Digimon Beta - E o Domador Inicial
9 O Surgimento das Cartas Acessórias
A reunião acontecia a todo vapor. Todos os domadores que estavam afastados passam a ter consciência de tudo o que havia acontecido. Com o passar das horas e o detalhamento dos fatos, a grande maioria acabou concluindo que Blaze e Alex haviam surtado e que Calamon era mais poderoso do que sua doce e frágil aparência pudesse transparecer.
— Como assim, Culumon? Explique-se direito!
Verônica era a primeira a encabeçar um grande grupo de curiosos. Todos queriam saber sobre o real motivo do surgimento das Cartas Acessórias.
— Calamon me chama de irmão, mas na verdade, ele é uma parte de mim, culú.
— Vocês dois eram um único ser? – Flávia pergunta.
— Sim, culú. Eu era o digimon mais poderoso que existia em todo o Mundo Digital. Possuía habilidades invejadas pelos maiores e mais fortes digimons Extremos. Naquele tempo, culú, os digimons viviam e batalhavam em busca de território, alimentos e poder. Muitos deles viviam em perfeita harmonia, culú, em suas cidades, aldeias, ou viajando pelos mais remotos lugares. Somente os digimons arcanjos e demônios, e outros poucos, que digladiavam até os últimos bits.
“Já não estava mais suportando aquele tormento, culú. Eu tinha constantemente lapsos de memória e quando minha consciência retornava, notava que estava em outro lugar e que havia feito atrocidades. Por causa dessa dupla personalidade, destruí digimons inocentes e frágeis. Aniquilei cidades e regiões inteiras culú.”
— Então você é o tão famoso Culumon?
Culumon estava caído sobre um imenso deserto de asfalto. O sol extremamente quente incidia sobre o rosto do pequeno digimon branco, que após ouvir seu nome ser pronunciado por alguém ao seu lado, se levanta com dificuldade.
Um digimon que possuía estatura idêntica ao de Culumon, corpo redondo e rosa, dotado de braços, pernas com pés descalços, asas e uma lança do seu tamanho, observava Culumon com seus grandes olhos uniformes.
— O que você quer, culú?
— Estou surpreso em te conhecer. Me chamo Piccolomon.
— Por que surpreso em me...
Antes que pudesse terminar a frase, Culumon desmaia.
O pequeno digimon acorda horas depois com o barulho de um pequeno riacho esbarrando sobre as pedras. Culumon estava deitado sobre um verde gramado quando percebe que Piccolomon o observava sentado ao seu lado.
— Beba isso, Culumon. É água fresca. – Piccolomon ergue um pequeno caneco feito de barro.
Culumon bebe todo seu conteúdo sem ao menos respirar.
— Você é o mais famoso e poderoso digimon que já existiu. Por que estava caído e machucado?
Culumon olha para seus braços, pernas e corpo e nota que havia escoriações e cortes com perdas de bits. O pequeno digimon é envolto por uma áurea branca e instantes depois, seu corpo estava em perfeitas condições.
Piccolomon observava atentamente todos os detalhes.
— Você consegue se curar de feridas? Por isso é o digimon mais poderoso que existe.
— Mais poderoso e atormentado, culú.
— Por que diz isso?
— Piccolomon, eu não gosto de batalhar sem necessidade, culú.
— Todos comentam que você é um insano destruidor. Sem piedade e compaixão.
— EU NÃO SOU ASSIM! – Grita Culumon, irritado. – Existe algo dentro de mim que me domina. Eu perco meus sentidos, tenho lapsos de memória, culú, e quando recobro a consciência estou a quilômetros de distância e dias à frente de onde estava.
— Culumon, esse Piccolomon era o seu conselheiro? – Pergunta Levi, intrigado, interrompendo o falatório de Culumon.
— Ele mesmo, culú. Eu estava disposto a me livrar, e Piccolomon me apoiou no momento mais difícil da minha vida.
— Piccolomon era um digimon muito corajoso. Ele não teria forças para te enfrentar em uma batalha, afinal era um Perfeito. – Comenta João.
— Certa vez, culú, voávamos juntos sobre a cidade que vocês conhecem como Etemonlândia, quando perdi o controle sobre mim. Não me recordo de absolutamente nada. Tudo o que eu sei, Piccolomon me contou após, culú.
Culumon estava com os olhos amarelos. Sua voz estava firme e impactante.
— Como ousa me seguir digimon insignificante. – Diz Culumon parado em pleno ar.
Piccolomon estranha sua reação e também para um pouco mais atrás.
— Eu disse que sei uma maneira de como te ajudar.
— Eu não preciso da sua ajuda!
