— SOLTE BENTO, BLAZE!

A única voz que se conseguia ouvir em Etemolândia era a voz de Bárbara. Seus gritos ecoavam pelas ruas da cidade deserta.

Bento finalmente havia encontrado sua irmã e compreendido todo o jogo sujo feito pelo Blaze para mantê-lo distante dela. E mesmo após descobrir tudo o que havia acontecido, o garoto foi impedido pelo domador de Guilmon de ir de encontro a sua irmã.

Os digimons de ambos os grupos se encaravam a centímetros de distância. Esperavam pelo menor sinal dos seus domadores para poderem atacar.

Bento continua a se sacudir e Blaze o segurava com força, sorrindo.

— Me larga, seu grosso!

Movido pela raiva, o garoto de cabelos curtos e cacheados cospe no rosto de Blaze que, instintivamente, soca duas vezes seguida seu rosto, soltando-o após.

Blaze se aproxima ainda furioso.

— Isso é pra você aprender a nunca mais cuspir no meu rosto!

O garoto alto e corpulento chuta as costas de Bento, que grita e chora de dor.

— Para com isso! – Pede Barbara, ao ouvir os gritos do seu irmão.

Blaze continuava a chutar Bento.

Com toda a gritaria causada pelo reencontro dos irmãos, Etemon se levanta aos poucos, ainda machucado.

Em um pequeno descuido de Blaze, o garoto consegue se levantar numa tentativa de fugir do seu algoz. Ao passar pelo Alex, Bento leva uma rasteira e novamente cai, se machucando outra vez.

— Bah! Acho que alguém queria fugir.

— A “garotinha” queria fugir foi?

Blaze e Alex sorriem. Blaze novamente avança na direção de Bento, que estava caído.

Júnior impede seu aliado.

— Chega, Blaze! Para de humilhar o cara!

— Me larga! – Diz o domador livrando seu braço das mãos do domador de Leppamon. — Eu faço o que me der na telha!

A garota de cabelos ondulados, interfere.

— Você já passou de todos os limites.

— Até você, Fernanda?

— Até eu sim, Alex, por quê? Blaze, não vê que o menino é apaixonado por você?

Bento aproveita a distração dos domadores e foge.

— Olha o que você fez!

Blaze larga um tapa na cara de Fernanda.

Júnior empurra o garoto.

Solarmon avança em Blaze, mas é contida pela sua domadora.

— Não, Solarmon. Ainda não é o momento.

— Bento está fugindo! – Avisa o garoto magro de sorriso largo, aliado do João. — Angemon, atrás dele.

O acessório “Lobo Lutador” se desfaz, o digimon anjo volta a sua forma original e voa atrás de Bento. Shurimon, Digmon e Ranamon também iniciam a perseguição, sendo seguidos pelos digimons rivais.

Bento corria olhando para trás, sem saber que se aproximava de Etemon. Uma luz, que mais parecia uma estrela cadente, voa na sua direção e atinge a sua mão. Era um digivice.

Todos param de correr.

— Bárbara, seu irmão acabou de ganhar um digivice! – Brada Verônica, animada.

— Ele não era domador?

— Não!

O garoto olhava para seu digivice, que não tinha nenhuma cor de destaque, diferente do digivice dos Domadores Beta. Na tela do novo aparelho havia uma mensagem: Rastrear Digimon. O irmão da Bárbara não compreende o que ela queria dizer.

— Bento, me entregue esse aparelho agora! – Diz Blaze se aproximando devagar.

— NUNCA! Se quiser, venha pegar.

Bento volta a correr e se assusta ao perceber que o digimon gorila de pelagem laranja e óculos escuros estava de pé, a poucos metros, e completamente machucado. O garoto para de correr. Ao olhar para trás, na direção dos domadores, vê que todos corriam ao seu encontro, inclusive sua irmã e o digimon dela. O digivice de Bento emite um sinal sonoro. Uma nova mensagem estava na tela: Digimon detectado: Etemon. Bento torna a olhar para o digimon macaco que estava a sua frente.

— Você é Etemon? – Indaga o garoto, receoso.

