Digimon Beta - E as Cartas Acessórias
8 Murilo, Bárbara e Flávia
O garoto magro estava dormindo, abraçado ao galho da árvore, quando lentamente é despertado pela luz do sol incidindo sobre seu rosto. O jovem olha em volta, ainda meio sonolento, como se tivesse esquecido onde estava até que uma expressão de angústia denuncia que havia se lembrado do que acontecera no dia anterior.
Murilo estava mais confuso do que nunca. Monstros e animais falantes por todos os lados; plantas feitas de papel, vidro e metal; árvores de hambúrguer, refrigerante em lata e barras de cereal, só ajudavam na confusão instaurada dentro da cabeça do rapaz.
Alguns minutos de caminhada e o garoto se depara com o final da floresta. Se desse mais um passo para frente, estaria em um imenso deserto.
— Que loucura... Devo ter sido drogado! Não existe explicação mais lógica pra tudo isso.
Ao olhar para trás, Murilo nota que o monstrinho verde que o seguira incansavelmente na noite passada estava se aproximando.
— Numemon vai destruir você! Hora da Festa.
Murilo passa a correr pelo solo arenoso do deserto, numa tentativa de despistar o digimon molusco de língua vermelha e olhos saltados, que seguia arremessando excrementos na sua direção.
— Vai procurar o que fazer, fedido!
O garoto segue correndo e, ao tentar descer do topo de uma imensa duna que acabara de subir, se depara com o digimon toupeira que possui uma furadeira no focinho. O garoto tenta parar durante a descida, mas a areia fofa da localidade o derruba, fazendo com que ele rolasse pela formação íngreme, passando por debaixo das patas do digimon e parando logo abaixo.
Drimogemon e Numemon estavam lado a lado e corriam de encontro ao garoto que, rapidamente se coloca de pé e começa a correr. O digimon toupeira, então, utiliza sua broca no chão, produzindo uma enorme rachadura que avança na direção do Murilo, prendendo um dos seus pés no chão. O garoto se desespera e tenta, de várias maneiras, livrar seu pé da rachadura, mas não consegue.
— Você me paga digimon asqueroso! – Brada Numemon se aproximando.
— Vou estraçalhar você como um mísero verme! – Retruca o digimon toupeira de pelagem roxa e peito branco.
Ambos os digimons se preparavam para atacar o garoto quando um enorme ciclone atinge o chão logo a frente deles, assustando-os.
Murilo rapidamente vira o rosto para não ser atingido nos olhos com a areia do deserto.
Um garoto de feições indígenas estava montado em um enorme cachorro azul que veste luvas vermelhas nas patas dianteiras e um cachecol de mesma cor que seguem arqueados em duas enormes pontas. Uma frondosa pelugem branca seguia ao redor do seu pescoço.
— Vão procurar outra diversão por ai! – Diz o garoto rapidamente descendo das costas do digimon cachorro. — Você está bem? Me chamo Luiz Filipe.
— Estou sim! – Diz Murilo, tranquilo por encontrar um humano naquele lugar. – Obrigado por me ajudar. Eu me chamo Murilo. Como que você consegue controlar esse monstro?
— Monstro?
— Saia da minha frente! – Brada o digimon molusco lançando fezes no rosto do digimon cachorro, atingindo seus olhos.
— Gaogamon! – Grita Luiz Filipe, que rapidamente saca seu digivice e rastreia as informações dos oponentes.
Numemon, um digimon no nível Adulto. Esse digimon molusco vive em locais úmidos é fétido. Tem uma aparência desagradável e asquerosa. Ataca seus inimigos com a “Hora da Festa”.
Drimogemon, um digimon no nível Adulto. Essa toupeira roxa possui uma broca negra em seu focinho. Sua técnica é a “Broca Giratória”.
Gaogamon tentava limpar os olhos quando recebe uma estocada do Drimogemon, que o leva ao chão.
— Você tem um aparelho desse? – Questiona o domador.
— Não! Mas conheço uma pessoa que tem um desse. Inclusive acho que foi por causa dele que eu vim parar aqui.
— Que ótimo. Você não é domador e está aqui. Como que essa pessoa se chama?
— Assim... Igual, igual não é por que o dele é verde e o seu é prateado.
— Você está falando de Davi?
— Ele mesmo! Você o conhece?
— Ele é um Beta. Só os Beta possuem digivices coloridos.
Gaogamon urra de dor com as investidas de Drimogemon, assustando seu domador.
