer coisas que considerava úteis com a necessidade do recolhimento familiar. Imaginava que aquele era um dilema pelo qual todas as mulheres, em algum momento da vida, passavam: carreira versus família. Uma coisa sempre sairia perdendo nessa equação, não importava o quanto o tempo passasse ou quanto a sociedade mudasse.
— Me sinto culpada, sabe? Eu sei que o papai está certo. Eu devia cuidar mais de mim e dos meus filhos, mas...
— Você quer trabalhar e colocar os seus projetos para frente.
— É. — Renesme ajeitou-se na cama e deu um longo suspiro, como se estivesse aliviada por poder finalmente dizer o que pensava. — Acho que agora estou conseguindo encontrar o jeito da coisa, sabe? Eu não sei explicar... Mas agora me sinto com força total para trabalhar com o público lá fora, para colocar os meus projetos em prática.
— Mas então você engravidou.
— Não é que eu não quisesse ter os meus filhos... É que não foi planejado, sabe? Desde que completei trinta anos, as pessoas ficavam me enchendo com esse negócio de gravidez e de colocar herdeiros na linha de sucessão. Simplesmente não foi da forma como eu planejei.
Esme pegou a mão da neta e a beijou. Era um dos poucos desabafos que ouvia sair da boca dela. Renesme definitivamente não era uma pessoa que falava muito. Sempre guardava tudo dentro de si como uma esponja. Seu lado virginiano a tornava responsável demais, muito pé no chão.
Às vezes, Esme se preocupava se aquilo não era consequência da criação que recebera. Todos queriam a princesa perfeita, e ela se tornara uma, mas a que custo? Por isso, era bom vê-la quebrando um pouco a casca, libertando-se.
— Eu não estou feliz em estar grávida, é isso! Eu acho que estou perdendo momentos com o William, sabe? Nós tivemos tão pouco tempo juntos. Passamos a maior parte dele nos escondendo e, quando finalmente pudemos ficar à vontade, eu engravidei. Depois aconteceu de novo. Eu sinto que estamos caindo na rotina de pais e me sinto culpada por isso.
— William não vem deixando isso transparecer, vem? Porque, se for, vou ter uma conversa com ele.
— Não, claro que não. — Renesme apressou-se em dizer. — Sou eu que temo que isso esteja acontecendo... É apenas o momento errado.
— Entendo muito bem. Mas veja, as coisas nunca acontecem exatamente como desejamos, e é importante que você entenda que está tudo bem. Essas pressões sempre vão existir, querida, mesmo que você não tivesse nascido princesa. Quantas mulheres vivem o auge da vida aos trinta e poucos anos e todos cobram um casamento? Depois, é claro, vem a cobrança pelo primeiro bebê, depois pelo segundo... E querem que você faça tudo isso e ainda seja impecável como profissional.
— Sim, eu sei... E isso é tão pesado.
— Sempre vai ser, principalmente quando você é mulher.
— Verdade. Acho que as coisas mudaram no sentido de que nós, mulheres, estamos estendendo mais o nosso período da "meia-idade". Dá para entender?
— Algo que muitas mulheres tinham que fazer aos trinta e agora estão fazendo aos quarenta.
— Sim. Quer dizer, nós vivemos mais do que vivíamos há cem anos. Parece que ganhamos um tempo extra. Mas a sociedade continua a mesma. Não é incrível?
— E vou lhe dizer mais... Estou com quase noventa anos e perdi as esperanças de que isso um dia vá mudar.
Renesme limpou as lágrimas que ameaçavam cair e olhou para a avó com um sorriso sincero. A rainha sentiu como se estivesse em uma terapia, ou em uma grande "lavagem de roupa suja", todos os dias, com todos ao seu redor. Sorriu diante desse pensamento.
— Eu só quero que saiba uma coisa, Renesme, não deixe mais que as pessoas ou as responsabilidades subam à sua cabeça. Você não é um robô, e a vida não é uma receita de bolo. Liberte-se! Aproveite o agora. Veja as coisas fofas que sua filha faz. Namore muito o seu marido. Pense em tudo o que você quer fazer no seu trabalho, mas sabendo que haverá tempo para tudo isso. O que não tem volta é tudo o que você perdeu se estressando e se cobrando. O nosso corpo não aguenta, e nós não podemos voltar no tempo para consertar o que passou.