— Estou mesmo ficando famoso! — Etemon gargalha de felicidade e volta a ficar sério — Vocês estão destruindo minha cidade! — Etemon avança na direção de Bento.

O garoto estava sem saída. O digimon macaco avançava em sua direção a passos largos. Bento fecha os olhos com receio do que pudesse lhe acontecer. Ao abrir os olhos, instantes depois, ele vê que o digimon besouro de cor amarela estava medindo forças com Etemon para protegê-lo. Blaze se aproximava cada vez mais. Bárbara vinha mais atrás com os demais domadores e digimons. Os dois grupos, por um instante, haviam se tornado um só. Eles corriam lado a lado. Blaze é o único que vinha mais à frente com Guilmon. Etemon consegue erguer Digmon e a lança contra o grande grupo. Todos se separam para não serem atingidos pela digimon, que regride assim que toca o chão com grande estrondo.

— Vou destruir você!

Etemon se aproxima de Bento. Verônica, João e Murilo presenciam a cena. Etemon estava muito próximo, não havia nada que pudesse ser feito.

— Cadê Bento?

— Etemon está muito próximo dele, amiga. – Responde Verônica, nervosa.

— BENTO!

Na mão de Etemon surge uma esfera negra de energia.

— Blaze, Etemon vai matá-lo.

— Deixa, Guilmon. Não podemos fazer nada!

— Dukemon pode... — Blaze o interrompe.

— Já disse que não podemos fazer nada!

O digivice emite outro sinal, Bento lê a mensagem em sua tela: Para domar o digimon, aponte o digivice na direção dele.

Faltavam poucos segundos para que o digimon lançasse sua técnica, quando o garoto aponta o digivice na direção de Etemon e uma ofuscante luz dourada sai do aparelho. O gorila que usa óculos escuros sente uma dor insuportável por todo o seu corpo. O digivice tremia na mão do garoto enquanto a poderosa luz envolvia Etemon. O garoto fazia uma força fora do comum para suportar tamanha vibração.

Etemon cai de joelhos, urrando de dor. O digimon não consegue resistir ao poder do aparelho e acaba absorvido.

Murilo e João observam atônitos.

— Mais um domador acaba de surgir.

— E Carlos que não volta! – Lembra Murilo.

— Bento? – Questiona a domadora da Fanbeemon, incrédula. — O meu irmão se tornou um domador nesse exato momento?

— Isso! – Responde Verônica. — Ele se tornou domador de uma forma que eu nunca tinha visto. O digivice dele absorveu Etemon.

— Agora Bento é o domador de Etemon?

— Guilmon, se prepare. – Alerta seu domador. — Temos que destruí-lo também.

Blaze encarava Bento, que ainda olhava distraído para o digivice.

— Certo!

— Guilmon, evolução! – Brada Blaze erguendo seu digivice acima da cabeça.

Bento ouve o grito de Blaze e o fita.

Guilmon rapidamente evolui para sua Perfeição.

— Você está bem?

Júnior e seus amigos estavam próximos do grupo de João e não se importavam com a presença deles. No momento, todas as atenções estavam voltadas para Bento. No entanto, o garoto alto e magro observava Fernanda, que tinha lágrimas nos olhos. Sua face esquerda estava vermelha.

— Estou sim, Júnior. Obrigada por ter me defendido.

— Tenho que ter uma conversa séria com ele. Está deturpando tudo o que Culumon disse.

— Disso você pode ter certeza!

— O que você quer, Blaze? Olha o que você me fez!

Bento indica seu rosto. Seu olho direito estava roxo.

Blaze caminhava na sua direção. Logo atrás, estava Megalogrowmon.

— Posso lhe poupar se você se unir a mim.

— E ficar contra minha mana? Mais nem morto!

— Escute aqui seu... — Bento o interrompe.

— Seu o quê?

— Lembre-se de que eu salvei a sua vida. A essa altura do campeonato, você já teria virado comida de algum digimon selvagem.

— Pode ter certeza de que eu nunca vou me esquecer disso. Você foi a maior decepção da minha vida, Getúlio Gomes!

