31 de dezembro de 1999

Esme observava as crianças exaltadas do lado de fora do Palácio de Clarence. Olhou para o relógio mais uma vez e viu que agora faltava muito pouco para o Ano Novo. É claro que os jovens não se importavam com o fato de estar frio e de faltarem apenas alguns minutos para realmente começar a comemoração. Para eles, tudo era uma eterna diversão.

Ouviu passos atrás de si. Não se virou para ver. Sabia que era Carlisle. Conhecia aqueles passos melhor do que ninguém. Ele a abraçou por trás e beijou o seu pescoço, como sempre gostou de fazer. Esme então se aconchegou ainda mais nele. O calor de seu corpo era um bálsamo.

— É bom ouvir o som de risadas. — ele falou.

— Não há tempo ruim para as crianças.

— Não há mesmo.

— Mas não há muito o que comemorar. A morte do papai ainda está muito recente. Não parece certo e, além do mais...

— Além do mais? Não vai me dizer, meu amor, que está com medo de as profecias realmente se realizarem.

Carlisle sorriu e olhou para o relógio. Parecia que cada passo do ponteiro era uma sentença. Esme desdenhou da preocupação do marido e voltou a olhar para os seus filhos e para as suas sobrinhas postiças, que brincavam e soltavam bombinhas. Para ela, o fim do mundo era uma grande bobagem. O fim seria do próprio ser humano, que se autodestruía com tanta violência e depreciava o meio em que vivia.

— Claro que não. — Carlisle suspirou antes de continuar. — Mas, de qualquer forma, estaremos criando um mundo novo daqui a alguns dias, não é? As incertezas me perturbam mais.

De certa forma, o argumento de Carlisle era plausível. Esme sentia um frio na barriga em todos os réveillons, independentemente de ser o fim do século. O novo sempre a deixava daquela forma. A perspectiva de que algo estaria prestes a se modificar, de que a página estaria limpa novamente e os dados do destino voltariam a girar sem qualquer aviso prévio do que iria acontecer a deixava ansiosa.

O ano que estava chegando traria mais novidades do que qualquer outro. Dali a alguns dias, Carlisle e ela seriam oficialmente coroados rei e rainha de Belgonia. Era isso o que mais lhe causava inquietação, e não um possível fim do mundo.

— Temo o que nos espera. É essa geração que iremos governar nos próximos anos. — Carlisle falou enquanto observava os filhos brincando com as primas. — Tudo parece tão diferente do que imaginávamos anos atrás, lembra?

— Lembro. Tivemos essa conversa quando eu estava grávida de Emmett. Ficamos pensando em como seria quando eles crescessem e no que faríamos diante disso.

— Pois é. Éramos muito ingênuos, sabe? Pensávamos que poderíamos mudar tudo. Que seríamos os agentes da transformação. E olha agora onde estamos?

— Entendo o que você quer dizer. A maturidade traz esse certo pessimismo diante dos fatos.

— Essa geração é tão desconectada de tudo, sabe? Não sonha como sonhávamos. Não corre atrás dos próprios objetivos. Ao mesmo tempo, com toda essa tecnologia que está surgindo, será justamente a geração que terá mais meios para mudar o mundo. O mesmo mundo que tentamos consertar lá atrás.

— Carlisle, das duas uma: ou o mundo vai ficar mais unido com a ajuda dessas tecnologias, ou elas serão o instrumento da sua destruição.

— Pois é... Incertezas.

— Dez... nove... oito... sete... seis... cinco... — gritaram do lado de fora do palácio.

Esme pegou a mão do marido. Carlisle sorriu. Sabia apenas que estava no lugar onde sempre quis estar: ao lado dos seus filhos e de sua esposa. Independentemente do que acontecesse, todos eles permaneceriam juntos.

— Quatro... três... dois... um...

Carlisle, como num impulso, virou-se para a esposa e beijou os seus lábios. Se todos os profetas estivessem certos e o apocalipse realmente acontecesse, era nos braços de Esme que gostaria de estar.

— Feliz Ano-Novo! — ouviram gritar do lado de fora, enquanto os fogos de artifício lançados pela vizinhança iluminavam o céu.

