Diga-me o que quer ouvir
1 Primavera
Já não me lembro mais a última vez que enxerguei as cores... o mundo em tons de preto e branco é tão monótono... nunca pensei que iria ser tão doloroso, é tão... tão... frio.
Até que enfim estou de férias, Saint Tree é um vilarejo calmo, os pássaros acordam tão cedo quanto o sol para o admirar, uma grama verde percorre toda a imensidão desse lugar, junto com ela existem diversos bosques e também vários jardins que se estendem até onde os olhos não podem alcançar mais, completamente diferente de Downtown City, lugar em que moro e estudo, uma cidade de pedras, onde o sol não consegue chegar às calçadas devido ao enorme tamanho dos arranha-céus, um lugar tão avançado no tempo que perdeu sua vida.
São 6:25 da manhã, o sol está nascendo, levanto rápido da cama, ainda descalço desço as escadas, já posso sentir o cheiro da terra molhada pois choveu bastante ontem a noite, ao chegar na sala ouço barulho de uma carruagem parando no chalé ao lado, apresso o passo, pensei que só eu conhecia a localização dessas cabanas.
Ao chegar na varanda da entrada vejo uma garota um pouco menor que eu, seus cabelos são de um tom claro... mel! seus olhos são tão pretos quanto uma noite de tempestade o que faz um contraste belo com sua pele pálida.
Fico observando descer de sua carruagem, não paro de admirar sua beleza.
E então... ela escorrega no gramado molhado e cai de bunda na lama, naquele momento não consegui segurar a risada, foi muito engraçado ver uma garota tão linda e formal caindo daquele jeito.
— Ei garoto, do que você está rindo? Nunca viu uma dama cair? Pois saiba que isso é muito natural. — Diz ela com um tom meio irritado e com vergonha, ainda se levantando.
— me desculpa, mas não pude segurar. — ainda tentando parar de rir da situação.
Ela olha em minha direção e então ri também, logo depois seu rosto volta a perder vida, ainda desorientada entra em seu chalé com pressa.
Volto para meu quarto ainda rindo, não vou esquecer essa cena por um bom tempo e provavelmente nem dela.
Depois desse abalo logo pela manhã, passo a tarde inteira dentro de casa, logo começo a escrever poesias até que noto o sol se pondo, essa é minha segunda parte preferida do dia, então desço depressa as escadas e vou direto para a plantação de girassol que fica em cima de uma pequena colina, lá tem a melhor vista do pôr do sol, e como se o destino tivesse traçado nossos caminhos, vejo ela novamente, a garota de mais cedo, Sra.Lama.
Lá estava ela de pé em meio a plantação, em sua mão um girassol, seu cabelo estava quase no tom dos céus, escarlate, um perfeito contraste com as flores amarelas, noto em seu olhar um brilho e em sua boca um singelo sorriso, é encantador, entretanto mesmo sua face demonstrando felicidade, lágrimas caem de seus olhos, fico lá admirando por um tempo e buscando sentido em sua lágrimas.
Quando me vê logo seca as lágrimas e em um piscar de olhos sua expressão muda.
— Ei seu pervertido o que está fazendo aí, uma dama não pode roubar alguns girassóis? — Diz ela sorrindo.
— Me desculpa, eu não quis parecer um maníaco, só estava passando e então a vi, está tudo bem? — Falo abaixando a cabeça e esquivando o olhar.
— Lá vem você se desculpando novamente, tudo bem seu idiota, já que está aí por que não para de me observar e vem me fazer companhia?
Ela ignora minha pergunta.
— claro, claro, se você não se incomoda. — gaguejando e balançando com a cabeça.
" Droga, quando me tornei tão mesquinho assim? Não lembro de me desculpar tanto com alguém, sério que estou gaguejando?"
Então nos sentamos em meio a plantação para observar o pôr do sol, porém devido as flores era bem difícil, poucos raios de luz avermelhados chegavam aos nossos olhos, seu rosto inclinado para cima não possuía nenhuma expressão e mesmo assim me acalmava, talvez por causa da situação anterior ficamos apenas sentados durante alguns minutos sem dizer uma única palavra, só conseguia ouvir seu coração acelerado, como se tivesse uma tempestade em seu interior.
Meu medo de perguntar novamente o motivo de suas lágrimas me causavam agonia, até que decido tomar uma atitude.
