Diferentes idades
14 O que fazem vocês aqui?
Notas iniciais
Tentei mexer-me, mas não conseguia, tentei levantar-me, mas não consegui. Abri os olhos. Eu estava a ver-me numa cama de hospital, ligada a cinco máquinas, era desta que eu tinha morrido? Cheguei mais perto de mim (a eu que estava na cama), tentei mexer-me na cara, mas era como se eu fosse um fantasma, a minha mão desaparecia sempre que tocava em mim. Eu estava ali, deitada, sem fazer nada, até parecia morta e ao mesmo tempo estava em pé a olhar para mim mesma.
Saí do quarto de hospital e fui até à recessão. Algumas pessoas atravessaram-me, ou seja, ninguém me via, eu era mesmo um fantasma!
No balcão encontrei uma ficha com o meu nome: Clarissa Hernandez. Sim… o meu apelido é Hernandez. Tentei pegar na ficha, mas a minha mão atravessou a folha, também não conseguia agarrar as coisas. Não estava muito preocupada com isso, não agora.
Comecei a ler:
‘’ Estado: Coma’’; ‘’Grave: grande probabilidade de morrer’’; ‘’Médica Responsável: Tânia Silva’’
– Não estou morta! Mas estou quase? – Gritei.
Mas era indiferente eu gritar ou não ninguém me podia ouvir.
Tudo isto era de loucos! Eu só podia estar a sonhar. Não era possível estar em coma e a andar pelos corredores ao mesmo tempo! Mas porque estava em coma? Não me lembrava de nada, tentei fazê-lo, comecei a ficar tonta, caí no chão. Comecei a ver à minha frente um carro a chocar noutro, vidros a saltar, eu e Lucas estávamos num dos carros. Depois comecei a ouvir um ‘’piiiiiiii’’, continuo. Comecei a sentir alguém a tocar-me. Estaria a acordar? Ganhei forças e corri até ao meu quarto, Tânia estava lá e mais alguns médicos, todos à minha volta. Aproximei-me, eu estava a ter uma convulsão.
– Não! Acorda! Já chega! – Gritei, queria acordar!
As máquinas pararam de fazer ruídos, estavam agora estáveis, os médicos suspiraram de alívio. Tânia escreveu numa folha o sucedido, olhou para mim e uma lágrima escorreu pela sua cara.
– A escolha é tua. Podes ficar assim, ou podes acordar. — Ela sussurrou ao meu ouvido.
– E como acordo?! Explica-me! Tu sabes o que se passa? Isto já aconteceu com mais pessoas? — Gritei, mas não valeu de nada.
Os médicos saíram todos do quarto.
Lembrei-me da visão do acidente de carro. O Lucas!
Fui até à recessão de novo, encontrei uma ficha caída com o seu nome, estava no quarto 254, corri até lá.
O Lucas estava sentado na cama e Tânia estava a medir-lhe a tenção, estavam os dois a falar, Lucas estava bem! Estava vivo! Fiquei tão feliz! Abracei-o com força, mas ele não retribui-o… aí lembrei-me que eu era uma espécie de fantasma e ninguém me conseguia ver, ouvir ou sentir.
Olhei melhor para ele, não estava muito ferido, tinha alguns arranhões nos braços e um olho negro. Não estava muito mal, tendo em conta a gravidade do acidente… se é que a minha visão tinha mesmo acontecido.
Comecei a prestar atenção à conversa.
– Como é que ela está? — Lucas perguntou.
– Ela está numa situação diferente da tua, ela entrou em coma…
– Em coma?! — Ele arregalou os olhos e ficou de boca aberta.
– Sim… — Tânia baixou a cabeça.
– E eu só tenho uns arranhões?!
– Não é bem assim. Tiveste uma hemorragia interna, podias ter morrido.
– Mas não morri! Estou aqui vivinho da silva. E ela está… em coma…
– A gravidade das situações não tem só a ver com o que aconteceu. Não é por ter sido um acidente de carro, ou uma queda de bicicleta, uma pedra na cabeça, um tiro, que a gravidade é maior ou menor, tem a ver, principalmente com a zona em que acontece e com o impacto que tem.
– Posso vê-la? – Mudou de assunto.
Tânia sentou-se ao seu lado.
– Estás em observação, não te posso deixar sair do quarto.
– Por favor…
– Quando estiveres melhor.
– Fica combinado. — Ele disse quase como se fosse uma ordem.
Deram um abraço, o Lucas estava a apertá-la com muito força.
– Ela vai ficar melhor. — Ela disse baixinho.
Senti de novo alguém a tocar-me. Corri para o meu quarto.
– O que fazem vocês aqui!? — Gritei.
Fale com o autor