— Sobreviveremos, meu amor. — Esme declarou, decidida.

— Sim. Juntos, sobreviveremos.

Setembro de 2048

— O que temos que fazer, majestade, é uma grande mudança. — Sean Renard falou com segurança. — Depois de todo o problema com Bono Donnalson, a política belgã está desmoralizada. Precisamos, urgentemente, fazer reformas e, permita-me dizer, esta é a melhor hora para o senhor deixar a sua marca.

Edward aguardava ansiosamente o momento em que finalmente iria se despedir de mais uma reunião cansativa com o primeiro-ministro e seus secretários. O ar do palácio estava denso com discussões sobre projetos de lei e reformas que, embora importantes, pesavam sobre seus ombros.

Por que ninguém entendia que ele nunca estivera pronto para ser rei? Nem quando era apenas um adolescente jogado no olho do furacão, nem quando foi coroado após duas mortes tão significativas em sua vida. A verdade é que ainda não havia se recuperado completamente. Continuava tentando retomar o controle da própria vida; imagine, então, o de um país inteiro. Aquelas cobranças eram extremamente frustrantes.

Esme o observava, como se acostumara a fazer desde que descobrira os transtornos que afligiam a mente do filho durante a adolescência. Era ruim ter que agir daquela forma. Sabia que ele merecia um voto de confiança; a ansiedade e a iminente depressão não eram sua principal característica. Havia culpa também. Não estivera atenta aos sinais quando ele mais precisou. Sentia que o abandonara e não queria permitir que isso acontecesse novamente. Seus braços calorosos estariam sempre ali quando ele precisasse deles.

Geralmente, a maioria dos projetos despertava a curiosidade de Edward, especialmente aqueles ligados à ciência e às causas ambientais. Esme sabia que o filho era um curioso nato. Tudo o instigava. Principalmente quando se tratava de algo fora de seu conhecimento. Ele mergulhava nas pesquisas, visitava obras, envolvia-se completamente.

Mas, naquele dia, ela sentia a ansiedade dele e fazia paralelos em sua mente. Era natural que houvesse cobranças. Já fazia três anos que Edward ocupava o trono e nada realmente marcante havia acontecido. Muitos jornalistas diziam que ele apenas "empurrava com a barriga". O que eles não compreendiam era que construir a própria identidade como soberano não era algo simples. Carlisle e ela também precisaram mover montanhas para consolidarem o próprio reinado, e isso certamente não aconteceu da noite para o dia. Antes das conquistas vieram inúmeras polêmicas familiares, crises e incertezas. O início deles havia sido tão turbulento quanto aquele.

Quando a reunião finalmente terminou, os dois caminharam pelos corredores em silêncio. Edward tentava acompanhar os passos lentos da mãe, mas sua ansiedade o fazia andar depressa demais. Chegou primeiro à sala de estar e abriu a porta para ela.

Observou-a por alguns instantes. Os sinais do cansaço tornavam-se cada vez mais visíveis naquela figura majestosa. Puxou uma cadeira para a mãe, que agradeceu o gesto com um sorriso discreto, enquanto ele próprio se deixava cair em uma poltrona.

— Aquele Sean Renard é um imbecil!

— Um imbecil necessário, por enquanto. É claro que a extrema direita está desmoralizada depois de tudo o que aconteceu. Mas nada está politicamente estável ainda.

— Ainda assim, ele não pode me cobrar nada. Não enquanto ele mesmo não estiver com a bunda bem presa na cadeira de primeiro-ministro.

— É uma cobrança feita muito mais para ele mesmo do que para você, querido. Um reinado não se constrói da noite para o dia.

— É verdade. Bom, ao menos teremos uma pausa agora para comemorar o seu aniversário.

— Não acha um exagero? Ninguém liga para uma velha como eu.

— Não diga uma bobagem dessas, mamãe. Por favor.

Edward levantou-se e foi até a sineta. Alguns minutos depois, Carter entrou, e o rei pediu um chá com biscoitos.