— Ei Sra.Lama, conheço um lindo bosque aqui perto, talvez possa te alegrar… gostaria de vê-lo comigo? — nesse momento meu coração acelera em um compasso junto ao dela, acho que talvez devido ao medo de negação.
— Sra.Lama? Então quer dizer que esse é o meu apelido... até que eu gostei Sr.Cabelo de tigela, vamos então, mas nada de ficar me olhando igual agora a pouca, tá? — Diz sorrindo
Seu rosto volta a ter expressões de felicidade, mas ainda assim posso notar sinais de triste em sua voz.
"...Como uma boneca de barro ela se moldava para ocasiões"
— Não tinha apelido pior? Tudo bem, então vamos, a propósito, me chamo Arthur e você?
— Arthur cabelo de tigela, quero conhecer logo esse tal bosque, se eu me divertir então te conto o meu nome. — Levantando-se e puxando minha mão.
Caminhamos até o bosque, as árvores eram tão altas que não dava para enxergar nenhuma estrela, em seu centro tinha um rio repleto de pedras e algas fluorescentes que iluminavam por completo o local, era um lugar encantador, parecia perdido no tempo onde a maldade do ser humano não conseguia alcançar, logo nos sentamos em uma pedra na beira do rio.
— E então Arthur cabelo de tigela, onde você estuda?
Faço uma rosto de irritado e logo depois dou um sorriso, por que não consigo ficar sério diante dela?.
— Estudo em Downtown City, no colégio Malfoy II, estou no 2° ano e você?
— Então você é mais novo que eu, que fofo, também estudo no Malfoy II e estou no 3° ano, mas acho que nunca te vi.
Realmente era impossível duas pessoas de anos diferentes se encontrarem naquela escola, era um labirinto gigante.
— Isso não é fofo, é bastante constrangedor. — Digo em tom bem baixo.
Ela apertava suas mãos trêmulas entre as pernas como se estivesse ansiosa, o silêncio voltava a nos assombrar, noto que caem pedacinhos de folha em seu cabelo e quando me aproximo para retirá-los, ela olha em minha direção, nossos rostos ficam muito próximo, posso sentir sua respiração, meu coração parece ficar mais lento, entra em uma dança junto ao dela, como se estivéssemos conectados, ela olha fixamente em meus olhos como se estivesse sentindo o mesmo que eu, então me assusto com a nossa proximidade, assim caindo no rio.
— Você ficou rindo tanto de mim hoje de manhã e olha você aí Arthur cabelo de tigela. — rindo muito, ao ponto de colocar as mãos na barriga e rolar no chão.
Subo novamente na margem do rio completamente encharcado e repleto de algas pelo corpo, ainda pensando no sentimento de outrora.
— A culpa foi sua, por que tinha que chegar tão próximo? Eu só estava tentando tirar os pedaços de folha do seu cabelo. — Falo em voz alta novamente gaguejando e rindo.
— Você é realmente muito bobo, mas já que essa era sua intenção, então talvez eu deixe você retirá-las, vem aqui. — Se levantando perto da margem, ainda rindo.
— Não fale assim como se eu fosse seu empregado, eu vou tirar, mas só porque essa era minha intenção desde o princípio. — Olhando para o lado, envergonhado.
Ao chegar próximo a ela, estendo minha mão em direção a sua cabeça para tirar os pequenos pedaços e então ela se aproxima me empurrando novamente no rio.
Com os olhos semi abertos, a vejo se se afastando.
— Não acredito, você caiu de novo Arthur cabelo de tigela, você é mesmo muito idiota. — Rindo muito alto e apontando para mim.
— Eu não cai, você que me empurrou dessa vez.
Sem entender muito o motivo daquilo e ainda com a vista um pouco embaçada, ouço sua voz um pouco longe.
— Sabe, Arthur, você é um grande idiota, mas me animou bastante essa noite, então acho que você merece. — Com os dedos juntos, como se estivesse ansiosa.
Naquele momento eu consegui ver pela primeira vez seu verdadeiro sorriso de felicidade.
"Como o arco-íris após a tempestade..."
Sua voz ainda mais longe, quase não dando para escutar.
— Elizabeth, esse é meu nome.
Antes que eu tivesse alguma reação ela some em meio ao bosque.
Tão... tão... frio, mas ainda assim consigo recordar seu nome… Elizabeth.
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