Digimon Zero: The Lost Gate
2 Capítulo 2 (Episódio 1) - "Eu Sabia que ia dar Ruim!"
Notas iniciais
— Que droga! E mais droga! Por que temos que viajar pro Japão?! Ah... Que droga! — reclamava Joseph com seus pais.
— Filho, seu pai tem que viajar pro Japão. Ele vai trabalhar num projeto de engenharia, e- — sua mãe nem terminou de dizer.
— Qual é, mãe? Papai não é criança, ele pode ir sozinho pra Tóquio. Já marquei com a galera da minha turma. É muita sacanagem eu não ir no aniversário da Paulinha. Vai geral, e eu não quero ser o único idiota que não vai. Não quero quando telefonar ter que dizer que não vou porque, hmm... Tive que viajar porque meu pai não quer ir sozinho pra outro país! E ainda tem mais... — agora quem interrompeu Joseph foi seu pai, chamando-lhe a atenção:
— Fale direito com sua mãe, Joseph! Ou eu vou chamá-lo de Zé pelo resto do ano. E não te darei mais presente nenhum! — Suspirou e abaixou o tom de voz — Entendeu?
Joseph percebeu que seu pai estava a um passo de perder a paciência e disse para amansar a fera:
— Tudo bem, tudo bem... Por favor, paizinho, não seja tão malvado com seu filho querido. Prometo que vou me comportar daqui pra frente — pedia com os olhos pidões (mentiroso).
— Vou fingir que acreditei e vou te dar uma chance. Que isso nunca mais se repita — disse autoritário seu pai.
— Não irá se repetir, senhor — respondeu Joseph, cruzando os dedos a suas costas.
— Vamos viajar amanhã cedo — decretou o pai.
— Mas, pai, sair do rio de Janeiro, que fica no Brasil, América do Sul... E ir pro Japão, que fica lá na Ásia? — o filho tentou argumentar uma última vez.
— É — confirmou o pai, sério. Não ia dar brecha para brincadeiras. — Arrume suas malas, Joseph.
— E ligue avisando que não poderá ir na festa seus amigos, está bem? — disse a mãe depois de um tempo quieta.
Joseph, vendo que não tinha escolha, se rendeu aos caprichos do pai.
— Tá bem, mãe, tá bem pai, vou arrumar minhas malas e vou ligar para meus amigos e avisarei que terei que viajar. — Deu as costas aos dois e saiu andando para seu quarto. — Inferno... — sussurrou para si mesmo, subindo as escadas que davam acesso ao segundo andar da casa. — Logo nas minhas férias sagradas de janeiro, nada podia ser pior.
* * *
Antes mesmo do sol raiar, a mãe de Joseph já acabava de arrumar as malas (dela, de seu marido e filho. Achava os dois lentos demais para tal tarefa e se encarregava dela), o pai do menino levantou bem cedo também, para organizar seus projetos de engenharia. Agora passava das 8h e o café já estava posto. E nem sinal de Joseph.
O pai, cansado de esperar o filho que dormia mais que um bicho-preguiça, resolveu ir até seu quarto — sua esposa tinha deixado o garoto dormir mais uma hora, porque falava que “crianças precisam dormir para crescer fortes e saudáveis”, mas para o senhor Bezerra já tinha passado dos limites.
Chegou ao corredor dos quartos, e abriu a porta, já entrando no quarto do filho. Por pouco não caiu de cara no chão após tropeçar em um livro de literatura — o maior pesadelo de Joseph.
Ele observou o quarto, perplexo.
Latinhas de refrigerante jogadas pelo chão, junto de livros didáticos e de romance que a escola obrigara Joseph a ler, roupas usadas e embalagens vazias de salgadinhos e aparelhos eletrônicos, bonecos de colecionador de heróis da Marvel e da DC, até um walk-man beijava o chão. O pior cúmulo foi ver as meias sujas estendidas nas janelas, como se estivessem secando, e a cueca, que ao menos parecia limpa, pendurada no abajur. Era um lixão! Sem contar as prateleiras com as coleções de livros de geometria, estequiometria e funções, entre outras matérias exatas (as favoritas do porquinho adormecido). Para piorar tudo, Joseph, que dormia sem o menor modo, coçou a bunda, tirou meleca e passou no colchão da cama desforrada, imerso num sono com direito a roncos potentes de dar dó.