Podia passar o tempo que fosse, Esme sempre acharia aquela engenhoca brilhante. Simplesmente todos os cômodos do palácio, com exceção dos apartamentos particulares, estavam ligados por aquele sistema de sinetas. Mesmo com toda a tecnologia disponível, nada resolvia tão bem as necessidades do dia a dia.

— Renesme me preocupa. — Edward disse depois de alguns minutos de silêncio. — Essa história de ter o bebê em casa...

— Nada vai acontecer, querido. Renesme é responsável demais para colocar a própria vida e a do bebê em risco. Além do mais, William é extremamente protetor quando se trata dela.

— Sei não... Partos são complicados e imprevisíveis. Lembra da Bella? Ela teve uma gravidez tão tranquila e, na hora do parto... Não gosto nem de lembrar. E Renesme, você sabe, trabalha demais. É muito estresse para uma pessoa grávida.

Esme sempre conhecera o jeito protetor do filho. Mas sabia que havia algo além disso. Edward tinha medo de perder mais alguém.

Nos últimos anos, todos haviam atravessado longos períodos de luto. Um vazio se abrira na família após as mortes de Bella e Carlisle. Certamente ele não suportaria perder também a própria filha e reviver toda aquela dor.

— Não vamos perdê-la também, querido. — Esme segurou a mão do filho e sentiu-a tremer. — Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que ela receba o melhor cuidado quando a hora chegar.

Edward soltou lentamente a mão da mãe e afundou-se novamente na poltrona, pensativo.

— Por isso temos que comemorar muito a sua vida, mãe. Não importa o que você fale ou o que Renesme diga. Nunca poderemos ter certeza de quando realmente será a hora. Não estou jogando isso para o universo. — o rei bateu três vezes na madeira. — Papai nem chegou à idade que você vai completar. Não pudemos comemorar nem homenageá-lo à altura, sabe? Isso porque tínhamos a ideia idiota de que as pessoas são eternas.

— Entendo tudo o que você disse. Não posso afirmar que tudo poderia ter sido diferente. Nunca sabemos o dia nem a hora. Essa é a sina do ser humano. Porém, não é algo com que devemos nos preocupar a todo instante. Eu estou bem e você não vai me perder de véspera. — a rainha piscou e conseguiu arrancar um sorriso do filho.

Edward recostou-se ainda mais na poltrona e comeu um biscoito. Esme percebeu que ele estava mais calmo.

— Se ao menos Renesme parasse de trabalhar, eu teria menos cabelos brancos.

— Não insista nisso. Você sabe como ela fica, e não queremos irritá-la. Renesme herdou a sina dos Cullen de se doar demais e cuidar de menos de si mesma.

Edward fez uma careta, mas, no fundo, compreendia. Ele próprio, quando ficou de cama por causa da COVID, não deixou de trabalhar. Era como se ficar parado fosse sinônimo de vagabundagem. O rei sabia que, para Renesme, também era assim. Mas ela era sua filha, e ele não podia deixar de se preocupar.

— Sabe o que vocês dois precisam colocar na cabeça? Nada vale mais do que a nossa vida. Trabalhamos muito, nos doamos, mas ninguém sabe o verdadeiro valor disso. Em algum momento, seremos substituídos. — Esme falou sem se preocupar com a firmeza de sua voz.

— Isso é verdade. Nada disso aqui é um mar de rosas. Papai parecia fazer com que tudo fosse tão fácil.

— Não foi fácil para ele também. Para nenhum de nós. Naquela época, eu acreditava que o título de rainha consorte me traria alegria e liberdade. Mas logo percebi que o verdadeiro desafio era ser a voz e o coração do povo. Precisava aprender a ouvir e a compreender suas dores e suas esperanças. Isso é pesado e acaba se tornando um ciclo vicioso entre querer alcançar tudo o que esperam de você e aquilo que realmente é possível fazer. Mas, querido, nunca será suficiente.

— E como você lidou com isso, mãe?

— Aprendi a valorizar a verdade. Nunca se deve perder de vista a humanidade em meio à realeza. Por trás das cortinas douradas, existem pessoas comuns, com sentimentos, sonhos e lutas. Eu queria fazer diferença na vida delas, mas percebi que não poderia fazer tudo sozinha.