Murilo, João, Verônica e Bárbara se aproximam de Bento. A garota grita pelo seu irmão, que corre e a abraça. Os dois estavam muito emocionados. Murilo trazia Fanbeemon, consciente, nos braços. Angemon, Ranamon e Shurimon se põem em combate com seus domadores.

— Meu irmão, como é que você está?

Bárbara passava a mão pelo rosto de Bento, tentando certifica-se de que se tratava dele. Ao passar a mão pelos olhos do garoto, ele geme de dor.

— Cuidado, mana! Acabei de levar um soco!

— Bento, me responde uma coisa. Esse Blaze é aquele...

— Exato! O garoto da net.

— Você me falava que ele era tão legal.

— Ele era! As pessoas podem assumir a face que quiser pela internet.

Uma grande correria acontece. Megalogrowmon era atacado pelos digimons que estavam em combate. Shurimon lança uma Shuriken no inimigo, que é desviada por um dos braços mecânicos do digimon cyborg. Ranamon ataca com um soco de água e por pouco não é esmagada pela enorme pata do digimon. Angemon voa na altura dos olhos de Megalogrowmon e desfere um “Punho do Destino”. O digimon urra de dor e cai de costas no chão. Por pouco, não esmaga seu próprio domador, que foi salvo por Leomon, que o levou um pouco mais distante da luta.

João e os demais também se afastam.

— Toma cuidado, Blaze.

— Valeu, Alex. Pelo visto só posso contar contigo.

Júnior, Fernanda, Kau, Lucas e Leon os observavam, distantes.

— Depois do tapa que tu destes na Fernanda, as coisas vão mudar. – Diz Alex, sorrindo. — Poder ter certeza!

Megalogrowmon se levanta e dispara um canhão atômico na direção dos digimons. Angemon, girando seu bastão, tenta barrar o ataque. O digimon Perfeito dispara outro ataque e o digimon sagrado não consegue barrar, regride e cai inconsciente. Ranamon segura Patamon com um jato de água e o desce em segurança. Murilo o pega nos braços e se afasta da batalha.

João olha para Verônica e diz:

— Restamos nós!

A garota o ignora.

— Lâmina de Sombras.

— Nuvem de Chuva.

A Batalha prosseguia. Os guerreiros do metal e da água já demonstravam sinais de cansaço. Os digimon utilizavam a seguinte estratégia durante a batalha: atacavam o inimigo e desviavam de suas investidas. Seus domadores utilizavam as cartas que estavam em seu poder, mas nada parecia não surtir efeito. Já tinham, no total, nove cartas. Restavam onze.

— Canhão Atômico.

Ranamon e Shurimon novamente desviam da investida. O ataque, dessa vez, avança na direção dos domadores. Shurimon voa de encontro a eles. João saca uma carta, inédita entre os domadores. Verônica tinha acabado de achá-la.

— Adição de Dados – Escudo.

Shurimon gira as lâminas do seu braço a toda velocidade, como se fossem dois ventiladores, e uma semiesfera incolor se forma a partir deles, protegendo-os do ataque. A técnica do Megalogrowmon se dissolve e Shurimon regride. Restou apenas Ranamon. Blaze sorri, enquanto Verônica fica apreensiva. Mesmo tento em mãos oito, das nove cartas que eles possuíam, não adiantaria. Ranamon estava exausta. Verônica rapidamente se recorda de uma carta que Murilo utilizou durante uma batalha com Etemon e a utiliza.

— Adição de Dados – Recuperação.

Ranamon emite um brilho e logo seus ferimentos desaparecem e suas forças voltam.

Bento se aproxima de Verônica com Bárbara.

— Quero ajudar.

— É muito arriscado você lutar.

— Por que, mana?

— Seu digimon... – Diz a garota titubeando por alguns instantes antes de prosseguir. — Ele já nos causou muitos problemas!

Ranamon lança um “Punho de Água” em Megalogrowmon, que consegue se desviar.

— Canhão Atômico.

Os raios de energia liberados do peito do tiranossauro cyborg avançam em Ranamon. Se ela fugisse, os domadores seriam atingidos.

Bento solta Bárbara e avança um pouco, apontando seu digivice na direção do inimigo.

— Ordeno que saia, Etemon!

