Diferentes idades
2 A pensar morreu um burro
Notas iniciais
Eu e a minha melhor amiga, Anna, estávamos a fazer uma vídeo chamada, ela vinha de viagem. Esteve em Espanha e estava a contar-me a experiência. Tudo o que ela dizia parecia incrível, principalmente a liberdade que tinha, pois os pais não foram com ela. A Anna desfrutou da experiência de viajar apenas com amigos. Por um lado eu queria muito ter ido, por outro nem pensar em ir. Ela é a minha melhor amiga, mas faz-me sentir muito insegura, ela é muito descontraída, muito calma, já teve alguns namorados, algumas “curtes”, e eu não sou muito assim, ela veste-se muito adulta, tem um gosto muito refinado. E fico tão nervosa a falar com ela, que dou muitos erros, o que me deixa irritada e ainda mais nervosa.
Eu estava a contar-lhe um filme que tinha visto, quando ela me interrompe e diz que vai só buscar comida. Ela desliga o skype e eu fico à espera, passaram dez minutos e eu já estava a ficar preocupada. Para me abstrair do tempo a passar comecei a jogar no meu telemóvel.
Recebi uma notificação do facebook, era um convite para um novo jogo, ‘’Vê se acertas”. Resolvi experimentar. O jogo era bastante engraçado, era um jogo entre duas pessoas. Eu tinha de fazer uma pergunta relacionada com a categoria que o meu adversário escolheu. As categorias eram: Filmes; Desporto; Famosos; História; Animais; Desenho e Profissões. Se o meu adversário respondesse corretamente continuava a jogar até errar, quando errasse era a minha vez e quem fazia as perguntas era o meu adversário. Ganhava o primeiro que acertasse quinze perguntas.
Fiquei viciada no jogo e já tinha passado meia hora desde que a Anna disse que ia comer, comecei a pensar que ela já não ia voltar. Mas mesmo que não me ligasse agora, iria ligar à manhã.
Estava prestes a desligar o meu telemóvel quando recebo uma notificação: ‘’Joga, joga’’. Era do meu novo jogo, descobri que tinha ‘’chat’’. A mensagem era de um rapaz, Danieldri, era um nome estranho, mas calculei que fosse apenas no jogo, fiquei com a impressão que deveria ter cerca de catorze anos, mas não tinha foto, por isso não tinha a certeza. Não achei que fizesse mal conhecer alguém novo.
Danieldri: Joga, joga!
Eu: Oi.
Danieldri: Oi. Tudo bem?
Eu: Sim e contigo?
Danieldri: Também está tudo bem.
Danieldri: Gosto bastante do jogo. E de jogar contigo, fazes perguntas difíceis.
Eu: Obrigada?
Danieldri: Sabes fiquei curioso com o teu nome, a minha ex-namorada também se chamava Clarissa.
Eu: Ex? Então não correu bem?
Danieldri: Amanhã falamos.
Achei estranho o facto de ele não usar abreviaturas, por momentos pensei que era mais novo que eu, talvez tivesse apenas 9 anos, então também não usei abreviaturas, com medo que ele não entendesse. O problema foi que em seguida, falou de uma ex-namorada e referiu que ficou curioso com o meu nome, geralmente as crianças não falam de ex-namoradas, nem metem conversa com um estranho. Talvez tivesse a minha idade e apenas não gostasse de abreviaturas.
Como já era tarde. Anna deveria ter adormecido. E eu iria fazer o mesmo que ela, dormir, e talvez pensar no rapaz do jogo.
(…)
Acordei e já era quase de tarde, eram onze horas. E Anna continuava sem dizer nada. Não sabia se havia de ficar preocupada, poderia ter acontecido alguma coisa, ou a minha melhor amiga podia estar simplesmente a ignorar-me, se fosse esse o caso, deveria ficar chateada.
Não tinha muito tempo para pensar no assunto. Tinha escola ao meio-dia, e ainda estava de pijama. Hoje a escola começava muito tarde, as aulas da manhã foram canceladas devido a uma greve de funcionários.
Fui até à casa de banho. Tomei um banho rápido. Vesti umas calças jeans e uma camisa preta. Calcei os mesmos ténis de sempre, um par de vans pretos. Enxuguei o cabelo com uma toalha. Lavei os dentes, mesmo sem tomar o pequeno almoço. Coloquei a mochila e corri porta fora, eram onze e quarenta e cinco, e a escola ainda ficava longe.
Não fiquei muito preocupada com o meu pai e o meu irmão, pois ambos estavam de folga e deveriam ficar a dormir até às duas da tarde.