— E papai? Como ele lidou com esse desafio?

Esme desviou o olhar por um instante, como se buscasse as lembranças em algum lugar distante. Carlisle parecia estar sempre preparado. Encarava tudo com tanta naturalidade e doçura que, às vezes, a fazia acreditar que a coroa realmente escolhia seus donos.

— Seu pai era um homem forte. Sempre acreditou que a justiça e a verdade eram os pilares da sua liderança.

— Acho que com Renesme será assim. Por mais tímida que ela seja, consegue ser direta no que quer e faz com que fique perfeitamente claro para todos o que planejou. É incrível como acaba convencendo todo mundo no final!

— Seu pai dizia que a dinastia Cassel carregava uma maldição.

— É mesmo? — Edward perguntou, surpreso.

— O monarca certo sempre pula uma geração. Lembra da história do rei Guilherme e de seu filho?

— Sim. Guilherme fundou o país, mas foi Thomas quem organizou a casa. Se ele não tivesse aceitado alguns conselhos e feito certas reformas, a monarquia não estaria de pé hoje.

— Depois vieram Pierino e Carlisle. Porque o pobre do seu bisavô, coitado, viveu muito pouco tempo com a coroa.

— Então será assim comigo e com Renesme.

— Isso era uma bobagem, é claro. Não existe desafio que não possa ser enfrentado. Meu filho, o medo é uma constante. Mas aprendi a usá-lo como combustível. Toda vez que sentia temor, lembrava a mim mesma que não podia deixar que ele me paralisasse. Cada desafio era uma oportunidade de crescer, de aprender e, acima de tudo, de servir ao povo.

— Farei a minha parte da melhor maneira possível. Afinal, os Cullen também têm a sina de serem forjados no fogo. — sorriu. — Quantas batalhas já não enfrentamos ao longo desses quase duzentos anos?

Esme assentiu, recordando-se dos primeiros anos do reinado do marido e, consequentemente, do seu próprio. Foram tantos acontecimentos que poderiam ter colocado tudo a perder... Sim, os Cullen só poderiam mesmo ser forjados no fogo.

Foi naquele período que ela começou a compreender verdadeiramente que a realeza obrigava seus membros a fazer escolhas difíceis e, sobretudo, a descobrir até onde era possível ir em nome da Coroa.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 31: Incertezas


"A popularidade de Carlisle e Esme no trono de Belgonia se assemelha à do rei Vincent e da rainha Mary." — The Globe, novembro de 2000


Essa manchete representa bem a forma como iniciamos o nosso reinado. Pode não parecer, mas essas poucas palavras carregavam um peso enorme sobre os nossos ombros.

Estávamos apenas começando o nosso trabalho. Carlisle e eu já alimentávamos muitas expectativas. Quando elas se somavam às expectativas de todo um país, tudo se tornava simplesmente pesado demais.

Lembro-me de que, durante toda a década de 1990, havia um verdadeiro clamor pela chegada do novo milênio. Será que haveria carros voadores? Seríamos capazes de nos teletransportar para outras épocas, como em De Volta para o Futuro?

Ao mesmo tempo, espalhava-se o temor de que, no instante em que 1999 desse lugar a 2000, os computadores entrariam no chamado "bug do milênio" e provocariam prejuízos inimagináveis. Profetas pipocavam por toda parte anunciando que o fim do mundo viria junto com o fim do século.

Então o relógio bateu a meia-noite. O ano 2000 chegou. E tudo continuou de pé. Mas isso não significava que nada tivesse mudado.

O mundo já estava se transformando silenciosamente e, mais cedo ou mais tarde, nos conduziria para uma realidade completamente diferente. Os celulares tornavam-se cada vez mais populares. A internet crescia e aproximava as pessoas numa velocidade impressionante. Eu olhava para tudo aquilo e imaginava que um dia ninguém estaria realmente distante de ninguém. A privacidade se tornaria algo cada vez mais raro. Ora, se até os segredos do próprio ser humano começavam a ser desvendados. Falava-se em clonagem, transplantes de órgãos e em avanços que faziam parecer que o homem se tornaria cada vez mais intocável.