— Evoluir para Perfeição seria desnecessário, mas não vejo alternativa.
— Evoluir? – Questiona Murilo sem entender.
— Eu não quero lutar com vocês! – Diz o digimon azul que calça luvas vermelhas, novamente se colocando de pé.
Numemon e Drimogemon permaneciam prontos para atacar.
— E por que você interferiu na nossa batalha? – Pergunta o digimon lesma.
— Não posso deixar que vocês destruam um humano!
— Humano?
O digimon que possui uma broca negra alojada no focinho rapidamente olha na direção do garoto que estava perseguindo.
Numemon também o acompanha no movimento.
Os digimons observam as semelhanças físicas entre o garoto e o domador do Gaogamon.
— Grande Culumon! – Diz Drimogemon, espantado. — Não acredito que ataquei um humano. Eu o confundir com um Wizarmon!
— Numemon também confundiu.
— Me desculpe! – Pede o digimon de pelagem roxa se aproximando e ajudando Murilo a desprender o pé da fenda aberta por ele.
— Ta tudo bem! – Diz o garoto, ainda assustado. – É que eu acabei de chegar aqui e to estranhando tanta novidade.
Os digimons nada mais dizem e se afastam.
— O que é um Wizarmon?
O garoto de cabelo liso sorri.
— É um digimon bruxo que vive vagando pelo Mundo Digital!
— Mundo Digital?
— É... Com o tempo você saberá de tudo! Fique tranquilo.
Luiz Filipe sobe nas costas de Gaogamon.
— Venha, suba aqui. Vou te levar onde estão os outros humanos.
Murilo sobe no Gaogamon, que sai andando pelo Deserto do Norte indo em direção ao local que será palco do torneio.
“Culumon não vai gostar nada disso! – Pensa o domador. — Por irresponsabilidade de Davi, esse cara veio parar aqui.”
Em outro ponto do Mundo Digital, a garota de cabelos enormes e cacheados havia adormecido no local onde chorava na noite passada.
Um digimon inseto, semelhante a uma abelha, possuindo abdômen, tórax e os três pares de patas listrados em preto e amarelo se aproxima, voando. Olhos verdes, antenas azuis, dois pares de asas e um poderoso ferrão na extremidade do abdômen. Curioso, ele pousa ao lado da garota e a cutuca na cabeça, nas costas, na perna e nos seios, fazendo com que ela acordasse assustada e se rastejasse, numa tentativa de fuga do ser que lhe tocava, até se esbarrar contra uma árvore.
O digimon olha assustado.
— O que você quer? – Manifesta-se a garota ofegante. — Eu vou gritar se você tentar algo!
— Acho que você é uma humana. – Diz o digimon de voz feminina. — Já ouvir falar, e muito, da sua espécie.
— Humano? Você fala como se não fosse um. Francamente vá amolar outro!
— Não consegue ver que eu não sou um humano? Eu sou um digimon.
— Eu sou cega! – Esbraveja a garota irritada. — Se é que você não percebeu!
O digimon inseto caminha na direção da Bárbara, que ouve seus passos na grama.
— Não se aproxime, senão eu grito.
O digimon para de andar.
— Você não consegue ver, humana? – Pergunta a pequena abelha, que tem o mesmo tamanho que a Plotmon, olhando-a nos olhos e percebendo que ela não conseguia focar seu olhar durante a conversa.
— Não engraçadinha! E pare de amolar!
Bárbara se levanta e tenta achar um caminho, mas acaba batendo de frente com um tronco de árvore e cai sentada no chão, chorando.
A digimon voa até a moça.
— Sua testa está sangrando! Deixa eu te ajudar.
— Se afaste de mim!
Bárbara, sem querer, toca na digimon e se assusta. Ela percebe que não se tratava de uma pessoa, mas sim de um ser com uma carapaça muito resistente.
— O que você é? – Questiona.
— Eu sou uma digimon, já disse!
A pequena abelha sente que a humana estava com medo.
— Não precisa ter medo. Olha, eu vou me aproximar da sua mão e você me toca.
— Não! – Esbraveja em meio ao choro. — Se afaste!
Mesmo com a relutância da garota, a pequena digimon se aproxima.
— Pronto! Pode me tocar.
Bárbara, ainda tremendo, levanta sua mão do chão e aos poucos toca a digimon, sentindo os contornos do seu corpo.
— Aqui é minha asa. Eu tenho dois pares.
Bárbara movimenta a mão para outra parte do corpo.