Nada acontece em princípio, e todos acreditam que nada aconteceria. Porém, o digivice do garoto de pele bronzeada e cabelos cacheados volta a brilhar e o digimon gorila se materializa em frente ao mais novo domador. Etemon vê que a técnica de Megalogrowmon se aproximava e rapidamente lança duas esferas de energia de encontro, ocasionando uma grande explosão. Ainda em meio a fumaça gerada, o digimon gorila avança na direção do seu oponente e ambos passam a lutar.

— Eu não pensei que ele fosse capaz de controlar Etemon. – Diz Murilo.

— Também não. – Diz João. — Blaze demorou muito tempo para conseguir domar Guilmon.

Por detrás dos domadores surge Meramon, que trazia consigo Carlos, Flávia e Lunamon. O digimon de fogo vinha correndo. Carlos grita e atrai a atenção dos seus amigos. Meramon se aproxima e Carlos desce dos seus ombros com Lunamon. Flávia estava muito debilitada nos braços do digimon de fogo. Mal conseguia ficar de pé.

— O que aconteceu? – Diz Verônica se aproximando, preocupada.

Ranamon pega Flávia nos braços e Meramon, que estava exausto, regride. Terriermon deita no chão de barriga pra cima, ofegante.

— A encontramos presa num quarto que mais parecia uma solitária. — Carlos pega o digimon de grandes orelhas nos braços. — Está toda machucada.

— Fafá, você comeu alguma coisa? Está com fome?

— Não comi nada, amiga. Etemon me ofereceu, disse que queria me ouvir cantar.

Carlos nota que Etemon lutava contra Megalogrowmon e, também, a presença do novo domador.

— Quem é o garoto?

— Meu irmão, Bento! Ele acabou de se tornar domador.

— Se tornou domador de Etemon! – Avisa Murilo.

— O quê? Como assim? – Questiona o garoto, incrédulo.

— Isso é um papo longo, cara. Depois eu te conto.

Flávia fazia muito esforço para manter os olhos abertos. Estava fraca, mal conseguia ficar de pé. Sua perna direita estava fraturada. A garota tenta observar a luta. Percebia que seus amigos conversavam sobre seu estado. Seus olhos estavam pesados de cansaço e de sono. A garota loira vê Etemon lutando contra Megalogrowmon. Seus olhos ficam pesados e a garota cochila. Instantes depois ela acorda e vê que Etemon estava levando uma grande vantagem sobre o digimon de Blaze. Todos os domadores estavam com suas atenções voltadas para batalha. Flávia cochila novamente. Ao retornar, instantes depois, ela vê que Megalogrowmon havia desaparecido e em seu lugar, voava Dukemon, com sua capa vermelha esvoaçando. Seus olhos ficam pesados, mas ela resiste. O sabre medieval surge no braço direito de Dukemon. O digimon falava algo que ela não consegue entender. Uma grande energia se acumula no sabre que estava apontado na sua direção e dos seus amigos. Flávia volta a cochilar e ouve alguns gritos. Tudo lhe parecia muito confuso. Ela não compreendia nada. Flávia sente um forte vento tocar-lhe a pele e ouve o grito da sua digimon. Logo em seguida, uma forte pancada na cabeça a faz adormecer profundamente.

A vocalista da Banda Cais do Porto abre os olhos lentamente. A primeira coisa que visualiza é uma lâmpada fluorescente presa ao teto branco. A garota move as mãos cuidadosamente e sente que estava deitada em uma confortável cama. O lugar era extremamente silencioso, a não ser por uma voz familiar que surge repentinamente: “peraê, depois eu te ligo. Ela já acordou”. Tratava-se de Carlos.

O garoto surge no campo de visão de Flávia, que ainda estava imóvel sobre a cama.

— Que bom que você já acordou! Sente-se bem?

— Onde é que eu tô? Cadê Lunamon? Ela gritou por mim há pouco.

Carlos esboça um sorriso tímido para Flávia.

— Há pouco? Não mesmo!

— Lunamon chamou pelo meu nome! Eu ouvi perfeitamente.

— Flávia. – Prossegue o garoto. — Faz dez dias que você está internada.

Continua...