Muitos já se julgavam assim. George W. Bush havia sido eleito, e o eterno conflito entre os Estados Unidos e o Oriente Médio não parecia tão distante das tensões da Guerra Fria que Carlisle e eu crescemos acompanhando.

Mas a palavra da vez era globalização. Abertura de mercados, fortalecimento do comércio internacional e o surgimento de novas economias no cenário mundial. Era um verdadeiro turbilhão de acontecimentos que parecia determinado a transformar tudo ao nosso redor.

Foi nesse cenário que Carlisle e eu assumimos a Coroa de Belgonia. Sentíamos a pressa das pessoas por mudanças. Era como se olhassem para nós e dissessem:

"Não foram vocês que disseram que queriam chutar o pau da barraca? Então façam."

Tivemos a certeza disso quando uma fatalidade aconteceu. Um prédio residencial antigo, habitado, em sua maioria, por imigrantes, pegou fogo. Houve cento e vinte mortes e muitos feridos. Uma fatalidade. Carlisle e eu assistimos a tudo pela televisão e ficamos abismados.

— Temos que fazer alguma coisa. — Carlisle me disse, e eu concordei no mesmo instante.

A princípio, fomos visitar o local do incidente no dia seguinte ao ocorrido. É claro que a notícia de que estaríamos lá se espalhou rapidamente. Queríamos apenas ver de perto o que havia acontecido, conversar com as vítimas, com os agentes que trabalhavam ali e nada mais. Tudo acabou em um verdadeiro caos.

Várias pessoas chegaram ao local para falar conosco e tirar fotografias. Ficamos assustados logo de cara com a multidão e com a quantidade de fotógrafos que havia ali. Esperamos alguns minutos para decidir o que fazer. Não era o lugar mais seguro para reunir tanta gente.

— Eu não consigo acreditar! — falei, impressionada.

— Estimamos que haja em torno de dez mil pessoas aqui. Até interditaram uma faixa da avenida. — informou um dos nossos seguranças.

— Não acredito que seja por nossa causa. — respondi, incrédula.

— Independentemente de ser ou não, o que temos que fazer é descer e agir normalmente. Nada de euforia. O momento é de luto. — Carlisle falou enquanto saía do carro.

Olhei ao redor e senti o estômago embrulhar. Parecia uma principiante. Senti o peso da responsabilidade e fiquei paralisada.

Carlisle estendeu a mão para mim. Demorei alguns segundos para segurá-la e sair do carro. Mas assim fizemos e seguimos para conversar com os bombeiros. As pessoas gritavam os nossos nomes. Algumas até ameaçavam pular as grades de proteção. Lembrei-me imediatamente do episódio no estádio de futebol, tantos anos antes. Senti o mesmo medo de outrora.

Carlisle resolveu ignorar a multidão e seguir com o que havíamos combinado. Não era nossa intenção transformar uma tragédia em espetáculo. Mas as pessoas estavam tão eufóricas que não conseguimos sair dali sem cumprimentá-las. Naquele dia, deixamos o local com a mão direita vermelha e dolorida de tantos apertos de mão, enquanto Carlisle perdeu alguns botões do paletó. Inacreditável!

— Vocês são uma mistura de celebridade com realeza. Isso não é bom. — advertiu nosso secretário na época.

Mas o que, afinal, era bom? Desde muito antes, ocupávamos as capas dos tabloides e servíamos de assunto para praticamente todas as notícias envolvendo a família real. Fossem verdadeiras ou não, aquelas histórias restringiam a nossa liberdade e criavam, muitas vezes, uma imagem que não correspondia a quem realmente éramos. Durante muito tempo, fomos um joguete nas mãos dos interesses alheios. Éramos necessários apenas quando convinha.

Não tínhamos culpa daquela exposição. Mas precisávamos fazer alguma coisa. Agora éramos os monarcas e era nossa responsabilidade cuidar daquelas pessoas, independentemente de qualquer circunstância.

