Em um dos momentos mais complicados já enfrentados por João, Verônica, Carlos e os demais, Terriermon não havia desistido. Calamon conseguira derrotar Chaosdramon, os digimons do nível Perfeito tanto dos calouros quando de Levi, Albert e Mateus, além dos seis digimons elementais sem muitas dificuldades. Ter absorvido a carta “Força Extrema” o deixara muito poderoso, praticamente indestrutível. E quando todos haviam perdido as esperanças, eis que o pequeno digimon de longas orelhas que se arrastam pelo chão, se lembra do apito que o Trailmon Angler havia dado aos domadores caso precisassem de sua ajuda.

Com um forte lampejo, Angler surge no campo de batalha para resgatar os domadores e seus digimons. Calamon fica atônito com o repentino aparecimento do digimon e a possível fuga dos humanos. Não poderia deixar que aquilo acontecesse. Movido por sua ira, o digimon que surgiu a partir dos sentimentos ruins de Culumon lança uma de suas técnicas na direção de Trailmon, já que todos os domadores e digimons corriam em sua direção.

Carlos corria até o digimon trem que possui locomotiva azul e três vagões marrons, com Terriermon sobre seu ombro, quando percebe que todos os demais já estavam à sua espera. João, ao perceber que a técnica de Calamon se aproximava de maneira muito veloz, ainda tenta se apoiar próximo a porta do vagão, com o braço estendido na direção do seu amigo, mas já era tarde. O domador de Koromon ainda tenta, numa atitude irracional, correr até o seu amigo quando Angler fecha as portas e a técnica engloba domador e digimon, explodindo violentamente em seguida.

O garoto de barba cerrada passa a socar a porta do vagão, tentando sair do local a todo custo, mas Trailmon já se deslocava, em meio a fumaça e poeira gerada pela explosão, ganhando velocidade. Nenhum domador ou digimon se manifestava dentro de Angler, apenas os gritos desesperados de João eram escutados. O garoto a todo o momento chamava pelo seu amigo. Verônica passa a acompanha-lo no mesmo desespero e dor, socando a porta do vagão, que já desenvolvia uma certa velocidade. Os trilhos do digimon seguiam surgindo metros à sua frente e desaparecendo assim que iam ficando para trás. Trailmon passava, agora, pelo vilarejo próximo ao local da batalha. Angler seguia se desprendendo do solo e ganhando altura. Estava a 90 Km/h.

Murilo, também em lágrimas, se aproxima de Flávia e a abraça. O abraço faz a garota chorar como um recém-nascido. Uma grande comoção toma conta do vagão. Verônica chorava abraçada ao Levi, que também estava emocionado. Júnior estava com os olhos marejados, assim como Fernanda, que estava abraçada a sua pequena digimon redonda que usa um capacete de metal. Albert, Mateus, Lucas e Leon estavam em silêncio, tentando digerir todos os acontecimentos, quando Kau, que observava através da janela o local da batalha, vê um ponto negro se desprender da nuvem de poeira, que já estava minúscula por conta da altitude que Angler tinha ganhado. Aquele ponto lhe chama atenção, parecia que voava na direção deles. Aos poucos a imagem vai crescendo aos olhos do garoto de cabelo verde e braço tatuado. Calamon voava muito rápido, enfurecido, na direção dos domadores.

— Calamon está nos seguindo! – Brada o domador, cessando o profundo silêncio.

Os domadores se assustam com a notícia. Verônica, João, Flávia e Murilo sentem suas dores se converterem em ódio. Renamon, digimon raposa de Levi corre até a janela e coloca a cabeça para fora, visualizando o inimigo, que já estava muito próximo. Angler seguia a todo vapor. Trailmon apita três vezes seguida antes de fazer uma curva para desviar da parede côncava do subterrâneo. Calamon os seguiam e cada vez mais se aproximava. Angler já desenvolvia uma velocidade de 280 Km/h.

— Levi, posso ir?

— Cuidado, Renamon. Dê o melhor de si.

A digimon raposa usa seus braços e, segurando na parte superior da janela, se lança para fora, equilibrando-se sobre o teto do vagão como se estivesse surfando. Calamon se aproximava cada vez mais.

