Digimon Beta - E o Hexágono do Mal
14 A Verdadeira Identidade do Domador Misterioso
“Se eu estivesse com meu digimon faria João e Verônica engolirem cada insulto. Tenho que concordar que a atitude de Gabumon é estranha. Nenhum digimon, e nenhum humano, se arriscaria tanto para proteger alguém que mal conhece, ou sequer viu. Apesar de que, aqui estou eu com esse digimon nos braços, tentando livrá-lo da morte, ou melhor, do retorno à condição de dados. Por que Lúcia está apoiando o ‘casal sensação’? Ela devia me apoiar e não mandar seu bonequinho de pedra me tirar à força da quadra.”
Carlos estava pensativo, segurando Terriermon nos braços, quando desperta para realidade ao ouvir João lhe gritar:
– E aí Carlos? Qual é a sensação de ser atacado e ver seu digimon sofrer?
Carlos prontamente olha na direção dos digimons e nota que parte da arquibancada estava destruída. Em meio aos escombros, estava o digimon lobo bastante ferido e perdendo bits pelos inúmeros ferimentos e escoriações.
– Vocês três são patéticos!
– Me exclua desse meio – interfere Lúcia – Só entrei nessa batalha por que não posso deixar que Garurumon causasse mais destruição a esse colégio. E se ele for realmente selvagem, teremos que destruí-lo. Essa é a nossa função e acho bom que você entenda isso.
– Seadramon – chama João – A amnésia do nosso amigo Carlos está nos atrapalhando. Afinal, se Garurumon for um digimon selvagem teremos que destruí-lo. Vamos continuar com os ataques até ele se lembrar da verdade!
Seadramon lentamente aproximava sua calda do pescoço de Garurumon quando é surpreendido por um rápido bote do digimon, que lhe crava suas presas arrancando uma enorme quantidade de bits. Bits esses que seguiam se dissipando pela atmosfera. Seadramon urra de dor e sacode sua calda, mas Garurumon continuava seguro. Tailmon então salta sobre a calda da gigantesca serpente e aplica um soco no focinho do digimon lobo, obrigando-o a largar. Garurumon tenta ficar de pé, utilizando o pouco da energia que lhe restava, quando é surpreendido novamente pela Tailmon, que estava com as garras para fora, próximas ao seu pescoço.
– Se eu fosse você, não me moveria um centímetro.
– Me solta Carlos! — diz Terriermon inquieto — Eu vou ajudar seu digimon.
– Não tenho certeza se ele é meu digimon.
– Como que não? Ele está arriscando a vida para te proteger.
– Tailmon! – grita Verônica – Já que ele é um digimon selvagem, destrua-o. Ele sim, já nos causou grandes transtornos.
Garurumon sente que não poderia fazer nada para escapar. Estava muito debilitado e Tailmon aproximava lentamente suas garras.
– CARLOS! – grita Terriermon em meio à apatia do garoto – Faça alguma coisa. Tailmon vai acabar com Garurumon!
Terriermon consegue se livrar de Carlos, e corre na direção da digimon gato para impedir a destruição de Garurumon.
– PAREM COM ISSO!
O grito vindo da entrada da quadra atrai a atenção de todos, inclusive de Terriermon e Tailmon que param suas respectivas ações.
Rafael observava toda a movimentação encostado ao batente da grade.
– Você é o domador misterioso? – pergunta Verônica incrédula.
– Misterioso eu não sei. Só sei que esse Garurumon é meu digimon.
– Desde quando você está aí, Rafael? – pergunta Carlos.
– O suficiente pra te salvar desses loucos – Rafael caminha até Carlos – Garurumon, venha até aqui.
Garurumon tenta levantar, mas é impedido pela Tailmon, que continuava com as garras próximas ao seu pescoço.
– Pode soltá-lo Tailmon.
O digimon lobo regride e se aproxima do seu domador.
– O que eu te fiz pra você mandar seu digimon me atacar? – questiona João.
– Eu até ia com a sua cara, mas depois que você vez chacota de mim no meu aniversário e começou a ficar com Verônica...
– Eu não estou com João! – grita a garota – Quantas vezes terei que repetir isso!
– E você “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, sempre fez pouco caso dos meus sentimentos. Nunca deu o valor que realmente mereço.