Dias depois, resolvi visitar os desabrigados da tragédia. Aquele caso me comoveu profundamente, porque era impossível imaginar o que significava perder a própria casa, todos os seus bens e, principalmente, viver aquilo em um país que nem sequer era o seu.

Visitei o abrigo onde estavam alojados. Era uma mesquita islâmica. Surpreendi-me ao descobrir que, mesmo em meio a tantas dificuldades, muitos ainda conseguiam encontrar prazer em viver. Principalmente por meio da comida.

Lembro-me do quanto me senti acolhida por aquelas pessoas. Não sei se esperavam que a rainha fosse até ali conversar com eles e, mais ainda, dividir a cozinha. Foi um dia extraordinário. E tantos outros viriam depois.

Num estalar de dedos, percebi que usar a imprensa a nosso favor poderia ser uma estratégia interessante. No caso dos desabrigados do incêndio, se não tivéssemos reunido o mercado editorial para publicar as receitas que eu criava junto deles no abrigo, talvez muitos não tivessem conseguido a ajuda de que precisavam. Aquela história precisava ganhar visibilidade, e a imprensa foi fundamental para divulgar as necessidades daquelas famílias e aproximá-las de quem pudesse ajudá-las.

A criação da Royal Foundation nasceu justamente dessa experiência. Carlisle queria que os membros seniores da família real saíssem da zona de conforto e fossem para as ruas. Hoje parece absolutamente comum nos ver participando de inúmeros compromissos sociais, visitando instituições e conversando diretamente com as pessoas. Mas nem sempre foi assim.

Durante muito tempo, a realeza era vista como algo quase sagrado, à semelhança dos antigos faraós. Os súditos enxergavam seus monarcas apenas à distância. Nunca gostamos dessa ideia. Quando assumimos o trono, tentamos mudar essa concepção.

Em pleno início dos anos 2000, manter uma monarquia parecia algo quase anacrônico. Entendíamos perfeitamente os questionamentos em torno do orçamento destinado à Coroa. Precisávamos dar um significado concreto ao dinheiro que recebíamos mensalmente dos contribuintes.

Foi assim que a Royal Foundation se tornou o espaço onde parte desses recursos passou a ser destinada a projetos sociais. Até então, nunca havíamos tido liberdade suficiente para trabalhar dessa maneira. Fazíamos obras de caridade, mas isso nunca nos bastou. Não queríamos apenas entregar o peixe; queríamos ensinar a pescar. Foi uma mudança enorme. Pela primeira vez, em Belgonia, um rei e uma rainha consorte eram verdadeiramente acessíveis.

Um dia, Guilherme, um industrial em ascensão, uniu-se à burguesia que desejava a independência da Suécia. Juntos, reuniram forças e fizeram uma guerra. Mas não bastava vencer um conflito e tornar-se rei de um país. Dentro das próprias fronteiras existiam forças contrárias, opiniões divergentes e interesses ainda maiores. A História mostra que o povo tende a seguir quem consegue convencê-lo. Como diz o velho ditado: "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura."

Foi então que Thomas, filho do rei Guilherme, compreendeu rapidamente a lição. Era necessário ouvir quem realmente importava: aqueles sobre os quais se governava. Carlisle sabia muito bem disso.

Meu marido estudava profundamente as transformações do seu tempo. Lia jornais, assistia à televisão, conversava com professores, participava do maior número possível de eventos e fazia questão de entender para onde o mundo caminhava. Não era possível permanecer congelado no tempo.

Ele tinha formação universitária. Não era um menino mimado vivendo dentro da própria bolha. Sentia um enorme senso de responsabilidade e queria cumprir o seu papel da melhor maneira possível.

No começo, Carlisle e eu queríamos mudar tudo. Enxugar a estrutura da família real, reorganizar a instituição, reduzir gastos e colocar em prática projetos que sonhávamos havia anos.

Acho que, naquela época, passávamos mais tempo reunidos em nosso escritório, com lápis e papel nas mãos, do que no próprio quarto. Sonhávamos, escrevíamos, apagávamos, amassávamos folhas. E, de repente, novas ideias surgiam.