— Aqui são minhas antenas e mais embaixo meu rosto... Aqui são minhas patas... Meu abdômen... Cuidado!! Não toquei aqui. Esse é meu ferrão! Ele tem um veneno bem incomodo.
Bárbara retira a mão de cima do digimon e fica assustada por um breve período.
— Não precisa ter medo. Eu sou do bem!
— E tem outros como você. Só que do mal?
— Não só como eu, mas outros bem mais poderosos e até alguns que lembram humanos.
— Ainda acho que você não é isso que eu toquei! Você está caçoando de mim só porque sou cega.
— Nunca eu faria isso com ninguém! Eu te disse que sou do bem. Quer ver?
A digimon inseto começa a tocá-la com suas garras. A cada toque, mesmo sem querer acreditar que era real, Bárbara sentia um misto de pavor e medo. As garras eram pontiagudas e tinham pelos que roçavam pelo seu braço. A digimon voa ao redor da Bárbara. Ela passa a observar os ruídos gerados pela asa da digimon. O barulho lembrava o som de asas de inseto.
— Agora acredita em mim? – Questiona a digimon.
A garota fica em silêncio.
— Eu sei que é difícil um humano acreditar que possam existir outros seres que falam. Mas eu sou bem real.
Grandes passadas, seguido do barulho de árvores caindo assusta humana e digimon.
— O que é isso?
— Deve ser algum digimon malvado!
— Tem certeza que você não quer me meter medo?
— Claro que tenho!
— Por favor. O que quer que você seja não me deixe sozinha. Eu to procurando meu irmão.
— Pode deixar humana. Não irei te abandonar agora!
— Terriermon, cadê você?
O garoto de óculos de grau de armações negras seguia caminhando por uma floresta de gigantescas melancias, enquanto gritava o nome do seu digimon.
— O que foi, Carlos?
Um garoto de corpo e altura medianos, com cabelos negros curtos e olhos azuis se aproxima do Carlos. Ao seu lado estava um cachorro de pelagem clara com calda, olhos e orelhas vermelhas.
— Terriermon sumiu! Eu estava indo para a Arena com João e Verônica quando ele pediu para pegar algo pra comer. Fiquei de esperar ele aqui, nesse ponto, e até agora ele não voltou.
— Uai! Ele deve ta aprontando por ai.
— Você já sabe da fama dele é?
— E quem não sabe? Estou errado, Labramon?
— Não mesmo!
Os garotos e o digimon sorriem.
O digimon de pelagem clara, cabeça avantajada em relação ao corpo e longas orelhas que no momento seguravam maçãs, surge caminhando no horizonte enquanto comia uma das frutas.
— Onde que você estava? – Questiona Carlos assim que ele se aproxima.
— Comendo maçã. Quer?
— Não! E onde você foi achar maçãs? Não vê que essa floresta toda é um gigantesco pé de melancia. Aqui só tem melancias. E das grandes.
— Meu sonho é comer uma melancia dessa sozinho.
— Isso é fácil, Terriermon. – Manifesta-se Labramon. – Evolua para o seu nível Extremo que você poderá comer uma dessas melancias.
— Carlos... – Diz o digimon olhando-o com os olhos brilhando.
— NÃO!
— Labramon... – Diz Igor, sorrindo. – Não alimente as loucuras dele!
— Agora vamos indo. – Propõe Carlos. – João vai botar um ovo quando nos encontrar.
— Vi sua amiga lá atrás. – Inicia Terriermon, ainda mastigando. — E ela estava chorando.
— Verônica?
— Não. Aquela que vive querendo saber de tudo.
— FLÁVIA? – Exclama, assustado.
— É! E tinha um monte de digimons perto dela!
— E por que você não foi salvá-la?
— Porque você dizia para eu não sair do guarda-roupa quando ela estivesse em sua casa.
— Terriermon você entende tudo errado!
Rapidamente Carlos o segura em seus braços, fazendo com ele deixasse as maçãs cair.
— Minhas maçãs! – Diz o digimon com a voz chorosa.
— Depois você pega mais!
— Podemos ajudar? – Pede o garoto de olhos azuis.
— Se não for pedir muito...
— Vamos, Labramon!
Bárbara e a pequena digimon abelha seguiam apreensivas com a aproximação do enorme digimon pela floresta.
— Ele ta se aproximando... Eu posso ouvir! – Sussurra.
— Calma. A gente vai dar um jeito.
A pequena digimon inseto se aproxima da garota de longos cabelos cacheados numa tentativa de confortá-la. O barulho de árvores caindo cada vez mais próximo delas e de pesadas passadas, criava um clima de tensão.