Cheguei à escola mesmo em cima da hora, não era habitual. Eu costumava chegar sempre a horas, na verdade, primeiro que todos.
Entrei na sala de aula, sentei-me no meu lugar. Eu partilhava a carteira com o Robert, mas ele ainda não tinha chegado. Nem ele, nem a professora de História. Na verdade estavam apenas oito alunos na sala, quando a nossa turma era de vinte e três alunos.
Talvez o facto de me sentar ao lado de Robert em todas as aulas me influenciasse. Estar tão perto dele, tantas horas por dia, era uma grande tentação. Mas eu adorava estar ao seu lado. Ele é calmo, e muito sincero quando estamos nas aulas. Deve ser porque a única pessoa que o ouve sou eu. E apesar de ele ser muito misterioso, sei bem que confia em mim, e eu nele. Ele e Anna são as únicas pessoas que me conhecem de verdade.
(…)
Vinte minutos após o toque, estavam todos os alunos na sala, mas a professora continuava sem aparecer. Talvez não viesse. Talvez tivesse feito greve.
A delegada de turma, Rita, uma aluna muito simpática, talvez a melhor aluna da turma, levantou-se do seu lugar, chegou perto do quadro, virou-se para a turma e disse:
– Bem, parece que a professora gosta de greves. Vamos sair, mas não façam muito barulho perto das salas para não perturbarem as aulas e voltem no segundo tempo para verificar se a professora vai mesmo faltar. Podem sair.
Todos se levantaram e por mais estranho que fosse, todos ficaram em silêncio até abandonarem o bloco.
Ao sairmos, toquei no ombro de Robert. Ele virou-se rapidamente e ficou a olhar para mim à espera que eu falasse.
– Ainda não te cumprimentei hoje. Por isso… Oi.
– Oi. Então que vais fazer?
– Não sei. Que queres fazer?
– E quem te disse que ia passar o intervalo contigo?
– Bem… desculpa… eu pensei… — estava confusa com a reação dele, não percebi qual era o problema.
– Pois… a pensar morreu um burro. — Robert estava a ser muito estúpido, mas acabei por perceber o porquê. Atrás de mim estava o melhor amigo dele, Marcos, era um otário, andava com uma rapariga diferente todos os dias, dava-me nojo.
– Não te preocupes comigo. Por que eu não sou burra nenhuma. Se está aqui alguém com orelhas compridas, és tu e o teu amiguinho. Por isso não penses muito, a não ser que queiras morrer. — disse todas aquelas palavras rudemente, apesar de não acreditar em nenhuma delas, mas ele não tinha o direito de me tratar da forma como tratou. Olhei-o nos olhos como se estivesse a dizer a mais pura das verdades, e vi o quanto ele estava arrependido. Não quis saber.
Saí apressadamente dali, não queria falar com Robert, pelo menos, por agora. E a fome apertava, por isso dirigi-me ao bar dos alunos.
– Bom dia! — disse-me uma das funcionárias do bar.
– Bom dia. — cumprimentei a mulher sem ver quem era, estava a prestar atenção ao que iria comer.
– Bem, é assim que se fala para as pessoas? — a mulher perguntou-me aquilo com uma voz muito irónica.
– Que disse eu de mal, — levantei a cabeça e vi que não era uma funcionária qualquer, mas sim a minha tia, Marta, a única pessoa que me lembrava da parte da família da minha mãe -TIA?!
– Não sabia bem qual seria a tua reação. Olha como cresces-te. Estás tão linda. E eu tive tantas saudades tuas. — Marta estava muito emocionada, estava quase a chorar e eu também estava muito feliz por a ver.
– Oooh tia, tive tantas saudades. — cheguei-me perto da pequena porta que agora nos separava, coloquei a mão por cima — Posso entrar?
– Claro!
Empurrei a porta e dei um grande abraço à minha tia, já não a via à quase dois anos.
– Que queres lanchar? Eu pago.
– Aceito, um pão com fiambre e um leite com chocolate.
– Não devias estar nas aulas? – perguntou arqueando uma sobrancelha enquanto me entregava o lanche.
– A professora faltou. – no momento em que falei, uma grande multidão entrou no bar dos alunos, e a minha tia estava sozinha. – Deixo-te trabalhar, pois tens muito que fazer.
Eu tinha razão, toda aquela multidão se encostou à vitrine.
Eu tirei o meu telemóvel do bolso e comecei a jogar o meu novo jogo enquanto comia.
Recebi uma notificação.
Danieldri: Oi! Eu disse que falávamos hoje! Como estás?
Aquele rapaz outra vez.
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