— Esse foi o discurso mais longo que eu já ouvi de você.
— Aceite-o e o siga. Olhe, esta velha aqui viveu muita coisa e, certamente, posso dizer que já aprendi muito.
— Claro que sim. Você é uma supermulher. Minha inspiração, com certeza. Eu é que me sinto honrada.
— Que bom que estou podendo lhe dizer isso. E outra... Depois que as coisas melhorarem lá embaixo, se é que me entende... — Esme bateu o olho. — Você coloca um DIU e viaja com William para colocar as coisas em dia. Pode deixar que eu fico com as crianças.
— Vó! — Renesme falou, espantada.
— O quê? Querida, você não vai ficar grávida para sempre!
Renesme gargalhou e se recostou no travesseiro, sentindo o coração mais leve. Esme ajeitou a manta sobre as pernas da neta e permaneceu ali, observando-a em silêncio. Do lado de fora, o vento soprava suavemente pelas cortinas, trazendo o perfume das flores do jardim.
A rainha sorriu. Havia algo de sagrado naquele instante simples. Três gerações, três vidas ligadas por laços invisíveis. Tudo estava bem. Pelo menos por enquanto, tudo estava exatamente como deveria estar.
Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 37: Rainha de Espadas
Eu tinha quase cinquenta anos quando me tornei a primeira mulher a ser regente de Belgonia. Não foi algo planejado. As coisas quase nunca são. E a experiência também não foi das melhores, tenho que confessar. Eu estava assumindo o comando sozinha, e um medo terrível tomou conta de mim.
Lembro que, naquela época, eu estava emocionalmente bastante instável. Meu humor oscilava muito e eu me sentia muito mais cansada do que poderia imaginar. É, eu sei, tudo tinha sido uma grande avalanche. Acho que até vocês já se cansaram de tantas coisas ruins e pesadas. Infelizmente, eu não posso evitar.
Eu também estava vivendo uma crise de identidade.
Tá, mas você deve estar pensando: "Mas como assim? Essa mulher é a rainha consorte. Tem um marido maravilhoso, filhos lindos, com problemas, mas lindos, tem dinheiro... Como poderia estar em crise?".
É, pois é. Nem a mulher mais poderosa do mundo está livre das armadilhas da própria mente.
A questão é que sempre rotularam os cinquenta anos como um grande marco. O homem se sente incapaz e a mulher, nossa, sente-se o pior ser humano do mundo. É a tal história da meia-idade: estar mais perto da velhice e, consequentemente, da incapacidade. Então, você começa a analisar a própria vida, tudo o que a incomoda, tudo o que poderia ter sido e o que ainda pode acontecer.
Na verdade, a chegada dos cinquenta é como um grande quebra-cabeça que precisa ser remontado sob uma nova perspectiva. Você passa a prestar mais atenção às coisas ao seu redor e enxerga a vida com outros olhos. Tudo o que antes não incomodava passa a parecer uma questão importante. É quase como acordar de um sonho.
Muitos acabam tentando se comportar como jovens e eu... Bom, eu me tornei a rainha regente por alguns meses. Sim, boom!
É claro que esse acontecimento não fez nada bem para a minha cabeça. Vou contextualizar.
Em Belgonia, até o início dos anos 2000, em hipótese alguma a esposa do rei poderia assumir uma regência. A teoria dizia que, se essa pessoa não tinha sangue real, não poderia exercer funções como aquela. Na prática, era apenas uma desculpa machista para manter uma mulher longe do poder. Reconheço que muitas coisas por aqui funcionavam dessa forma e que muito, mas muito mesmo, mudou desde então.
Enfim, na ausência do rei, o seu primogênito assumia provisoriamente o trono. Caso ele fosse menor de idade, o primeiro-ministro assumia o controle do governo em conjunto com o Conselho Real.
Em 2004, isso foi revogado, assim como a lei da sucessão. Carlisle fez muita questão dessa mudança. Foi assim que me tornei a primeira mulher a governar Belgonia. Mas isso só aconteceu por causa de um infortúnio.