Mas, com o passar dos dias, descobrimos que boa parte daquilo que estava anotado em nossa caderneta jamais poderia ser colocada em prática.

Havia deputados de dois partidos permanentemente em conflito. Um primeiro-ministro popular, oriundo da classe trabalhadora, que acreditávamos ser um bom aliado, até percebermos que os sorrisos que nos oferecia em nossos encontros eram apenas uma máscara de cordialidade. A realidade era outra.

Quanto mais a imagem da família real caía, mais ele crescia em popularidade entre os belgãos. Uma campanha cada vez mais forte contra a monarquia começava a ganhar forma, utilizando exatamente o mesmo discurso de mudança que nós próprios havíamos defendido anos antes. Estávamos, enfim, sendo confrontados pela versão mais jovem de nós mesmos.

— A verdade, Carlisle, é que ele tem a imprensa ao seu lado. — falei enquanto desligava a televisão, que transmitia uma reportagem com o acalorado discurso do atual primeiro-ministro durante a inauguração da nova estação de metrô no centro de Belgravia.

The Sunday, Reflect, The Belgravia News... Todos o têm como patrocinador. Não é à toa que papai e mamãe eram sempre alvos das críticas desses jornais. Ainda não consigo acreditar que temos que bater boca com um primeiro-ministro.

— E nós temos os tabloides, que pertencem aos mesmos donos dessas empresas, só que por meio de laranjas. O pior de tudo foi descobrir essas informações. É impressionante o quanto se consegue apenas dando alguns grãos às galinhas da corte.

— Um bando de hipócritas com títulos de nobreza. Lixo puro!

— É louco perceber isso só agora, não é?

Carlisle passou a mão pela cabeça, irritado. A coisa que ele mais odiava era entrar no jogo das trocas de favores para conseguir alguma coisa. Mas estávamos percebendo que aquilo era necessário, principalmente para obter a aprovação dos nossos projetos e reconstruir a imagem da monarquia.

Aquilo era apenas a ponta do iceberg de um enorme jogo de poder. Não éramos donos das nossas próprias vontades.

Além do Parlamento, o rei também precisava seguir as orientações de um grupo de funcionários seniores que, de certa forma, também conduziam a instituição. Eram advogados especializados na legislação da Coroa, jornalistas e outros estudiosos da monarquia que formavam um conselho permanente dentro do palácio. Eram eles que escreviam nossos discursos, cuidavam do figurino, escolhiam quais compromissos eram prioritários e até sugeriam a forma como deveríamos nos portar.

Pierino vivera cinquenta e quatro anos cercado por esse sistema. Quando ainda era um jovem de apenas vinte anos, inexperiente e devastado pela morte precoce dos pais, apoiou-se nesses funcionários para encontrar um rumo. Sem perceber, entregou-lhes influência suficiente para que passassem a interferir em sua vida e, consequentemente, em seu reinado.

Carlisle e eu crescemos pensando em liberdade. Sabíamos exatamente o que queríamos fazer. Mas também sabíamos que não seria simples modificar uma estrutura que permanecia praticamente intacta havia mais de meio século.

Tenho que confessar que, no princípio, a coragem de Carlisle me surpreendeu. Ele foi firme em todas as reuniões e defendeu suas convicções com a segurança de um verdadeiro líder. Mudamos quem precisava ser mudado na equipe e seguimos em frente.

O que mais recordo daquele período era voltarmos para os nossos aposentos completamente exaustos. Deitávamos na cama ao fim do dia e eu aproximava minha testa da de Carlisle, olhando profundamente em seus olhos cansados depois de tantas reuniões tensas.

— Eu confio em você, meu amor. Tudo vai dar certo.

Ele sorria e beijava meus lábios.

— Vai, sim. Obrigado por existir.

— Eu sempre estarei aqui quando você precisar. Aliás, até quando estiver cansado de mim.

— Amor, estamos casados há quase vinte anos. Você acha mesmo que algum dia vou me cansar de você?

E eu sempre sorria. Uma coisa nunca mudou entre nós: a parceria. O amor existia, é claro, mas havia amadurecido. Quando somos jovens, existe aquele fogo avassalador das paixões. Depois de tantos anos de casamento, esse entusiasmo se transforma em algo ainda maior.