— Morte Gélida.

A digimon de Levi materializa algo semelhante a cacos de vidro e os lançam na direção de Calamon, que desvia pela direita e volta ao seu posto. Renamon repete a técnica, agora Calamon desvia pela esquerda. O digimon das trevas materializa uma esfera de energia na palma da mão e a lança na direção de Angler, atingindo o último vagão e convertendo-o instantaneamente em dados. O vagão onde estavam os domadores e digimons chacoalha, arremessando todos no seu interior contra os bancos e as laterais.

— DESGRAÇADO! – Grita João. — Eu nunca vou te perdoar por isso!

— Angler, — pede Júnior — tire a gente daqui, logo.

O Trailmon continuava ganhando velocidade e estava aos 297 Km/h. Renamon seguia atacando Calamon, que desviava sem dificuldades. A digimon raposa precisava ganhar tempo.

— Pessoal, — diz o digimon locomotiva – estamos próximo de ultrapassar os 300 Km/h

Calamon e Renamon também escutam o que Angler disse.

— Vocês não sairão vivos daqui. – Brada o digimon lobo negro alado, aumentando a velocidade do seu voo.

Calamon, agora voava paralelamente ao Trailmon, observando o interior do vagão onde estavam os domadores e digimons, quando a digimon de Levi finalmente consegue atingi-lo na asa esquerda, fazendo-o perder um pouco de velocidade.

Renamon volta para dentro do vagão e se certifica de fechar todas as janelas. Todos os domadores colocam o cinto de segurança, incluindo Renamon. João, Verônica e Flávia estavam inconsoláveis. A simples visão do inimigo os faziam transbordar de ódio. Angler, agora, estava a 299 Km/h. Faltava um quilômetro por hora a mais para se teletransportarem.

Calamon consegue voar como antes e passa na frente de Angler, assustando a todos, parando logo em seguida. O digimon faz um movimento circular com as mãos, criando uma esfera negra de energia e disparando sua “Chama Infernal” no digimon trem, atingindo o que seria sua face. Nesse exato momento, Angler consegue romper a barreira dos 300 Km/h e um forte lampejo se apodera dele.

Os domadores estavam na praia próxima ao farol, praia essa onde Fernanda havia surgido pela primeira vez no Mundo Digital. Angler havia se teletransportado muito acima do solo e os trilhos já não o acompanhavam mais. O Trailmon mergulha na areia com forte impacto e segue se arrastando por alguns metros. Os domadores e os digimons se assustam com a forte trepidação e o chacoalhar excessivo. Por sorte, todos estavam presos as suas poltronas. Angler acaba capotando por três vezes seguidas antes de parar com as rodas para cima.

— ANGLER! – Grita João. — Fala com a gente!

Após outro grande susto, os domadores vão se ajudando e saindo do vagão. O garoto de barba cerrada consegue sair às pressas, antes de todos e com Koromon nos braços, e corre até a parte frontal de Angler. O digimon estava com a face completamente destruída. Era possível ver alguns circuitos faiscando e uma grande quantidade de óleo sendo derramada. Todos saem do vagão e correm até João.

— Como que Angler... — Fernanda interrompe sua pergunta após ver, com seus próprios olhos, a situação do digimon.

João sai do local completamente revoltado e empurrando seus colegas que estavam atrás de si, caindo de joelhos na areia metros à frente. O Trailmon Angler, aos poucos, vai se convertendo em dados, que vão se movimentando na direção do mar.

— Mais uma baixa no nosso lado. – Diz o garoto de cabelo verde com pesar.

Verônica chora abraçada a Plotmon.

— Por que isso está acontecendo com a gente? POR QUÊ!

O grito desesperado da domadora faz seu digivice reagir e Plotmon sente uma grande energia fluir pelo seu corpo.

— Eu sou um merda! – Balbucia o garoto de barba cerrada, enquanto mantinha o rosto voltado para a areia da praia e lágrimas teimavam em rolar. — Não sirvo pra liderar! Eu tinha que ter impedido essa tragédia. EU MESMO VOU ACABAR COM CALAMON!

