Dimensões: a boneca e o antídoto
1 Capítulo 1: Merlin
Notas iniciais
Você certamente já ouviu relatos vindos dos irmãos mais novos, onde os coitados relatam a injustiça de serem os culpados por tudo; e relatos provenientes dos irmãos mais velhos, onde, por incrível que pareça, eles também são culpados por tudo. Mas e dos irmãos do meio? Acho que não.
Meu nome é Merlin. Sim, igual ao do feiticeiro. Sim, eu sou uma garota. E, surpresa!, eu sou a irmã do meio. A parte boa disso? Eu sou completamente esquecida. A parte ruim? Eu sou completamente esquecida. "Mas como, Merlin?", você me pergunta. Certo. Vou explicar.
Sou filha de uma fotógrafa e um arquiteto. Os dois se conheceram em um evento promovido pela empresa onde papai trabalha; por pura obra do destino mamãe foi contratada para tirar as fotos da festa. Amor à primeira vista.
"A fotógrafa e o arquiteto". Uau. Daria um bom livro.
Mas foco na minha história.
Mamãe e papai casaram-se um ano depois do início do namoro, tamanha era a paixão dos dois. Ainda é.
Minha irmã Nathalia nasceu. Quando ela tinha quatro anos, eu nasci. Agora, enquanto eu e ela passamos pela adolescência, nosso irmãozinho Jimmy enfrenta a terrível fase que é não conseguir se expressar senão pelo choro: ser um bebê.
Mamãe é linda. Ela possui cabelos louros e ondulados, enquanto papai é moreno. Deve ser por isso que Nath dá tanto trabalho. Ela é a mistura perfeita dos dois; claramente a mais bonita de nós três: seu cabelo é castanho, com aquelas mechas loiras e encaracoladas da mamãe, e seus olhos são castanhos também. Seu sorriso é encantador. Deve ser por isso que Nathan apaixonou-se tão rápido por ela.
Nathan é seu namorado. Ele tem 17 anos como ela e cabelos castanhos como os do papai. E é meu melhor amigo, autor dos meus melhores apelidos: Mer, Lin, Feiticeira, Espada, Pedra, Rainha Arthur, Mel... entre outros. Como retribuí o favor? Fui autora do nome de casal dele com a Nath: NaNa. Muito criativo, eu sei.
Minha irmã já ficou de castigo várias vezes por causa desse namoro. Sim, Nathan é um ótimo menino, mas eles saem sem permissão e já passaram vários dias fora de casa. Nath não tem boas notas, menos em Artes e Desenho Geométrico, porque nisso ela com certeza puxou para o papai.
E é aí que eu entro. Mamãe preocupada em cuidar de Jimmy, papai preocupado em vigiar minha irmã. Merlin, a do meio, tem boas notas, mal fala. Fica no seu quarto vendo seriados.
Quem, afinal, é essa tal de Merlin?
Sou eu.
É claro que minha família me ama, mas tenho completa noção de que quase não existo por aqui. Cuido da minha vida quase 100% sozinha, com exceção para ir ao médico ou durante as reuniões de pais e mestres. Pego o ônibus para ir à escola e para voltar, sei cozinhar e lavar roupa (ainda não aprendi a passar, mas por enquanto tudo bem, a sociedade precisa aprender a aceitar roupas amarrotadas — e pijamas — logo cedo).
Se eu quiser fazer qualquer coisa, dificilmente vão saber. E isso pode ser tanto bom quanto ruim.
Lembro-me de como as coisas funcionavam antes da chegada de Jimmy, há um ano atrás. Eu, mamãe e Nath passávamos horas em fila, fazendo penteados umas nas outras. Quando o pequeno nasceu, ao ver toda aquela situação, perguntei à mamãe se eu não podia cortar meu cabelo, que passava do meio das costas. Ela disse que aquela era uma ótima ideia, assim eu conseguiria cuidar dele sozinha. Agora, meus cabelos estão sempre na altura do queixo. E eu uso uma franja também, porque assim não tenho que prender nada.
Ah, sim. Jimmy é moreno. E eu sou loira igual a mamãe. Mas isso não vem ao caso.
•
Naquela manhã, ao acordar, dei graças por tudo o que vem acontecido. De repente, meu irmão ter nascido e eu ser esquecida foi uma ótima jogada do destino.
Ao me olhar no espelho, concluí, feliz, que se eu quisesse, poderia simplesmente não pentear meu cabelo, de tão liso que é. Mas por via das dúvidas...