Carlisle e eu desenvolvemos uma conexão impressionante. Mesmo sem vê-lo, eu sabia exatamente do que ele precisava. Era justamente esse fio invisível que nos tornava mais fortes.

Desde o início, Carlisle deixou claro que eu jamais seria uma mera coadjuvante. Tudo o que fizéssemos seria decidido em conjunto. Nunca seríamos vistos separados pelo público. Era assim que construiríamos nossa imagem.

No começo, tudo parecia jogar a nosso favor. Respiramos aliviados pela primeira vez. Foi então que comecei a perceber que também podíamos manipular a mídia. Deixar escapar apenas aquilo que queríamos, o equivalente a cinco por cento das nossas vidas.

Permitir que fôssemos flagrados de vez em quando, enquanto selecionávamos cuidadosamente aquilo que desejávamos ver circulando nos jornais. O casal equilibrado, a família perfeita, o exemplo para o futuro.

Como fazíamos isso? Era até engraçado. Carlisle e eu costumávamos testar o nosso próprio séquito durante os inúmeros eventos sociais da Corte.

Antes de sairmos dos aposentos, inventávamos alguma conversa para ser dita em voz baixa. Algumas coisas eram verdade, outras, pura invenção. Depois esperávamos. Era divertido descobrir o que apareceria estampado nos jornais nos dias seguintes.

Todas as manhãs, tomávamos café lendo as manchetes e caíamos na gargalhada. Aquilo nos divertia. Mas também nos ajudava a identificar quem realmente merecia nossa confiança.

Ao longo dos anos, fomos desconstruindo aquela visão ingênua que tínhamos do mundo ao nosso redor.

— Vai acontecer com vocês a mesma coisa que aconteceu com o rei Vincêncio e com a rainha Mary. — aconselharam-nos.

Não demos ouvidos. Em Belgonia, não existia um único cidadão que não se lembrasse dos avós de meu marido. A rainha Mary havia se tornado tão icônica que nem mesmo a morte foi capaz de apagá-la do coração de seus súditos.

Ela e Vincêncio alcançaram um nível de popularidade tão grande que perderam a própria liberdade. Não que um membro da realeza viva cercado disso. Mas existem necessidades básicas que pertencem a qualquer ser humano. E uma delas é o direito à vida privada.

Mary e Vincêncio atraíam multidões. Os jornais falavam deles todos os dias, e as pessoas queriam sua presença em todos os lugares. Foram os primeiros a romper a imagem distante e quase divina que o povo fazia da monarquia. Tornaram-se quase estrelas de Hollywood. E isso era ruim para a própria instituição.

O grande mistério da monarquia sempre foi justamente aquilo que ninguém conhece: Quem realmente somos, como vivemos. O que fazemos quando ninguém está olhando. É esse mistério que desperta fascínio. No fundo, éramos como animais exóticos observados dentro de um zoológico.

Estar constantemente diante do povo, apertar suas mãos, conversar com todos, acabava quebrando aquela antiga ilusão de que existia uma distância intransponível entre monarcas e súditos.

Quando entramos em cena, logo após o casamento, compreendíamos perfeitamente o poder da fama. Nunca tivemos paz. Mas acreditávamos, naquele momento, que havíamos encontrado a chave capaz de controlar a caixa de Pandora. Nunca estivemos tão enganados.

Quando acontecimentos extremamente íntimos, fatos que jamais imaginávamos ver expostos, começaram a ocupar as manchetes, caímos do cavalo.

Àquela altura, qualquer pessoa podia ser repórter, testemunha ou fotógrafa. Bastava um celular nas mãos e a oportunidade de ganhar dinheiro às nossas custas.

Em pouco tempo, o dia do caçador transformou-se no dia da caça. E o nosso reinado sofreu o seu primeiro grande abalo. Tão grande que, por alguns instantes, nem mesmo sabíamos se conseguiríamos resistir.

Mas havia uma única certeza. Buscaríamos sobreviver. Porque essa sempre fora a verdadeira sina dos Cullen.