O tom de voz enraivecido faz o digivice do garoto reagir e Koromon evolui para Betamon em seus braços. Betamon e Plotmon se afastam às pressas dos seus domadores. Aos poucos, ambos os digimons vão evoluindo, passando por todos os seus níveis evolutivos na frente de todos os demais, até alcançarem a Extremidade. Ophanimon e Metalseadramon haviam retornado. Ambos os digimons se movimentam até seus domadores e antes que pudessem dizer algo, regridem. Plotmon e Betamon estavam desmaiados nos braços dos seus respectivos domadores.

Um grande silêncio se faz presente entre os domadores e os digimons. Monodramon estava caído no local onde antes estava Angler. A brisa que vinha do mar soprava no rosto de cada um passando uma aparente tranquilidade. João olhava na direção do oceano. Olhava para os dados do Trailmon Angler, que seguiam brilhando ao longe até desaparecer por completo. O vento soprava ao seu ouvido. O mar continuava azul e calmo. Era possível ouvir o arrebentar das marolas.

— Ele renascerá na Cidade do Princípio. – Diz Lucas, fazendo com que João olhasse em sua direção. — Tivemos lá por causa do digimon de Kau. Ele havia sido destruído por Etemon.

— Também estive lá. – Diz o garoto franzino e tímido, de óculos de lentes redondas. — Fui atrás de Lopmon.

— Elecmon nos conversou. – Diz Leon.

— É duro ver alguém que tanto gostamos morrer. – Prossegue Kau.

— Devo imaginar. – Diz Levi. — Se não fosse por Verônica, eu estaria morto.

— Eu te salvei a pouquíssimo tempo. — Verônica tentava esquecer, por alguns momentos, as recentes fatalidades. — Culumon, eu sei que não posso, mas irei contar. Inclusive será melhor para todos nós.

Culumon, que estava sob a areia da praia, assente com a cabeça e fala.

— Levi, a Verônica que te salvou do ataque dos ditadores não foi à mesma que você salvou, culú.

— Você quer dizer que a Verônica que estava presa na esfera de Taomon não foi à mesma que me salvou?

— Exato. – Diz a garota, para a surpresa e curiosidade dos demais.

Todos prestavam atenção na história de Verônica. Era como se o cansaço e os ferimentos tivessem desaparecido momentaneamente.

— Eu use uma carta.

— A Carta Cronômetro! – Brada Murilo, atraído a atenção de todos por alguns minutos. — Eu devia desconfiar.

— Eu achei essa carta quando estava sozinha procurando por Bento e Etemon. Durante uma batalha, junto com Murilo e contra Vadermon, acabei usando essa carta pela primeira vez. Ela me teletransportou para aquele espaço temporal. Eu assisti toda a batalha que tivemos contra Blackwargreymon até o exato momento em que eles três dispararam suas técnicas para nos atingir. Esperei o exato momento para nos teletransportar e salvar você e Renamon.

— Então quer dizer que o Teletransporte...

— É outra carta! Vocês não fazem ideia de como é estranha à sensação de se ver de outro ângulo. Eu sentia todas as ansiedades, medos e palpitações que senti naquele momento. Plotmon estava comigo sentia todas as dores quando a Plotmon do presente era atacada. Inclusive ela conseguiu evoluir para Angewomon por conta disso, dessa conexão.

— E eu ainda consigo me surpreender com isso. – Diz o domador da digimon raposa.

— Vadermon e Etemon foram escolhidos por mim para proteger as passagens para o Continente Perdido, culú. Eles eram os únicos que sabiam da localização das cartas.

— Tem certeza que você escolheu Etemon? – Indaga o domador de Kudamon.

— Etemon, culú, sofreu uma forte pancada na cabeça durante uma batalha contra o Vamdemon e esqueceu da sua função. Pra minha sorte, ele protegia aquela cidade e a passagem que ele ficou responsável por proteger é justamente naquela cidade. Infelizmente Vadermon, culú, acabou morrendo numa batalha contra vocês.

— Não tivemos culpa. – Diz Murilo. — Pensávamos que ele fosse inimigo, quando, na verdade, os inimigos éramos nos.