De perplexo, o olhar de seu pai mudou para um que transmitia a perfeita mensagem de “Prepare-se para morrer, Zezinho!”. E teria tido êxito, se a mãe do moleque não tivesse o impedido.
— Me larga, Nancy! Hoje vai ser o dia que matarei esse garoto! — berrou Joaquim (esse é o nome do pai perfetinho).
— Querido, nosso filho ainda é um menininho, e-! Bem, ele não sabe o que faz! — ela tentou aliviar a barra.
— Sinceramente, mulher! Ele não é mais criança! Já tem 14 anos na cara!
Com aquele barulho todo, quem não acordaria? Joseph levantou meio desajeitado e morrendo de sono, perguntando:
— Que tá acontecendo, mamãe, com a senhora e o papai?
— Até que enfim, seu... — dizia seu Joaquim, mas Nancy tampou sua boca , dizendo:
— Querido, vai se arrumar logo para podemos ir.
— Mas, mamãe, ainda tô com sono! Quero mimir mais! — Joseph fez birra, cheio de dengo (sua mãe estava com a razão, ele parecia ser mesmo uma criancinha).
— Por favor, filho — insistiu ela. Joseph, vendo que não adiantaria persistir, consentiu o pedido dela.
— Tá bem. — E ele foi se arrastando para o banheiro no fim do corredor. Mesmo quase dormindo em pé, ouviu nitidamente seus pais discutindo por sua causa, o pai bolado por ter deixado o quarto um verdadeiro lixão, a mãe decidida a defendê-lo. Sou um filho decepcionante. Mas fazer o quê? Eu não posso evitar minhas travessuras! Pensou despreocupado. Quem sabe usasse a loção de barbear de seu pai…
* * *
A viajem do Brasil ao Japão foi a coisa mais chata e entediante que o garoto já fizera na vida. Dormiu e comeu o quanto conseguiu naquelas longas horas que pareciam não ter fim.
Desembarcou com seus pais no aeroporto de Tóquio, eram quase dez horas. Curioso com o lugar novo, deixou seus pais carregando as bagagens e escapuliu. Queria explorar o lugar — e irritar seus pais com seu sumiço repentino. Eles vão me procurar que nem barata tonta! Refletiu aos risos. Aprontar era tão divertido! Vou levar um sermão brabo depois, mas que se dane!
Tão distraído que estava em olhar ao redor, acabou esbarrando numa menina que deveria ser um pouco mais nova que ele. Só a viu de relance, e o que mais memorizou com exatidão foram seus fartos cabelos cacheados que eram algo entre castanho-claro e louro e que usava um quimono branco e verde (era uma das poucas coisas que o pacóvio do Zé sabia sobre a cultura japonesa).
— Sumimasen! — disse a menina enquanto corria.
— O que você disse?! — perguntou Joseph a garota, mas quando olhou para trás, ela já havia sumido em meio a multidão (ela se desculpou, Zé Cabecinha).
Joseph ficou matutando, pensando no que a menina com que esbarrou podia ter dito, mas parou de pensar quando aquele portal bizarro apareceu bem diante dele. Era idêntico a que aparecera para Haruka Kanata, até a parte do tornado.
— Eu sabia que ia dar ruim! — Joseph só teve tempo de dizer isso, sendo sugado pelo portal digital.
Lá dentro, gritava, mas sua voz não saia, e nada que fazia funcionada, em vão. Girando e gritando mudo em meio a um turbilhão de algarismos, desfez-se em partículas digitais — foi como uma chuva de uns e zeros branco-azulados.
Fale com o autor