– Do que adiantaria te namorar se nunca senti nada por você?
– Você teria tudo o que quisesse! Shows, viagens, as melhores roupas e restaurantes...
– Justamente por isso! – interrompe Verônica novamente – Eu quero um namorado e não um cartão de crédito sem limites.
João gargalha com a afirmação da garota.
– Você não tem jeito mesmo, cara. Acha que dinheiro pode comprar e conquistar tudo! O que muito me admira é você ter se tornado domador.
Antes que Rafael pudesse retrucar, Carlos lhe toma a vez.
– Quem é você pra falar dele? Acha que o mundo gira em torno do seu umbigo! Pra você, todos têm que está a sua margem ou abaixo, nunca acima.
– Carlos você conhece muito bem João e sabe...
– Verônica dá um tempo! – interfere Carlos visivelmente revoltado – Logo você quer me dar lição de moral? A máscara que você usa de “amiguinha”, de “boazinha” e de “inocente”, comigo não cola mais. To vacinado!
Verônica começa a chorar depois de ouvir os insultos de Carlos. Nunca pensou que poderia ouvir isso da boca dele. João a abraça revoltado com o que acabara de ouvir. Rafael, ao lado de Carlos, segurava uma gargalhada de satisfação.
– Oh... Ta chorando é? – prossegue Carlos — Pois eu acho pouco! Amizade falsa comigo não cola!
– Por que você ta me tratando assim? Eu nunca falei nada pra te magoar!
João se aproxima do ouvido da garota e cochicha:
– Verônica, lembra do que Lúcia disse no carro? Com certeza Rafael está influenciando ele!
– Por que não fala alto? Percebo que sinceridade é o tipo de palavra que não existe no seu vocabulário – diz Rafael provocando.
Os quatro domadores passam a discutir e trocar xingamentos ao mesmo tempo, formando uma grande confusão, onde, quem estava de fora, não entendia absolutamente nada. Os digimons observavam seus domadores se degladiarem com palavras, e praticamente irem às vias de fato.
Lúcia, que estava neutra à briga desde o início, grita histericamente fazendo-os calar.
– Quando infantilidade e besteira dita em tão pouco tempo! Será que não percebem que isso tudo está muito além de orgulho, mágoas e dores de cotovelo? Temos uma missão e não fomos escolhidos ao acaso. O mundo dos digimons e o nosso mundo correm perigo. Por mais bizarro e fílmico que possa ser, existe uma força do mal disposta a colocar nossa existência em risco. Temos que esfriar a cabeça e agir com racionalidade. O Arquivo Digimon, apesar de não ser completo e direto, nos prepara para algumas das coisas que estão por vir.
O silêncio passa a reinar no local.
Os domadores observavam seus rivais de maneira fria, sem expressar nenhum tipo de sentimento. Rafael estampava um sorriso cínico de olhar apertado.
– Seadramon. Vamos andando!
– Você também Tailmon.
Seadramon e Tailmon regridem e acompanham seus domadores, que caminham em direção à saída.
Rafael inicia uma nova provocação.
– Vocês não queriam se vingar do domador misterioso? Estou à inteira disposição do casal!
João e Verônica ignoram o rapaz e desaparecem de suas vistas.
Terriermon se aproxima de Carlos e escala sua perna, chegando ao seu ombro.
– Será que eles ainda querem me destruir?
– João é o tipo de pessoa que não desiste fácil do que quer. Deve estar morrendo de ódio de mim e do Rafa.
– Ah! – exclama Lúcia ao lado de Rafael – Antes de irmos pra casa, precisamos fazer algo. E esse algo, só você pode fazer!
Lúcia sorri para Rafael, que logo entende do que se tratava.
– O que é? – pergunta Carlos assustado.
Na frente do colégio, Lúcia se despede de Carlos enquanto Gabumon e Gotsumon entram no carro.
– Carlos... Meus parabéns! Você é realmente fera no computador – diz bagunçando-lhe o cabelo – E você Terriermon, deu sorte hoje. Agradeça a esse garoto.
Terriermon a olha com desconfiança sobre o ombro do garoto de óculos.
Rafael se aproxima.
– Tem certeza de que não quer uma carona até seu carro?
– É contramão pra você, pode deixar que eu vou andando. Até por que, já perdi minha noite de sono mesmo!