João continuava sentado na areia, olhando em direção ao mar, perdido em seus pensamentos. “Nunca imaginaria, nem nas minhas viagens mais loucas, que pudesse existir um mundo dentro da rede mundial de computadores.”

Leon se vira para Júnior.

— Júnior cuida Veemon para mim. Eu ter que voltar a Madri. Meu pai quer conversar algo sério comigo.

— Você passou muito tempo no Brasil, cara.

— Vim para casamento e acabei ficando mais dias. Eu tenho nacionalidade Brasileira. Meu pai é brasileiro.

“A vida pode tomar rumos desagradáveis. Nem tudo o que acontece é para nosso bem, mas com certeza é para nosso aperfeiçoamento como humano. Estamos a poucos dias do vestibular e não consigo ver motivos para fazê-lo. Carlos era um irmão para mim. Nos conhecíamos a muito tempo. Na verdade, nossos pais se conhecem a bem mais tempo. Eles tinham um grande amigo em comum e se conheceram através dele. Eu e o Carlos passamos por muitas situações esse ano. Brigamos por idiotices minhas. Gargalhamos juntos. Pela primeira vez na vida Carlos foi chamado atenção numa sala de aula e por minha culpa. Terriermon era um digimon especial. Seu jeito maluco e inocente de levar a vida fez a diferença em vários momentos.”

Uma gostosa brisa marítima esbarra no rosto do João que, por alguns momentos, fecha os olhos e sente como se todas as suas angustias tivessem desaparecido. O vento cessa.

“Verônica. Aproximei-me dela por causa de Carlos e dos digimons. Até hoje me lembro com detalhes daquela noite, durante o aniversário de Rafael, quando batalhamos. Sua digimon já evoluía para fase Adulta. Desde aquela noite senti que tínhamos muito em comum. Senti que ela marcaria minha vida. Levi está vivo! Pelo menos essa notícia para amenizar. Se é que existe uma maneira de amenizar os fatos.”

Rapidamente João volta e se levanta com Betamon nos braços. Os domadores ainda conversavam.

— Eu não sei como chegarei em casa. Como que eu vou explicar tudo isso? Esse tempo que eu passei desaparecido.

— Somos dois, guri. – Diz o garoto negro que usa moicano. — Não faço à mínima.

— Conte a verdade! — Diz do líder dos Domadores Beta maneira seca.

— Como assim a verdade? – Indaga Levi.

— Conte tudo! Apresente Renamon a eles.

— Vocês não podem fazer isso, culú!

João se exalta.

— Podemos sim! Eu não tenho estômago pra mentir para os pais de Carlos!

Os olhos do domador estavam cheios de lágrimas.

— Calma, João. – Pede Flávia igualmente emocionada.

— Culumon, qual será o próximo passo de Calamon? Me responda!

Culumon fica sem entender o objetivo da pergunta. Pensa por alguns segundos.

— Ele quer todas as cartas. Quer dominar os dois mundos, culú.

— Para fazer ambas as coisas, ele irá até o meu mundo.

Os domadores gelam só em pensar na possibilidade.

— Nossa função é impedi-lo, culú.

— Depois de hoje, você realmente acha que somos capazes?

Ninguém responde. Nem o deus digimon e muito menos os humanos.

— Por pouco não fomos todos destruídos. Em poucos minutos perdemos Carlos, Terriermon e Angler. — João passa os olhos por todos que estavam ali. Ninguém o encarava. O vento continuava a soprar. — Calamon se diferencia dos ditadores pela força e pela ousadia. Ele é cem por cento ruim. Ele é a parte ruim de Culumon, do deus digimon. Quer nos pegar em nossos momentos mais vulneráveis. Sabe de todas as nossas forças e fraquezas. Eu fico pensando em quantos “Carlos” ainda morrerão. — Um nó lhe vem a garganta. O garoto de barba cerrada respira fundo e continua. — Esse é o jogo mais perigoso de nossas vidas. Não sei quantos e quais de nos chegaram ao final. — João volta a olhar para os domadores e vê que alguns passaram a olhá-lo. A maioria acompanhava seu raciocínio e estava com medo. João volta a olhar na direção do mar. — Sinceramente, eu temo pelas nossas vidas!

FIM

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