Carlisle começou a sentir dormência em um dos lados do corpo e fortes dores. Disseram que era bursite, consequência de apertar tantas mãos e escrever tanto. Ele havia acabado de retornar de uma turnê internacional com Edward, apresentando-o aos demais monarcas, e isso parecia justificar o diagnóstico.
Mas ele não melhorava, mesmo com os remédios. Trocaram a medicação. Nada. Até que simplesmente Carlisle já não conseguia levantar o braço de tanta dor. Só piorava.
Corremos para o médico e descobrimos que o problema era muito mais grave do que imaginávamos. Era uma hérnia de disco, que já comprometia outras partes do corpo.
Carlisle sentia tanta dor que não conseguia realizar tarefas básicas, como simplesmente se levantar. Precisou ser internado e passar por uma cirurgia. Tudo isso era consequência do estresse acumulado e da carga excessiva de trabalho. O corpo definitivamente não suporta tudo e acaba expressando aquilo que a mente tenta esconder há muito tempo.
Eu simplesmente coloquei tudo em pausa para cuidar dele. Mas foi justamente a alteração na lei que mudou completamente os meus planos. Se a ausência dele fosse breve, não haveria problema. Ninguém precisaria assumir uma regência. O país sobreviveria.
Porém, Carlisle precisaria ficar afastado durante meses. Não havia alternativa. Eu tive que assumir a regência.
Lembro-me perfeitamente de tremer durante a reunião com o Conselho Real e com o primeiro-ministro, quando discutimos essa possibilidade. Definitivamente, aquela não era a minha prioridade. Mas o país sempre precisava vir em primeiro lugar.
Dizem que, se os seus sonhos não o assustam, é porque você ainda sonha pequeno. Talvez eu nunca tivesse sonhado algo tão grande ou tão assustador.
Foram dias extenuantes. Eu me dividia entre o hospital, o quarto, a fisioterapia ou qualquer outro lugar onde Carlisle estivesse, e as reuniões, o escritório e uma infinidade de compromissos oficiais.
Foi extremamente cansativo, principalmente porque eu estava emocionalmente abatida e simplesmente fui pega de surpresa. Mesmo assim, dediquei-me ao máximo. Aprendi muitas coisas. Algumas boas e muitas ruins.
A questão é que, quando passei a colocar diariamente meu corpo e minha alma dentro da política de Belgonia, participando verdadeiramente das engrenagens da administração do país, senti que a minha vida começou a perder a cor.
Acho que já falei sobre isso antes, mas repito: quando somos jovens, tudo é mais colorido. Temos mais coragem, mais inconsequência e a esperança sincera de que podemos mudar o mundo, porque acreditamos que ninguém é mais forte do que nós. Só que as nossas penas vão caindo a cada tombo.
Eu estava no auge dos meus quarenta e sete anos e já tinha vivido o suficiente para entender que o mundo não era cor-de-rosa. Um buraco começou a se abrir dentro de mim quando compreendi, de forma definitiva, como a humanidade funciona, principalmente quando há jogos de poder envolvidos.
Vi pessoas dispostas a absolutamente tudo para conseguir mais dinheiro, cargos melhores ou títulos que lhes dessem mais prestígio.
Na política, muitas vezes, não há lealdade, nem moral, nem juízo. O mundo parece pertencer sempre àqueles que podem comprar. Porque tudo tem um preço.
Quanto mais dias eu passava cercada por políticos e membros da corte, mais desconfiada eu me tornava em relação às pessoas. Irritava-me ver tanta incompetência e, mais ainda, a falta de vontade de resolver as coisas da maneira correta.
O pior de tudo é que eu não podia dizer absolutamente nada, porque qualquer palavra poderia desencadear uma crise política. Sorrir amarelo era necessário. Calar-se era obrigatório.
Eu sei que ainda não dei exemplos concretos suficientes para que vocês entendam a minha insatisfação. Muitas das pessoas que ocupavam cargos políticos naquela época ainda estão vivas, e eu não tenho o direito de expô-las aqui. Mas vou tentar tornar as coisas um pouco mais claras.
