Notas iniciais
Diga meu nome mais uma vez...
(https://www.youtube.com/watch?v=YZScE0ohAy0)

Você chegou tarde outra vez e como tem feito por semanas entrou deixou a bolsa no aparador, as chaves na bancada da cozinha e disse "hey", passou por mim mais uma vez, passou por mim e me viu sentado no sofá como eu sempre costumava estar há 3 anos atrás quando você chega, quando seu caminho para o quarto era diferente, era comigo depois de nos perdemos um no outro e esquecermos a força da gravidade.

Você está calada e isso não é seu, você nunca foi calada assim. - Diga meu nome. — Sussurrei pra mim mesmo, pedindo pro meu coração que trouxesse algo real de volta pra mim, que me tirasse naquela neblina gélida que você me colocou a meses atrás. Você costumava sorrir quando eu te olhava por mais de 4 segundos, corava e me abraçava buscando abrigo, buscando amor. Hoje não, hoje é gelado e "o que foi?". Onde nos perdemos, amor? onde foi que eu deixei tudo ruir? Foi meu jeans velho? aquele que você odeia dos meus tempos de colegial, que deixa fiapos por toda casa. Foi o jeito que deixei suas partituras caírem da escada naquele dia? o que foi que eu fiz com seu coração? me diga que desastre eu posso ter feito sem notar.- Diga meu nome...

Você passou para cozinha e eu continuava aqui, com os cotovelos no joelho e os punhos no queixo, encarando a estante e a tv ligada em um canal sem sintonia. Onde você foi? Quando se perdeu de mim e onde está agora? Você não diz mais meu nome, o que eu fiz? Posso concertar? posso trazer você de volta? posso restaurar o que eu posso ter destruído sem saber? Existe alguém? Alguém que te faz corar em menos de 4 segundos? — Diga meu nome de novo, eu preciso saber... preciso sentir você pra não desistir de nós.

Foi frio olhar em seus olhos. Onde eu costumava encontrar todo o calor que me fazia perder a cabeça e mergulhar em você, agora é como um lago gélido do Missouri. Você me olhava de volta e não sentia nada, e isso era quase que palpável, como um soco na boca do meu estomago. O que eu fiz? quando fiz? ainda existe salvação? Diga meu nome, daquele jeito doce que costumava dizer pela manhã quando acordávamos e você me olhava entre os raios de sol gentis que deixavam sua pele ainda mais pálida e seus cabelos ainda mais claros e angelicais. Ou da forma que dizia quando adormecíamos no sofá e você me acordava de madruga dizendo que não queria me perder nunca. O que aconteceu? O que eu fiz? O que nós fizemos? Quando nós erramos? — Diga meu nome... eu estou perdendo as últimas forças.

Eu queria te questionar e eu devia, sabia que esse era o próximo passo a ser feito, aquilo que todos fazem quando chegam neste ponto, mas você sabe que eu nunca fui bom em implorar por nada, nunca fui bom em receber piedade. O silêncio encheu a casa que estava vazia de nós, e ar ficou pesado como se estivessemos sozinhos pela primeira vez. Acabou não foi? Quando acabou? Você não diz mais meu nome.

Segurei seus braços e te trouxe pra mim. "—Diga meu nome." — eu sussurrei quase em oração à alguma força maior, se ela existisse em algum lugar. Houve silencio enquanto nós dois encarávamos o chão com aquele carpete encardido que levamos dias pra limpar, juntos. Sendo nós em uma lembrança agora distante. Seu braço estava gelado, daquele jeito que só ficava quando você saia pra caminhar sem casaco, do jeito que fazia quando estava preocupada com alguma coisa, quando você exercia o que era familiar pra mim.

Sou eu? O motivo desse peso em seus ombros? Das costas baixas e de todas as canecas de café preto? Esses olhos cansados e falta de vontade em tudo? Esses olhos perdidos na parede branca são por minha causa? Eu não posso te machucar assim sem saber quando eu errei. E me culpar por isso. Minha dispersão nos atrapalhou de alguma forma? Eu devia ter te perguntado mais vezes como estavam seus sonhos recentes? Eu devia ter lutado. Ter te puxado contra meu peito com força e ter acendido com brutalidade novamente o nosso calor? Devia ter te beijado daquele jeito que você me ensinou a fazer quando nem eu e você sabíamos que era possível?. Como no natal que você desceu do voo e pegou um taxi de volta pra casa enquanto eu ainda voltava, estagnado no trânsito ruim dessa cidade nos feriados, só porque sentiu o estomago apertar quando pensou que ficaria sem mim na hora de dormir. Como transamos em um transe só nosso até nos darmos conta que o sol estava nascendo. Eu devia ter feito, mas não fiz. Assim deixei. Senti que não devia. Não devia porque aquela fonte de calor estava congelada, esgotada. Parada, quebrada. E não se implora calor de um fosforo apagado. Você não me olhou nos olhos ao menos e eu senti ruir mais uma vez. Diga então... que acabou.

Esperei você dormir, dormir profundamente como só fazia quando tinha minhas pernas no meio das suas e meu braço pra deitar. Esperei você dormir pra me certificar de que você realmente não poderia dizer meu nome daquele jeito de novo. Enchi a mala com minhas poucas coisas, meus jeans velhos, os cd's que te deram novas músicas pra gostar, os livros que você me ensinou a ler com outros olhos e deixei aquele guardanapo, aquele em que você escreveu meu nome na cafeteria da esquina do bairro que a gente prometer guardar nosso amor, e sorrindo o pôs sobre a boca enquanto dizia meu nome e corava em 4 segundos exatos. Acabou. Sai sem fazer barulho e desci as escadas onde a gente fez amor pela primeira vez, impacientes e sedentos um pelo outro, realizamos a sua fantasia adolescente. Você não precisa mais dizer meu nome e nem dizer que acabou. Eu sinto. Eu sei. Eu respeito. Eu vou.
Estava te deixando, não porque eu não te amava ou não queria lutar para que você voltasse no tempo e me mostrasse outra vez aqueles olhos pra mim, mas estava te deixando porque eu te conhecia. Eu te via, como ninguém mais parecia ver. Seus cabelos, suas manias, cheiros e o jeito como sentava no sofá, despreocupada curtindo o "ser você como só você podia fazer". Tudo isso me dizia a meses que você não era mais a mesma, que algo ali no canto da sala te incomodava e te impedia de ser o que você sempre amou ser e sabia ser. Você não estava mais ali, e eu sabia que te deixar era a melhor forma de te trazer de volta, e mesmo que assim não te tenha mais pra mim eu deixo de presente pra você a garota que você foi um dia, de pele rosada e olhos brilhantes que fazia o cabelo dançar com o vento enquanto andava na minha frente, de costas pro mundo e de frente pra mim. Eu te deixo ela... dizendo meu nome pela primeira vez. Dentro táxi olho nossa janela e espero guardá-la pra sempre na memória, espero que ela não me persiga como um pesadelo insistente me pedindo pra voltar aqui, mas esperando que ela seja a última foto que terei do que foi nosso um dia. Do que foi bom. Acabou assim, repentino como começou.

Notas finais
Espero que tenha chegado a vocês como saiu de mim. Me digam o que acharam ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!