Um enorme dragão cyborg que lembra um tiranossauro de pele roxa com a cabeça, coxa, tronco e asas de metal se aproxima da Bárbara e da digimon. Em suas costas estava um garoto.
— Vocês estão bem? – Questiona o domador com a sua voz naturalmente rouca.
— Estamos sim! – Responde a digimon abelha, aliviada.
O domador saca seu digivice e recolhe informações sobre a digimon que acompanhava a Bárbara.
Fanbeemon, uma digimon no nível Novato. Essa digimon abelha possui um veneno muito incômodo e é uma excelente voadora. Sua técnica é o “Ferrão Engrenagem”.
— Quem está falando? – Questiona a garota, ainda aflita.
— Pode ficar tranquila. – Responde a digimon. — É um domador e seu digimon.
— O que quer dizer ser um domador?
— Domador é o humano que tem um digimon e consegue fazer com que ele evolua e se torne forte para lutar.
— Eu pensei que você, Fanbeemon, fosse a digimon dela. – Pontua o garoto.
— Não. Ela não tem nenhum parceiro digimon.
O domador desce das costas do seu digimon e se aproxima da garota, olhando nos seus olhos, e percebe que o mesmo é vazio, vago. Ela não o fixava com quem estava conversando.
— Você está bem? – Questiona o domador. — Por que você não me olha nos olhos?
— É porque eu sou cega. Perdi a visão por causa de um Glaucoma.
— Me desculpe.
— Te desculpar pelo que? – Sorri. — Eu me chamo Bárbara, e você?
— Bruno Pastreli. Mas todo mundo aqui me trata pelo sobrenome. É que eu tenho um xará mais novo. E esse digimon que estava derrubando tudo por ai é o Raptordramon.
O garoto de biótipo semelhante ao do João, nota que a garota possuía algumas escoriações pelo corpo.
— Bárbara. – Prossegue o garoto. — Você andou se machucando?
— Eu a encontrei desse jeito, aqui, dormindo. – Adianta-se, Fanbeemon. — Ela está com vários ferimentos pelo corpo.
— Não posso te deixar sozinha. É muito perigoso. Venha comigo que eu te levarei onde estão outros humanos. Fanbeemon me ajude a montá-la no Raptordramon.
Pastreli adianta-se ordenando que o digimon cyborg baixasse o máximo que pudesse. Após montar nas costas do digimon Adulto, o domador estica a mão para a garota, que consegue pegá-la com a ajuda da digimon abelha e rapidamente sobe nas costas do digimon.
Bárbara o segura pela cintura.
— Eu tenho que achar meu irmão, Bento.
— Seu irmão também está aqui?
— Acho que sim. Hei você que estava comigo esse tempo todo, você não vem conosco?
— Não posso! – Responde a digimon. — Tenho minha vida pra tocar...
— Muito obrigada por tudo! Nunca vou me esquecer de você.
— Pode ter certeza de que eu também não esquecerei. Tchau!
Bárbara a segue pelo zumbido característico até não conseguir mais ouvi-lo.
— Como que você chegou até aqui já que não é uma domadora? Seu irmão é?
— Eu acho que não. A última vez que ouvi a voz dele, nós estávamos em casa e ele estava mexendo no laptop.
Raptordramon alça voo enquanto Bárbara contava toda sua história ao Bruno Pastreli.
A garota loira de corpo malhado chorava, sentada no chão e abraçada as suas pernas. Estava cercada por um grupo de quatro tiranossauros negros com barbatanas verdes que seguiam por toda a extensão das suas costas até a extremidade da calda.
Os digimons e a garota estavam em uma profunda depressão inteiramente revestida por grama sintética.
— O que faremos com essa humana? – Pergunta um dos tiranossauros que a cercavam.
— Vamos brincar um pouco! – Responde o digimon ao lado.
Flávia se desespera e começa a chorar mais escandalosamente.
— Olhem só! – Manifesta-se o tiranossauro negro do lado oposto. — Eles são tão engraçados quando choram.
— Me deixe em paz! – Esbraveja.
— Oh! Coitadinha... – Prossegue o quarto digimon. — Ela não é domadora! Não tem um digimon para protege-la. Que peninha.
— Vamos logo pôr um fim nisso! – Diz o primeiro digimon que se manifestou. — Ao meu sinal atacaremos juntos. Um... Dois... Três!
— SOCORRO!
Continua...
Fale com o autor