Eu odiava o fato de termos que conceder títulos a pessoas que sabíamos estar envolvidas em esquemas escusos. Vendiam votos no Parlamento em troca de propina. Empregavam pessoas apenas porque "uma mão lavava a outra". Compravam a Justiça, porque ela podia até ser cega, mas não era boba. "Todos têm um preço", eu ouvia, e aquilo me irritava profundamente. Mas, como precisávamos do apoio político dessas pessoas, tínhamos que sorrir, ser simpáticos e não dizer uma única palavra. Quem fica calado vence. Houve muitas outras situações, mas detesto ficar remoendo aquilo que me faz mal.
Diante das turbulências que ocorreram nos primeiros anos do nosso reinado, principalmente com a abdicação de Emmett, não nos sentíamos seguros no trono. Éramos totalmente substituíveis, e isso nos era lembrado das mais diversas maneiras. Era como viver constantemente "pisando em ovos". Isso me machucava mais do que qualquer outra coisa.
Poxa, Carlisle e eu tínhamos tantas boas intenções. Tínhamos tantos planos. O problema é que isso pouco importava. Precisavam apenas da figuração de uma família real, e qualquer pessoa podia representar esse papel.
Foram seis meses de redescobrimento, devo dizer. Eu me olhava no espelho e via uma pessoa muito diferente daquela que entrou na Abadia de Northanger com uma aliança no dedo anelar e um príncipe apaixonado a tiracolo. Aquela mulher tinha sonhos. Tinha uma força incomum e a certeza de que tudo o que tocasse seria instrumento para um mundo melhor.
Mas aquela mulher tinha apenas vinte e dois anos e uma sede enorme de mudança. A Esme refletida no espelho era alguém que já havia levado muitos tombos, passado por experiências que mudaram completamente a sua visão de mundo. Estava confusa, triste, cansada e desiludida.
Mas eu não podia simplesmente parar e chorar, como talvez tivesse feito trinta anos antes. Não. Eu tinha uma Belgonia que havia celebrado quando assumimos o trono e que enxergava em nós uma nova era de mudanças.
Carlisle, por muitas vezes, insistiu para que eu tivesse uma participação efetiva ao lado dele. Estávamos juntos em tudo e continuaríamos assim. Ele sempre teve plena confiança em mim. Eu queria provar ao mundo que era capaz. E queria provar a Carlisle que ele estava certo. Precisava mostrar às inúmeras mulheres lá fora que, ainda que por alguns meses, alguém do seu gênero estava ali fazendo a diferença.
Porém, os bastidores eram duros. Escondiam informações de mim, e eu precisava me transformar em uma fera que gritava para conseguir participar das decisões.
Eu ouvia constantemente meus assessores dizerem que deveria deixar tudo seguir como estava. Seriam apenas alguns meses e Carlisle logo voltaria para resolver tudo.
Ou seja, eu era apenas a substituta. Deveria continuar sendo apenas a mulher calorosa que todos conheciam e deixar que os outros resolvessem as coisas por mim.
Eu me recusei. Abri a caixa de Pandora para um mundo que jamais imaginei ser tão obscuro. Foi uma escolha minha e não havia mais volta.
Então, lembrei-me novamente da minha sogra. Ela fora obrigada a se tornar a Rainha de Espadas para que seu séquito de homens compreendesse que ela também tinha voz e muita.
Sua metamorfose foi forçada para que pudesse se tornar a rainha que foi, criando um escudo para sobreviver ao terreno sujo e movediço da política.
Percebi que eu também precisaria fazer o mesmo. Precisava deixar para trás, de uma vez por todas, a boa moça, a mulher de Copas.
Tudo isso era uma luta interna que nunca contei a ninguém. Era um sofrimento silencioso, escondido dentro do meu casulo. Guardar tudo aquilo apenas para mim me tornou amargurada. Sim. Acho que essa é a palavra.
Eu não podia contar para Carlisle. Ele ainda estava se recuperando, e eu não queria contaminá-lo com o meu momento ruim.
Então comecei a perder a fé nas coisas. Ao mesmo tempo, a idade me proporcionava uma visão muito mais ampla do que poderia acontecer. Eu parecia um daqueles oráculos que enxergavam o futuro, mas não podiam fazer absolutamente nada além de lamentar.