– Só porque fez esse “servicinho”?
– Relaxa. Tivemos o cuidado de usar luvas. – lembra a garota negra — Não pega nada pra gente. E você não vai para o inferno por causa dessa brincadeirinha.
– Engraçadinhos... E você, — diz Carlos apontando o dedo para Rafael — fique ciente de que precisamos esclarecer algumas coisas.
– Contanto que não seja agora... Essa discussão me deixou com uma puta dor de cabeça.
Carlos se despede de Rafael e segue caminhando. Havia deixado o carro no estacionamento de um hipermercado, a três quadras do colégio.
Terriermon salta do ombro do garoto e vai para o chão.
– Vou indo!
– Pra onde?
– Pra minha árvore. Não quero entrar nesses latões que os humanos andam.
Rafael passa pelo amigo e buzina, dobrando a esquerda na esquina seguinte.
– Se você não sabe, estamos um pouco longe da sua árvore. De carro é mais rápido e fácil. Como que você conseguiu chegar aqui?
– Pulei nas costas de um latão comprido. Passam manadas dele lá perto da árvore onde eu durmo.
– Você é louco! Surfando em cima dos ônibus e correndo o risco de ser visto por mais humanos.
– E o que tem demais nisso?
– Só quem pode saber sobre a existência de vocês são os domadores.
– Queria voar!
Terriermon passa a andar como se estivesse sobre uma corda bamba.
Carlos sorri.
– Você é engraçado!
– Os humanos é que são engraçados.
– Por que somos engraçados?
– Por que são! São todos parecidos. Não tem um diferente do outro.
– Existem pessoas de várias estaturas, várias raças, vários tipos físicos...
– Existem digimons de todos os tamanhos, formatos, aparências... Você não percebeu a diferença entre eu, Betamon, Plotmon, Gabumon e Gotsumon?
Carlos balança a cabeça confirmando, para a felicidade de Terriermon que segue pulando a sua frente. Enquanto caminhava, observando o digimon de grandes orelhas, o garoto se recorda da história contada pela Verônica.
– Terriermon, vem aqui!
Enquanto o digimon se aproximava, Carlos agacha e retira o digivice do bolso.
– O que você vai fazer?
– Vamos descobrir se você é, ou não é, meu digimon.
Ao ergue o digivice na frente do pequeno Terriermon, o aparelho emite o seguinte sinal sonoro: “O digimon encontrado está acoplado a esse aparelho”. O digivice azul, que antes estava com a tela escura, como se estivesse desligado, passa a exibir um ícone animado do digimon.
– E ai? – pergunta Terriermon.
– Pelo que Verônica me disse, esse foi o som que o aparelho dela emitiu quando ela encontrou Plotmon. Isso quer dizer que você é o meu digimon — Carlos abraça Terriermon e o girar no ar — Você não faz ideia de como estava ansioso pra te conhecer.
– Então foi por isso que eu vim pra esse mundo. Pra te encontrar!
Carlos o coloca no chão e torna a agachar.
– Já conseguiu lembrar o nome de quem te perseguia no Mundo Digital?
– Ainda não!
O digivice de Carlos novamente reage, agora o aparelho apitava, brilhava e vibrava.
– O que ele quer dessa vez Carlos?
– Quando ele reage desse jeito, quer dizer que tem algum digimon por perto.
– Será que não são os digimons que queriam me destruir?
– Acho que não.
A cada segundo que passava o digivice reagia de maneira mais intensa, assustando o garoto.
– O que foi Carlos? Por que você ta com essa cara?
– Acho que a coisa é séria, Terriermon. O digivice está praticamente entrando em curto!
– Eu não quero lutar!
– Mas você precisa!
– Eu sei... Acho que sei.
O digivice finalmente se normaliza e um triângulo vermelho surge em sua tela. O triângulo indicava Carlos, que logo se levanta, e Terriermon rapidamente sobe em seu ombro para poder ver o que o visor exibia.
– O que é isso? – torna a perguntar Terriermon.
– Essa seta deve indicar o digimon que apareceu.
– Mas você não é digimon!
– Disso eu sei Terriermon. A não ser que...
Carlos vagarosamente se vira de costas, e percebe que um estranho ser o observava do meio da avenida, já sem movimento, a uns 700 metros.
Continua...
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