Culumon ergue seu pequeno braço na direção de Piccolomon e o lança contra um prédio, que desmorona. Em meio aos escombros, Piccolomon se ergue e consegue seguir voando, paralelamente e a centímetros do chão, em uma rápida fuga. Culumon o segue, voando mais acima, e a cada vez que estendia sua mão, o local pelo qual Piccolomon havia passado explode. O pequeno digimon de pelagem rosa seguia voando e se esquivando da Telecinese de Culumon. Metros à frente ele é atingido nas costas e se esbarra contra o asfalto da cidade, se arrastando por alguns metros até atingir uma fonte que havia no centro de uma praça. Culumon pousa ao lado de Piccolomon, já fraco e bastante ferido.
Aos poucos o pequeno digimon redondo é erguido dos destroços da fonte por uma áurea rosada que o circundava.
— Você é realmente poderoso – Piccolomon falava com dificuldade.
— Mais do que você imagina, lixo ambulante. Posso te destruir de uma maneira indolor, ou da mais dolorosa possível.
Culumon salta e gira de costas, se transforma em um poderoso lobo branco alado, semelhante ao Weregarurumon, com cicatrizes, brincos, jeans rasgado com desenhos de caveira e correntes, pés descalços e ataduras nas mãos e nos pés. Piccolomon fazia força tentando se livrar da Telecinese de Culumon, que agora era bem maior e aparentava um lobisomem. Precisava da sua lança para poder atacar. O pequeno digimon mágico visualiza sua arma caída aos pés do inimigo e sem hesitar, estala seus dedos, atraindo-a para si.
— Pequeníssima Explosão.
Piccolomon gira sua lança e a aponta para Culumon transformado, atingindo-o no focinho. O pequeno digimon fada aproveita a distração e segue voando a toda velocidade. Culumon o segue, também voando, com suas enormes asas, que se moviam como as de uma enorme águia. Piccolomon se esforçava para voar cada vez mais rápido e mesmo assim o lobo se aproximava. O pequeno digimon rosa gira seu bastão na tentativa de lançar outra técnica no Culumon, quando é atingido por um soco, que o faz atravessar um muro de tijolos, caindo na rua seguinte. Piccolomon estava ferido e perdia bits pelos cortes espalhados pelo corpo.
O enorme lobo negro se aproxima voando e o segura, prendendo-o entre seus dedos.
— Me solte, Culumon. Você não pode se deixar dominar.
A lança de Piccolomon estava no chão.
— Do que me chamou? Eu sou Calamon. Não existe mais nenhum Culumon nesse mundo!
Aos poucos Culumon começa a recuperar sua consciência. Seu olhar voltava à tonalidade anterior: o verde. Sua voz se tornara doce e mansa.
— Piccolomon, o que foi que eu fiz, culú?
Culumon o liberta de seus dedos e gira no ar, voltando a ter a forma anterior.
— Você não fez nada! Calamon, sim, me fez. E nós vamos destruí-los juntos. Sua dupla personalidade não será nada fora do seu corpo.
— Você quer dizer com isso que foi Piccolomon quem te libertou? – Indaga Lucas, empurrando seus óculos de armação preta com o indicador.
— Isso, culú. Piccolomon sabia como me ajudar. Ele foi um grande digimon até seus últimos dias de vida. Até o dia em que os ditadores invadiram meu castelo e o destruíram.
— Mas antes dessa separação, você era considerado o deus-digimon? – Questiona Antônio. Kokabuterimon acompanhava tudo atentamente.
— Não. Os digimons passaram a me chamar de deus-digimon depois que eu me separei do Calamon, culú. O primeiro a me tratar assim foi Piccolomon, que sempre me chamava de mestre.
— Então isso tem a ver com algo que Piccolomon fez para separar Calamon de você? — Antônio deixava transparecer que havia entendido onde Culumon queria chegar com todo aquele discurso.
Os domadores e os digimons redobram a atenção durante a conversa de ambos.
— Tem, culú. Antes da separação, eu era um digimon comum, a não ser pelo fato de existir apenas eu da minha espécie. Era forte, poderoso e temido. Tinha técnicas que nenhum digimon conseguia reproduzir, nem mesmo Piccolomon, que é um digimon dotado de magia, assim como eu!
— CLARO!
O grito de Bárbara assusta alguns que estavam totalmente vidrados da explicação do Culumon, inclusive Fanbeemon, que por muito pouco, não lança um ferrão venenoso.
— Ai, Báhzinha, vai assustar outra! – Diz Flávia esmagando Lunamon em seu colo tamanho o susto que levara.
— Desculpa, amiga. Pessoas acompanhem meu raciocínio. Culumon, antes dessa separação, possuía como técnica a Telecinese, conseguia se curar de feridas e conseguia se transformar em um lobisomem alado!
— Bárbara, – Diz Lucas com os olhos saltados – você quer dizer que as Cartas Acessórias eram as técnicas de Culumon?
Todos se espantam com a dedução de Lucas e Bárbara.
Antes que Bárbara pudesse dizer algo, Antônio intervém.