Olha... Não existe nada pior do que guardar tanta negatividade dentro de si. Aquilo me afetava a ponto de eu não querer me aproximar de ninguém. Preferia me isolar.
Havia dias em que eu me olhava no espelho e me sentia horrível. Percebia o quanto estava envelhecendo. Parecia que absolutamente tudo estava fora do lugar: meu corpo, minha voz, o mundo ao meu redor.
Então começava a pensar em tudo o que poderia ter feito de maneira diferente e passava a desgostar de tudo. Lembrava-me da minha família e sentia que o meu tempo também escorria como uma cachoeira.
Eu parecia um buraco negro. As minhas ilusões sobre a vida, sim, aquelas que fazem você levantar todos os dias e continuar vivendo, estavam mortas dentro de mim.
A menina revolucionária finalmente entendeu que o mundo é um círculo repetitivo, sem grandes novidades. A jovem mãe sentia-se derrotada diante daquilo em que seus filhos haviam se tornado.
Cheguei até a temer que meu casamento atravessasse uma crise à medida que eu deixasse de ser, cada vez mais, aquela moça que respirava juventude para me tornar uma senhora.
Acho que hoje posso dizer que passei por um período de depressão. É isso que acontece quando se adquire um excesso de lucidez sobre a vida. E como se cura? Não há uma cura propriamente dita. O mundo simplesmente não para para que a gente se recupere. A gente se cura vivendo. Especialmente quando entende que a nossa existência não depende de mudar o universo.
Mas nós fazemos diferença, sim. Não estou desiludindo ninguém. Fazemos diferença por meio de pequenos gestos, de palavras de conforto, de projetos capazes de melhorar a vida de alguém. E isso também melhora a nossa própria vida.
Quando tiramos o peso do mundo das nossas costas e passamos simplesmente a ressignificar as coisas. Quando damos valor ao que nos faz bem. Quando entendemos que nem tudo acontecerá da maneira que desejamos, nem no momento em que queremos. Quando aprendemos a nos perdoar e a nos aceitar como somos.
Não é fácil. Claro que não. Leva tempo para compreender que estar bem consigo mesma e ter convicção dos próprios valores vale mais do que mil protestos. Porque o mundo não vai mudar simplesmente porque você quer que ele mude.
Poucos meses depois, Carlisle e eu completamos vinte e cinco anos de casados. Ele olhou para mim e disse algo que nunca esqueci:
— Graças a Deus estou envelhecendo ao lado de uma mulher como você, meu amor.
Aquilo acendeu algo dentro de mim. Naquele instante, enquanto as palavras do meu marido ainda ecoavam em meu coração, percebi o peso de tudo o que havia atravessado. Eu temia que o tempo trouxesse apenas mais perdas. Mas, naquele olhar, compreendi que talvez estivesse exigindo demais de mim mesma e do mundo.
Nem tudo precisava ser uma batalha. E, sinceramente, eu nem queria mais que continuasse sendo. Nem todo peso precisava ser carregado sozinha. Há ternura no simples fato de continuar. Há beleza naquilo que permanece. E há graça em aceitar que a vida pode ser muito mais leve do que eu permiti que fosse.
Naquele momento, entendi que a vida não era feita apenas daquilo que não aconteceu. Ela também era construída por tudo o que resistiu, por tudo o que permaneceu e, principalmente, por quem escolheu continuar ao meu lado apesar de todas as tempestades.
Hoje, quando penso naquele período, percebo que nunca foi apenas sobre governar um país. Era sobre voltar a pertencer a mim mesma. Era sobre provar, não aos outros, mas a mim, que eu podia olhar o medo nos olhos sem recuar.
Durante alguns meses, ocupei o cargo mais alto que uma mulher poderia sonhar em Belgonia. Mas, curiosamente, essa não foi a maior conquista daquele tempo.
A maior conquista foi descobrir que eu não precisava mais vencer todas as guerras. Bastava não perder a mim mesma. Por um breve instante, estive exatamente onde deveria estar. E isso, mais do que qualquer coroa, foi a minha verdadeira glória.
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