Saí do banheiro e vesti uma camiseta azul marinho — estamos na primavera, então esse tipo de roupa é mais ou menos aceitável por enquanto — e minha calça jeans. Eu amo azul marinho. É minha coisa favorita depois de mel e Doctor Who. Tudo fica bom com mel. Doces. Salgados. Perfumes. Shampoos. Até um dos meus apelidos! Certo, tudo bem. Só em português. E eu só sei disso porque Nathan me disse. Ele é filho de brasileiros. Por aqui, falamos inglês ou francês.
Joguei a mochila nas costas e desci as escadas.
—Bom dia, família. — falei, puxando uma cadeira.
—Bom dia, querida. — sorriu papai, por cima do jornal.
Mamãe estava ocupada alimentando Jimmy, mas também sorriu.
—Como foi a noite? — perguntou ela. — Dormiu bem?
—Normal. — respondi, sorrindo. Enchi uma pequena vasilha com cereais e mel. Só então notei que Nathalia não estava à mesa conosco. — Cadê ela? — perguntei, indicando com a cabeça o espaço vazio.
—Não vai à escola hoje. — respondeu papai.
—Ela fugiu de novo?
—Não. — mamãe olhou para mim. — Só está indisposta.
—Oh. — assenti. — Tudo bem.
O resto do café continuou com assuntos banais, papai e mamãe falando sobre economia ou sobre como o inverno talvez fosse um dos mais rigorosos, esse ano.
—Não vejo novidade. — comentei, erguendo meu olhar para eles. — Aqui é sempre frio.
—Mas talvez mais aulas sejam canceladas. — protestou papai.
—Ótimo! — bati palmas. — Nada de ir à escola com a neve na altura dos joelhos. Sou completamente a favor.
—Merlin! — repreendeu minha mãe, mas ela também estava rindo.
Dei de ombros.
—É o preço que se paga por viver no meio do gelo. — levantei-me. — Vou nessa, mas antes, dar um beijo na Nath.
Subi as escadas e bati na porta de seu quarto.
—Entra. — disse uma voz preguiçosa do outro lado.
Ao entrar, sorri para ela.
Seu quarto sempre foi em tons de lilás e verde, enquanto o meu é azul marinho e branco. Ela estava abraçada em seu ursinho de pelúcia.
—Ei. — falei, sentando-me na cama. — Tudo bem?
Ela fez uma careta.
—Vou tomar como um "não". — dei de ombros. — O que está sentindo? — coloquei a mão em sua testa. — Sua temperatura parece estar normal.
—Eu sei. Estou tonta. E com um pouco de dor de barriga.
—Comeu algo errado ontem?
—Não. — ela balançou a cabeça. — Só estou num mal dia. Não se preocupe, Mer. Vou ficar bem.
—Claro que vai. — sorri. — Alguém tem que acompanhar o Nathan nas babaquices dele.
—É isso mesmo. — ela sorriu também. — Vai lá, irmã. Antes que se atrase.
Levantei e dei um beijo em sua testa.
—Acho bom não fugir hoje. — falei, abrindo a porta.
—Mal me aguento de pé, sua bobona! — Nath riu. Então mostrou a língua. Fiz o mesmo e saí.
—Eu amo vocês, família! — gritei, abrindo a porta de casa, tentando amarrar o casaco na cintura. — Nos vemos mais tarde!
—Cuidado, filha! — gritou mamãe.
•
Na escola, fui para a sala de aula direto, tentando desviar da enorme multidão que se espalhava pelos corredores e escadas. Todos cochichavam, como sempre, mas dessa vez, o assunto parecia sério. Algo sobre uma menina e vídeos espalhados sobre ela.
Balancei a cabeça, tentando afastar possíveis teorias, e entrei na sala de aula.
Sentei na minha cadeira e, enquanto arrumava meus materiais, observava aqueles que entravam e saíam da sala. De modo geral, todos com cara de zumbi por acordarem tão cedo.
Os minutos passaram e a aula estava para começar. Só então notei que Gabe ainda não havia chegado.
Franzi a testa.
—Ei. — bati com os dedos no ombro de Maurice. Ele virou para mim e sorriu. — Gabe não vem hoje?
—Não sei. — Maurice respondeu, dando de ombros. — Achei que você soubesse.
Fiz uma careta que deve ter expressado minha confusão.
—É, ué. Ele também é seu amigo. — explicou o menino, como se fosse óbvio. — Mas, ei, talvez ele chegue atrasado. Tipo, realmente atrasado.
—É. — concordei. — Pode ser.
Quero deixar algo claro por aqui: Gabe não é exatamente meu amigo, é só alguém legal com quem eu converso de vez em quando. Por isso fiquei um tanto chateada quando percebi que ele realmente não apareceria na escola. Seria chato não ter com quem conversar.
É fazer o quê? Vamos ler durante o intervalo
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