— Faz sentido! Piccolomon usou de algum artifício ou magia para separar Calamon de Culumon e acabou originando as vinte Cartas Acessórias. Por isso que Calamon tanto quer essas cartas! Com todas elas, ele poderá se tornar aquilo que Culumon foi antes dele aparecer.
Culumon sorri, confirmando tudo que os domadores acabaram de deduzir.
— E o que foi que Piccolomon fez? Ele tinha um feitiço ou alguma engenhoca que pudesse fazer isso?
— Não sei te dizer, culú. Lembro que, no dia em que me separei de Calamon, nos estávamos no Continente Perdido. Exatamente, culú, naquele velho mausoléu onde as Cartas Acessórias estavam guardadas.
No interior da antiga construção, compridos bancos de madeira dispostos em fila preenchiam o local. Havia um corredor entre essas duas fileiras. O teto era todo de vidro transparente, sustentado por uma armação quadrada como se fosse um tabuleiro de xadrez. Na extremidade oposta as enormes portas de madeira, havia um altar com trinta e dois degraus e sobre esse altar, uma enorme mesa de pedra.
Culumon estava deitado sobre essa mesa, urrava e se contorcia de dor, enquanto Piccolomon o observava de perto, também sobre a mesa.
— Seja forte Culumon, está quase.
Piccolomon segurava na mão de Culumon que, a cada segundo, parecia sentir ainda mais dor. O pequeno digimon branco transpirava um líquido negro pelos poros do seu corpo, liquido esse de aparência viscosa e brilhante.
O líquido seguia, como se percorresse um caminho, em direção a extremidade da mesa, escorrendo até o chão e descendo pelos degraus do altar. Culumon finalmente parara de gritar. Estava muito debilitado e acaba desmaiando. Piccolomon observava o estranho líquido viscoso, quando é surpreendido por um intenso brilho no corpo de Culumon, de onde se desprendem vinte pontos luminosos que ficam circulando lentamente sobre ele.
— Essas devem ser as técnicas de Culumon. Elas acabaram se desprendendo devido à instabilidade do seu corpo.
Piccolomon gira sua lança e a ergue, fazendo com que os pontos luminosos, aos poucos, fossem tomando forma de cartas um pouco maiores do que cartas de baralho. Essas cartas eram negras e possuíam imagens, das mais variadas formas, em uma das faces. Na outra face havia o pequeno sinal vermelho presente da testa de Culumon.
Um fraco barulho de trovão faz com que Piccolomon tornasse a olhar para o líquido viscoso. Aos poucos, o líquido ia tomando a forma de um ser idêntico ao Culumon, a não ser pela cor predominante negra e as extremidades dos pés e das orelhas em vermelho. Olhos amarelos e ausência do triângulo invertido na testa. Pequenos estrondos e faíscas se desprendiam do líquido, que seguia tomando forma.
A cópia negra de Culumon tossia e tentava respirar, como se estivesse sufocado.
— Calamon, desgraçado. Não acredito que conseguirá ter vida livre!
Piccolomon ergue sua lança na direção do digimon recém criado e voa até ele. Aquela seria uma presa fácil de ser aniquilada já que ele não notara sua aproximação.
— NÃO!
O grito de Culumon faz com que Piccolomon parasse e Calamon se voltasse para ele, percebendo que o inimigo se aproximava.
— Não o destrua! Ele é inofensivo, culú.
— Temos que acabar com ele. Ele é totalmente mal.
— Mesmo assim tem o direito de viver, culú.
Calamon aproveita a distração de Piccolomon e foge do lugar meio cambaleante. Quando Piccolomon se volta na sua direção, nota que Calamon havia fugido.
— Depois eu cuido dele. Agora você precisa saber da sua nova condição. — Piccolomon se aproxima e pousa sobre a mesa onde Culumon estava.
— A partir de agora você tem grande ligação com esse Mundo. Se você for destruído por outro digimon, esse lugar irá pelos ares. Todo e qualquer digimon dependerá de você e lhe deverá obediência. Sua segurança é a nossa segurança.
Culumon nota várias cartas girando sobre ele.
— O que são essas cartas, culú?
— Com a divisão do seu corpo, você ficou frágil e algumas das suas técnicas se desprenderam do seu corpo. Eu aprisionei cada uma delas em forma de cartas.
— Somente três técnicas ficaram comigo, culú: Reflexo, Pensamento e Comunicação. O Reflexo eu utilizei para destruir Beelzebumon; Pensamento para criar as outras cartas, os digivices, à Arena, o castelo; mandar seus digivices para o Mundo Real, e a Comunicação para conseguir falar com vocês, culú.
— Eu não sei como ainda me surpreendo com isso tudo! — Diz Murilo bestificado.
— Você não sabe o que Piccolomon fez contigo, Culumon? – Pergunta João.
— Não se recorda de absolutamente nada? Talvez isso possa nos ajudar contra Calamon – Insiste Verônica.
Continua...
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